quarta-feira, 27 de março de 2013

O dia em que uma jovem apache impediu a premiação da máfia


Noite de 27 de março de 1973. Marlon Brando é indicado ao oscar de melhor ator em O Poderoso Chefão, mas ao invés dele, uma jovem de 26 anos trajando roupas tradicionais indígenas é quem se dirige ao palco. Meio sem jeito Roger Moore lhe oferece a estatueta para ficar ainda mais desconcertado com sua recusa. A mulher apresentada como Sacheen Littlefeather (Sachen Pena Pequena) tinha em suas mãos uma carta de Marlon Brando esclarecendo sua ausência e recusa ao prêmio, que não pôde ser lida em função da ameaça da indígena sair do local algemada. Em seu lugar, Pena Pequena fez a seguinte declaração:
Olá. Meu nome é Sasheen Littlefeather. Eu sou Apache e eu sou presidenta do Comitê Nacional de Imagens Afirmativas dos Nativos Americanos.

Estou representando Marlon Brando esta noite e ele pediu-me para lhes falar em um  discurso muito longo, que não poderei compartilhar com vocês hoje, por causa do tempo, mas ficarei feliz em compartilhar com a imprensa depois, que ele com muito pesar não pode aceitar este prêmio muito generoso.

E a razão para isto é o tratamento dado aos índios americanos hoje pela indústria cinematográfica - desculpe-me - e na televisão, em filmes regravados, e também com os acontecimentos recentes em Wounded Knee.

Rogo para que neste momento não seja vista como uma intrusa nesta noite, e que no futuro, nossos corações e os nossos entendimentos possam se reunir com amor e generosidade.

Obrigado em nome de Marlon Brando.
O discurso que Brando havia preparado era obviamente muito maior. Foi substituído por uma declaração que não poderia superar em hipótese alguma o tempo de 1 minuto. Em determinado momento a ativista calou-se, sendo vaiada por uns poucos e aplaudida por outros. O episódio foi reproduzido na grande imprensa obviamente de forma muito negativa. Em pouco tempo veio a notícia de que Sacheen não era Sachhen, que era na verdade Marie e que não era indigena coisa alguma e sim uma atriz contratada por Marlon Brando.

Marie Louise Cruz, esse era o nome da mulher, pelo menos seu nome de batismo. E sim, ela era uma atriz que em 1973 participou de seu primeiro filme, o Conselheiro do Crime (Il Consigliori). Mas da mesma forma ela também era Pena Pequena e uma ativista do movimento indígena, e agora havia protagonizado o primeiro ato de protesto político da história do Oscar, colocando a revolta de Wounded Knee no centro das atenções de toda a imprensa, quando aquilo que mais queria o governo Nixxon era exatamente mantê-lo bem escondido. Naquela mesma noite centenas de indígenas que ocupavam o pequeno distrito de Dakota do Sul exigindo respeito ao direito de viver em suas terras estavam cercados por agentes do FBI armados até os dentes. O cerco durou 71 dias, com um saldo de 2 mortes e mais de 500 presos e feridos, encerrando-se com mais uma rendição por parte dos povos indígenas e mais um acordo não cumprido por parte do governo federal dos EUA.

Passados quarenta anos, hoje, outro governo federal está disposto a enfrentar povos indígenas para explorar as terras onde eles nasceram. Mas ao invés de Wounded Knee e Richard Nixxon, o lugar é Belo Monte, e a presidenta que está disposta a massacrar direitos e vidas dos indígenas é a petista Dilma Roussef. Ao que tudo indica a história se repetirá como uma imensa tragédia, sem o glamour do protesto de um Marlon Brando, mas com tanta coragem quanto, ou quem sabe ainda mais do que a que protagonizou a jovem apache que impediu a premiação da máfia.

Abaixo o video com o momento em que o Oscar não foi entregue:

terça-feira, 26 de março de 2013

O beijo gay de Wolverine e o décimo terceiro trabalho de Hércules


Fez um mês hoje, dia 26 de março, o estardalhaço que corre o mundo nerd com o beijaço com direito a pegada de perna entre o mutante mais macho dos quadrinhos, o baixinho Wolverine, e o semi-deus Hércules. Pois é, depois de comprar a briga com os homofóbicos de plantão ao anunciar em maio do ano passado o primeiro grande casamento gay do mundo Marvel, a editora resolveu ir além na defesa da bandeira LGBT e tirou o canadense de garras de adamantium do armário, e como era de se esperar deu a louca no macharal nerd mundo afora. Não acredita? Saca só o xilique do Cauê Moura no seu programa no Youtube, o giro de quinta, do começo do mês.
O cara ficou tão atacado que não conseguiu distinguir o semi-deus romano Hércules do deus nórdico Thor. Aliás nem importava. O Wolverine já não podia ser o super-cara dos sonhos dele e de tantos outros mascu-nerds. Foi mal Cauê, mas que desespero todo é esse, meu?

É claro que qualquer um que tenha acompanhado a construção da figura do Wolverine sabe que não encaixa na história do cara uma relação homoafetiva. E como a Marvel resolveu isso? Com um mundo alternativo que é algo muito comum no mundo dos quadrinhos: o chamado multiverso. Ou seja, Em uma realidade paralela o personagem correspondente ao Wolverine, no caso James Howlett, é gay. Simples assim. No fim das contas, qual o problema? 

Quanto ao Hércules não era nem preciso dizer absolutamente nada, mas com tanta crise nervosa de pseudo seguidores de quadrinhos por aí, é bom dizer que tanto em Roma como na Grécia antiga a relação homofoafetiva era absolultamente comum e obviamente isso foi representado nos mitos religiosos de então. O próprio Hércules teve pelo menos três eromenos (amantes adolescentes): Abdero, Hilas e Lolau

Mas voltando à pergunta de qual o problema, eu respondo: HOMOFOBIA. Como sempre ninguém se permite admitir, mas é exatemente isso. Ora, não faltam versões alternativas do Wolverine no mundo Marvel.
Até versão Zumbi tem. Não haveria problema se fosse uma versão feminina do Wolverine tascando um beijo em outra mulher. Estaria tudo tranquilo se Wolverine fosse transformado no vilão mais canalha das histórias em quadrinhos. Nem mesmo se o cara se transformasse em ser humano comum dos mais medrosos isso teria grande repercussão. Mas um Wolverine gay, mesmo sendo em uma realidade alternativa é um afronta à simbologia masculina. Então até por isso, mais uma vez, meus parabéns Marvel Comics. 

Honestamente não importa se o interesse da editora era simplesemente chamar a atenção e assim vender mais. A atitude em si de confrontar os preconceitos é digna de respeito. Diante de tanta repercussão, os 12 trabalhos de Hércules foram fichinha, comparado a este décimo terceiro, que é o de combater a homofobia de alguns pseudo aficcionados. 

Se você gosta de quadrinhos e ficou curioso com a série, o X-men blog e o Coringa Files disponibilizaram as dez primeiras edições do título X-Treme X-Men já traduzidas (vai precisar de um leitor de cbr). Na série você verá a mutante Cristal liderando uma equipe composta centralmente por uma cabeça voadora do Charles Xavier, o James Howlett e uma versão adolescente do Noturno. No decorrer da série serão apresentadas versões que vão desde um Ciclope negro a um Namor japonês e um Charles Xavier nazista. Bom proveito.

sábado, 23 de março de 2013

Francisco irá reformar a igreja? Tá! Mas quer saber? Não há demão de tinta que dê jeito.


Muito se falou sobre o novo sumo pontífice da igreja católica, o argentino Bergoglio, agora papa Francisco. E muita besteira se falou. Uma grande partes delas, brincadeiras bobas sobre a nacionalidade do homem. Mas as mais irritantes são aquelas que dão a entender que o novo herói católico, com sua simplicidade e amor aos pobres, salvará a igreja de si mesma. Santa idiotice.

Não entro nem no mérito da boa vontade do argentino em combater a pedofilia, coisa que nenhum papa até agora fez, nem mesmo João Paulo II ou Bento XVI. Então digamos que sim, que Bergoglio iniciará um enfrentamento verdadeiro no espírito de não transferir de uma paróquia a outra, mas de expulsar mesmo da igreja e entregar à justiça os padres, frades, bispos e cardeais criminosos. Se isso acontecer estaremos diante de um dos maiores expurgos já vistos em uma organização religiosa e isso por si só seria uma benfeitoria sem tamanho ao mundo.

Digamos ainda que Francisco, como homem simples que é, decida simplesmente não morar nos palácios suntuosos da capital mundial do catolicismo, bagunçando mesmo sem querer a máquina oficial, que segundo dados oficiais do próprio Vaticano, emprega 4862 pessoas, arrecada 1,1 bilhões de reais por ano e gasta 1,05 bilhões de reais (os números referente ao ano de 2010). E se for adiante e resolver bater de frente como os homens do dinheiro de sua igreja, coisa que por muito menos teria levado à morte em 1978 o italiano Albino Luciani, o João Paulo I, 33 dias após sua escolha como papa. Se for audacioso o suficiente e duro na queda o suficiente, ao ponto de tornar pública as tenebrosas relações financeiras do grande banco católico, os desdobramentos do ponto de vista da tranquilidade dos capitalistas seriam desastrosas... pelo menos para alguns capitalistas e por outro lado, uma benção para todos nós, os explorados de todo o planeta.

Bem... nem o expurgo dos pedófilos, nem a guerra santa contra os santos homens de negócio parecem hipóteses muito prováveis para o papado recém iniciado do argentino. Mas façamos um esforço para crer que dê uma louca no papa e o homem abrace o mundo das improbabilidades levando adiante uma muito bem-vinda lavandeira apostólica romana, ainda assim não estaríamos diante de uma mudança significativa capaz de "modernizar" a igreja tornando-a, como se diz, "mais humana".

Coisas como o fim do celibato, a ordenação de mulheres, a aceitação do divórcio, o uso de preservativo e de anticopecional, o aborto mesmo que em caso de estupro ou risco de morte para a mãe, o respeito à orientação sexual das pessoas e seu direito a uma união estável perante o Estado, entre outros, não estão em hipótese alguma em discussão com Francisco à frente do catolicismo. Algumas dessas santas intolerâncias, como o celibato, foram cunhadas no decorrer da construção do catolicismo ainda nos anos feudais e nada deixa a crer que isso possa ser revisto na era do capital e assim abrir o debate sobre herança e previdência das famílias dos clérigos. Mas outras, são a base da própria doutrina judaico-cristã que é misógina e homofóbica até a medula. Não faltam passagens no tal livro sagrado, do velho ao novo testamento, que alimentam desavergonhadamente a cultura machista.

Lá nas tais escrituras "sagradas" estão coisas como:
"Vós, mulheres sujeitai-vos a vosso marido, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seu marido.” (Ef 5:22-24)
"A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão." (1Tm 2:11-14)
"Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas ao vosso próprio marido, para que também, se algum não obedece à palavra, pelo procedimento de sua mulher seja ganho sem palavra (...)" (Pe 3:1)
"O homem não deve cobrir a cabeça, porque ele é a imagem e o reflexo de Deus, a mulher, no entanto, é o reflexo do homem. Porque o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem. Nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem." (1Co 11:7-9)
"Que as mulheres fiquem caladas nas assembléias, como se faz em todas as igrejas dos cristãos, pois não lhes é permitido tomar a palavra. Devem ficar submissas, como diz também a lei. Se desejam instruir-se sobre algum ponto, perguntem aos maridos em casa; não é conveniente que a mulher fale nas assembléias." (1Co 14:34-35)
"Mulheres, sejam submissas a seus maridos, pois assim convém a mulheres cristãs." (Cl 3:18)
E para completar a cereja do bolo que tal essa belíssima orientação de como os devotos do deus de Abrãao devem tratar estupradores e suas vítimas:
"Se uma mulher for estuprada na cidade, e não gritar alto suficiente, ela deve ser apedrejada até à morte (Dt 22:23-24). Caso seja no campo, então ela vive (Dt 22:25). Enfim, se o estuprador for apanhado, ele deverá pagar uma quantia ao pai e casar com a estuprada." (Dt 22:28-29).
Então me perdoem meus amigos cristãos e católicos fervorosos ou não praticantes. A não ser que o tal Franscisco convoque a todos a queimar em praça pública suas bíblias, não serão quaisquer reformas que darão um novo ar à sua igreja.

Concluo este com dois videos que recomendo muito. O primeiro é o comentário de Luis Carlos Prates do último dia 14 de março sobre a necessidade de modernização da igreja e o segundo é do comediante Márcio Américo na figura do pastor Adélio falando sobre a Biblia. Bom proveito!


terça-feira, 19 de março de 2013

Elogio do revolucionário (poema de Bertold Brecht)



Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.

Interroga a propriedade.
de onde vens?
Pergunta cada idéia:
Serves a quem?

Ali onde todos calam, ele fala.
E onde reina a opressão e se acusa o destino
ele cita nomes.

À mesa onde ele senta
se senta a insatisfação
a comida sabe mal e a sala se torna estreita.

Aonde vai há revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.

Habla Che: "No soy un libertador" (#frase de Che Guevara)


via @kolontai1959

terça-feira, 12 de março de 2013

Viu essa? Mc Marechal vai ao BBB cantar rap criticando BBB. É mole?

O rapper Mc Marechal participou de um dos shows particulares para os integrantes do BBB da Globo e mandou um trecho de seu "Vamos voltar à realidade" criticando, olhem só, a televisão e o próprio BBB. Mas que pegadinha em Pedro Bial? No rap cantado como uma incursão em "Sossego" de Tim Maia, intrepretada no caso por Marquinho, OSócio. Na letra Mc Marechal dispara:

TV testa fidelidade, investe em falsa liberdade, te congela e fecha a imagem 
Traz mensagem distorcida das festas e futilidade 
Mas jamais vão expor quem chora, atrás dos restos de maquiagem, neguinho 
Despertador, Big-Brother, 9,8,4!

A cena com a crítica não foi ao ar na versão aberta do programa que ao editar simplesmente eliminou a saia justa, mas o vídeo está aí pra quem quiser ver:. O video com a participação inusitada até esteve disponível por um período no VideoLog mas já não está mais(*).


Pontaço para Mc Marechal que mandou muito bem o que chamamos de "ação de guerrilha". A versão ficou obviamente muito rápida e pouco inteligível aos desapercebidos mas é possível apreciar a música em seu ritmo original na apresentação do rapper no programa Manos e Minas que foi ao ar lá pelos idos de 2011, por exemplo. Seguem letra e música:



Hoje o café da cabeceira esfria, igual suas emoções
Janela aberta, nem senti! O tempo ruim, sem previsões
Nada de paz! Seus sonhos estão mortos nos lençois
Sem voz, sem ação, suas razões esperançosas dormem a sós: Pim Plim!
TV testa fidelidade, investe em falsa liberdade, te congela entre as imagens
Traz mensagem distorcida das festas e futilidade
Mas jamais vão expor quem chora, atrás dos restos de maquiagem, neguinho
Despertador, Big-Brother, não agüento o quatro!
Sua tranca, seu quarto, seu tempo sentado, seu trago
Seu trampo, sentado, se seguindo, sem ver sentido
Sem teto, seu estado, no estúdio e não avista a intenção do inimigo
Papai Noel veste vermelho e te traz coca
Te lacra na embalagem no escuro e cê nem se toca
Não tem como sair mais já nem nota
Que o mundo é de plástico e tem quem finge não enxergar o que nos sufoca...

Vamos voltar a realidade...

Eles querem nos forçar a amar o que nos não podemos ter
E fazer tu se apaixonar pelo o que não é você
Tu acha que portar Nike é vencer? Chega o momento em que
Tu encara o espelho e não consegue mais se ver
Cadê tua alma? cadê tua fé, guerreiro?
Cadê teus princípios? Teu sentimento verdadeiro?
Cadê a mulher? Cadê o amor? Cadê? Qual foi? Cadê os parcero?
Vagabundo ta topando tudo por dinheiro...
Na ilusão de ser feliz, neguinho aceita os que eles disserem...
É o que o diabo quis, e o anjo protetor já não interfere
Abdicaram da raiz, vários irmão se matam em série
Eles alegam: "Nós só tamo dando ao povo o que eles querem"
Cada vez que o ego inflar, tu se sentir o fodão,
Não esquece que o poder não tem haver com sensação
Eles estudam o teu sentimento, exploram tua emoção
Se eles sabem o que tu sente pode prever sua reação...

Vamos voltar à realidade...

(*) Editado em 16 de março trocando o video que foi removido do VideoLog por uma imagem. Pelo jeito a Globo não quer nem vestígio da crítica do Marechal. :)

sábado, 2 de março de 2013

Nós, nós não temos heróis (#Poesia de cearense Francisco Carvalho na voz de Abujamra)



NÓS, NÓS NÃO TEMOS HERÓIS.
NEM JAMAIS OS TIVEMOS.
AFINAL, PARA QUE SERVEM OS HERÓIS
E SUAS ESTÁTUAS DE GRANITO OU MÁRMORE NEGRO,
SEUS CAVALOS DE BRONZE,
SUAS MEDALHAS BARROCAS
E AS ESPADAS QUE NÃO PASSAM DE METÁFORAS?
PARA QUE SERVEM OS HERÓIS
SE O ÁCIDO DA CHUVA
DESDENHA DA GLÓRIA DOS HOMENS
E NEM OS PÁSSAROS SE IMPORTAM COM ELES?
PARA QUE SERVEM OS HERÓIS
SE NEM SABE QUEM SOMOS
NEM JAMAIS OUVIRAM FALAR
DOS NOSSOS MITOS E UTOPIAS?
INFELIZ DO PAÍS QUE NECESSITA DE HERÓIS.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Alguns comentários sobre a entrevista de Marília Coutinho e a resposta do PSTU

Marília Coutinho, irmã do cartunista Laerte Coutinho, é atleta de powerlifting. Lutou durante anos contra um disturbio mental que a fez tentar inclusive o suicidio. Antes disso foi militante política do Partidão (1978) e da Convergência Socialsta (1979 a 1981), também conhecida como CS e que em 1994 dissolveu-se para dar origem ao PSTU, seçao brasileira da Liga Internacional dos Trabalhadores.

Recentemente o nome de Marília voltou às rodas da militância, inclusive à página do PSTU, em função de declarações dadas por ela à revista Trip em 2011 e à folha de São Paulo no último dia 25 de fevereiro. Nessas declarações a atleta afirma e reafirma: "Fui estuprada na CS".

Entendendo o caso

1. Marília ingressou na CS com 15/16 anos e mal entrou teve suas primeiras experiências sexuais com membros da direção, tal como ela relata na entrevista à Folha:

Suas primeiras experiências sexuais aconteceram com líderes partidários das duas organizações. "Sexo fazia parte da política", diz. "Eu estava despertando para a sexualidade e, de repente, tinha que transar para fazer parte do grupo", conta.

2. No mesmo ano que ingressou na CS e ainda com 15/16 anos foi estuprada em uma festa por um militante. Não sabemos se o militante é o mesmo lider partidário falado anteriormente, mas é um militante tal como confirma o texto de resposta dos militantes da época e que ainda estão no PSTU:

"quando desacordada numa festa foi estuprada por outro jovem militante da época".

3. O caso foi investigado, o militante foi punido e este acabou por se afastar por conta própria. Textualmente:

"o militante em questão foi punido e retirou-se da militância".

4. Em 1981, com 18/19 anos, Marília se afasta da organização psicologicamente destruída ao ponto de ter tentado o suicídio como reitera a entrevista.

"Marilia saiu da militância em 1981 e, no mesmo ano, recebeu o diagnóstico de psicose maníaco-depressiva".

5. Em 2011 em uma entrevista à Trip, Marília contou sobre sua superação e falou sobre a agressão que sofreu. O PSTU não repondeu mas 9 militantes da época postaram o seguinte comentário no artigo da Trip:

Lendo a entrevista de Marília Coutinho achamos necessário vir a público pois, como ela, fomos jovens e adolescentes que ao final da década de 1970 e início dos oitenta participamos do movimento estudantil contra a ditadura e militamos na mesma organização, na época a Convergência Socialista e sua seção de juventude, o Alicerce.

Antes de tudo, ficamos entristecidos com a difícil crise psicológica que Marília superou recentemente, mas vemos sua dedicação ao esporte como um sinal de que ela se encontra bem melhor.

Também nos solidarizamos com a lembrança de um triste e revoltante episódio ocorrido com ela, quando desacordada numa festa foi abusada sexualmente por outro jovem militante da época. Ela denunciou o fato na época, o caso foi para julgamento numa comissão interna da organização e o militante em questão foi punido e retirou-se da militância. Essa reação do partido em defesa de Marília ocorreu porque, ao contrário do que ela escreveu, não existia uma cumplicidade com este tipo de atitude, mas mecanismos de defesa moral dela e do partido.

A cultura machista reinava então como até hoje e sempre nos dedicamos a lutar contra ela, defendendo os movimentos e as causas feministas, dos direitos homossexuais e de todos os setores oprimidos e por isso participamos, desde a década de 70, na luta por essas questões que são parte do programa emancipatório do socialismo.

Por isso, ficamos chocados com a afirmação de Marília na entrevista, quando diz que "as militantes de base eram obrigadas a fazer sexo com os líderes". Nem ela nem ninguém que conheçamos foram obrigadas a isso. O caso específico por ela denunciado ocorreu entre jovens militantes e foi amplamente repudiado. A frase generalizante é obviamente uma calúnia, um absurdo completo, como também é dizer que mulheres da geração anterior foram mais mal tratadas por seus companheiros do que pelos torturadores.

A agressão que sofreu há 30 anos ou o seu rancor pela esquerda não podem justificar acusações graves e genéricas que se constituem como calúnias difamatórias contra os movimentos estudantis e de esquerda dos quais ela hoje parece se arrepender de ter participado.

Independente das opiniões políticas que possuímos hoje somos testemunhas de que as generalizações afirmadas nessa entrevista não expressam em nada a realidade do que foi o ambiente juvenil e estudantil da esquerda nos anos da derrubada da ditadura.

Carlos Alberto Baptistella
Fábio Bosco
Henrique Soares Carneiro
Karin Andreia Botini
Maria Mercedes César
Moacir Sousa
Rose Colombo
Ulysses Silva
Vera Guasso

6. Agora em 2013, Marília reiterou em entrevista à folha que foi estuprada no "PSTU, Convergência" e fez afirmações novas sobre a prática machista dentro da organização à época:

“Você é revolucionária, então vai limpar o chão! Abre a perna e dá pro cara! Faz não sei o quê!”

7. A falta de resposta do PSTU em 2011 não se repetiu desta vez e entre seus argumentos se lê:
7.1. Estranho Marília não citar que o estuprador foi punido e afastou-se por conta própria.
7.2. Mais estranho ainda falar em PSTU quando este foi fundado somente em 1994.
7.3. Como Marília não é desinformada o que ela está fazendo é uma calúnia com o intuito de desmoralizar a esquerda.
7.4. Militantes não são nem nunca foram obrigadas a transar com chefes partidários.

Consideração número 1: Afinal, o que é mais importante nessa história toda?

Em primeiro lugar vamos ao fato primordial de todo o episódio: HOUVE ESTUPRO. Este é o ponto fundamental e a partir daí é que deve partir toda a análise do caso. Não se pode em hipótese alguma menosprezar tal fato. Para termos noção do que isso pode significar na vida de uma mulher vale recorrer ao recente artigo de Cecília Toledo, militante do PSTU e dirigente da LIT:

"O estupro é um tipo de violência contra as mulheres que deixa marcas pelo resto da vida. Uma mulher que já sofreu estupro passa a sentir-se permanentemente ameaçada e com medo de que isso se repita, o que a torna um ser fragilizado para todas as tarefas que tem adiante. É uma agressão física e psicológica que dificilmente se supera."

Se isso é verdade para qualquer mulher tal como afirma Cecília imaginemos então o que não terá sido para a jovem Marília que recém iniciava sua vida sexual em 1979. Não é a toa que dois anos após ingressar nas fileiras foi diagnosticada com psicose maníaco-depressiva.

Diante de uma situação como essa, como uma organização trotskista deve se comportar? Mais uma vez vale recorrer ao artigo da Cecília:

"Em primeiro lugar, não esconder os fatos, apurá-los até o fim e punir os envolvidos com a expulsão de nossas fileiras."

É claro que para não esconder é preciso haver um ambiente propício para que a vítima se sinta a vontade para denunciar. É preciso grande força de vontade para fazê-lo. Marília fez. Talvez estimulada por alguns companheiros mas fez. Não se sabe se o fez logo quando aconteceu ou meses depois, talvez até próximo de sua própria saída da organização, mas fez, e a organização, por sua vez, apurou e puniu. Expulsou? Não, não expulsou. Por conta própria o agressor retirou-se. Parece um pequeno detalhe mas nestes casos pequenos detalhes fazem toda a diferença.

Mas por que não expulsou? Talvez o fato dela estar desacordada e não ter lutado contra seu agressor tenha pesado. Era uma festa. Todos eram jovens. Haviam bebido muito. Ela já havia transado com outros, inclusive com seus "líderes partidários". Quem sabe tenham pensado que foi grave mas não foi tão grave assim. Essas são coisas da juventude, não é mesmo?

Mas de qualquer forma houve uma punição. Não sabemos qual foi mas pelo menos houve. Mas e quanto à vítima? Como ela foi tratada? Como se manifestou o companheirismo de seus colegas militantes? Ela passou pelo momento com o apoio de seus pares ou teve que enfrentar sozinha? Não temos a resposta mas aparentemente Marília enfrentou tudo sozinha afinal seus contemporâneos praticamente ficaram surpresos com toda a paranóia pela qual a ex-militante teve que passar.

E como isso tudo se manifesta na cabeça de uma jovem? Quantos fantasmas alguém que passou pelo que passou Marília não teve que enfrentar depois disso? Pelo visto não foram poucos.

E por que Marília ao falar sobre seus fantasmas do passado não falou que a CS puniu e não expulsou seu agressor? Será porque a punição, que sequer foi a expulsão, acabou sendo algo insignificante diante da agressão? Será pelo fato de ter tido que encarar sozinha os traumas que sua passagem pela organização acabou por ajudar a construir? Será pelo fato de praticamente ter se visto forçada a manter o caso nas fileiras ou melhor consigo mesma ao invés de fazer a denuncia da agressão à polícia? Os motivos podem ser vários mas se não percebermos que isso é extremamente pequeno diante da violência sofrida acabaremos por reforçar a tese de que a vítima é quem é a culpada, que se faz de coitadinha, mas que no fundo quer mesmo é prejudicar o "suposto" culpado tal como no deixa a entender o referido texto de resposta:

"...a calúnia é proposital e pensada para desmoralizar a esquerda da qual um dia fez parte, talvez por um trauma e uma mágoa justificados, mas com declarações desonestas".

Consideração número 2: Marília se arrepende de seu passado e por isso calunia a CS/PSTU?

Tendo passado pelo que passou é difícil não se arrepender. Um exercício um pouco maior de empatia talvez nos ajudasse a todos a entender pelo que passou aquela menina, hoje mulher. Conheço gente que se arrependeu de sua militância por muito, muito menos e que guarda rancores absolutamente sem fim. Talvez tais rancores deturpem a visão da pessoa sobre o que de fato aconteceu com ela mas, via de regra, não consigo responsabilizar o indivíduo nesses casos. Via de regra defendo que o problema está exatamente no coletivo, na organização, que ao invés de estar disposta a "investigar e punir" deveria, em primeiro lugar, esforçar-se ao máximo para criar um ambiente propício a inibir problemas de moral.

Mas como fazer isso? Esse, sem dúvida, é um grande desafio. O que de cara posso dizer é que com certeza não será dando em cima das meninas que entram na organização nem muito menos dando bola às próprias investidas da nova militante, algumas vezes deslumbrada com a desenvoltura dos camaradas. Como nos diz o texto de Cecília:

"O respeito revolucionário em relação a uma mulher que entra no partido e se dispõe a dar sua vida pela revolução é tudo, porque ao entrar no partido ela estará superando obstáculos muito maiores que um homem". (...) "Dentro do partido, as mulheres conscientes, as militantes revolucionárias, não esperam encontrar o mesmo que encontram todos os dias na sociedade em geral. Dentro do partido, elas confiam nos camaradas, baixam sua guarda em relação a eles, e só esperam em troca confiança e uma relação de respeito e camaradagem".

Mas e quanto às calúnias? Não é preciso respondê-las? Bem... pra ser sincero eu nem trataria como calúnia. Trataria de ajudar a esclarecer o ocorrido, admitindo que sim, além do próprio caso de estupro, os militantes com que Marília conviveu podem ter tido atitudes machistas, muito dificilmente com o tom que ela expressou, mas que pode ter sim ocorrido e que a CS, mesmo compreendendo que tais atitudes são inadmissíveis e que devem ser combatidas de forma incansável, pode não ter estado à altura para em determinado momentos inibi-las. Uma resposta mais simpática, mais humilde e desprovida de patriotismo partidário cairia muito melhor neste caso do que uma defesa da honra da organização.

Consideração número 3: Não se obriga militantes a transar com seus chefes.

De fato acho muito difícil que qualquer organização obrigue seus militantes a transar com seus chefes. Mesmo em seitas religiosas onde jovens transam com seu mentor espiritual isso não é feito na base da obrigação. Existe todo um jogo de sedução que é jogado nesse terreno. O fato de que a possível transa com os dirigentes não seja tal como descreve Marília ("é revolucionária então abra as pernas") não diminui a gravidade do fato de que alguns quadros possam se utilizar de seu prestígio para rodear, seduzir e levar para a cama uma nova militante. Não considerar essa hipótese é o mesmo que fechar os olhos e compactuar com ela.

Para falar sobre a gravidade do que uma atitude como essa pode significar me valho novamente e pela última vez ao texto de Cecília Toledo:

"Nós, que lutamos contra a opressão das mulheres, sabemos como é importante para uma mulher tornar-se consciente politicamente e, sobretudo, entrar no partido. Por isso se os casos de machismo são graves na sociedade como um todo, eles são duplamente perniciosos dentro de nossas fileiras, porque estarão destruindo uma militante e também o nosso objetivo final, ou seja, a própria construção do partido, o instrumento que vamos construindo dia a dia para conquistar uma sociedade socialista e, com ela, a emancipação total das mulheres".

Em suma: compactuar com desvios morais machistas, e aí inclui-se o desvio do satisfazer desejos e taras pessoais que via de regra se escondem atrás do véu da "vida pessoal", é compactuar com a destruição de militantes mulheres e do próprio partido revolucionário o que por sua vez é conspirar contra a própria revolução.

Para concluir

De alguém que enfrentou os monstros e fantasmas que Marília enfrentou não vejo porque fazer quaisquer cobranças sobre o tema. Posso lamentar posições políticas e confusões desmedidas e nada críveis como a de afirmar que o abuso dentro da antiga CS poderia ser maior que os cometidos pela ditadura. Mas de uma organização revolucionária como o PSTU com certeza é preciso esperar muito mais do que o tom da resposta que foi dado inclusive com o argumento de que o partido ainda nem existia em 79. Tenho alguns bons amigos e companheiros no partido pelos quais guardo grande apreço e sinceramente torço para que o episódio, ao invés de fortalecer o patriotismo acima de qualquer coisa, sirva para fazer o debate sobre a moral revolucionária e a forma correta de como devem se portar seus militantes, e em especial seus quadros, diante de mulheres e meninas que ingressam em suas fileiras.

Tchau, tchau Bento (#charge de Lailson)


Mais charges de Lailson aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Você faz ideia do que é ser mulher e militante? (texto de Thais Justen via @BiscateSC)

O texto a seguir é da anarcofeminista Thais Justen e foi publicado no blog Biscate Social Club com o título Militância há quase 10 dias. Trata de um tema que está intimamente relacionado com o post  "A opressão e o machismo devem ser combatidos de forma implacável" de Cecília Toledo. A abordagem é absolutamente diferente mas é uma variação do tema "machismo e opressão nas organizações dos movimentos sociais".

Neste texto a militante aborda faces distintas do machismo no movimento de massas como a falta de preocupação com a segurança para mulheres nas reuniões, a intimidação, o desrespeito, o assédio, a falta de um simples espaço adequado para os filhos, além da violência e de estupro pelos próprios "companheiros". Pela forma como trata o assunto aparentemente Thais parte das suas próprias experiências ou mesmo de outras militantes do movimento de ocupações urbanas do centro do Rio, mas tal como o texto da Cecília, pelo menos em grande medida suas preocupações poderiam ser transportadas para quaisquer outros movimentos ou partidos de esquerda. E isso é muito preocupante. Percebam que não me preocupo com a direita que por definição já é machista em si. A preocupação é que qualquer movimento de esquerda, em especial os da esquerda socialista, possuem a necessidade de combater de forma implacável o machismo e a opressão. E isso se faz em primeiro lugar dentro de casa, na própria organização.

Em determinado ponto o tom parece contrapor a luta de classe com a luta contra a opressão. E uma coisa não deve contradizer a outra. Não há porque ser assim. Mas é compreensível que escorregue para esse terreno, na medida em que o próprio machismo nas organizações operárias também faça isso.

Anarcofeminista, Thais conclui reproduzindo Bakunin. Sendo trosko obviamente prefiro citações de Lênin, que não são poucas sobre o combate ao machismo, mas de forma alguma isso poderia ser impeditivo para divulgar o texto aqui.

Militante


O que alguns militantes esquecem é seu lugar de privilégio na militância e no mundo, pelo simples fato de serem homens. Você sabe, militante, o que é ter medo de ir numa reunião porque o lugar é escuro? e porque, se for estuprada, vão dizer que a culpa é sua? sabe o que é estar numa reunião num lugar muito quente e com pouca água e não poder usar roupas curtas ou tirar a camisa, porque os companheiros de luta dizem que, neste caso, isso estaria desrespeitando eles? sabe o que é estar numa reunião e um homem dizer aos outros que não falará com você porque certamente você não entende tanto quanto eles(homens) sobre algum assunto qualquer independente da sua formação ou vivência, só por ser de outro gênero? sabe o que é após ter ocupado um imóvel ter um companheiro que se recusa a levar o prato pro local que foi escolhido pra ser a cozinha o que dirá então lavá-lo, e ainda por cima te chama pra fazer isso, porque afinal, você é mulher?

Eu poderia dar mais exemplos que você certamente não vive na pele, como, por exemplo, a possibilidade de ser excluída de um meio de militância porquê já transou com vários de lá. Ou o horror de ser estuprada numa ocupação e os companheiros de luta ainda dizerem que a culpa é sua porque já dormiu com vários. Ou o abandono de ser estuprada por seu companheiro que é militante e os companheiros de luta falarem que ele é um bom homem, por isso não farão nada. Ou ainda o medo de ir aos espaços de militância porque já apanhou de algum companheiro de luta que, em algum momento, foi seu namorado, e os outros companheiros de luta não considerarem isso um assunto importante.

Um lugar de privilégio, o seu, que ignora quem não pode ir às reuniões porque tem filhos e os espaços de militância não são adequados a presença de crianças e afinal, como a responsabilidade pela criação dos filhos é da mãe – diz a sociedade – ela não vai pra reunião pra cuidar de seu filho mas o companheiro vai. Um lugar de privilégio indiferente ao fato de que existe quem tem que se preocupar mais com preservativos, porque se engravidar e não puder abortar (e mesmo podendo, arcar com o julgamento e condenação social) é sobre ela que o peso da criação vai cair. E tem a questão, que você não pensa, do problema de que se não consegue gozar, não há ajuda pra isso, enquanto pros homens existem vários medicamentos pra impotência, e contraditoriamente, se goza com facilidade também é problema, porque aí os companheiros de luta que se deitarem com você podem achar que “não é boa pra casar” porque gosta muito de sexo.

Mas não, certamente você não sabe o que são essas preocupações, e aí, sendo homem, é muito fácil falar que o movimento que quer acabar com a sua hegemonia – ou seja, seu poder de bater, estuprar, não cuidar dos filhos, não pegar tarefas de cozinha, e ainda ser considerado bom militante – enfim, falar que esse movimento está errado, e deve se preocupar com a classe trabalhadora apenas, sem gênero, porque, afinal isso te interessa. Que mundo bom seria pros homens se vivêssemos no socialismo, não houvesse mais patrões, mas as mulheres continuassem a ter dupla jornada, o sexo continuasse a ser focado no homem e o prazer da mulher permanecesse não sendo importante, num mundo onde “ser muito homem” continuasse a ser um elogio e ser “mulherzinha”, um xingamento. E que mundo merda seria esse pras mulheres…

Como disse Bakunin, não poderei ser um homem verdadeiramente livre até que esteja cercado de homens verdadeiramente livres também, pois a existência de um único escravo basta para diminuir minha liberdade. Assim, só poderei ser uma mulher livre no dia que ninguém puder ser estuprada por ser mulher. Pois enquanto puderem estuprar uma burguesa por ser mulher, as proletárias também poderão ser estupradas pelo mesmo motivo (coisa que não ocorre com os homens, frise-se, pois nenhum homem é estuprado apenas por ser homem e/ou por usar pouca roupa). Assim também, nenhum homem, mulher, intersex etc, poderá ser livre enquanto alguma categoria não for, só seremos realmente livres quando nem mulheres, nem negrxs, nem indigenas, nem homossexuais forem vitimas de opressão!

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"A opressão e o machismo devem ser combatidos de forma implacável" (artigo de Cecília Toledo via @litci)

A Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), organização mundial fundada pelo trotskista argentino Nahuel Moreno em 1982 e que segue na ativa desde então, publicou na semana passada um importante artigo de Cecília Toledo em seu portal tratando sobre a questão da moral revolucionária.

A partir de um episódio de machismo flagrante no SWP inglês, Cecília retoma um debate de moral imprescíndivel para os revolucionários e que quando ignorado, adiado ou menosprezado tende a transformar organizações inteiras em verdadeiros lixos imprestáveis para o movimento social.

No artigo, Cecília relata ainda que nem mesmo sua própria organização estaria imune à deformação moral e em função disso a necessidade do combate constante em defesa da moral revolucionária no seio da LIT e como se pode perceber, nada mais apropriado no momento para manter ativo o debate principista do que tal episódio inglês. O teor do artigo é claramente um alerta e um chamado para os partidos da própria LIT, mas sem dúvida alguma vale para qualquer organização que se pretenda revolucionária.

Colo aqui na íntegra o texto da trotskista.

Crise no SWP envolve a moral revolucionária e a luta contra a opressão das mulheres

Uma grave crise vem abalando o SWP inglês, um dos maiores partidos de esquerda da Inglaterra, que inclusive se reivindica trotskista. É uma crise de cunho moral e da qual a LIT não pode ficar à margem. Por um lado, os fatos graves que ocorrem em um partido de esquerda afetam os demais porque a burguesia trata de destruir a imagem da esquerda de forma conjunta, como se fossem uma única organização. Por outro lado, é através das ações de cada organização que se reivindica revolucionária que a esquerda vai construindo sua trajetória junto ao proletariado mundial.

Síntese do que ocorreu

Uma militante do partido acusou um dos membros do Comitê Central de tê-la estuprado. A Comissão de Disputas (comissão de moral) investigou o caso durante quatro dias e chegou à conclusão de que não havia provas suficientes contra o acusado. Nesse ínterim, outra militante do partido também acusou o mesmo dirigente de tê-la molestado sexualmente, desta vez por meio do assédio sexual. A Comissão de Disputas não levou em consideração essa segunda denúncia e manteve o relatório inicial, o que gerou descontentamento por parte dos delegados à Conferencia na qual o relatório foi apresentado. Também gerou protestos o fato de a militante que acusou o dirigente não ter sido convidada à Conferencia. Frente ao clima de descontentamento que se instalou, a Comissão de Disputa tratou de conduzir a discussão de forma burocrática, reduzindo o tempo de intervenção e cortando bruscamente a palavra dos oradores, impedindo que houvesse uma discussão ampla. Todos esses fatos lançaram suspeita sobre o trabalho da Comissão e do relatório apresentado, tanto que o plenário praticamente dividiu-se ao meio no momento da votação, com 231 votos a favor do relatório, 209 contra e 18 abstenções. Depois disso, abriu-se uma crise sem precedentes, com diversos militantes rompendo com o partido e inclusive vários intelectuais que sempre trabalharam com o SWP agora se recusam a qualquer colaboração com essa organização.

Por que não houve plena liberdade de discussão?

Em nossa opinião, esses fatos são graves e exigem uma reflexão profunda. Uma denúncia de estupro dentro das fileiras de um partido que se reivindica revolucionário tem de ser encarada com a maior seriedade por todos os militantes, em especial pela direção. O estupro é um tipo de violência contra as mulheres que deixa marcas pelo resto da vida. Uma mulher que já sofreu estupro passa a sentir-se permanentemente ameaçada e com medo de que isso se repita, o que a torna um ser fragilizado para todas as tarefas que tem adiante. É uma agressão física e psicológica que dificilmente se supera.

Por isso, a denúncia feita pela militante deve ser investigada exaustivamente, e a direção do partido tem de ser a maior interessada em encontrar a verdade para evitar que isso jamais volte a se repetir no seio do partido. Ela deveria ser a primeira em garantir a mais plena liberdade de discussão, incentivando todos os militantes a se pronunciar, sobretudo a própria companheira que fez a denúncia, sem qualquer tipo de constrangimento.

Mas não foi isso que aconteceu. A companheira que fez a denúncia não foi convidada a participar da Conferência, mas o dirigente acusado sim, fazendo com que o conjunto dos delegados ouvisse apenas um dos lados. Isso é extremamente grave, porque se houvesse por parte da direção do SWP um interesse sincero em esclarecer a denúncia e encontrar a verdade, teria sido fundamental a participação dessa militante. Por outro lado, o informe da Conferência mostra que, ao invés de garantir a mais ampla liberdade na discussão do relatório, os membros dessa Comissão procuraram a todo custo evitar que todos se manifestassem, prejudicando o esclarecimento dos fatos e criando um clima de desconfiança entre os delegados.

Um questionamento importante feito pelos delegados foi o fato de a Comissão de Disputas não ter levado em consideração a segunda acusação contra o mesmo dirigente, feita por outra companheira, para rever sua decisão de absolver o dirigente ou, como mínimo, de levantar dúvidas sobre sua decisão inicial.

A partir daí, a própria Comissão de Disputas ficou questionada e sob a suspeita de haver agido de forma a proteger o dirigente. Isso porque tem dois de seus integrantes indicados pelo CC, sendo que outros três são ex-membros do CC. O mais democrático é que todos os seus integrantes sejam indicados pelos delegados do Congresso, justamente para não incorrer no erro de favorecer os dirigentes do partido.

A questão da moral revolucionária

No Programa de Transição, Trotsky diz que “em uma sociedade baseada na exploração, a moral suprema é a moral da revolução socialista. Bons são os métodos que elevam a consciência de classe dos operários, a confiança em suas forças e seu espírito de sacrifício na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram o medo e a docilidade dos oprimidos diante dos opressores”. O que ocorreu no SWP foi justamente o contrário: aplicaram-se métodos que minaram a confiança das militantes e inspiraram o medo diante dos opressores.

Esse texto de Trotsky mostra como a luta contra a opressão das mulheres está implicada na defesa da moral revolucionária em nossas organizações e como essas questões não podem ser tomadas de maneira formal.

Nenhuma organização política está isenta de incorrer em desvios da moral revolucionaria. A questão que se coloca é como esses desvios são tratados no interior da organização. Na LIT (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional) também já sofremos problemas desse tipo. Inclusive alguns deles foram tão graves que chegaram a ameaçar a existência da própria LIT. Qual foi a atitude tomada? Em primeiro lugar, não esconder os fatos, apurá-los até o fim e punir os envolvidos com a expulsão de nossas fileiras. Inclusive chegamos ao ponto de perder uma seção inteira de nossa Internacional. A companheira do principal dirigente da seção boliviana da LIT acusou-o de agredi-la de forma violenta e reiteradamente. O caso foi amplamente investigado por nossa Comissão de Moral, que acabou por comprovar as acusações. Mesmo sendo um dirigente de longa trajetória e responsável por uma seção inteira da Internacional, esse dirigente foi expulso de nossas fileiras, o que levou o restante dos militantes dessa seção a abandonarem as fileiras da LIT em solidariedade a ele. Assim, a LIT preferiu perder toda uma seção a manter em suas fileiras um militante que incorreu em graves problemas morais. A questão da moral revolucionária foi um ponto amplamente discutido entre todos os militantes e no IX Congresso Mundial (2008) da LIT foi votado o documento Em Defesa da Moral Revolucionária, que nos serve de parâmetro para nossa atividade diária como parte essencial de nossa construção. Esses fatos nos mostraram que a questão da moral revolucionária não é uma questão a mais, mas sim, a questão chave para uma organização de esquerda que se constrói para destruir o capitalismo e a sociedade burguesa.

Foi uma batalha dura, mas temos certeza de que a LIT saiu fortalecida. No entanto, somos conscientes de que a ameaça permanece, porque a burguesia sempre trata de impor a sua moral para nos destruir. Nós estamos sob a pressão constante da sociedade burguesa e sua moral degenerada, à qual temos de resistir com firmeza para essa moral não penetrar em nossas fileiras e destruir as nossas organizações.

Na LIT, também nesse terreno reivindicamos os ensinamentos de Trotsky. Abrimos com clareza essa discussão em nossas fileiras e enfrentamos os problemas, batalhando por uma moral comunista em nossas seções, no sentido de evitar que as pressões cresçam e acabem por nos destruir. Por isso nos preocupamos com o que está ocorrendo no SWP, e queremos que nossa experiência ajude a todos os militantes revolucionários nos diversos países a compreender a sua importância, a se conscientizar de que essa é uma batalha constante, se queremos construir uma verdadeira organização que sirva para a luta revolucionária do proletariado. A cada dia que passa nos convencemos mais e mais de que não haverá uma construção sólida de um partido revolucionário nacional e nem da Internacional à qual tanto aspiramos se não defendermos com toda a coragem e doa a quem doer a moral revolucionária em nossas fileiras.

A moral partidária

Assim como a classe operária necessita de uma moral própria para lutar contra a burguesia, que envolve questões específicas do movimento operário, como a proteção mútua entre os trabalhadores perseguidos, nunca entregar um companheiro de luta à patronal ou à polícia, não utilizar meios violentos para dirimir divergências e manter relações de lealdade e honestidade entre as organizações operárias, o partido revolucionário também tem uma moral específica.

O partido é um instrumento mais avançado- que luta para derrubar a burguesia e pela ditadura do proletariado. Para isso, precisa ter uma disciplina de ferro e uma moral superior inclusive à moral proletária, ainda que parta dela.

A confiança entre todos é seu cimento essencial, é a chamada “confraria dos perseguidos”, dos que querem destruir o capitalismo e por isso são perseguidos e podem pagar o preço com a própria vida. Portanto, é necessária uma moral superior para manter a força dessa organização, para resistir às pressões que a burguesia nos impõe. No partido, o coletivo é tudo, em oposição à idéia típica do capitalismo, onde prevalece o individualismo e o egoísmo. É preciso fortalecer a confiança de cada um em suas próprias forças, e ao mesmo tempo desenvolver a confiança entre todos os militantes, fazendo com que um confie no outro, porque nos momentos mais graves de nossa luta, vamos ter de confiar em nossos companheiros. Para isso, queremos e fazemos com que cada um cresça e se desenvolva politicamente. Porque nosso partido tem de ser conspirativo contra o Estado, e isso exige uma total confiança entre os camaradas, sejam homens ou mulheres.

A confiança nas mulheres

Como na sociedade existe uma defasagem entre os homens e as mulheres – estas têm menos condições de militar, são vistas como seres inferiores, tardaram mais na história a entrar para a vida política, continuam carregando o peso da dupla jornada –, o esforço para que as mulheres cresçam deve ser redobrado.

Em casa, no trabalho, na escola, em todos os âmbitos da sociedade, a mulher é colocada em situação de inferioridade e sofre todo tipo de opressão, preconceito e abuso sexual. O partido tem de ser o oposto. Nele ela deve encontrar um ambiente de respeito e interesse por seu desenvolvimento político. O respeito revolucionário em relação a uma mulher que entra no partido e se dispõe a dar sua vida pela revolução é tudo, porque ao entrar no partido ela estará superando obstáculos muito maiores que um homem.

Dentro do partido, quando um dirigente partidário oprime sexualmente uma camarada, comete uma falta gravíssima, sobretudo porque não é isso o que se espera de um militante que se disponha a dedicar sua vida à revolução socialista. O socialismo é incompatível com esse tipo de atitude. Dentro do partido, as mulheres conscientes, as militantes revolucionárias, não esperam encontrar o mesmo que encontram todos os dias na sociedade em geral. Dentro do partido, elas confiam nos camaradas, baixam sua guarda em relação a eles, e só esperam em troca confiança e uma relação de respeito e camaradagem.

Nós, que lutamos contra a opressão das mulheres, sabemos como é importante para uma mulher tornar-se consciente politicamente e, sobretudo, entrar no partido. Por isso se os casos de machismo são graves na sociedade como um todo, eles são duplamente perniciosos dentro de nossas fileiras, porque estarão destruindo uma militante e também o nosso objetivo final, ou seja, a própria construção do partido, o instrumento que vamos construindo dia a dia para conquistar uma sociedade socialista e, com ela, a emancipação total das mulheres. Um partido revolucionário que não incorpora a luta contra a opressão em sua atividade cotidiana não pode ser vitorioso na luta pela liberação da classe. É necessário combater todos os desvios morais e, ao mesmo tempo, ser coerente com o programa de liberação para toda a classe trabalhadora; homens e mulheres.

Um combate constante

Inseridos na sociedade burguesa, onde prevalece uma moral degenerada, existe para o partido uma necessidade impostergável, que é educar teórica e programaticamente a sua militância na moral revolucionária. E essa tarefa tem de ser diária. Quando os desvios morais ocorrem, fica evidente que essa tarefa não está sendo levada a sério ou é levada apenas de maneira formal. E com isso o partido fica mais exposto ainda aos ataques da imprensa burguesa e das forças conservadoras, que se aproveitam desses desvios para fazer todo tipo de ataque às organizações de esquerda.

Por isso é tão importante ir até o fim na apuração dos fatos. Para mostrar à classe trabalhadora e ao conjunto da sociedade que nossos partidos são distintos dos partidos burgueses, onde reina a corrupção, a calúnia, o engodo. Para mostrar que os políticos revolucionários são diferentes dos políticos burgueses, que usam a política para se promover e para roubar os cofres públicos. Para mostrar que nós temos uma moral distinta e que nossa luta contra a opressão das mulheres é uma luta sincera, que não figura apenas em nossos documentos, mas faz parte de nossa vida cotidiana. Só dessa forma poderemos ganhar os trabalhadores - homens e mulheres - para as nossas fileiras.

Os camaradas do SWP têm um exemplo na própria Grã Bretanha de como esse tipo de desvio moral pode destruir nossas organizações, por mais fortes que elas sejam. O WRP, de Healy, uma organização com uma longa trajetória na esquerda inglesa, mas que nos anos 80 veio abaixo por desvios morais. Como dirigente máximo do partido, Healy traiu a confiança dos militantes, sobretudo das mulheres. Várias delas foram abusadas sexualmente por ele, e quando encontraram coragem para denunciá-lo, a maior parte da direção tratou de abafar os fatos e desqualificar as acusações para proteger o dirigente. O resultado dessa atitude veio logo em seguida: a destruição total da organização.

Precisamos aprender com esses erros para evitar que se repitam e cheguem ao ponto de nos destruir. A opressão das mulheres e os desvios machistas dentro de nossas organizações devem ser combatidos de forma implacável. A moral revolucionária exige de nós uma vigilância constante, que implica não apenas em uma discussão frequente junto à militância por meio de debates, palestras e cursos, mas, sobretudo, uma apuração exaustiva de seus desvios. Nossa experiência mostra que se não exercemos uma vigilância constante e uma posição firme e principista em relação a esses desvios, não seremos capazes de evitar resultados desastrosos e irreversíveis.

Extraída de nossa experiência diária e muitas vezes dolorosa, essa é a maior lição que devemos deixar para todos os militantes, homens e mulheres que hoje estão aderindo às organizações revolucionárias no mundo inteiro e se dispondo a combater a moral burguesa, assentada no egoísmo, no privilégio de uns sobre outros e na odiosa opressão das mulheres.