segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quem disse que defesa do concurso público é uma bandeira de esquerda?


Quem foi que disse que a defesa de concurso público é uma bandeira de esquerda? Pois se disse, disse errado. Pelo menos no tempo do verbo. O mais coerente seria que ela "foi" e não que ela "é". Isso mesmo. "Foi" do verbo "Já não é mais". Permita-me explicar: uma coisa é defender o concurso público em um estado em que servidores públicos são indicados diretamente pelos governantes como era regra durante o governo militar brasileiro, outra coisa é seguir fazendo agora. Concurso público naquele momento cumpria um papel progressista na medida em que enfrentava o modo de funcionamento dos governos que construíam suas máquinas burocráticas de apoio na base da indicação. Para os governos militares e seus aliados era fundamental, por exemplo, expulsar professores das universidades e colocar em seus lugares gente de confiança. Ora, se até nos sindicatos os generais precisavam de gente de confiança quanto mais no serviço público de uma forma geral.

Mas, é bom lembrar, que já se vão quase 30 anos do último governo militar no país. Vinte e cinco anos já se passaram desde a promulgação da "Constituição Cidadã" que através de seus dispositivos ao menos tentou varrer o apadrinhamento como prática de obtenção de um emprego público. Apesar da tentativa, ainda existe sim muito apadrinhamento e favorecimento. Mas a questão é o quanto esse "muito" deixa de ser de fato qualitativamente importante. O Brasil mudou e segue mudando. E quando falo em mudanças pouco me chama atenção a mudança do regime militar para o regime democrático e muito mais me interessam as mudanças do mundo do trabalho. 

Chego a acreditar que o expediente do concurso público em um Brasil pós-neoliberal e em tempos de super-precarização assume via de regra um papel conservador, de manutenção das coisas como estão e em algumas vezes até mesmo o status de reacionário. E pode isso? Pode sim! No fim das contas não existe bandeira que seja por si só revolucionária. Pois é, quem diria hein?

Frequentar uma repartição pública hoje e não dar de cara com trabalhadores terceirizados é praticamente impossível. Hospitais, escolas, bancos, departamentos... em todos esses lugares, existem trabalhadores contratados para as mais diversas funções na forma de prestação de serviços. Mas mesmo que você não perceba, eles estão lá: Professores, enfermeiros, engenheiros, técnicos os mais diversos, petroleiros, programadores de computador, mecânicos, motoristas, seguranças, faxineiros, etc, etc, etc. Trabalhadores que muitas vezes trabalham mais até que seus colegas concursados, tendem a não faltar, a não se atrasar, a não dar aquela fugidinha no meio do expediente, a não esticar um pouquinho mais que seja durante uma ou outra pausa... isso porque estão sobre eterna vigilância, muita vezes cumprem metas de produtividade e é claro, não possuem o direito à estabilidade. Precisam constantemente provar que são capazes de estar onde estão. Coisa que via de regra nenhum concurso é capaz de medir.

Em alguns estados do país, alguns destes trabalhadores chegam a fazer concurso para conseguir uma vaga de temporário com as mesmas obrigações dos chamados "efetivos" mas com praticamente nenhum direito, às vezes inclusive, sem sequer a limitadíssima cobertura da Consolidação das Leis Trabalhistas. 

É fundamental que se perceba que se eles estão lá é porque primeiro, a necessidade existe para tanto e segundo, eles sabem fazer o que estão fazendo. Há necessidade mas nunca há vagas. E quando há vagas a ser preenchidas na forma de concursos elas nunca são suficientes. E assim, lá vem os defensores do concurso como método definidor do "mérito" para ocupar um emprego público indicar a todos os trabalhadores o único caminho possível para fugir da precarização: "Estudem!".

Mas como assim, "estudem"? Se as vagas são poucas a precarização seguirá. Indicar o caminho do tal "Estudem" é praticamente um fechar de olhos para a armadilha do estado que divide os trabalhadores no serviço público. Defender os tais "concursos" desta forma cumpre sim, um papel de manutenção das coisas como estão. E mais, suponhamos que fossem abertos concursos para cobrir todas as vagas dos trabalhadores "não efetivos": como que esses homens e mulheres via de regra sem condições de abandonar seus postos de trabalho, afinal eles precisam pagar suas contas, poderiam de fato se preparar para as tais provas? Na medida em que a terceirização é uma realidade, defender o concurso público como forma de redenção é como defender uma lei nos moldes daquela chamada de "áurea" que ao mesmo tempo que jogou grilhões no lixo da história também jogou ex-escravos na miséria absoluta.

É preciso trabalho digno para todos. Essa deveria ser uma obrigação do estado. Se há trabalho digno para todos até mesmo a necessidade de concursos se perde. Mas enquanto não se alcança o direito pleno ao trabalho que aqueles que trabalham sejam devidamente reconhecidos. Se é justo que os servidores públicos possuam o direito a estabilidade, da mesma forma também é justo que todos aqueles que já trabalham no serviço público também o tenham. A bandeira de esquerda da atualidade que une trabalhadores e que garante direitos é a que combate a praga da terceirização e defende a efetivação de temporários e terceirizados. Trabalho igual, direito igual. Nada menos que isso. 

sábado, 21 de setembro de 2013

"Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?" (via @passapalavra)

Não é novidade. Não existe reforma agrária no governo de Frente Popular. Não é que simplesmente não exista política de reforma agrária, que de fato não existe, apesar daquela tal promessa do então candidato Lula de que tudo seria feito de uma única canetada. É pior. Não existe mais a luta pela reforma agrária. Pelo menos não como antes de 2003. Na prática uma trégua eterna ao governo petista foi assinada, ainda que sem caneta, pelas lideranças do MST, com a desculpa de que "não é tempo" de ocupações. Isso também não é novidade para muitos dos que já haviam percebido as limitações da aliança entre PT e MST. Novidade é ler uma análise deste naipe de um trabalhador assentado. Vale ler.

Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?
Por um Assentado

Um assentamento novo, cheio de promessas não cumpridas. Está tudo tão diferente! As pessoas se reúnem, querem respostas de quem deveria tomar providências. Nada muda, nada é para mudar!

Ocupações, resistências. Alguns se foram, alguns se escondem, todos por acreditar que era possível a reforma agrária, que o fim justificava os meios. Doce ilusão. Os anos passaram, vai se governo, entram-se outros e nada de mudar.

Ontem ocupávamos fazenda de presidentes, hoje se senta à mesa para negociar com a presidenta. Ontem eram apoiadores, hoje somos mais que amigos. Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?

Novas parcerias surgiram, agroecologia será feita com o agronegócio. Enquanto isso, em uma terra não muito distante, pessoas podem ser despejadas e não têm casa, não têm terra. Triste começo.

Queríamos terra, créditos para produzir. Teremos que trabalhar na cidade para abastecer a mesa. Fazer jóias para pagar as contas. Temos um palmo de terra. A merenda escolar quer feijão, arroz parborizado ou achocolatado industrializado. Vamos esperar as crianças gostarem de alface, mandioca, banana ou quem sabe abóbora?

Onde está o poder de pressão? Ocupar e depois negociar. Abrir as porteiras e deixa povo levantar seus barracos, destruir as canas, plantar. Isso parece não pertencer mais a esta bandeira.

Grita-se a voz. Ocupa ou não ocupa? Agora já não mais. Não é tempo de pressionar, dizem uns, outros dizem que é tempo de disputar. Afinal é tempo de quê?

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

"Eu sei, mas não devia" (#poema de Marina Colasanti recitado por Antônio Abujamra)



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Perdeu Emicida... nenhum machismo merece respeito

Já postamos bastante sobre o trabalho de Emicida. Sempre mereceu nosso respeito. Até que escreveu e cantou "Trepadeira" com direito até a meter o velho Wilson das Neves nessa besteira. História feia que dá até vergonha alheia. Falou o que quis e ouviu o que não quis. Foi alvo de mil e um protestos feministas, peia pra mais de cem e comeu tudo sozinho. E pior, ou melhor, que foi merecido bem mais que merecido. Mas não deixou por isso e respondeu com uma rima dessa vez falada ao invés da cantada. Até que valeu mas simplesmente não convenceu. Valeu porque é bom ouvir alguém alçado ao patamar de ídolo pop dizer que o machismo tem que ser combatido e que sim, "mulheres devem ser livres, pra escolher, viu, es-co-lher, jamais pra encolher". Mas ao mesmo tempo não convenceu na medida em que se defende dizendo que qualquer um tem direito a cantar o que bem entender. Sério? Ainda que o que cante seja o chamado à intolerância e à violência contra a mulher? Pois sinto muito, Emicida, mas mais uma vez não deu. Sua emenda não corrigiu o soneto. No fim das contas pra quem está tão acostumado com as vitórias nas batalhas de versos é bom que se diga que dessa vez Emicida perdeu... nenhum machismo merece respeito.

Poema por poema fico com o da Verinha da Silveira.

"Ouvi teu poema com som de canção
Mas esta melodia não alivia meu coração
Não adianta dizer que disse outrora
Se o que me maltrata é o que cantas agora.

Eu, assim como todas as mulheres, como você diz
Merecemos respeito, merecemos uma vida feliz
Por que cantastes então censurando nossa liberdade
Vestindo de macho recalcado seu personagem?

Por que cantas que merecemos apanhar ? Me diz?
Por que cantas que merecemos ser envenenadas?
Por que cantas que a mulher livre merece ser depreciada?
Por que cantas se não acredita nesta moral infeliz?

Não me venha com poeminha cheio de demagogia,
Discurso bonito? Qualquer um pode fazer sobre a laje fria.
O homem que nos romanceia, é o mesmo que nos mata,
Queremos respeito, não suas rimas dissimuladas.

Disseste que tens o direito de cantar sobre o quiser...
Cantas! Grite ao mundo todo teu direito de oprimir!
Deslize em suas melodias a opressão contra a mulher,
Só não tente com hipocrisia do que cantas se redimir."

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Policial militar baiano agride casal a pauladas. "Mostra a mão! Mostra! Bora minha filha!" #DesmilitarizacaoJA


Um quarto revirado e mal iluminado. Ao pé da parede, duas pessoas negras: ele, cabeça baixa a maior parte do tempo; ela, semi-nua contorcendo-se e gemendo de dor. Do outro canto da sala, dois policiais, um com câmera nas mãos filmando a cena, o outro com um porrete de madeira dando ordens a ela, e em seguida a ele. A mão dela estirada com a palma para cima é seguida do seguinte "diálogo": 

- Palhaçada, viu?

Paaaaaahhhh!!!
- Cadê? Cadê? Mostra a mão. Mostra.
Paaaaaahhhh!!!
- Aaaaiiiiiiii! Ô meu Deus não bate.
- Cadê? Bora minha filha.
Paaaaaahhhh!!!
- Aii! Aii!
- Mostre a mão!
Paaaaaahhhh!!!
- Ai!!!

O policial vira para o homem e diz:
- Esse aqui agora
Paaahhh!! Paaaahhh!!! Paaaaahhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!

A câmera na mão do policial cinegrafista, passeia pelo vão até passar pela garota que pula, esfrega a mão no corpo e geme de dor e fala meio que sem fôlego que não agüenta mais. O policial que encheu as mãos do casal de pauladas, olha pro homem e diz:
- Você pode ir embora!


A mulher pergunta:

- Ô moço, por que eu vou ficar? Por que moço? Eu não fiz nada.

Ao passo que o policial responde:

- Você vai "descer as cordas".

Não.... isso não é nenhum conto macabro de alguma mente doentia para entreter leitores com mentes mais doentias ainda. A cena existe e está no YouTube. Os protagonista desse registro de tortura física finalizado com uma fala que denota um estupro, possivelmente também filmado,, são dois policiais do município de Cadeias, na Bahia. As cenas são revoltantes.

Não faltam relatos sobre a brutalidade no Brasil e em especial na Bahia, uma das policias mais violentas do país. E a cada novo relato temos a absoluta certeza de que a policia militar brasileira tem que acabar. E urgentemente.

Segue o video.

sábado, 7 de setembro de 2013

Independência em #charges


 Mais charges do Jarbas aqui.


 Mais charges do Lute aqui.



 Mais charges do Nani aqui.
Mais charges do Paixão aqui.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

"Mais médicos" é um programa escravocrata?


O programa "Mais médicos" do governo Dilma merece críticas e muitas. Mas as que a grande mídia faz e que são reproduzidas pelo grande senso comum merecem críticas ainda maiores que o próprio programa do governo. Um dos argumentos que primeira chama atenção e que precisa ser colocado devidamente em seu lugar é a de que os cubanos vêm ao Brasil para trabalhar em regime análogo à escravidão.

Talvez seja difícil para um brasileiro entender como um médico pode viver no interior do país com 2500 a 4000 reais, deixar 3000 reais com o governo cubano e outros 3000 a 4500 com a família que ficou em Cuba. Podemos discutir se concordamos ou não com esse modelo de remuneração mas se chamamos isso de escravidão então precisamos definir o que não é escravidão.

Por acaso o que remete à ideia de escravidão é o valor nominal de 2500 a 4000 reais? Até entendo que um médico brasileiro se negue a viver com um valor como esse mas é bom que se lembre que o salário mínimo brasileiro é R$ 678,00 e não são poucos os que vivem do mínimo. Por acaso isso é escravidão? Não, não é! É injusto e miserável mas não é escravidão, nem mesmo semi-escravidão.

O problema seria então pelo fato dos cubanos trabalharem no serviço público sem concurso público e recebendo bolsa ao invés de salário formal? Isso é que é trabalho escravo? A terceirização então é o que? Não são poucos os trabalhadores que trabalham no serviço público como terceirizados e que recebem seus vencimentos por meio de uma cooperativa ou outra empresa que por sua vez ficam com boa parte do dinheiro pago pelos serviços prestados por esses trabalhadores. Terceirização é escravidão? Não, não é! É um instrumento de opressão e super-exploração que não garante direitos iguais para trabalhadores e que precisa ser combatido, mas escravidão não é.

Seria o problema o fato de mais da metade da bolsa paga pelo governo brasileiro não ficar diretamente com o médico? É isso? Bem... brasileiros vivem ilegalmente nos Estados Unidos fazendo serviços os mais diversos e nas relações mais precárias e imagináveis o possível e repassam a maior parte do que ganham para suas famílias ficando somente com o suficiente para sobreviver no país do Tio Sam. Isso é escravidão? Não, não é. É aviltante e revoltante mas não é escravidão.

Então qual é o problema? Seria porque são cubanos e vivem em um país onde não existe a cultura da acumulação pessoal até porque a saúde é pública, o transporte é público, a educação é pública e ser médico não é o sinônimo de ser rico? Seria isso? Nem discuto se Cuba é comunista (que não é por mais que tanto Fidel como a direita raivosa e parte da esquerda digam que é). Isso honestamente não vem ao caso, ou pelo menos não deveria vir. A questão é saber se o trabalho dos cubanos no país se constitui em trabalho escravo por, por exemplo, serem de Cuba. E a resposta é que é claro que isso não é escravidão.

Pode-se discutir que o programa Mais Médicos é eleitoreiro e não resolve o problema da saúde pública no país. Isso sim, faz sentido e precisa ser muito discutido. Mas todo o resto não passa de um discurso irracional e preconceituoso. No fim das contas a única coisa que nos remete à escravidão no argumento de trabalho escravo dos médicos cubanos é a mentalidade escravocrata de quem o utiliza.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A cara de médico dos cubanos, a cara de domésticos dos negros e negras e a cara de pau da classe média brasileira


A jornalista potiguar Micheline Borges não se aguentou em si mesma e deixou escapar o sentimento tão reprimido sobre a imensa resistência em receber médicos cubanos no país. Comentou como quem não queria nada em sua conta de Facebook:
"Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência. Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja O nosso povo!"
É preciso parabenizar Micheline. Dificilmente em uma única postagem uma pessoa comum conseguiria expressar tão bem o monstruoso preconceito tão enraizado em especial em nossa "querida" classe média. A primeira pergunta já dá o tom do que está por vir: "Me perdoem se for preconceito". Ninguém que não vá se lambuzar no lixo de qualquer manifestação preconceituosa começaria uma frase assim. Inconscientemente ou não, Micheline já sabia que o que estava por dizer seria tido como errado. Não que ela considerasse errado. Mas no mínimo ela sentia que estava por cometer um delito que para ela era incontrolável.

"Essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica"! Pronto! Tá falado e é isso mesmo: As tais médicas importadas são a cara da dependência de empregada! E como isso poderia ser possível? Estamos importando médicos e trazemos logo essas "neguinhas" sem graça. Que coisa mais desqualificada, não é mesmo? Ao menos fossem brancos, loiros, altos e de olhos claros, meio assim sabe, com "cara de médico".

Fico imaginando o quanto escrever essa simples frase deve ter proporcionado um alívio quase que imediato à jornalista, meio como quem tira uma verdadeiro peso das costas.

Agora me digam vocês se essa não é uma verdadeira pérola da mais fina flor do preconceito. Em uma única postagem é possível captar racismo, xenofobia, machismo e em especial o preconceito contra a pobreza No Brasil lugar de mulher negra não pode ser em hipótese alguma em consultórios e hospitais. Seu lugar é na cozinha, servindo e limpando a sujeira da branqueza real.

Não são poucos os que pensam assim. Verdade seja dita, essa ideologia escravocrata não é um privilégio de Micheline. Tanto é assim que no nosso bom Ceará, terra da luz, o primeiro estado a ter um de seu municípios a abolir a escravidão, os primeiros médicos cubanos foram escrachados em um corredor polonês aos gritos de "escravo, escravo" e "voltem para a senzala". "Escravos" por receber uma bolsa de 10 mil reais em que 3 mil ficarão com o governo cubano e outros 2 mil serão encaminhados para as famílias dos médicos. "Voltem para a senzala" porque são negros e lugar de negro em nosso bom Brasil brasileiro, para nossa "querida" classe média ainda é na senzala.

Mas Micheline tanto quanto os médicos racistas cearenses que se deram ao desserviço de achincalhar os cubanos tiveram a ousadia de dar corpo e voz ao preconceito de nossa classe média. Se os cubanos não tem cara de médicos e sim de empregados domésticos por serem negros, Micheline e os tais médicos tem muita cara de pau de manifestar todo seu ódio de classe.

Particularmente nós temos muito a agradecer a eles por se exibirem de forma tão escancarada. Só assim temos como exigir que sejam devidamente processados e presos por terem cometido crime inafiançável. Cadeia neles!

domingo, 25 de agosto de 2013

Minidocumentário "La surconsommation" mostra uma das muitas faces doentias do consumo excessivo moderno.


"La surconsommation" (o consumo excessivo) é um minidocumentário francês de pouco mais de seis minutos de imagens sem uma única palavra para ser ouvida ou mesmo lida. Imagens que saem da grande rede mundial de abatedouros de frangos, produtores de leite, criadores de carnes bovina e suína, passando pela redes de supermecardos, fast-foods, praças de alimentação e concluindo nos consultórios médicos especializados em tratamento de obesidade. De forma muito inteligente o filme mostra uma cadeia produtiva que começa e termina na faca.

Essa é só uma das muitas faces doentias do superconsumo moderno. Poderíamos ainda falar da produção de televisores, aparelhos celulares, computadores, video-games, brinquedos, sapatos, roupas, motos, carros, remédios e uma lista sem fim de mais e mais falsas necessidades empurradas na vida das pessoas, ou goela a dentro para fazer uma referência ao minidocumentário. Esse não é um problema da forma como individualmente tratamos os animais, a natureza ou mesmo o planeta. Nada disso.

O consumismo é fruto de uma sociedade doentia baseada na fome não de comida ou de bens de consumo mas de dinheiro, de lucro, de capital. É o capital que perpassa por toda a cadeia produtiva, alienando, escravizando, adoecendo e matando tudo o que transforma em mão de obra ou mesmo em matéria prima para novas mercadorias. Inclua-se aí nas "novas mercadorias" inclusive os próprios seres humanos, que em "La surconsommation" tornam-se a própria natureza a ser transformada à base do bisturi.

E a produção de capital apesar de violenta é tão sutil que por vezes podemos crer que o grande problema é o egoísmo e a mesquinharia das pessoas que só pensam em comer e comer sem parar para pensar de onde vem aquilo que comem. Nada mais falso. Aquilo que não vemos mas que está bem na frente de nossos olhos é o egoísmo e a mesquinharia das pessoas que só pensam em engordar não seus estômagos mas suas contas-bancárias à custa da superprodução de mercadorias, da super-exploração de trabalhadores de toda a cadeia produtiva e do superconsumo dos que são tangidos aos fast-foods tal como o gado que marcha para os campos de engorda. Eis o X da questão.

Vale assistir e refletir sobre o assunto.


La surconsommation from Lasurconsommation on Vimeo.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O dedo sujo do maleducado secretário de educação de Fortaleza e a sujeira sem fim dos Ferreira Gomes #ForaIvoGomes


O secretário municipal de Educação de Fortaleza teclou ofensas a mais do que devia com a militância da redes sociais. Ivo Gomes é irmão do atual governador do Ceará, Cid Gomes, e do ex-prefeito, ex-ministro, ex-presidenciável e execrável Ciro Ferreira Gomes. Pelo jeito a forma ruim de um é exatamente a mesma a de todo o clã e honestamente é muita sujeira pra uma famíla só. Aos impropérios ditos por Ciro ao longo de sua carreira política e às impobridades feitas por Cid em 6 anos e meio de governo somam-se agora às grosserias de seu irmão Ivo que na última segunda-feira, dia 19, levou adiante um bate-boca virtual através do Facebook com o internauta Renato Yuri.

Não é a primeira vez que o destemperado secretário arma o barraco virtual com internautas mas é a primeira vez que desce ao nível que desceu. Como resposta à provocação de Yuri que chamou o governador de "Cidoca Dondoca", Ivo Gomes disparou um "enfie o dedo no cu e rasgue, marginal". Exatamente isso. Na sequência chamou o internauta de "marginal", "aprendiz de bandido", "meio tapadim" e pra fechar a conta da obra mandou um "vá dá o cuzim pro João Alfredo"

Obviamente as diabruras do maleducado secretário de educação não poderiam passar em branco para qualquer prefeito. E Roberto Cláudio veio a público comentar o ocorrido. Só que como bom capacho da família real, ao invés de repreender, defendeu seu secretário. É sem dúvida a apoteose da submissão. Chamar de "firmes e contundentes" as porcarias tecladas pelos dedos sujos de Ivo Gomes é no mínimo uma piada de altíssimo mau-gosto.

Um amigo de Maceió me chamou atenção para o fato de que por muito, mas muito menos mesmo, o secretário de educação da capital alagoana, Adriano Soares Costa, deixou o cargo no último dia 12 de julho. Na noite do dia 11 o secretário postou um famoso video da apresentadora Eliana em sua conta no Facebook como forma de sugestão aos manifestantes alagoanos para que fossem "tomar no cu". Arrependido, apagou a mensagem e em seu lugar postou um pedido público de desculpas. No dia seguinte, entregou o cargo. Já foi tarde. Mas sua atitude ao menos nesse momento foi a de um "homem público". O mesmo não se pode dizer dos Ferreira Gomes.

O pedido de desculpas em nosso caso já não cabe mais. A permanência de Ivo Gomes na secretária de educação de Fortaleza é a verdadeira ofensa a todo o povo de Fortaleza. Seu afastamento é mais que necessário. É uma obrigação. 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Leon Trotsky: Presente! Até o socialismo: Sempre!


Em 21 de agosto de 1940 morreu Lev Davidovich Bronstein, o homem cujas ideias e pseudônimo, Leon Trotsky, fizeram a seu tempo e de grande maneira fazem ainda hoje, 73 anos depois, estremecer de horror e ódio o coração de muitos poderosos. Foi assassinado por Ramon Mercader, um agente provocador que fingiu-se de namorado de sua secretária pessoal para aproximar-se, espionar e se possível matar o revolucionário russo. O atentado foi feito com um golpe de picareta de alpinista na cabeça do homem de então 60 anos. Ainda que ferido de morte gritou a seus seguidores que não matassem o assassino para que assim ele pudesse tornar pública a mente criminosa por trás daquilo: o carniceiro Iosef Stalin. Chegou ao hospital ainda lúcido mas logo entrou em coma vindo a morrer no dia seguinte.

Muito antes do golpe que arrancou-lhe a vida, Trotsky tinha consciência que seus dias estariam contados. Mais cedo ou mais tarde morreria. Ainda naquele ano, em fevereiro, acometido de problemas de saúde escreveu um texto que ficou conhecido como seu testamento onde professa seu amor à causa da revolução socialista que abraçara ainda aos 18 anos, à sua esposa Natasha ("fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura") e à própria vida.

Rendemos aqui nossa homenagem ao velho Leon. Que estejamos à altura de livrar o mundo de todo mal, toda opressão e toda violência tal como nos propõe seu testamento.

Leon Trotsky! Presente! Até o socialismo! Sempre!

"Minha pressão sangüínea elevada (e que continua a elevar-se) engana àqueles que me são próximos sobre minhas reais condições físicas. Estou ativo e capaz de trabalhar, mas o fim está evidentemente próximo. Estas linhas serão tornadas públicas após minha morte.

Não preciso mais uma vez refutar aqui a calúnia vil de Stalin e seus agentes: não há uma só mancha sobre minha honra revolucionária. Não entrei, nem direta nem indiretamente, em nenhum acordo, ou mesmo em nenhuma negociação de bastidores, com os inimigos da classe operária. Milhares de adversários de Stálin tombaram, vítimas de falsas acusações. As novas gerações revolucionárias reabilitarão sua honra política e tratarão seus carrascos do Kremlim como eles merecem.

Agradeço ardentemente aos amigos que se mantiveram leais através das horas mais difíceis de minha vida. Não cito nenhum em particular, porque não os posso citar todos.

Apesar disso, considero-me no direito de fazer exceção para o caso de minha companheira, Natália Ivanovna Sedova. Além da felicidade de ser um combatente da causa do socialismo, quis a sorte me reservar a felicidade de ser seu esposo. Durante quarenta anos de vida comum, ela permaneceu uma fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura. Sofreu grandes dores, principalmente no último período de nossas vidas. Encontro algum conforto no fato de que ela conheceu também dias de felicidade.

Nos quarenta e três anos de minha vida consciente, permaneci um revolucionário; durante quarenta e dois destes, combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recomeçar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imutável. Morro revolucionário proletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, por conseqüência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que o foi nos dias de minha juventude.

Natascha acabou de chegar pelo pátio até a janela e abriu-a completamente para que o ar possa entrar mais livremente em meu quarto. Posso ver a larga faixa de verde sob o muro, sobre ele o claro céu azul, e por todos os lados, a luz solar. A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo ó mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-lá plenamente."

O que é o proletariado e a classe trabalhadora hoje? Ricardo Antunes explica.


Um dos temas que ganhou grande importância desde a queda do muro de Berlim até a nova definição de classe média dos governos petistas é a definição do que é a classe trabalhadora e o que é o proletariado hoje. O professor e sociólogo Ricardo Antunes que tem colocado sua produção teórica a serviço de entender o mundo do trabalho nos ajudar a colocar alguns pingos nos "i's" sobre o assunto com um texto de 2001 escrito para a revista Debate Sindical: O proletariado e a classe trabalhadora hoje.

Apoiado na obra de Karl Marx e Friederich Engels, Ricardo Antunes trata logo de colocar um sinal de igual entre proletariado e classe trabalhadora, esclarecendo que "como Marx e Engels entendemos inicialmente classe trabalhadora e proletariado (em sentido amplo) como sinônimos. Por diversas vezes, eles nos afirmaram que a classe trabalhadora (ou o proletariado) incorpora a totalidade dos assalariados (homens e mulheres), que vive da venda da sua força de trabalho e que é completamente despossuída dos meios de produção".

Mas o professor não para por aí, vai além e provoca: "é possível detectar maior potencialidade mesmo centralidade nos seus segmentos mais qualificados, naqueles que vivenciam uma situação mais "estável" e que têm, conseqüentemente, maior participação no processo de criação de valor? Ou, pelo contrário, o polo mais fértil da ação encontraria maior impulsão nos segmentos assalariados mais precarizados, nos estratos mais subproletarizados ou mesmo nos desempregados?"

Vale a leitura. Clique aqui e bom proveito.

sábado, 17 de agosto de 2013

Roberto Cláudo foi a missa comemorar o aniversário e ganhou de presente um sermão do padre


E a missa que que era pra ser sido festa e palanque pro prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, reverteu-se em uma belíssima demonstração exatamente do contrário graças ao sermão do padre que a celebrava. Nascido em 15 de agosto, feriado católico da padroeira da capital cearense, o afilhado do governador do Ceará, foi ao santuário de Nossa Senhora de Assunção no bairro operário "Barra do Ceará", ganhar afagos da população e em seu lugar ouviu o que não queria. Durante o sermão o Bispo Dom Vasconcelos aproveitou para lembrar ao prefeito do que o povo de Fortaleza precisa, que por sinal está muito distante das famigeradas e questionáveis obras do Viaduto do Cocó e do tal Aquário milionário. Vale destacar que a cada questionamento de Dom Vasconcelos ouviu-se os gritos de apoio da população ali presente.