quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Mulher é vaidosa, delicada, carinhosa e já nasce com aquele "instinto materno". Não é mesmo?


Você acredita nisso? Até mesmo no tal "instinto materno"? Bom, se você é desses que acredita mesmo nisso então também de alguma forma também deve acreditar que "lugar de mulher é na cozinha" e outras idiotices do gênero. Não? Pois ambas as idéias (delicadeza e submissão) não passam de variações sobre o mesmo tema: o machismo. Todos cumprimos um papel social, somos moldados desde a primeira hora como numa verdadeira fábrica de fazer gente e se essa fábrica é machista, nós, via de regra, vamos aprender e reproduzir o machismo. E é isso. Sim... existem hormônios diferentes entre homens e mulheres, mas isso não se aplica ao fato de meninas serem carinhosas, delicadas, "prendadas" e gostarem de cor-de-rosa, enquanto meninos são destemidos, "heróicos" e até mesmo meio brutos. Não se nasce desce jeito. Se aprende a ser assim.

Meus pais tem duas netas e sete netos. Os meninos desde pivetes ganharam carrinhos, bolas, super-heróis, foram estimulados a andar só de cuecas ("deixa ele a vontade"), a não precisar ir ao banheiro pra fazer xixi ("faz ali na árvore") e outras coisas de meninos. Já as meninas ganharam vestidinhos novos a cada semana, eram enfeitadas e pararicadas como bonecas ("tá linda ela"), aprenderam a embalar suas filhinhas de brinquedo desde cedo e foram estimuladas a beijar e a beijar muito. Seria de se estranhar se eles não tivessem aprendidos a ser meninos e meninas tal como a sociedade espera que eles sejam.

Mas não é só a família quem cumpre esse papel modelador. A escola também faz isso com meninos e meninas de várias famílias diferentes meio que igualando seus valores sobre a supervisão de professores que via de regra somente reproduzem os costumes sociais vigentes. E, é claro, a indústria de uma forma geral não poderia ficar de fora da construção do homem valente e da mulher sensível do futuro, não só modelando e reproduzindo os valores e costumes como também faturando muito com isso. A indústria da moda faz isso com várias roupinhas no tom da estação, os saltinhos, acessórios e cosméticos infantis. A indústria midiática também faz isso com os desenhos animados estilo "my little poney", "barbie" e todas as suas princesas, além das revistas, livrinhos, e outras quinquilharias. E a indústria de brinquedos faz isso como ninguém. Penso que o video da pequena Riley é o que de melhor já foi feito do ponto de vista da contestação a tudo isso.



Se isso não lhe ajuda a pensar diferente sobre a docilidade genética das meninas não haverá muito que se possa fazer para que você pense diferente. De toda forma deixo recomendado também o video das meninas Luna e Mell mostrando que garotas também podem ser guerreiras espartanas, nem que seja no video-game. :)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Polícia não pode fazer greve. Mas e daí?


No Brasil o direito de greve é constitucional. Está lá no art. 9º da Constituição Federal:

"É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender"

Também na constituição lá no seu parágrafo 5º pode-se ler "Ao militar são proibidas a sindicalização e a greve". Ou seja, todo trabalhador pode organizar-se e fazer greve, não podem bombeiros e PM's que atendem ao regime militar. Mas nem no Brasil, nem em lugar do mundo as leis valem alguma coisa só porque estão escritas. Fosse assim nunca que o salário mínimo nacional poderia ser R$ 622,00, a quarta parte prevista pela mesma Constituição Federal. E o que vale afinal? Vale a correlação de forças. Vale a boa e velha luta de classes, ora bolas!

Apesar do "direito constitucional" as greves na iniciativa privada são sempre muito difíceis de ser decretadas porque nas empresas sempre vale o poder do patrão pronto pra demitir quem for mais atrevido ou falador. Não existe "estado democrático de direito" que regule ou coíba as práticas ditatoriais nas empresas privadas. Vale o assédio e o medo permanente de perder o emprego. E quando mesmo assim a indignação vence todas as barreiras e ganhas as ruas, a justiça via de regra logo vota sua ilegalidade.

Nos serviços públicos a greve também é garantida desde que nunca seja posta em prática. Não importa se o salário esteja congelado a anos, que os direitos das categorias sejam desrespeitados, nem nada, os servidores sempre são "privilegiados preguiçosos e insensíveis". Se fazem greve "sempre quem sai perdendo é a população mais pobre carente dos serviços públicos". E se no fim das contas os trabalhadores dos serviços públicos vencem a intimidação geral e irrestrita e cruzam os braços, lá vem a justiça que mais uma vez via de regra vota a ilegalidade.

Por fim, militares e bombeiros não podem fazer greve nem sequer se sindicalizar. Isso seria insubordinação, motim. E isso é inadmissível. Não por causa da segurança da população. Nada disso. A segurança pública não é, nem nunca foi a preocupação dos donos do Estado. Imagine você se cabos e soldados com acesso às armas que mantém a ordem descobrem o poder da greve. Isso não se pode admitir. Mas eis que a vida é bem mais cheia de cores do que as tintas podem escrever no papel. Os policiais militares e bombeiros do Ceará aprenderam e ensinaram isso a todo o Brasil nos últimos cinco dias. O desfecho da greve ainda não é definitivo mas pelo que tudo indica caminha para uma vitória dos insubordinados o que impõe uma derrota histórica ao todo poderoso governador Cid Ferreira Gomes. Que assim seja.

(*) Atualização às 08:13 do dia 04/01: A greve foi encerrada nesta madrugada com a vitória do movimento paredista. O governo Cid foi ferido de morte. Ele deixará isso barato? Acho muito difícil.

Ano novo, salário novo e desejo de consumo renovado


A partir de 01/01 o novo mínimo vigorando em todo o território nacional passou a ser de R$ 622,00. A imprensa e o varejo de uma forma geral celebram a distribuição de renda. Não é pra menos, afinal são R$ 64 BILHÕES de reais nas mãos de trabalhadores assalariados ávidos por consumir celulares, câmeras digitais, notebooks, tablets, televisores de LED ou LCD das mas variadas dimensões além de tantos outros produtos apresentados como indispensáveis. E à farra do varejo unem-se bancos e administradoras de cartão de crédito celebrando o espetáculo do endividamento.

Mas que mal há em se consumir aquilo que se deseja? Será que só a classe média pode andar de carro enquanto o trabalhador e sua família tem que sofrer o pão que o tinhoso amassou dentro dos ônibus lotados por todo o país? Não! Nada disso! É justo, mais do que justo, justíssimo que os trabalhadores que tudo produzem tenham acesso ao conforto e a modernidade. O que questiono aqui é a forma como as tais "necessidades" são construídas. Os desejos e as vontades pelo supérfluo são alimentados dia após dia na cabeça de milhares de pessoas transformadas em meros "consumidores" como se pequenos diabinhos com cara de Ciro Bottini lhe gritasse ao pé do ouvido: Compre, compre compre! E os consumidores simplesmente consomem. Como já disse antes, o salário mínimo precisaria ser quatro vezes maior para que uma família de quatro pessoas tivesse acesso digno à alimentação, saúde, transporte, moradia, lazer... e mesmo sendo a quarta parte do que precisaria ser é em boa parte direcionado às fornalhas do consumo sem sentido.

O que escrevo aqui não tem nada de papo-cabeça ou filosofia de mesa de bar. A grande maioria das pessoas conhece alguma história inusitada sobre essa sede desenfreada de consumo. Um amigo me contou uma hoje que achei fantástica. Seu vizinho todo orgulhoso comprou uma TV de 52 polegadas com prestações a perder de vista. A aquisição foi grandiosa, uma verdadeira beleza. Quase não coube na parede da sala de tão grande. Mas no fim das contas estava lá instalada e pronta para ser desfrutada pela familia. O problema? Quando sentaram no sofá para apreciar o primeiro programa perceberam que como a distância entre a parede e o sofá era pequena a imagem mal cabia nos olhos. Fico imaginando só a cena da família afastando a cabeça para trás procurando o ângulo para ter a dimensão completa do que apresentava a TV. Mas isso não podia ficar assim e a solução rapidamente foi dada. A parede que separava o quarto do filho da sala foi ao chão e uma nova foi erguida com o garoto agora em um quarto que mal lhe cabe a cama. Problema resolvido.

Seria cômico.... se não fosse trágico.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gaza pelos olhos de crianças

Gaza em quinze desenhos feitos por crianças de Gaza. As figuras fazem parte de uma exposição organizada pela "Aliança do Oriente Médio pela Infância" e que deveriam ter sido apresentadas em Oakland, nos Estados Unidos, no final deste ano. Deveriam, mas a exposição foi estranhamente cancelada. Por que será?
















Imagens obtidas do portal PalestinaLibre.org

2012 vem aí. Que a primavera continue... (charge by @carloslatuff)

Carlos Latuff

domingo, 25 de dezembro de 2011

Vereador @joaoalfredodopsol, o III congresso do PSOL e os caminhos da esquerda socialista

Não sou do PSOL nem eleitor do vereador João Alfredo mas quero deixar registrado meus parabéns pela intervenção feita por ele no III Congresso do seu partido que está publicada no YouTube. Devo admitir que acho absolutamente nonsense o discurso do "Ecosocialismo" mas para um "ecosocialista" coerente não há outro caminho sensato que não o de defender a independência de classe. João Alfredo fez isso ao lado de Camila Valadão que defendeu a sempre essencial e inadiável luta contra o machismo. Então antes de mais nada, parabéns João.



Mas para além dos desacordos com o discurso do ecosocialismo ou dos acordos com a independência de classes é preciso saber ouvir as palavras do vereador e enxergar por trás delas o debate profundo que carregam. O que está registrado no video é o debate de para onde tem ido a esquerda brasileira, em especial aquela que ao menos se diz revolucionária e socialista.

Partidos voltados para garantir vitórias eleitorais, sejam elas de parlamentares ou de diretorias de sindicatos, correm permanentemente sobre o fio da navalha de serem soterrados pelo sistema, seja de forma intencional ou "inocente". E o caminho da esquerda brasileira tem sido tragicamente este, o de ser engolidos pela "democracia" e seus limites, deixando o debate da estratégia socialista e suas ferramentas necessárias para "depois do carnaval".

Para quem não sabe, lá pelos idos de 2003, setores da esquerda do PT foram expulsos por terem sido contra a reforma da previdência do governo Lula. Naquele momento uma oportunidade se abriu para unir os setores de esquerda em uma organização capaz de enfrentar com a força necessária, ou pelo menos um pouco maior, o governo de Frente Popular de Lula, explicando pacientemente ao povo pobre e trabalhador que o ex-metalúrgico governava e seguiria governando para os ricos. Optou-se por um novo partido, o PSOL, com ex-militantes da esquerda do PT e ex-militantes do PSTU que uniram-se em torno da candidatura de Heloisa Helena. Praticamente se reeditou a tese do "Feliz 1994", quando o PT deixou Itamar governar de olho nas eleições. E infelizmente a possibilidade do debate estratégico foi jogada muito para frente.

Em 2006 outra oportunidade se abriu forçada pelo calendário eleitoral e a aliança eleitoral entre partidos como PSOL, PSTU e PCB ao redor de Heloisa Helena foi forjada. Mas ao invés de permitir que o debate estratégico sobre o socialismo fosse feito com a profundidade, a franqueza e a dureza necessárias, a aliança mostrou-se mais como eleitoreira que eleitoral. Lula venceu, muito pouco se elegeu, nada ou quase nada se fortaleceu nas posições de esquerda e cada um seguiu seu caminho sem nem sequer fazer o esforço necessário para se discutir o passado recente, muito menos o futuro que já se mostrava presente. Honestamete, teria sido muito melhor que tivessem marchado sozinhos afirmando suas identidades e programas.

Em 2010 uma terceira vaga se abriu. Primeiro pela possibilidade do chamado Congresso da Classe Trabalhadora e em seguida pelo debate eleitoral. Foi desperdiçada mais uma e outra vez. E enquanto cada um apontava para a trave no olho do outro, Lula concluiu seu mandato como o grande salvador da pátria e entregou a faixa presidencial à Dilma para que seguisse seu legado de governar para os ricos.

Agora, a crise econômica está aí se espalha com toda sua força mundo afora e podem ter certeza que chegará ao Brasil. As novas reformas neoliberais virão, assim como já estão aí Belo Monte; o assassinato de lideranças camponesas e indígenas; a precarização do trabalho com cara de modernidade e o achatamento salarial com todo jeitão de melhoria de vida. Enquanto isso, mais um partido direitoso de pseudo-esquerda começa a nascer e a classe trabalhadora brasileira segue carente de uma alternativa revolucionária e socialista à altura dos seus desafios e capaz de entender e empalmar seus anseios, os transformando em um programa capaz de envolver mentes e corações.

Que pena!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Mais R$ 2,50 por dia garantido aos assalariados. Uaauuuu!


Dois mil e doze se aproxima e com ele o novo salário mínimo brasileiro também. E a imprensa é claro faz todo coro com a grande rede varejista sedenta por mais e mais prestações da classe trabalhadora alardeando o incremento no poder de consumo dos assalariados. São 14,13% de aumento. U-aauuuu!!!!

Catorze porcento com certeza não é um valor qualquer. Quantas categorias não vão a luta para conseguir algo um pouco maior que a inflação? Oito, nove, dez por cento é sempre celebrado como grande vitória. E 14 então? Que maravilha hein?

Bem... como já dissemos antes 14 % em cima de muito pouco é quase nada. Ainda mais quando comparado ao que está "na lei". Segundo o DIEESE o mínimo deveria em novembro de 2011 ser de R$ 2.349,26. E isso pra ser MÍNIMO. Enquanto isso o povo todo celebra e comemora os R$ 622,00 ou R$ 77,00 acima dos atuais R$ 545,00. Agora faça as contas: 77 dividido por 30 dá aproximadamente R$ 2,50  a mais por dia. E aí? Tá muito bão não tá não? Já dá pra pagar a passagem do ônibus que você tanto reclamava. Tá bom que é só a de ida mas isso é só um mero detalhe. Não é mesmo?

Eu sou a voz revolucionária (*)

Eu sou a voz revolucionária
Eu sou o naufrágio do desespero
Eu sou o momento da luta
Eu sou a decisão de revolta
Eu sou o desejo de se rebelar
Eu sou a energia da multidão
Eu sou a esperança nos olhos das crianças
Eu sou a força de vontade para destruir a opressão
Eu sou a derradeira fuga da depressão

(*) Tradução de I Am the Revolutionary Voice do Coletivo de Artistas Poetas.

E eis o espírito do Natal (by Banksy)

Banksy

A conclusão de Pedro


Pedro é vigilante no Hospital de Messejana já faz dois anos. De tanto entra e sai de pessoas com problemas cardíacos e pulmonares virou quase um especialista em males do coração e do pulmão. No mínimo, um especialista em contar histórias e em tranquilizar os que com ele conversam: "A gente vê tanta coisa que acaba se acostumando até mesmo com a morte. Tem gente que quando chega aqui fica abalado quando vê uma pessoa sair morta. Quem trabalha aqui não se abala mais não". Entre tantas histórias, a que conta com mais propriedade é obviamente a sua própria.

Muito antes de ser vigilante, Pedro foi operário da Fábrica Fortaleza. Aos vinte e cinco anos era acostumado a carregar sacos de açúcar de 50, 60 quilos nos ombros. Um belo dia ao pegar mais um desses sacos sentiu uma dor terrível logo abaixo das costelas. Somada a essa dor repentina veio logo em seguida o sangue ao tentar urinar. Encaminhado ao hospital, o clínico geral passou a vista em seu exame de sangue, deu uma pancada na região da dor e logo em seguida acusou: "vamos ter que operar". Pra felicidade de Pedro, sua irmã não permitiu. Foram a um médico particular que após uma bateria de exames diagnosticou pedras nos rins. Por pouco, Pedro não entrou na faca e quem sabe até não teve a bexiga substituída por um saco coletor de urina. Apesar do respeito pelos médicos do Hospital onde trabalha, Pedro não pensa duas vezes ao explicar o que aconteceu: "ele só queria comer o dinheiro da cirurgia".

Não necessariamente a conclusão de Pedro está correta mas no fundo, errada, errada, não está. As pessoas se movem por dinheiro e não há juramento de hipócrates que resista ao cotidiano violento dos trabalhadores da saúde em uma sociedade regida pelo capital. Não há saída "humanizadora" que dê jeito enquanto a saúde seguir sendo tratada como mercadoria. E no capitalismo tudo, absolutamente tudo, é mercadoria.