segunda-feira, 8 de julho de 2013
De qual Brasil se está falando quando se diz "o Brasil vai parar no dia 11"?
Falta menos de uma semana para o dia 11 de julho e tenho que fazer uma confissão mesmo que isso soe para alguns como um imenso sacrilégio. Pois bem, confesso que simplesmente não consigo entender a lógica daqueles que defendem que o "Brasil vai parar" na próxima quinta-feira. Fico a me perguntar: de que Brasil se está falando afinal? Daí quando vejo ativistas, alguns deles com uma larga experiência na luta de classes, divulgarem que teremos uma "greve geral" no dia 11 minha incompreensão dá lugar a um imenso receio. Já me parecia exagerado que o dia nacional de luta fosse convocado como "um dia de GREVES, paralisações e manifestações" com a palavra greves assim mesmo, em maiúsculas, mas... vá lá... era aceitável. Mas com o passar dos dias ver a proposta de dia nacional de lutas que poderia sim ser um pontapé para a construção de uma grande greve geral no país ser vendido como a própria greve geral, tenho que confessar que tenho ficado não só atônito, mas muito preocupado com a possibilidade se desperdiçar o momento. Sim, desperdiçar mesmo. Digo isso, porque não vejo sentido na hipótese de que a classe trabalhadora irá cruzar os braços e parar a produção no país nos próximos dias.
Sou daqueles que acredito que é preciso enxergar as necessidades mais sentidas da classe trabalhadora, transformá-la em programa para a ação, destacar daí as consignas que melhor dialogam para agitá-las às grandes massas ao mesmo tempo que se propagandeia detalhadamente para os ativistas a justeza e a necessidade de se realizar tal programa. Esse é o método científico para atuar sobre a classe trrabalhadora: entender as necessidades do sujeito social para se antecipar às lutas, porque elas virão, independente da vontade de quem quer seja, se houver razão para que elas venham, elas virão.
A camada média do subproletariado urbano está insatisfeita. Estava antes das mobilizações de junho e segue insatisfeita. Quem tivesse acompanhado com cuidado as transformações e o movimento da classe trabalhadora perceberia o barril de pólvora pronto para explodir. Mas é bom que se diga que essa camada da classe não reivindica os sindicatos. Muitos, de tão precarizados, sequer tem sindicatos. Ela não se organiza como categoria; não se enxerga como classe; não possui tradição de lutas, manifestações, paralisações muito menos de greves. Absolutamente ninguém se dispôs a entendê-la, dialogar com ela muito menos representá-la. A insatisfação foi tanta que levou à explosão que vivenciamos e que agora se dissipou. Pra nada está dito que novas explosões não possam vir a ocorrer mas o mais provável é que não ocorram por hora.
Mas e quanto os setores pesados do proletariado urbano? Qual seu nível de insatisfação? Seguiram Lula e via de regra ainda o reivindicam como o melhor presidente que já se teve. Sentem que Dilma não é Lula mas qual seu nível de descontentamento com o governo Dilma? Por acaso, os trabalhadores sentem que esse governo não é seu? E qual seu nível de confiança nos sindicatos? Qual sua disposição para segui-los nesse momento? Me corrijam se estou enganado mas embora possuam sindicatos, o nível de desconfiança neles é, via de regra, elevadíssimo. E não é pra menos. A maioria das categorias segue representada por sindicatos da Força Sindical, CUT ou CTB, diga-se de passagem centrais arqui-pelegas ou governistas, que em grande medida se acostumaram a realizar assembleias sem nenhuma representação e parar os trabalhadores de fora pra dentro. Olhamos de um lado para o outro e não temos notícias de que se esteja gestando qualquer movimento de rebelião pelas bases. O primeiro momento da reorganização já passou com uma explosão de novas centrais disputando aparatos desgarrados enquanto trabalhadores foram sendo entorpecidos pelo discurso do crédito fácil, bolsa família, minha casa minha vida, etc. Em suma, a frente popular tem cumprido, fantasticamente bem, seu papel histórico de desmobilizar e desmoralizar.
É esse o quadro desenhado nas relações entre a classe trabalhadora, seus sindicatos e o governo.
Já do ponto de vista econômico, em síntese, o que podemos dizer é que ainda não entramos no olho furacão da crise econômica mundial, não vivemos índices assustadores de desemprego e apesar da inflação vir crescendo as coisas ainda não chegaram ao andar do insuportável.
Então o questionamento é: por que o proletariado vai cruzar os braços dia 11? Simplesmente porque seus sindicatos estão chamando muitas vezes sequer sem assembleias para tanto? Agora é assim? A situação mudou a tal ponto que basta fazer o chamado que a classe atende apesar de todo o histórico de traição? E isso centralmente por pautas gerais como mais verba para educação, fim das privatizações e contra o plano econômico? Será que saímos da fase das greve contra o patrão para as greves abertamente políticas? A mecânica da luta de classes foi tão alterada a esse ponto? E se é assim por que é que não se paralisou antes mesmo? Por que é que a classe não participou ativamente da própria jornada de junho? Por pura falta de convite? Sério?
Me arrisco a afirmar que não teremos uma greve geral no dia 11. O Brasil não vai parar e isso não é algo que dependa das nossas vontades. Posso estar redondamente enganado e ficarei maravilhosamente satisfeito se a vida real me provar o quanto meu equívoco é colossal. Mas já parou pra pensar se for o contrário?
Ao se vender greve geral e se entregar um dia de mobilizações corre-se o sério risco de também se entregar de brinde a decepção e a desconfiança à classe trabalhadora.
É preciso construir o dia 11. E até por isso não é nada prudente se deixar embriagar pelo euforia do ufanismo impressionista muito própria, não dos trabalhadores, mas da pequena-burguesia. Chamar as coisas pelos nomes, não vender ilusões e inspirar a classe a confiar em si mesma é a base fundamental para que esse e muitos outros dias de lutas se realizem até que seja chegada a hora para verdadeiramente parar o país.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Músicas para #ProtestoBr: #Vinagre by @iuskawolski
Nossa trilha sonora para os protestos juninos brasileiros tem a obrigação de ter como primeira faixa a música #Vinagre de Iuska Wolski. A não ser que alguém apresente algum video anterior ao dia 13 de junho que faça referência aos recentes protestos no país, a cantora Iuska leva o título de música que primeiro captou os sentimentos de protesto e os transformou em melodia. Sua canção #Vinagre faz referência à repressão policial em São Paulo que chegou a prender manifestantes pelo simples ato de portarem garrafas de vinagre.
Parabéns e nosso muito obrigado Iuska.
Muito cuidado se você esta pensando em comer uma salada em São Paulo
Na cidade onde um olho estourado com uma bala de borracha vale menos que lixeiras
Mantenha seus temperos bem guardados
ou vai ser condimentado
com spray de pimenta
Cuidado, presidenta
acho que a sua cozinheira
conspirou contra você!
O que é isso que ela usou para lavar a alface?
Vinagre, vinagre é o novo Anthrax
Por isso meu amigo vândalo
vagabundo, baderneiro
classe media, estudante
Quando o gás lacrimogênio
te fizer desmaiar
e bater com a cabeça no chão
Por favor seja
pisoteado na calçada
que é pra não atrapalhar
O transito de quem volta do litoral
Vinagre, vinagre é o novo Anthrax!
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Músicas para #ProtestoBr: Quem é você? by @detonautasRC
A banda Detonautas publicou hoje no YouTube sua contribuição à trilha sonora das manifestações que sacudiram o país nos últimos dias. Na música "Quem é você" os músicos destrincham uma série de preconceitos, falsas ideologias e costumes que ajudam a segurar as pessoas em suas poltronas na frente da TV ao invés de irem às ruas se manifestar. O clipe acompanha didaticamente a letra em cada momento representando ao fundo as cenas cantadas pelo vocalista Tico Santa Cruz e encerrando com a banda mostrando um cartaz "Quem é você" em frente ao Congresso Nacional.
Como nem tudo são flores a velha expressão machista de que você está sendo fodido acaba sendo utilizada pela banda no trecho "eles são o parafuso e você é a porca". É verdade que o "foder" como algo ruim é uma expressão popular, tal como o "chupa" tão comumente utilizado em especial nas redes socais. Mas isso não retira nem um pouco seu caráter machista.
De toda forma o clipe é muito bacana e vale bastante o play.
Você trabalha feito um burro de carga puxando um sistema podre que é bancado com o seu suor / E sexta-feira vai a igreja comungar com sua família a voz sagrada Jesus Cristo é o Senhor / Deixa parte do salário em retribuição a dádiva divina da palavra do pastor. / É melhor garantir um lugar no céu / Aqui nesse inferno tenta só sobreviver e o que salva é a cervejeira no fim de semana assistindo o jogo do seu time preferido na TV / Segunda-feira o seu filho tá em casa porque a escola onde estuda não tem nem um professor / E o professor esta na rua apanhando da policia tá cobrando seu salário do Governador / Enquanto isso numa casa confortável uma família abastada reunida assiste televisão / E praguejando fala mal de quem esta na rua enfrentando / E dando a cara pra lutar contra a situação! / Um fura fila que entrou na sua frente conseguiu ser atendido muito antes de você / E aquele cara que foi reclamar do caso chamaram de barraqueiro que não tinha o que fazer / A sogra dele há semanas na espera, vai pensando que já era, não consegue o leito em um hospital / E na favela aquela guerra continua traficante e policia no controle social!
Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você?
Tu fuma um Beck e é chamado de financiador por um senhor que toma uísque e bate na mulher / E nego enche a cara no fim de semana sai de carro dirigindo mata cinco e puxa o carro e sai de ré / A gente gasta são 6 meses de salário dando tudo pro governo e não tem quase nada em troca / E o governo vai tomando e gastando a parte dele eles são o parafuso e você é a a porca / Já passou 500 anos dessa história e não mudou tanto assim desde a colonização / A diferença é que hoje o colonizador é aplaudido num programa de televisão / A gente acha que um dia como se por um milagre Deus no auge da bondade fosse interceder / e enquanto esse diga não chega a gente vai aceitando e esperando alguma coisa acontecer
Quem é você? Quem é você? Quem é você? Quem é você?
O teu avô que trabalhou a vida inteira dia e noite noite e dia até se aposentar recebe agora uma miséria de salário fica 10 horas na fila esperando e não pode reclamar / Mas as crianças vão crescer e o futuro do Brasil por algum dia deverá ser bem melhor! / Só que o problema é que as crianças tão crescendo com seus pais longe de casa e mais ninguém a seu redor! / Eu não queria te dizer mas vou ter que falar tu é esperto mas tá sendo passado pra trás / Pode ser que quando tu percebas isso lá na frente já seja tarde demais
Agora dance! Agora dance / Mão na cabeça, mão no joelho
Fica de quatro, não pode parar / Agora dance / Dance
Mãozinha prum lado bundinha pro outro se finge de morto
mas não pare de dançar!mas não pare de dançar!"
Músicas de #ProtestoBr: Brasil em Cartaz by @thiagocorrea
E é claro que uma jornada de lutas e manifestações como a que vivemos recentemente não poderia passar em branco sem uma trilha sonora que a representasse. Uma das músicas dessa trilha sonora é a feita pelo artista independente Thiago Correa que juntou frases dos cartazes com palavras de ordem das manifestações e os musicalizou em "Brasil em Cartaz". A música subiu para o YouTube no dia 21 de junho e teve até o momento mais de 100 mil visualizações.
Seguem video e letra.
Saí do Facebook
Pra mostrar como se faz
E é tanta coisa
Que não cabe num cartaz
Brasil era um país muito engraçado
Não tinha escola, só tinha estádio
Ninguém podia protestar, não
Porque a PM sentava a mão
Brasil é o país do futebol
Porque futebol não se aprende na escola
Mas agora colocaram Mentos
Na geração Coca-Cola
E olha só
Que coincidência
Não tem polícia
Não tem violência
O transporte público
É pior que a Tim
Me chama de copa
E investe em mim
- Refrão -
Vem pra rua
Vem comigo
Mas seu guarda
Seja meu amigo
A bomba sobe
A gente abaixa
Me joga um halls
Odeio bala de borracha
The jiripoca is going to pew pew
Queremos formatar o Brasil
É uma vergonha, é uma vergonha
Passagem tá mais cara que a maconha
terça-feira, 2 de julho de 2013
Primavera partindo e as flores mais vermelhas ainda não vieram. E agora?
Já se vão vinte dias desde o despertar de nossa primeira onda, o dia 13/06, uma quinta-feira para entrar na história quando uma manifestação contra 20 centavos com cerca 5 mil pessoas foi duramente reprimida pela policia militar de São Paulo. Antes do dia 13 houve sim muitos protestos em São Paulo e, diga-se de passagem, com milhares de pessoas nas ruas, mas as cenas do vandalismo policial, inclusive contra jornalistas, bombardeadas tanto pela grande grande mídia como pelas redes sociais na sexta, no sábado e no domingo fizeram um sentimento nacional de descontentamento com o país estourar em protestos verdadeiramente continentais. Mais de 270 mil pessoas foram às ruas na segunda-feira, dia 17/06, em cerca de 30 cidades do país. No dia seguinte, 18/06, quatro cidades anunciaram redução na tarifa de transporte público e a presidente Dilma Roussef fez seu primeiro pronunciamento sobre as manifestações se dizendo atenta ao clamor das ruas. Na quarta, dia 19/06, foi a vez de São Paulo e Rio de Janeiro recuarem do aumento da tarifa. No dia, 20/06, uma semana após o grande ato de vandalismo policial paulista, cerca de um milhão e quatrocentas mil pessoas ocuparam as ruas em mais de 130 cidades em todo o país. Ali atingimos o ponto alto das manifestações e a partir daí governo federal, câmaras dos deputados, governos municipais, câmaras dos vereadores iniciaram um movimento para acalmar as ruas: a PEC 37 foi amplamente rejeitada no parlamento, Dilma passou a reunir com vários setores da sociedade, corrupção passou a ser crime hediondo, os royalties do petróleo foram encaminhados para as pastas da saúde e educação e até o projeto da "Cura gay" foi arquivado.
Apesar dos avanços e até mesmo por causa deles nunca mais vimos nada parecido com as manifestações do dia 20/06 ou mesmo do dia 17/06. Na quarta, dia 26, foram 83 mil pessoas em 57 cidades, sendo que 50 mil foram somente em BH que recebia a partida Brasil e Uruguai da Copa das Confederações. Na quinta, dia 27, foram 33 mil em 38 cidades. Na sexta, foram 27 mil, em 50 cidades. Isoladamente a maioria das manifestações vem voltando ao patamar anterior ao do dia 13/06, variando em torno de 5 mil pessoas.
Tudo indica que nossa primavera está partindo e o pior de tudo é que nossas mais belas flores, aquelas vermelhas que nascem das fábricas, canteiros e ocupações, simplesmente não desabrocharam. E agora o que fazer? Bem... uma coisa é certa não será simplesmente marcando um dia para que elas desabrochem que se iniciará uma segunda onda, ainda mais gigantesca e violenta que a primeira. Nada disso. Flores precisam ser cultivadas.
domingo, 30 de junho de 2013
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Bravo, Silvio. Bravo! #verasqueofilhoteunaofogealuta #protestobr
O juiz do trabalho aposentado Silvio Mota, 68 anos, ex-militante da ALN, coordenador do "Comitê pela Verdade, Memória e Justiça do Ceará", ganhou o mundo com uma imagem de coragem ao encaminhar-se sozinho à frente do cordão de isolamento do batalhão de choque da Polícia Militar durante a repressão aos protestos desta última quinta-feira, dia 27 de junho.
Silvio estava com sua esposa se confraternizando com os manifestantes quando a polícia começou a disparar bombas de gás de fumaça indiscriminadamente. Olhando o desespero de alguns dos presentes, não se intimidou, foi até aos policiais e literalmente os peitou.
Uma imagem ímpar. Uma atitude inspiradora. Bravo, Silvio. Bravo.
Leia a íntegra do depoimento de Silvio publicada na edição de hoje do jornal O Povo.
“Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!”
Era isso que eu ia cantando quando avancei contra a PM do Sr. Cid Gomes.
Por que avancei?
Em primeiro lugar, porque a polícia não se manteve nas barreiras e avançou para acabar com a manifestação. Uma manifestação pacífica, de cara limpa, em que tremulavam bandeiras dos movimentos sociais e até de partidos políticos.
Não é verdade que os manifestantes provocaram o enfrentamento.
A PM do Ceará mentiu, e a Rede Globo também.
A maior manipulação da Globo foi a de não seguir a linha do tempo, e apresentar imagens do final do conflito sem nada dizer das horas de bombardeio que sofremos.
Tenho 68 anos e limitações de locomoção, e estava sentado quando eu e minha esposa, também com 68 anos, fomos atingidos por artefatos de gás lacrimogênio. Estávamos longe da barreira, com vários trabalhadores, professores universitários, profissionais da saúde, e até militantes das Pastorais da Igreja Católica.
Minha esposa foi levada por jovens manifestantes para longe, a fim de ser tratada dos efeitos do gás. Eu fiquei, inclusive porque peso mais de 100 quilos. Estava aplicando uma esponjinha molhada de vinagre para poder respirar, mas vi uma jovem tão apavorada que passei minha esponja para ela.
Levantei-me indignado e avancei contra os escudos da barreira, de cara limpa, com a camisa contra a PEC 37. Os PMs ficaram confusos, mas logo avançou um oficial superprotegido por escudos e asseclas que mal podia falar.
Foi logo dizendo que eu não podia fazer aquilo, mas respondi que estava no meu direito de manifestar-me sem armas. Ele alegou que eu podia ser atingido por pedras, mas nenhuma foi arremessada contra mim. As poucas que havia no chão eram pequenas, e nenhum risco causavam a seus escudos e coletes. Disse-lhe que dispensava sua proteção, pois quem tinha me agredido era ele, e não pedras.
Ele voltou para sua linha de escudos.
Os jornalistas presentes logo me perguntaram se eu era promotor, e lhes disse que era juiz aposentado e meu nome. Até defendi o plebiscito proposto pela Presidenta Dilma.
O garboso oficial com seus escudos laterais saiu da linha de novo e disse que iria prender-me.
Disse-lhe que não podia fazer isso porque eu era um magistrado vitalício e não estava cometendo nenhum crime. Exibi-lhe minha carteira funcional, e ele disse que não ia me prender, mas que ia prender a um senhor militante do MST que tinha avançado para meu lado para proteger-me e estava usando a camisa do movimento.
Disse-lhe então que iria com ele, e na confusão o camponês correu e o garboso oficial não teve coragem de abandonar a linha para persegui-lo.
Dei-lhe as costas e voltei para a meninada, que já estava mais calma, mas então ele teve coragem de mandar disparar pelos menos cinco artefatos de gás nas minhas costas. Os meninos apagaram quatro deles em baldes de água, e um quinto me atingiu no meio das costas. Caiu no chão e chutei para o lado. É bom saber: nunca dê as costas para uma hiena.
Depois de voltar para a manifestação encontrei minha mulher, ficamos ainda algum tempo aguentando gás lançado contra nós sem motivo, em trajetórias de longo alcance e ainda deu tempo para sair com nosso carro e almoçarmos em um restaurante (o que tinha que fazer com urgência, pois já eram duas da tarde e sou diabético).
Só então tivemos notícias dos confrontos mostrados nas imagens da Globo, por celular."
Sílvio Mota
Magistrado Federal
quinta-feira, 27 de junho de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
Alguns comentários sobre alguns argumentos meio deslocados: "o golpe" e "quem você pensa que é"
Vivemos uma efervescência política nacional como nunca se viu pelo menos nos últimos vinte e um anos. Mesmo que muitas vezes de forma atravesada, as pessoas estão debatendo, aprendendo e também ensinando muitas lições. E é assim com as pessoas que nunca foram às ruas e, não se engane, também é assim com os veteranos da militância política no país apesar de toda sua quilometragem rodada em manifestações. E é natural que no processo de aprendizado existam muitos exageros. Os exageros dos novatos já são bem conhecidos de todos e só o que se vê é debate sobre seus discursos. Mas e quanto aos exageros da militância organizada? Vamos debate-los? Separei dois desses argumentos meio deslocados e com eles deixo alguns comentários. Embora aos poucos ambos venham a sumir pela própria evolução dos acontecimentos prefiro não pecar pela omissão por mais que corra o risco de desagradar alguns bons companheiros e conhecidos. Vamos lá:
O golpe vem aí - Este é o discurso preferido da militância governista e algumas vezes até é repetido por gente boa e inocente que acaba caindo no papo dos primeiros. Como governistas não aceitam questionamento ao seu sacro-santo governo ver tanta gente na rua questionando os rumos da nação é motivo pra acionar o alerta de "golpe da direita a vista". Vem a Globo e elogia as manifestações: "pronto é golpe". Sai a propaganda eleitoral do PPS, PSDB e DEM na TV logo no mesmo período que o povo tá na rua: "taí, eu não disse? Golpe!". Esquizofrênico? Em alguns casos sim, em outros é política pensada para impor um clima de chantagem política polarizada em "ou você está com a Dilma ou é golpista". Entende?
Bem... pra quem acha que pode ser plausível o sinal alerta é bom que se diga que não há risco de golpe iminente. E aqui vão seis bons motivos: 1) O imperialismo não quer o golpe. Obama, a União Européia, o FMI ninguém quer o golpe. Até semana passada, Dilma era celebrada por todos eles como uma das mulheres mais influentes do mundo. É completamente diferente, por exemplo, da relação que foi construída entre os EUA e Chavez. 2) O mercado financeiro nacional e mundial não quer o golpe. Como o Lula tanto falou, nunca na história desse país eles ganharam tanto dinheiro. Golpe pra que? 3) O latifúndio não quer o golpe. É melhor que o PT governe e continue servindo de dique para as ocupações de terra no país. 4) O setor industrial também não quer saber de golpe. Qualquer espirro que os empresários dão o governo corre pra dar isenção e de brinde ainda ganham o silêncio dos trabalhadores seja via sindicatos, seja via as políticas compensatórias. 5) Os fundamentalistas religiosos nunca tiveram tanto controle sobre um governo. Lembram da "Carta aberta ao povo de Deus"? Pois é. 6) Até mesmo a Globo, passados mais de 10 dias dos protestos não colocou em sua grade uma única vez a questão da necessidade de um impeachment ou coisa parecida.
Então, já que não existe golpe a vista é de extremo bom tom deixar esse argumento bem longe da vista de todos.
Quem você pensa que é? - Em função da agressividade dos novos manifestantes com os partidos políticos de esquerda, seja por ignorância, seja por esperteza até de mais, veio a baila essa segunda forma de discurso deslocado que se manifesta em frases como "Enquanto você estava dormindo, nós estavamos lutando", "Onde você estava?", "Lutas dos últimos 165 anos, PRESENTE! E você?" e outros do mesmo naipe. É claro que o discurso é compreensível mas acaba por responder ao desrespeito dos novos com ainda mais desrespeito e com um tom que facilmente pode ser absorvido como arrogante. Ao invés de ajudar, via de regra, joga mais lenha na fogueira que afasta os novos manifestantes daqueles que naturalmente seriam os mais fiéis representantes de suas lutas: a esquerda socialista.
Você lutou por toda sua vida? Que excelente! Então você sem dúvida é um daqueles que Brecht chamou de imprescindíveis. E é exatamente por ser quem são, que os imprescindíveis não podem de maneira alguma abrir mão dos bons, dos muito bons e dos melhores ainda. Ao invés de reivindicar a autoridade do currículo ou da patente, meu bom amigo, argumente. Você tem todos instrumentos pra fazer isso. Então faça. Sim, é verdade que tem horas que o sangue ferve, mas respire fundo e argumente. Aqui vale abrir um parêntese: a hipótese da argumentação não vale para o caso de embate com fascistas de carteirinha. Aí não. Como dizia o velho Trotsky, "fascismo não se discute, se combate". Fecha parêntese.
E por falar em Trotsky existe uma passagem emblemática na obra mais conhecida do reporter John Reed que conta o ambiente dos dias da revolução russa que um pouco que se encaixa com o que digo aqui. Segue a história:
Um dia, quando chegava à porta de entrada, vi Trótski e sua mulher detidos por um soldado. Trótski remexeu em todos os bolsos, mas não encontrou o cartão de ingresso.Trotsky, com anos dedicados à construção da revolução, barrado por um jovem soldado recém ingresso na luta revolucionária. Mas que absurdo não? Não. Nenhum absurdo. E por acaso o argumento dos anos de serviço resolveu? Nenhum pouquinho. Então segue, o conselho de Trotsky: muita calma nessa hora, meu caro. Muita calma nessa hora.
— Não tem importância — disse, afinal, dirigindo-se ao soldado. — Você naturalmente me conhece. Sou Trótski.
— Sem o cartão você não entra — respondeu-lhe o soldado. — Seu nome não me interessa.
— Mas sou o presidente do Soviete de Petrogrado.
— Se você de fato é pessoa tão importante — replicou o soldado —, deve trazer consigo um papel qualquer, provando sua qualidade.
Trótski não teve outro remédio senão ficar calmo.
domingo, 23 de junho de 2013
Música para refletir sobre os dias atuais: O dia em que o morro descer e não for carnaval.
Essa é com certeza para ajudar a refletir sobre os dias atuais em que manifestantes tomaram as ruas de todo o país. Serve para pensar tanto naquilo que é como naquilo que não é o levante que estamos vivendo por aqui. É bom que se diga que o povo pobre e trabalhador não se envolveu. Assistiu, opinou, mas via de regra não se moveu. Agora no dia que isso acontecer... ah meu amigo, não vai ter elogio de rede de tv, deputado, nem presidente. A história será outra, bem diferente.
O compositor e baterista Wilson da Neves, atualmente com seus 76 anos, descreveu o que seria esse cenário no samba "O dia em que o morro descer e não for carnaval", uma pérola em forma de poesia ritmada. O video que posto a seguir é da participação do músico ao lado do rapper Emicida em show no Sesc Pinheiro no dia 17 de janeiro deste ano. Na sua incursão, Emicida canta um trecho de seu rap "Soldado sem bandeira". Aperta o play e curta o som.
O compositor e baterista Wilson da Neves, atualmente com seus 76 anos, descreveu o que seria esse cenário no samba "O dia em que o morro descer e não for carnaval", uma pérola em forma de poesia ritmada. O video que posto a seguir é da participação do músico ao lado do rapper Emicida em show no Sesc Pinheiro no dia 17 de janeiro deste ano. Na sua incursão, Emicida canta um trecho de seu rap "Soldado sem bandeira". Aperta o play e curta o som.
Wilson da Neves: O dia em que o morro descer e não for carnaval
ninguém vai ficar pra assistir o desfile final
na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu
vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil
(é a guerra civil)
No dia em que o morro descer e não for carnaval
não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral
e cada uma ala da escola será uma quadrilha
a evolução já vai ser de guerrilha
e a alegoria um tremendo arsenal
o tema do enredo vai ser a cidade partida
no dia em que o couro comer na avenida
se o morro descer e não for carnaval
O povo virá de cortiço, alagado e favela
mostrando a miséria sobre a passarela
sem a fantasia que sai no jornal
vai ser uma única escola, uma só bateria
quem vai ser jurado? Ninguém gostaria
que desfile assim não vai ter nada igual
Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga
nem autoridade que compre essa briga
ninguém sabe a força desse pessoal
melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria
senão todo mundo vai sambar no dia
em que o morro descer e não for carnaval.
Emicida: Minha tropa vem do esgoto igual morlock otro esfarrapado
Os lóqui escroto em choque eu percebo os outros indo pro lado
...se nóis chega, sem glock, 9 nem precisa é só no psico
a frieza do nosso olhar já planta medo nos bico
Os vidro sobe, quem deve se apavora
pensando "e se eles quisessem se vingar da escravidão agora?"
To pra morrer igual os 300 de Esparta
cês duvidaram até chegar o teco de orelha nas carta
E agora é sério, nóiz num ta de brincadeira não
cê ainda acha que a guerra memo é no Afeganistão?
Seus rato se camufla com a roupa da cor da babilônia
E as quadrada cromada brilhando mais do que Antônia
Nego fujão de alma vazia com banzo tudo confuso
De capuz cabisbaixo no ultimo banco do buzo
Repelindo ódio, procurando razão pra viver
Problema pra nóis num é morrer, foda é num ter o porque
sábado, 22 de junho de 2013
Cuidar com carinho da primavera brasileira para que não dê lugar a um duro e frio inverno.
Desde a última semana vivemos um desabrochar que rapidamente foi chamado por alguns de primavera brasileira. Um momento absolutamente novo tomou conta das ruas de todo o país. Somente no último dia 20, uma semana após o vandalismo policial contra o ato pela redução da tarifa em São Paulo, mais de um milhão e duzentos cinquenta mil brasileiros tomaram as ruas em mais de 100 cidades de todo o país em um levante popular histórico e inédito. Sim, isso é uma primavera.
Já não há quem tenha coragem de dizer que o povo brasileiro não luta, é frouxo, é covarde. São centenas de milhares que venceram a apatia e tomaram as ruas apesar do estampidos das balas de borracha e do gás sufocante que vem da polícia.
Já não é mais da Turquia, Egito ou Grécia que vem as imagens das ruas e praças ocupadas por manifestantes. As imagens vem da avenida Paulista, da Presidente Vargas, do prédio do Congresso nacional. E via de regra são imagens lindas. Imagens de encher os olhos.
O inusitado disso tudo é que aqui em nosso Brasil não temos um Mubarak, um Khaddafi ou um Bashar al-Assad como há tão pouco tempo enfrentaram os egípcios, os líbios e ainda hoje enfrentam os siríos. Apesar da inflação que vem crescendo nos últimos meses não agonizamos sob uma forte crise econômica como agonizam os gregos, italianos, espanhóis, portugueses e tantos outros povos desde o ano de 2008. E mesmo com os Felicianos, ruralistas e os mais fétidos resquícios da ditadura que empestam o cenário político nacional ainda não estamos vivendo um ambiente de exceção, autoritarismo e fanatismo religioso como os turcos fizeram mostrar ao mundo pelo que passa seu país ao defender a praça Geizi há tão pouco tempo. Não. Nada disso.
Também tornou-se imensamente inusitado que a grande massa que agora toma as ruas, toma não mais pelos 20 centavos tão justamente levantados pelo MPL em São Paulo e que agora caíram. Também não o fazem mais por solidariedade aos manifestantes de São Paulo que apanharam da Polícia, isso já está vencido. Falam que a luta é contra a corrupção e a roubalheira e é muito justo que assim seja mas honestamente não estamos vivendo nenhum novo grande escândalo no país. Falam que luta-se contra a PEC 37 mas ninguém tem dúvida que a quase totalidade dos que agora querem sua não aprovação sequer faziam ideia do que raios era uma PEC há pouco mais de uma semana. É comum, muito comum o clamor por saúde e educação mas quando reparamos bem nos rostos de boa parte dos que agora lutam nos vem a impressão que possivelmente uma grande maioria deles estudam em escolas ou faculdades particulares e não são em grande medida usuários do Sistema Único de Saúde.
Como explicar tudo isso então?
Bem.... lembra daquela história de que a "esperança venceu o medo" pois é pelo que parece ela cansou de esperar, perdeu a paciência e agora foi pra rua. Dez anos se passaram desde que o presidente operário foi eleito e o novo Brasil, tão prometido e celebrado em imensas ondas vermelhas, simplesmente não veio. No lugar do pleno emprego, a precarização do trabalho. No lugar do serviço público de qualidade, o apoio ao individualismo na forma dos planos de saúde, faculdades privadas, previdência complementar e transporte próprio. No lugar do salário digno as prestações a perder de vista. No lugar da reforma agrária, a insegurança cada vez maior das nossas cidades. E tudo isso regado àquele papo de que tá tudo certo, tudo lindo e "joiado" como nunca se viu na história desse país.
Pra fechar a encomenda fomos presenteados com um retrocesso ideológico que tomou conta do país como base da construção das novas gerações. Os empresários tornaram-se parceiros, passou a ser chique dar dinheiro pro FMI, ser de esquerda ou de direita perdeu o sentido e um arsenal de ideias que deixariam manifestantes do passado horrorizados tornaram-se lugar comum. Os dez anos de governo do PT foram uma verdadeira década perdida do ponto de vista ideológico. E é bem aí que mora um dos perigos das flores secarem e só deixarem os espinhos.
Pra fechar a encomenda fomos presenteados com um retrocesso ideológico que tomou conta do país como base da construção das novas gerações. Os empresários tornaram-se parceiros, passou a ser chique dar dinheiro pro FMI, ser de esquerda ou de direita perdeu o sentido e um arsenal de ideias que deixariam manifestantes do passado horrorizados tornaram-se lugar comum. Os dez anos de governo do PT foram uma verdadeira década perdida do ponto de vista ideológico. E é bem aí que mora um dos perigos das flores secarem e só deixarem os espinhos.
Como não entendem as diferenças entre os partidos, entre "esquerda e direita, direitos e poderes", é comum ouvir o grito "sem par-ti-do" em todas as manifestações. Bem... do grito de guerra à guerra propriamente dita o limite é muito pequeno e tanto é assim que nem só de belas imagens foram feitas as manifestações dos últimos dias. Algumas foram bem feias e não é a toa que foram celebradas pela grande imprensa. Bandeiras foram tomadas e quebradas assim como militantes de esquerda agredidos. O grito de "sem vi-o-lên-cia" foi rapidamente substituído por uma intolerância absolutamente descabida. De belo isso não tem absolutamente nada. É assustador.
Mas um outro grande perigo que ronda nossa primavera é o de deixar de cuidar das flores e simplesmente se concentrar nos espinhos. É bom registrar que a intolerância sempre existiu nos grandes centros urbanos do país, o ódio organizado a gays e nordestinos não é novidade. Os fascistas, órfãos e viuvas dos generais que governaram o país entre 1964 e 1985 ainda seguem por aí muitas vezes infestando as redes sociais com suas ideias fétidas e carcomidas. Ocorre que esse lixo humano também está nas ruas. Ao passo que é preciso combatê-lo não é possível reduzir a atenção a unicamente isso.
Nossa primavera está aí. Nem todas as rosas desabrocharam. As mais decisivas fundamentalmente seguem sem mostrar suas cores. A classe trabalhadora não tomou as ruas. É preciso escutá-la e convocá-la a colocar nesse grande jogo seus interesses e necessidades.
Assinar:
Postagens (Atom)









































