sábado, 12 de outubro de 2013

O fantasma da proletarização atemoriza os médicos

A edição online da Le Monde Diplomatique publicou no último dia 02 de outubro um interessante artigo sobre o programa "Mais médicos" introduzindo um dos temas centrais no qual está inserido o polêmico programa governista: a proletarização do trabalho médico.

O texto escrito a "seis mãos" por Paulo de Tarso Soares, Ana Paula Paulino da Costa e José Paulo Guedes Pinto traz a tona a questão de classe relacionada com o "Mais médicos" e o quanto ele mete medo em uma boa parte dos médicos de todo o país justo porque coloca o espectro da proletarização na ordem do dia. Não é que a proletarização já não seja uma realidade. Nada disso. Mas na medida em que se aumenta a oferta de médicos no sistema público de saúde naturalmente os inúmeros negócios de medicina entram na linha de tiro. E esse é um dos motivos da revolta de boa parte dos filhos da classe média brasileira que tanto se esforçou para que seus rapazes e meninas subissem de vida ou mesmo os próprios filhos da burguesia médica que quer sua prole mantendo os negócios da família. Esse com certeza é um bom debate com o qual guardo muito acordo.

O que infelizmente o artigo não faz é a devida crítica ao Mais Médicos como um programa que acelera não a proletarização mas a precarização do trabalho médico na medida em que institui a bolsa como como forma de pagamento e legitima a possibilidade de trabalhadores temporários em sub-condições de trabalho. Então se os médicos brasileiros que sonham com a riqueza temem a proletarização é preciso que se diga que o programa do governo vai além e prepara a "sub-proletrização" do trabalho médico. É um ataque monstruoso aos trabalhadores, incluive do serviço público, travestido de medida estadista para combater as mazelas da saúde.

De toda forma é um bom artigo que merece ser lido. A ilustração do post é a mesma do Le Monde e é de autoria de André Dahmer. A quem se interessar recomendo ainda a leitura de nosso post - "Mais médicos" é um programa escravocrata?.


O fantasma da proletarização atemoriza os médicos


Mercado e saúde não têm se revelado uma boa combinação: custos elevados, mau atendimento, negativas de exames e de cirurgias. O setor público não se sai melhor. O corporativismo e uma política deliberada de privatização contribuem para isso. É nesse contexto que as reações ao Mais Médicos precisam ser analisadas

por Paulo de Tarso Soares, Ana Paula Paulino da Costa, José Paulo Guedes Pinto

O que ocorre na medicina não é diferente do que ocorre no resto da economia capitalista. A luta entre patrão e empregado, a tal luta de classes, faz que o trabalho direto seja substituído pelas máquinas. E esse processo não é indolor.

Os equipamentos médicos, em geral produzidos por empresas monopolistas, estão cada vez mais caros. Só são lucrativos se operados em grande escala. Clínicas e hospitais são uma resposta a isso. A centralização de capital ocorre também no lado da demanda, mediante os convênios de saúde que aglutinam pacientes. A monopolização (poder de mercado via cartelização) avança, com a omissão e mesmo com a cumplicidade das instâncias (Executivo, Legislativo e Judiciário) que, supostamente, deveriam coibi-la. Ela só não avança entre os médicos, que cada vez mais se transformam em assalariados (explícitos ou disfarçados).

Mercado e saúde não têm se revelado uma boa combinação: custos elevados, empobrecimento/assalariamento dos médicos, mau atendimento ao público, dificuldades para marcação de consultas, negativas de exames e de cirurgias. O setor público não se sai melhor. O corporativismo e uma política deliberada de privatização contribuem para isso. É nesse contexto que as reações ao Programa Mais Médicos precisam ser analisadas.

Como a profissão de médico é afetada pelo processo descrito? Excluindo os médicos que trabalham nos poucos centros de excelência, esse profissional, hoje, basicamente ouve as queixas dos pacientes, pede exames e receita remédios num modo simplificado. Ele não precisa mais de tanto estudo, de tanto conhecimento de doenças. A tal medicina baseada em evidências e os protocolos transferiram o conhecimento médico para o computador. Ele é quase um operador de computadores.

O fantasma da proletarização atemoriza os médicos. Mas convenhamos, a medicina que estão praticando facilita isso. Ouvir sintomas, inseri-los em um programa de computador que lhe devolve os exames a serem solicitados e os remédios a serem receitados − tais tarefas precisam mesmo de mais do que quinze a vinte minutos com cada paciente? Os convênios pagam mesmo tão pouco aos médicos? Com R$ 30 por consulta não dá mesmo para sonhar com riqueza e prestígio social, mas o médico que faz em média três consultas por hora, trabalhando oito horas por dia, durante vinte dias no mês, gera R$ 14.400 ao final do mês. Isso é pouco?

Ah, responderão os médicos, como amortizo/pago os elevados custos com a minha formação? Mais um personagem, então, entra em cena, pois a centralização de capital também ocorre na educação. Assim, além da monopolização dos equipamentos e dos convênios, a monopolização na educação também “espreme” os médicos.

Isso é tudo? Não! Com o conhecimento médico embutido no computador é preciso que todo e qualquer médico tenha mesmo tantos anos de estudo? Não se está colocando na graduação o que deveria estar na pós-graduação? Dito de outra forma: o perfil da demanda por saúde está de acordo com o perfil da oferta de saúde? É racional formar tantos médicos para lidar com doenças graves quando a maioria dos problemas é de simples resolução? Parece-nos que não! O país precisa muito mais de médicos de família do que médicos de hospital terciário.

Ir para o interior soluciona o problema do assalariamento/empobrecimento? Do ponto de vista privado, os dados indicam que não. Não há por que supor qualquer ilusão monetária nos médicos. A cidade grande é muito atrativa. Os custos de migração são altos, especialmente para as cidades pequenas.

Mas, se é assim, por que a reação histérica, descabida, contra a vinda de médicos estrangeiros, especialmente dos médicos cubanos? A resposta está em que o Programa Mais Médicos afronta a lógica perversa aqui descrita e mexe fundo na ideologia predominante.

Um estetoscópio, um termômetro, um medidor de pressão e outro de glicemia, com a formação adequada, são suficientes para atender a esmagadora maioria dos casos. A presença de mais médicos em locais carentes, sem dúvida, promove um salto quantitativo e qualitativo na saúde local, além de reduzir a pressão sobre os hospitais, que hoje vivem lotados de casos simples e de casos graves. Os controles de pressão e de diabetes mais a divulgação de noções de puericultura fazem isso. O atendimento básico a uma população carente não será feito consumindo os recursos milionários que a área da saúde tanto ambiciona.

O médico que não conseguiu ser uma estrela vê-se espremido por todos os lados. Ideologicamente, no entanto, ele só vê problema na proletarização, pois ela é a negação do sonho de ficar rico, de ascensão social etc. A formação especialista do médico não o ajuda a olhar para o contexto. Treinado em ciência à laGalileu, ele não procura as causas, não olha para o processo, apenas faz associação de eventos e, no caso, considera: evento A (proletarização) versusevento B (sonho de riqueza).

Interesses inconfessáveis e preconceitos afloram. Não se pode desprezar o temor de que os estrangeiros venham concorrer aqui nas grandes cidades. A história está cheia de exemplos de proletários lutando contra proletários. Os cubanos, ademais, remetem o imaginário para o socialismo, tão em baixa desde a queda do Muro de Berlim e a derrocada da URSS. Médico cubano joga na cara a proletarização que tanto repugna o médico sonhador com riquezas e prestígio social.

A irracionalidade é flagrante. A medicina cubana, reconhecida como excelente pela Organização Mundial da Saúde, é acusada de ser de quinta categoria. Toma-se como demagógica uma política de saúde na qual se inclui o Programa Mais Médicos, a qual é diferente da irracionalidade prevalecente no Brasil: a formação de médicos assessórios dos monopólios que dominam a saúde é incompatível com a realidade financeira do nosso país. A prova “tipo OAB” para os médicos é veementemente recusada para os médicos nacionais, mas querem exigi-la (Revalida) dos cubanos, um corporativismo mascarado em defesa da lei (corporativa) e da saúde pública. Chegaram a chamar os cubanos de escravos de Fidel, pois eles receberão menos do que o governo brasileiro pagará à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), que repassará os recursos ao governo de Cuba, mas esquece-se, omite-se, ignora-se, tapa-se a vista para o fato de que essa é a regra no capitalismo. Receber menos que o valor gerado, no capitalismo, é liberdade, mas no chamado socialismo é escravidão. Irônico? Não! Trágico.

Paulo de Tarso Soares
Doutor em Economia (FEA-USP).

Ana Paula Paulino da Costa
Mestre em Contabilidade e Controladoria (FEA-USP) e doutora em Administração – Estudos Organizacionais (EAESP/FGV-SP).

José Paulo Guedes Pinto
Professor doutor da Universidade Federal do ABC (UFABC).

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Todos contra a terceirização! (Videos de atores globais contra o PL 4330/2004)

A ANAMATRA - Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho - e o MHUD - Movimento Humanos Direitos - produziram recentemente dois video com atores globais contra o projeto de lei 4330/2004 que trata da terceirização proposto pelo empresário e deputado federal pelo PMDB de Goiás, Sandro Mabel . O primeiro video conta com a participação de Dira Paes Gilberto Miranda, Priscila Camargo, Bete Mendes e Osmar Prado, e o segundo como Wagner Moura e Camila Pitanga. Todos os atores abriram mão de seus cachês.

Apesar da iniciativa ser a de simplesmente barrar a aprovação do projeto de lei, e não a de verdadeiramente coibir a terceirização que já é uma realidade, vale a pena assisti-los e divulgá-los.



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quem disse que defesa do concurso público é uma bandeira de esquerda?


Quem foi que disse que a defesa de concurso público é uma bandeira de esquerda? Pois se disse, disse errado. Pelo menos no tempo do verbo. O mais coerente seria que ela "foi" e não que ela "é". Isso mesmo. "Foi" do verbo "Já não é mais". Permita-me explicar: uma coisa é defender o concurso público em um estado em que servidores públicos são indicados diretamente pelos governantes como era regra durante o governo militar brasileiro, outra coisa é seguir fazendo agora. Concurso público naquele momento cumpria um papel progressista na medida em que enfrentava o modo de funcionamento dos governos que construíam suas máquinas burocráticas de apoio na base da indicação. Para os governos militares e seus aliados era fundamental, por exemplo, expulsar professores das universidades e colocar em seus lugares gente de confiança. Ora, se até nos sindicatos os generais precisavam de gente de confiança quanto mais no serviço público de uma forma geral.

Mas, é bom lembrar, que já se vão quase 30 anos do último governo militar no país. Vinte e cinco anos já se passaram desde a promulgação da "Constituição Cidadã" que através de seus dispositivos ao menos tentou varrer o apadrinhamento como prática de obtenção de um emprego público. Apesar da tentativa, ainda existe sim muito apadrinhamento e favorecimento. Mas a questão é o quanto esse "muito" deixa de ser de fato qualitativamente importante. O Brasil mudou e segue mudando. E quando falo em mudanças pouco me chama atenção a mudança do regime militar para o regime democrático e muito mais me interessam as mudanças do mundo do trabalho. 

Chego a acreditar que o expediente do concurso público em um Brasil pós-neoliberal e em tempos de super-precarização assume via de regra um papel conservador, de manutenção das coisas como estão e em algumas vezes até mesmo o status de reacionário. E pode isso? Pode sim! No fim das contas não existe bandeira que seja por si só revolucionária. Pois é, quem diria hein?

Frequentar uma repartição pública hoje e não dar de cara com trabalhadores terceirizados é praticamente impossível. Hospitais, escolas, bancos, departamentos... em todos esses lugares, existem trabalhadores contratados para as mais diversas funções na forma de prestação de serviços. Mas mesmo que você não perceba, eles estão lá: Professores, enfermeiros, engenheiros, técnicos os mais diversos, petroleiros, programadores de computador, mecânicos, motoristas, seguranças, faxineiros, etc, etc, etc. Trabalhadores que muitas vezes trabalham mais até que seus colegas concursados, tendem a não faltar, a não se atrasar, a não dar aquela fugidinha no meio do expediente, a não esticar um pouquinho mais que seja durante uma ou outra pausa... isso porque estão sobre eterna vigilância, muita vezes cumprem metas de produtividade e é claro, não possuem o direito à estabilidade. Precisam constantemente provar que são capazes de estar onde estão. Coisa que via de regra nenhum concurso é capaz de medir.

Em alguns estados do país, alguns destes trabalhadores chegam a fazer concurso para conseguir uma vaga de temporário com as mesmas obrigações dos chamados "efetivos" mas com praticamente nenhum direito, às vezes inclusive, sem sequer a limitadíssima cobertura da Consolidação das Leis Trabalhistas. 

É fundamental que se perceba que se eles estão lá é porque primeiro, a necessidade existe para tanto e segundo, eles sabem fazer o que estão fazendo. Há necessidade mas nunca há vagas. E quando há vagas a ser preenchidas na forma de concursos elas nunca são suficientes. E assim, lá vem os defensores do concurso como método definidor do "mérito" para ocupar um emprego público indicar a todos os trabalhadores o único caminho possível para fugir da precarização: "Estudem!".

Mas como assim, "estudem"? Se as vagas são poucas a precarização seguirá. Indicar o caminho do tal "Estudem" é praticamente um fechar de olhos para a armadilha do estado que divide os trabalhadores no serviço público. Defender os tais "concursos" desta forma cumpre sim, um papel de manutenção das coisas como estão. E mais, suponhamos que fossem abertos concursos para cobrir todas as vagas dos trabalhadores "não efetivos": como que esses homens e mulheres via de regra sem condições de abandonar seus postos de trabalho, afinal eles precisam pagar suas contas, poderiam de fato se preparar para as tais provas? Na medida em que a terceirização é uma realidade, defender o concurso público como forma de redenção é como defender uma lei nos moldes daquela chamada de "áurea" que ao mesmo tempo que jogou grilhões no lixo da história também jogou ex-escravos na miséria absoluta.

É preciso trabalho digno para todos. Essa deveria ser uma obrigação do estado. Se há trabalho digno para todos até mesmo a necessidade de concursos se perde. Mas enquanto não se alcança o direito pleno ao trabalho que aqueles que trabalham sejam devidamente reconhecidos. Se é justo que os servidores públicos possuam o direito a estabilidade, da mesma forma também é justo que todos aqueles que já trabalham no serviço público também o tenham. A bandeira de esquerda da atualidade que une trabalhadores e que garante direitos é a que combate a praga da terceirização e defende a efetivação de temporários e terceirizados. Trabalho igual, direito igual. Nada menos que isso. 

sábado, 21 de setembro de 2013

"Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?" (via @passapalavra)

Não é novidade. Não existe reforma agrária no governo de Frente Popular. Não é que simplesmente não exista política de reforma agrária, que de fato não existe, apesar daquela tal promessa do então candidato Lula de que tudo seria feito de uma única canetada. É pior. Não existe mais a luta pela reforma agrária. Pelo menos não como antes de 2003. Na prática uma trégua eterna ao governo petista foi assinada, ainda que sem caneta, pelas lideranças do MST, com a desculpa de que "não é tempo" de ocupações. Isso também não é novidade para muitos dos que já haviam percebido as limitações da aliança entre PT e MST. Novidade é ler uma análise deste naipe de um trabalhador assentado. Vale ler.

Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?
Por um Assentado

Um assentamento novo, cheio de promessas não cumpridas. Está tudo tão diferente! As pessoas se reúnem, querem respostas de quem deveria tomar providências. Nada muda, nada é para mudar!

Ocupações, resistências. Alguns se foram, alguns se escondem, todos por acreditar que era possível a reforma agrária, que o fim justificava os meios. Doce ilusão. Os anos passaram, vai se governo, entram-se outros e nada de mudar.

Ontem ocupávamos fazenda de presidentes, hoje se senta à mesa para negociar com a presidenta. Ontem eram apoiadores, hoje somos mais que amigos. Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?

Novas parcerias surgiram, agroecologia será feita com o agronegócio. Enquanto isso, em uma terra não muito distante, pessoas podem ser despejadas e não têm casa, não têm terra. Triste começo.

Queríamos terra, créditos para produzir. Teremos que trabalhar na cidade para abastecer a mesa. Fazer jóias para pagar as contas. Temos um palmo de terra. A merenda escolar quer feijão, arroz parborizado ou achocolatado industrializado. Vamos esperar as crianças gostarem de alface, mandioca, banana ou quem sabe abóbora?

Onde está o poder de pressão? Ocupar e depois negociar. Abrir as porteiras e deixa povo levantar seus barracos, destruir as canas, plantar. Isso parece não pertencer mais a esta bandeira.

Grita-se a voz. Ocupa ou não ocupa? Agora já não mais. Não é tempo de pressionar, dizem uns, outros dizem que é tempo de disputar. Afinal é tempo de quê?

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

"Eu sei, mas não devia" (#poema de Marina Colasanti recitado por Antônio Abujamra)



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Perdeu Emicida... nenhum machismo merece respeito

Já postamos bastante sobre o trabalho de Emicida. Sempre mereceu nosso respeito. Até que escreveu e cantou "Trepadeira" com direito até a meter o velho Wilson das Neves nessa besteira. História feia que dá até vergonha alheia. Falou o que quis e ouviu o que não quis. Foi alvo de mil e um protestos feministas, peia pra mais de cem e comeu tudo sozinho. E pior, ou melhor, que foi merecido bem mais que merecido. Mas não deixou por isso e respondeu com uma rima dessa vez falada ao invés da cantada. Até que valeu mas simplesmente não convenceu. Valeu porque é bom ouvir alguém alçado ao patamar de ídolo pop dizer que o machismo tem que ser combatido e que sim, "mulheres devem ser livres, pra escolher, viu, es-co-lher, jamais pra encolher". Mas ao mesmo tempo não convenceu na medida em que se defende dizendo que qualquer um tem direito a cantar o que bem entender. Sério? Ainda que o que cante seja o chamado à intolerância e à violência contra a mulher? Pois sinto muito, Emicida, mas mais uma vez não deu. Sua emenda não corrigiu o soneto. No fim das contas pra quem está tão acostumado com as vitórias nas batalhas de versos é bom que se diga que dessa vez Emicida perdeu... nenhum machismo merece respeito.

Poema por poema fico com o da Verinha da Silveira.

"Ouvi teu poema com som de canção
Mas esta melodia não alivia meu coração
Não adianta dizer que disse outrora
Se o que me maltrata é o que cantas agora.

Eu, assim como todas as mulheres, como você diz
Merecemos respeito, merecemos uma vida feliz
Por que cantastes então censurando nossa liberdade
Vestindo de macho recalcado seu personagem?

Por que cantas que merecemos apanhar ? Me diz?
Por que cantas que merecemos ser envenenadas?
Por que cantas que a mulher livre merece ser depreciada?
Por que cantas se não acredita nesta moral infeliz?

Não me venha com poeminha cheio de demagogia,
Discurso bonito? Qualquer um pode fazer sobre a laje fria.
O homem que nos romanceia, é o mesmo que nos mata,
Queremos respeito, não suas rimas dissimuladas.

Disseste que tens o direito de cantar sobre o quiser...
Cantas! Grite ao mundo todo teu direito de oprimir!
Deslize em suas melodias a opressão contra a mulher,
Só não tente com hipocrisia do que cantas se redimir."

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Policial militar baiano agride casal a pauladas. "Mostra a mão! Mostra! Bora minha filha!" #DesmilitarizacaoJA


Um quarto revirado e mal iluminado. Ao pé da parede, duas pessoas negras: ele, cabeça baixa a maior parte do tempo; ela, semi-nua contorcendo-se e gemendo de dor. Do outro canto da sala, dois policiais, um com câmera nas mãos filmando a cena, o outro com um porrete de madeira dando ordens a ela, e em seguida a ele. A mão dela estirada com a palma para cima é seguida do seguinte "diálogo": 

- Palhaçada, viu?

Paaaaaahhhh!!!
- Cadê? Cadê? Mostra a mão. Mostra.
Paaaaaahhhh!!!
- Aaaaiiiiiiii! Ô meu Deus não bate.
- Cadê? Bora minha filha.
Paaaaaahhhh!!!
- Aii! Aii!
- Mostre a mão!
Paaaaaahhhh!!!
- Ai!!!

O policial vira para o homem e diz:
- Esse aqui agora
Paaahhh!! Paaaahhh!!! Paaaaahhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!

A câmera na mão do policial cinegrafista, passeia pelo vão até passar pela garota que pula, esfrega a mão no corpo e geme de dor e fala meio que sem fôlego que não agüenta mais. O policial que encheu as mãos do casal de pauladas, olha pro homem e diz:
- Você pode ir embora!


A mulher pergunta:

- Ô moço, por que eu vou ficar? Por que moço? Eu não fiz nada.

Ao passo que o policial responde:

- Você vai "descer as cordas".

Não.... isso não é nenhum conto macabro de alguma mente doentia para entreter leitores com mentes mais doentias ainda. A cena existe e está no YouTube. Os protagonista desse registro de tortura física finalizado com uma fala que denota um estupro, possivelmente também filmado,, são dois policiais do município de Cadeias, na Bahia. As cenas são revoltantes.

Não faltam relatos sobre a brutalidade no Brasil e em especial na Bahia, uma das policias mais violentas do país. E a cada novo relato temos a absoluta certeza de que a policia militar brasileira tem que acabar. E urgentemente.

Segue o video.

sábado, 7 de setembro de 2013

Independência em #charges


 Mais charges do Jarbas aqui.


 Mais charges do Lute aqui.



 Mais charges do Nani aqui.
Mais charges do Paixão aqui.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

"Mais médicos" é um programa escravocrata?


O programa "Mais médicos" do governo Dilma merece críticas e muitas. Mas as que a grande mídia faz e que são reproduzidas pelo grande senso comum merecem críticas ainda maiores que o próprio programa do governo. Um dos argumentos que primeira chama atenção e que precisa ser colocado devidamente em seu lugar é a de que os cubanos vêm ao Brasil para trabalhar em regime análogo à escravidão.

Talvez seja difícil para um brasileiro entender como um médico pode viver no interior do país com 2500 a 4000 reais, deixar 3000 reais com o governo cubano e outros 3000 a 4500 com a família que ficou em Cuba. Podemos discutir se concordamos ou não com esse modelo de remuneração mas se chamamos isso de escravidão então precisamos definir o que não é escravidão.

Por acaso o que remete à ideia de escravidão é o valor nominal de 2500 a 4000 reais? Até entendo que um médico brasileiro se negue a viver com um valor como esse mas é bom que se lembre que o salário mínimo brasileiro é R$ 678,00 e não são poucos os que vivem do mínimo. Por acaso isso é escravidão? Não, não é! É injusto e miserável mas não é escravidão, nem mesmo semi-escravidão.

O problema seria então pelo fato dos cubanos trabalharem no serviço público sem concurso público e recebendo bolsa ao invés de salário formal? Isso é que é trabalho escravo? A terceirização então é o que? Não são poucos os trabalhadores que trabalham no serviço público como terceirizados e que recebem seus vencimentos por meio de uma cooperativa ou outra empresa que por sua vez ficam com boa parte do dinheiro pago pelos serviços prestados por esses trabalhadores. Terceirização é escravidão? Não, não é! É um instrumento de opressão e super-exploração que não garante direitos iguais para trabalhadores e que precisa ser combatido, mas escravidão não é.

Seria o problema o fato de mais da metade da bolsa paga pelo governo brasileiro não ficar diretamente com o médico? É isso? Bem... brasileiros vivem ilegalmente nos Estados Unidos fazendo serviços os mais diversos e nas relações mais precárias e imagináveis o possível e repassam a maior parte do que ganham para suas famílias ficando somente com o suficiente para sobreviver no país do Tio Sam. Isso é escravidão? Não, não é. É aviltante e revoltante mas não é escravidão.

Então qual é o problema? Seria porque são cubanos e vivem em um país onde não existe a cultura da acumulação pessoal até porque a saúde é pública, o transporte é público, a educação é pública e ser médico não é o sinônimo de ser rico? Seria isso? Nem discuto se Cuba é comunista (que não é por mais que tanto Fidel como a direita raivosa e parte da esquerda digam que é). Isso honestamente não vem ao caso, ou pelo menos não deveria vir. A questão é saber se o trabalho dos cubanos no país se constitui em trabalho escravo por, por exemplo, serem de Cuba. E a resposta é que é claro que isso não é escravidão.

Pode-se discutir que o programa Mais Médicos é eleitoreiro e não resolve o problema da saúde pública no país. Isso sim, faz sentido e precisa ser muito discutido. Mas todo o resto não passa de um discurso irracional e preconceituoso. No fim das contas a única coisa que nos remete à escravidão no argumento de trabalho escravo dos médicos cubanos é a mentalidade escravocrata de quem o utiliza.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A cara de médico dos cubanos, a cara de domésticos dos negros e negras e a cara de pau da classe média brasileira


A jornalista potiguar Micheline Borges não se aguentou em si mesma e deixou escapar o sentimento tão reprimido sobre a imensa resistência em receber médicos cubanos no país. Comentou como quem não queria nada em sua conta de Facebook:
"Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência. Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja O nosso povo!"
É preciso parabenizar Micheline. Dificilmente em uma única postagem uma pessoa comum conseguiria expressar tão bem o monstruoso preconceito tão enraizado em especial em nossa "querida" classe média. A primeira pergunta já dá o tom do que está por vir: "Me perdoem se for preconceito". Ninguém que não vá se lambuzar no lixo de qualquer manifestação preconceituosa começaria uma frase assim. Inconscientemente ou não, Micheline já sabia que o que estava por dizer seria tido como errado. Não que ela considerasse errado. Mas no mínimo ela sentia que estava por cometer um delito que para ela era incontrolável.

"Essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica"! Pronto! Tá falado e é isso mesmo: As tais médicas importadas são a cara da dependência de empregada! E como isso poderia ser possível? Estamos importando médicos e trazemos logo essas "neguinhas" sem graça. Que coisa mais desqualificada, não é mesmo? Ao menos fossem brancos, loiros, altos e de olhos claros, meio assim sabe, com "cara de médico".

Fico imaginando o quanto escrever essa simples frase deve ter proporcionado um alívio quase que imediato à jornalista, meio como quem tira uma verdadeiro peso das costas.

Agora me digam vocês se essa não é uma verdadeira pérola da mais fina flor do preconceito. Em uma única postagem é possível captar racismo, xenofobia, machismo e em especial o preconceito contra a pobreza No Brasil lugar de mulher negra não pode ser em hipótese alguma em consultórios e hospitais. Seu lugar é na cozinha, servindo e limpando a sujeira da branqueza real.

Não são poucos os que pensam assim. Verdade seja dita, essa ideologia escravocrata não é um privilégio de Micheline. Tanto é assim que no nosso bom Ceará, terra da luz, o primeiro estado a ter um de seu municípios a abolir a escravidão, os primeiros médicos cubanos foram escrachados em um corredor polonês aos gritos de "escravo, escravo" e "voltem para a senzala". "Escravos" por receber uma bolsa de 10 mil reais em que 3 mil ficarão com o governo cubano e outros 2 mil serão encaminhados para as famílias dos médicos. "Voltem para a senzala" porque são negros e lugar de negro em nosso bom Brasil brasileiro, para nossa "querida" classe média ainda é na senzala.

Mas Micheline tanto quanto os médicos racistas cearenses que se deram ao desserviço de achincalhar os cubanos tiveram a ousadia de dar corpo e voz ao preconceito de nossa classe média. Se os cubanos não tem cara de médicos e sim de empregados domésticos por serem negros, Micheline e os tais médicos tem muita cara de pau de manifestar todo seu ódio de classe.

Particularmente nós temos muito a agradecer a eles por se exibirem de forma tão escancarada. Só assim temos como exigir que sejam devidamente processados e presos por terem cometido crime inafiançável. Cadeia neles!

domingo, 25 de agosto de 2013

Minidocumentário "La surconsommation" mostra uma das muitas faces doentias do consumo excessivo moderno.


"La surconsommation" (o consumo excessivo) é um minidocumentário francês de pouco mais de seis minutos de imagens sem uma única palavra para ser ouvida ou mesmo lida. Imagens que saem da grande rede mundial de abatedouros de frangos, produtores de leite, criadores de carnes bovina e suína, passando pela redes de supermecardos, fast-foods, praças de alimentação e concluindo nos consultórios médicos especializados em tratamento de obesidade. De forma muito inteligente o filme mostra uma cadeia produtiva que começa e termina na faca.

Essa é só uma das muitas faces doentias do superconsumo moderno. Poderíamos ainda falar da produção de televisores, aparelhos celulares, computadores, video-games, brinquedos, sapatos, roupas, motos, carros, remédios e uma lista sem fim de mais e mais falsas necessidades empurradas na vida das pessoas, ou goela a dentro para fazer uma referência ao minidocumentário. Esse não é um problema da forma como individualmente tratamos os animais, a natureza ou mesmo o planeta. Nada disso.

O consumismo é fruto de uma sociedade doentia baseada na fome não de comida ou de bens de consumo mas de dinheiro, de lucro, de capital. É o capital que perpassa por toda a cadeia produtiva, alienando, escravizando, adoecendo e matando tudo o que transforma em mão de obra ou mesmo em matéria prima para novas mercadorias. Inclua-se aí nas "novas mercadorias" inclusive os próprios seres humanos, que em "La surconsommation" tornam-se a própria natureza a ser transformada à base do bisturi.

E a produção de capital apesar de violenta é tão sutil que por vezes podemos crer que o grande problema é o egoísmo e a mesquinharia das pessoas que só pensam em comer e comer sem parar para pensar de onde vem aquilo que comem. Nada mais falso. Aquilo que não vemos mas que está bem na frente de nossos olhos é o egoísmo e a mesquinharia das pessoas que só pensam em engordar não seus estômagos mas suas contas-bancárias à custa da superprodução de mercadorias, da super-exploração de trabalhadores de toda a cadeia produtiva e do superconsumo dos que são tangidos aos fast-foods tal como o gado que marcha para os campos de engorda. Eis o X da questão.

Vale assistir e refletir sobre o assunto.


La surconsommation from Lasurconsommation on Vimeo.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O dedo sujo do maleducado secretário de educação de Fortaleza e a sujeira sem fim dos Ferreira Gomes #ForaIvoGomes


O secretário municipal de Educação de Fortaleza teclou ofensas a mais do que devia com a militância da redes sociais. Ivo Gomes é irmão do atual governador do Ceará, Cid Gomes, e do ex-prefeito, ex-ministro, ex-presidenciável e execrável Ciro Ferreira Gomes. Pelo jeito a forma ruim de um é exatamente a mesma a de todo o clã e honestamente é muita sujeira pra uma famíla só. Aos impropérios ditos por Ciro ao longo de sua carreira política e às impobridades feitas por Cid em 6 anos e meio de governo somam-se agora às grosserias de seu irmão Ivo que na última segunda-feira, dia 19, levou adiante um bate-boca virtual através do Facebook com o internauta Renato Yuri.

Não é a primeira vez que o destemperado secretário arma o barraco virtual com internautas mas é a primeira vez que desce ao nível que desceu. Como resposta à provocação de Yuri que chamou o governador de "Cidoca Dondoca", Ivo Gomes disparou um "enfie o dedo no cu e rasgue, marginal". Exatamente isso. Na sequência chamou o internauta de "marginal", "aprendiz de bandido", "meio tapadim" e pra fechar a conta da obra mandou um "vá dá o cuzim pro João Alfredo"

Obviamente as diabruras do maleducado secretário de educação não poderiam passar em branco para qualquer prefeito. E Roberto Cláudio veio a público comentar o ocorrido. Só que como bom capacho da família real, ao invés de repreender, defendeu seu secretário. É sem dúvida a apoteose da submissão. Chamar de "firmes e contundentes" as porcarias tecladas pelos dedos sujos de Ivo Gomes é no mínimo uma piada de altíssimo mau-gosto.

Um amigo de Maceió me chamou atenção para o fato de que por muito, mas muito menos mesmo, o secretário de educação da capital alagoana, Adriano Soares Costa, deixou o cargo no último dia 12 de julho. Na noite do dia 11 o secretário postou um famoso video da apresentadora Eliana em sua conta no Facebook como forma de sugestão aos manifestantes alagoanos para que fossem "tomar no cu". Arrependido, apagou a mensagem e em seu lugar postou um pedido público de desculpas. No dia seguinte, entregou o cargo. Já foi tarde. Mas sua atitude ao menos nesse momento foi a de um "homem público". O mesmo não se pode dizer dos Ferreira Gomes.

O pedido de desculpas em nosso caso já não cabe mais. A permanência de Ivo Gomes na secretária de educação de Fortaleza é a verdadeira ofensa a todo o povo de Fortaleza. Seu afastamento é mais que necessário. É uma obrigação.