domingo, 10 de novembro de 2013
sábado, 9 de novembro de 2013
"Se o Estado é um instrumento de combate não pararemos até o destruí-lo" (ouça EINA cantando O Estado e a Revolução)
O grupo basco EINA está na estrada das músicas engajadas desde 1992 quando era conhecido como Inadaptats. De lá pra cá tem cativado fãs não só na Catalunha, como na Espanha e Portugal com suas letras politizadas como por exemplo "O Estado e a Revolução" com referências a Marx, Engels e Lênin. Vale conhecer e divulgar.
Não, não choraremos nunca mais
Chega de lamber nossas feridas pelos golpes da vida
Tantos erros convertidos em temores
Morreram utopias
Buscamos outras vias
Somos filhos dessas ruas
onde morreram tantos proletários
deixando de herança as suas experiências
Tantos combates onde fomos derrotados
Não repetiremos a história!
Agora viveremos a glória!
Sempre o que trabalha
não detém os meios que lhe dão trabalho
Não temos mais do que as feridas!
As nossas mãos são o nosso capital!
Tudo, tudo que aprendemos é guia para os proletários!
Marx, Engels, Lênin
Karl Marx, Engels, Lênin
Se o Estado é um instrumento de combate
não pararemos até o destruí-lo
e gritaremos: Vitória!
Sempre o que trabalha
não detém os meios que lhe dão trabalho
Não temos mais do que as feridas!
As nossas mãos são o nosso capital!
O Socialismo abre as portas para construir
a democracia real!
Sempre o que trabalha
não detém os meios que lhe dão trabalho
Não temos mais do que as feridas!
As nossas mãos são o nosso capital!
O Socialismo abre as portas para construir
a democracia real!
O comunismo é a nossa meta
onde celebraremos a extinção de todo o Estado
a extinção de todo o Estado!
Não, não choraremos nunca mais
Chega de lamber nossas feridas pelos golpes da vida
Tantos erros convertidos em temores
Morreram utopias
Buscamos outras vias
Somos filhos dessas ruas
onde morreram tantos proletários
deixando de herança as suas experiências
Tantos combates onde fomos derrotados
Não repetiremos a história!
Agora viveremos a glória!
Sempre o que trabalha
não detém os meios que lhe dão trabalho
Não temos mais do que as feridas!
As nossas mãos são o nosso capital!
Tudo, tudo que aprendemos é guia para os proletários!
Marx, Engels, Lênin
Karl Marx, Engels, Lênin
Se o Estado é um instrumento de combate
não pararemos até o destruí-lo
e gritaremos: Vitória!
Sempre o que trabalha
não detém os meios que lhe dão trabalho
Não temos mais do que as feridas!
As nossas mãos são o nosso capital!
O Socialismo abre as portas para construir
a democracia real!
Sempre o que trabalha
não detém os meios que lhe dão trabalho
Não temos mais do que as feridas!
As nossas mãos são o nosso capital!
O Socialismo abre as portas para construir
a democracia real!
O comunismo é a nossa meta
onde celebraremos a extinção de todo o Estado
a extinção de todo o Estado!
domingo, 3 de novembro de 2013
Se os Tubarões Fossem Homens (#poema de Brecht e video de Pedro Cavalcanti)
"Se os Tubarões Fossem Homens" é um daqueles textos fantásticos de Bertold Brecht que relaciona a suposta selvageria dos temidos tubarões com a civilidade do ser humano. Existem versões diferentes sobre o poema. Um deles começa com uma pequena menina perguntando ao senhor "K" se os tubarões seriam mais amáveis com os peixinhos se por acaso fossem homens. A resposta do senhor K é reveladora.
Segue video editado por Pedro Cavalcanti aproveitando-se da narração de Antônio Abujamra e de várias imagens da internet que aliás ficou muito bom.
Se os Tubarões Fossem Homens
Bertold Brecht
Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
Segue video editado por Pedro Cavalcanti aproveitando-se da narração de Antônio Abujamra e de várias imagens da internet que aliás ficou muito bom.
Se os Tubarões Fossem Homens
Bertold Brecht
Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
Charge fantástica de @WillLeite resgata letra de Engenheiros do Hawaii para dar som ao caso Amarildo
No último dia 25/10, Will Leite postou uma charge genial em sua página, o WillTirando. Will foi buscar matéria prima para seu traço na música "Somos quem podemos ser" do álbum de 1988, "Ouça o que eu digo: não ouça ninguém" da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii.
Usando do recurso dos quadrinhos, o cartunista passou pelos versos "Quem ocupa o trono tem culpa/ Quem oculta o crime também/ Quem duvida da vida tem culpa/ Quem evita a dúvida também tem" trazendo à tona o caso do pedreiro Amarildo, morto pela polícia do Rio de Janeiro.
Fantástico Will. Meus parabéns.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Um chamado aos homens: como você seria se não estivesse preso à sua "Caixa de homem"?
Tony Porter é um educador e ativista estadunidense fundador da organização "A Call to Men" (Um chamado para os homens) dedicado ao combate e ao fim da violência contra as mulheres. Em seu chamado Tony explica o que ele define como "Caixa de homem" e a necessidade de simplesmente "não se agir como um homem". Não entendeu? Assista o video. E faça mais: divulgue-o.
sábado, 12 de outubro de 2013
O fantasma da proletarização atemoriza os médicos
A edição online da Le Monde Diplomatique publicou no último dia 02 de outubro um interessante artigo sobre o programa "Mais médicos" introduzindo um dos temas centrais no qual está inserido o polêmico programa governista: a proletarização do trabalho médico.
O texto escrito a "seis mãos" por Paulo de Tarso Soares, Ana Paula Paulino da Costa e José Paulo Guedes Pinto traz a tona a questão de classe relacionada com o "Mais médicos" e o quanto ele mete medo em uma boa parte dos médicos de todo o país justo porque coloca o espectro da proletarização na ordem do dia. Não é que a proletarização já não seja uma realidade. Nada disso. Mas na medida em que se aumenta a oferta de médicos no sistema público de saúde naturalmente os inúmeros negócios de medicina entram na linha de tiro. E esse é um dos motivos da revolta de boa parte dos filhos da classe média brasileira que tanto se esforçou para que seus rapazes e meninas subissem de vida ou mesmo os próprios filhos da burguesia médica que quer sua prole mantendo os negócios da família. Esse com certeza é um bom debate com o qual guardo muito acordo.
O que infelizmente o artigo não faz é a devida crítica ao Mais Médicos como um programa que acelera não a proletarização mas a precarização do trabalho médico na medida em que institui a bolsa como como forma de pagamento e legitima a possibilidade de trabalhadores temporários em sub-condições de trabalho. Então se os médicos brasileiros que sonham com a riqueza temem a proletarização é preciso que se diga que o programa do governo vai além e prepara a "sub-proletrização" do trabalho médico. É um ataque monstruoso aos trabalhadores, incluive do serviço público, travestido de medida estadista para combater as mazelas da saúde.
De toda forma é um bom artigo que merece ser lido. A ilustração do post é a mesma do Le Monde e é de autoria de André Dahmer. A quem se interessar recomendo ainda a leitura de nosso post - "Mais médicos" é um programa escravocrata?.
Mercado e saúde não têm se revelado uma boa combinação: custos elevados, mau atendimento, negativas de exames e de cirurgias. O setor público não se sai melhor. O corporativismo e uma política deliberada de privatização contribuem para isso. É nesse contexto que as reações ao Mais Médicos precisam ser analisadas
por Paulo de Tarso Soares, Ana Paula Paulino da Costa, José Paulo Guedes Pinto
O que ocorre na medicina não é diferente do que ocorre no resto da economia capitalista. A luta entre patrão e empregado, a tal luta de classes, faz que o trabalho direto seja substituído pelas máquinas. E esse processo não é indolor.
Os equipamentos médicos, em geral produzidos por empresas monopolistas, estão cada vez mais caros. Só são lucrativos se operados em grande escala. Clínicas e hospitais são uma resposta a isso. A centralização de capital ocorre também no lado da demanda, mediante os convênios de saúde que aglutinam pacientes. A monopolização (poder de mercado via cartelização) avança, com a omissão e mesmo com a cumplicidade das instâncias (Executivo, Legislativo e Judiciário) que, supostamente, deveriam coibi-la. Ela só não avança entre os médicos, que cada vez mais se transformam em assalariados (explícitos ou disfarçados).
Mercado e saúde não têm se revelado uma boa combinação: custos elevados, empobrecimento/assalariamento dos médicos, mau atendimento ao público, dificuldades para marcação de consultas, negativas de exames e de cirurgias. O setor público não se sai melhor. O corporativismo e uma política deliberada de privatização contribuem para isso. É nesse contexto que as reações ao Programa Mais Médicos precisam ser analisadas.
Como a profissão de médico é afetada pelo processo descrito? Excluindo os médicos que trabalham nos poucos centros de excelência, esse profissional, hoje, basicamente ouve as queixas dos pacientes, pede exames e receita remédios num modo simplificado. Ele não precisa mais de tanto estudo, de tanto conhecimento de doenças. A tal medicina baseada em evidências e os protocolos transferiram o conhecimento médico para o computador. Ele é quase um operador de computadores.
O fantasma da proletarização atemoriza os médicos. Mas convenhamos, a medicina que estão praticando facilita isso. Ouvir sintomas, inseri-los em um programa de computador que lhe devolve os exames a serem solicitados e os remédios a serem receitados − tais tarefas precisam mesmo de mais do que quinze a vinte minutos com cada paciente? Os convênios pagam mesmo tão pouco aos médicos? Com R$ 30 por consulta não dá mesmo para sonhar com riqueza e prestígio social, mas o médico que faz em média três consultas por hora, trabalhando oito horas por dia, durante vinte dias no mês, gera R$ 14.400 ao final do mês. Isso é pouco?
Ah, responderão os médicos, como amortizo/pago os elevados custos com a minha formação? Mais um personagem, então, entra em cena, pois a centralização de capital também ocorre na educação. Assim, além da monopolização dos equipamentos e dos convênios, a monopolização na educação também “espreme” os médicos.
Isso é tudo? Não! Com o conhecimento médico embutido no computador é preciso que todo e qualquer médico tenha mesmo tantos anos de estudo? Não se está colocando na graduação o que deveria estar na pós-graduação? Dito de outra forma: o perfil da demanda por saúde está de acordo com o perfil da oferta de saúde? É racional formar tantos médicos para lidar com doenças graves quando a maioria dos problemas é de simples resolução? Parece-nos que não! O país precisa muito mais de médicos de família do que médicos de hospital terciário.
Ir para o interior soluciona o problema do assalariamento/empobrecimento? Do ponto de vista privado, os dados indicam que não. Não há por que supor qualquer ilusão monetária nos médicos. A cidade grande é muito atrativa. Os custos de migração são altos, especialmente para as cidades pequenas.
Mas, se é assim, por que a reação histérica, descabida, contra a vinda de médicos estrangeiros, especialmente dos médicos cubanos? A resposta está em que o Programa Mais Médicos afronta a lógica perversa aqui descrita e mexe fundo na ideologia predominante.
Um estetoscópio, um termômetro, um medidor de pressão e outro de glicemia, com a formação adequada, são suficientes para atender a esmagadora maioria dos casos. A presença de mais médicos em locais carentes, sem dúvida, promove um salto quantitativo e qualitativo na saúde local, além de reduzir a pressão sobre os hospitais, que hoje vivem lotados de casos simples e de casos graves. Os controles de pressão e de diabetes mais a divulgação de noções de puericultura fazem isso. O atendimento básico a uma população carente não será feito consumindo os recursos milionários que a área da saúde tanto ambiciona.
O médico que não conseguiu ser uma estrela vê-se espremido por todos os lados. Ideologicamente, no entanto, ele só vê problema na proletarização, pois ela é a negação do sonho de ficar rico, de ascensão social etc. A formação especialista do médico não o ajuda a olhar para o contexto. Treinado em ciência à laGalileu, ele não procura as causas, não olha para o processo, apenas faz associação de eventos e, no caso, considera: evento A (proletarização) versusevento B (sonho de riqueza).
Interesses inconfessáveis e preconceitos afloram. Não se pode desprezar o temor de que os estrangeiros venham concorrer aqui nas grandes cidades. A história está cheia de exemplos de proletários lutando contra proletários. Os cubanos, ademais, remetem o imaginário para o socialismo, tão em baixa desde a queda do Muro de Berlim e a derrocada da URSS. Médico cubano joga na cara a proletarização que tanto repugna o médico sonhador com riquezas e prestígio social.
A irracionalidade é flagrante. A medicina cubana, reconhecida como excelente pela Organização Mundial da Saúde, é acusada de ser de quinta categoria. Toma-se como demagógica uma política de saúde na qual se inclui o Programa Mais Médicos, a qual é diferente da irracionalidade prevalecente no Brasil: a formação de médicos assessórios dos monopólios que dominam a saúde é incompatível com a realidade financeira do nosso país. A prova “tipo OAB” para os médicos é veementemente recusada para os médicos nacionais, mas querem exigi-la (Revalida) dos cubanos, um corporativismo mascarado em defesa da lei (corporativa) e da saúde pública. Chegaram a chamar os cubanos de escravos de Fidel, pois eles receberão menos do que o governo brasileiro pagará à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), que repassará os recursos ao governo de Cuba, mas esquece-se, omite-se, ignora-se, tapa-se a vista para o fato de que essa é a regra no capitalismo. Receber menos que o valor gerado, no capitalismo, é liberdade, mas no chamado socialismo é escravidão. Irônico? Não! Trágico.
Paulo de Tarso Soares
Doutor em Economia (FEA-USP).
Ana Paula Paulino da Costa
Mestre em Contabilidade e Controladoria (FEA-USP) e doutora em Administração – Estudos Organizacionais (EAESP/FGV-SP).
José Paulo Guedes Pinto
Professor doutor da Universidade Federal do ABC (UFABC).
O texto escrito a "seis mãos" por Paulo de Tarso Soares, Ana Paula Paulino da Costa e José Paulo Guedes Pinto traz a tona a questão de classe relacionada com o "Mais médicos" e o quanto ele mete medo em uma boa parte dos médicos de todo o país justo porque coloca o espectro da proletarização na ordem do dia. Não é que a proletarização já não seja uma realidade. Nada disso. Mas na medida em que se aumenta a oferta de médicos no sistema público de saúde naturalmente os inúmeros negócios de medicina entram na linha de tiro. E esse é um dos motivos da revolta de boa parte dos filhos da classe média brasileira que tanto se esforçou para que seus rapazes e meninas subissem de vida ou mesmo os próprios filhos da burguesia médica que quer sua prole mantendo os negócios da família. Esse com certeza é um bom debate com o qual guardo muito acordo.
O que infelizmente o artigo não faz é a devida crítica ao Mais Médicos como um programa que acelera não a proletarização mas a precarização do trabalho médico na medida em que institui a bolsa como como forma de pagamento e legitima a possibilidade de trabalhadores temporários em sub-condições de trabalho. Então se os médicos brasileiros que sonham com a riqueza temem a proletarização é preciso que se diga que o programa do governo vai além e prepara a "sub-proletrização" do trabalho médico. É um ataque monstruoso aos trabalhadores, incluive do serviço público, travestido de medida estadista para combater as mazelas da saúde.
De toda forma é um bom artigo que merece ser lido. A ilustração do post é a mesma do Le Monde e é de autoria de André Dahmer. A quem se interessar recomendo ainda a leitura de nosso post - "Mais médicos" é um programa escravocrata?.
O fantasma da proletarização atemoriza os médicos
Mercado e saúde não têm se revelado uma boa combinação: custos elevados, mau atendimento, negativas de exames e de cirurgias. O setor público não se sai melhor. O corporativismo e uma política deliberada de privatização contribuem para isso. É nesse contexto que as reações ao Mais Médicos precisam ser analisadas
por Paulo de Tarso Soares, Ana Paula Paulino da Costa, José Paulo Guedes Pinto
O que ocorre na medicina não é diferente do que ocorre no resto da economia capitalista. A luta entre patrão e empregado, a tal luta de classes, faz que o trabalho direto seja substituído pelas máquinas. E esse processo não é indolor.
Os equipamentos médicos, em geral produzidos por empresas monopolistas, estão cada vez mais caros. Só são lucrativos se operados em grande escala. Clínicas e hospitais são uma resposta a isso. A centralização de capital ocorre também no lado da demanda, mediante os convênios de saúde que aglutinam pacientes. A monopolização (poder de mercado via cartelização) avança, com a omissão e mesmo com a cumplicidade das instâncias (Executivo, Legislativo e Judiciário) que, supostamente, deveriam coibi-la. Ela só não avança entre os médicos, que cada vez mais se transformam em assalariados (explícitos ou disfarçados).
Mercado e saúde não têm se revelado uma boa combinação: custos elevados, empobrecimento/assalariamento dos médicos, mau atendimento ao público, dificuldades para marcação de consultas, negativas de exames e de cirurgias. O setor público não se sai melhor. O corporativismo e uma política deliberada de privatização contribuem para isso. É nesse contexto que as reações ao Programa Mais Médicos precisam ser analisadas.
Como a profissão de médico é afetada pelo processo descrito? Excluindo os médicos que trabalham nos poucos centros de excelência, esse profissional, hoje, basicamente ouve as queixas dos pacientes, pede exames e receita remédios num modo simplificado. Ele não precisa mais de tanto estudo, de tanto conhecimento de doenças. A tal medicina baseada em evidências e os protocolos transferiram o conhecimento médico para o computador. Ele é quase um operador de computadores.
O fantasma da proletarização atemoriza os médicos. Mas convenhamos, a medicina que estão praticando facilita isso. Ouvir sintomas, inseri-los em um programa de computador que lhe devolve os exames a serem solicitados e os remédios a serem receitados − tais tarefas precisam mesmo de mais do que quinze a vinte minutos com cada paciente? Os convênios pagam mesmo tão pouco aos médicos? Com R$ 30 por consulta não dá mesmo para sonhar com riqueza e prestígio social, mas o médico que faz em média três consultas por hora, trabalhando oito horas por dia, durante vinte dias no mês, gera R$ 14.400 ao final do mês. Isso é pouco?
Ah, responderão os médicos, como amortizo/pago os elevados custos com a minha formação? Mais um personagem, então, entra em cena, pois a centralização de capital também ocorre na educação. Assim, além da monopolização dos equipamentos e dos convênios, a monopolização na educação também “espreme” os médicos.
Isso é tudo? Não! Com o conhecimento médico embutido no computador é preciso que todo e qualquer médico tenha mesmo tantos anos de estudo? Não se está colocando na graduação o que deveria estar na pós-graduação? Dito de outra forma: o perfil da demanda por saúde está de acordo com o perfil da oferta de saúde? É racional formar tantos médicos para lidar com doenças graves quando a maioria dos problemas é de simples resolução? Parece-nos que não! O país precisa muito mais de médicos de família do que médicos de hospital terciário.
Ir para o interior soluciona o problema do assalariamento/empobrecimento? Do ponto de vista privado, os dados indicam que não. Não há por que supor qualquer ilusão monetária nos médicos. A cidade grande é muito atrativa. Os custos de migração são altos, especialmente para as cidades pequenas.
Mas, se é assim, por que a reação histérica, descabida, contra a vinda de médicos estrangeiros, especialmente dos médicos cubanos? A resposta está em que o Programa Mais Médicos afronta a lógica perversa aqui descrita e mexe fundo na ideologia predominante.
Um estetoscópio, um termômetro, um medidor de pressão e outro de glicemia, com a formação adequada, são suficientes para atender a esmagadora maioria dos casos. A presença de mais médicos em locais carentes, sem dúvida, promove um salto quantitativo e qualitativo na saúde local, além de reduzir a pressão sobre os hospitais, que hoje vivem lotados de casos simples e de casos graves. Os controles de pressão e de diabetes mais a divulgação de noções de puericultura fazem isso. O atendimento básico a uma população carente não será feito consumindo os recursos milionários que a área da saúde tanto ambiciona.
O médico que não conseguiu ser uma estrela vê-se espremido por todos os lados. Ideologicamente, no entanto, ele só vê problema na proletarização, pois ela é a negação do sonho de ficar rico, de ascensão social etc. A formação especialista do médico não o ajuda a olhar para o contexto. Treinado em ciência à laGalileu, ele não procura as causas, não olha para o processo, apenas faz associação de eventos e, no caso, considera: evento A (proletarização) versusevento B (sonho de riqueza).
Interesses inconfessáveis e preconceitos afloram. Não se pode desprezar o temor de que os estrangeiros venham concorrer aqui nas grandes cidades. A história está cheia de exemplos de proletários lutando contra proletários. Os cubanos, ademais, remetem o imaginário para o socialismo, tão em baixa desde a queda do Muro de Berlim e a derrocada da URSS. Médico cubano joga na cara a proletarização que tanto repugna o médico sonhador com riquezas e prestígio social.
A irracionalidade é flagrante. A medicina cubana, reconhecida como excelente pela Organização Mundial da Saúde, é acusada de ser de quinta categoria. Toma-se como demagógica uma política de saúde na qual se inclui o Programa Mais Médicos, a qual é diferente da irracionalidade prevalecente no Brasil: a formação de médicos assessórios dos monopólios que dominam a saúde é incompatível com a realidade financeira do nosso país. A prova “tipo OAB” para os médicos é veementemente recusada para os médicos nacionais, mas querem exigi-la (Revalida) dos cubanos, um corporativismo mascarado em defesa da lei (corporativa) e da saúde pública. Chegaram a chamar os cubanos de escravos de Fidel, pois eles receberão menos do que o governo brasileiro pagará à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), que repassará os recursos ao governo de Cuba, mas esquece-se, omite-se, ignora-se, tapa-se a vista para o fato de que essa é a regra no capitalismo. Receber menos que o valor gerado, no capitalismo, é liberdade, mas no chamado socialismo é escravidão. Irônico? Não! Trágico.
Paulo de Tarso Soares
Doutor em Economia (FEA-USP).
Ana Paula Paulino da Costa
Mestre em Contabilidade e Controladoria (FEA-USP) e doutora em Administração – Estudos Organizacionais (EAESP/FGV-SP).
José Paulo Guedes Pinto
Professor doutor da Universidade Federal do ABC (UFABC).
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Todos contra a terceirização! (Videos de atores globais contra o PL 4330/2004)
A ANAMATRA - Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho - e o MHUD - Movimento Humanos Direitos - produziram recentemente dois video com atores globais contra o projeto de lei 4330/2004 que trata da terceirização proposto pelo empresário e deputado federal pelo PMDB de Goiás, Sandro Mabel . O primeiro video conta com a participação de Dira Paes Gilberto Miranda, Priscila Camargo, Bete Mendes e Osmar Prado, e o segundo como Wagner Moura e Camila Pitanga. Todos os atores abriram mão de seus cachês.
Apesar da iniciativa ser a de simplesmente barrar a aprovação do projeto de lei, e não a de verdadeiramente coibir a terceirização que já é uma realidade, vale a pena assisti-los e divulgá-los.
Apesar da iniciativa ser a de simplesmente barrar a aprovação do projeto de lei, e não a de verdadeiramente coibir a terceirização que já é uma realidade, vale a pena assisti-los e divulgá-los.
sábado, 5 de outubro de 2013
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
Quem disse que defesa do concurso público é uma bandeira de esquerda?
Mas, é bom lembrar, que já se vão quase 30 anos do último governo militar no país. Vinte e cinco anos já se passaram desde a promulgação da "Constituição Cidadã" que através de seus dispositivos ao menos tentou varrer o apadrinhamento como prática de obtenção de um emprego público. Apesar da tentativa, ainda existe sim muito apadrinhamento e favorecimento. Mas a questão é o quanto esse "muito" deixa de ser de fato qualitativamente importante. O Brasil mudou e segue mudando. E quando falo em mudanças pouco me chama atenção a mudança do regime militar para o regime democrático e muito mais me interessam as mudanças do mundo do trabalho.
Chego a acreditar que o expediente do concurso público em um Brasil pós-neoliberal e em tempos de super-precarização assume via de regra um papel conservador, de manutenção das coisas como estão e em algumas vezes até mesmo o status de reacionário. E pode isso? Pode sim! No fim das contas não existe bandeira que seja por si só revolucionária. Pois é, quem diria hein?
Frequentar uma repartição pública hoje e não dar de cara com trabalhadores terceirizados é praticamente impossível. Hospitais, escolas, bancos, departamentos... em todos esses lugares, existem trabalhadores contratados para as mais diversas funções na forma de prestação de serviços. Mas mesmo que você não perceba, eles estão lá: Professores, enfermeiros, engenheiros, técnicos os mais diversos, petroleiros, programadores de computador, mecânicos, motoristas, seguranças, faxineiros, etc, etc, etc. Trabalhadores que muitas vezes trabalham mais até que seus colegas concursados, tendem a não faltar, a não se atrasar, a não dar aquela fugidinha no meio do expediente, a não esticar um pouquinho mais que seja durante uma ou outra pausa... isso porque estão sobre eterna vigilância, muita vezes cumprem metas de produtividade e é claro, não possuem o direito à estabilidade. Precisam constantemente provar que são capazes de estar onde estão. Coisa que via de regra nenhum concurso é capaz de medir.
Em alguns estados do país, alguns destes trabalhadores chegam a fazer concurso para conseguir uma vaga de temporário com as mesmas obrigações dos chamados "efetivos" mas com praticamente nenhum direito, às vezes inclusive, sem sequer a limitadíssima cobertura da Consolidação das Leis Trabalhistas.
É fundamental que se perceba que se eles estão lá é porque primeiro, a necessidade existe para tanto e segundo, eles sabem fazer o que estão fazendo. Há necessidade mas nunca há vagas. E quando há vagas a ser preenchidas na forma de concursos elas nunca são suficientes. E assim, lá vem os defensores do concurso como método definidor do "mérito" para ocupar um emprego público indicar a todos os trabalhadores o único caminho possível para fugir da precarização: "Estudem!".
Mas como assim, "estudem"? Se as vagas são poucas a precarização seguirá. Indicar o caminho do tal "Estudem" é praticamente um fechar de olhos para a armadilha do estado que divide os trabalhadores no serviço público. Defender os tais "concursos" desta forma cumpre sim, um papel de manutenção das coisas como estão. E mais, suponhamos que fossem abertos concursos para cobrir todas as vagas dos trabalhadores "não efetivos": como que esses homens e mulheres via de regra sem condições de abandonar seus postos de trabalho, afinal eles precisam pagar suas contas, poderiam de fato se preparar para as tais provas? Na medida em que a terceirização é uma realidade, defender o concurso público como forma de redenção é como defender uma lei nos moldes daquela chamada de "áurea" que ao mesmo tempo que jogou grilhões no lixo da história também jogou ex-escravos na miséria absoluta.
É preciso trabalho digno para todos. Essa deveria ser uma obrigação do estado. Se há trabalho digno para todos até mesmo a necessidade de concursos se perde. Mas enquanto não se alcança o direito pleno ao trabalho que aqueles que trabalham sejam devidamente reconhecidos. Se é justo que os servidores públicos possuam o direito a estabilidade, da mesma forma também é justo que todos aqueles que já trabalham no serviço público também o tenham. A bandeira de esquerda da atualidade que une trabalhadores e que garante direitos é a que combate a praga da terceirização e defende a efetivação de temporários e terceirizados. Trabalho igual, direito igual. Nada menos que isso.
sábado, 21 de setembro de 2013
"Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?" (via @passapalavra)
Não é novidade. Não existe reforma agrária no governo de Frente Popular. Não é que simplesmente não exista política de reforma agrária, que de fato não existe, apesar daquela tal promessa do então candidato Lula de que tudo seria feito de uma única canetada. É pior. Não existe mais a luta pela reforma agrária. Pelo menos não como antes de 2003. Na prática uma trégua eterna ao governo petista foi assinada, ainda que sem caneta, pelas lideranças do MST, com a desculpa de que "não é tempo" de ocupações. Isso também não é novidade para muitos dos que já haviam percebido as limitações da aliança entre PT e MST. Novidade é ler uma análise deste naipe de um trabalhador assentado. Vale ler.
Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?
Por um Assentado
Um assentamento novo, cheio de promessas não cumpridas. Está tudo tão diferente! As pessoas se reúnem, querem respostas de quem deveria tomar providências. Nada muda, nada é para mudar!
Ocupações, resistências. Alguns se foram, alguns se escondem, todos por acreditar que era possível a reforma agrária, que o fim justificava os meios. Doce ilusão. Os anos passaram, vai se governo, entram-se outros e nada de mudar.
Ontem ocupávamos fazenda de presidentes, hoje se senta à mesa para negociar com a presidenta. Ontem eram apoiadores, hoje somos mais que amigos. Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?
Novas parcerias surgiram, agroecologia será feita com o agronegócio. Enquanto isso, em uma terra não muito distante, pessoas podem ser despejadas e não têm casa, não têm terra. Triste começo.
Queríamos terra, créditos para produzir. Teremos que trabalhar na cidade para abastecer a mesa. Fazer jóias para pagar as contas. Temos um palmo de terra. A merenda escolar quer feijão, arroz parborizado ou achocolatado industrializado. Vamos esperar as crianças gostarem de alface, mandioca, banana ou quem sabe abóbora?
Onde está o poder de pressão? Ocupar e depois negociar. Abrir as porteiras e deixa povo levantar seus barracos, destruir as canas, plantar. Isso parece não pertencer mais a esta bandeira.
Grita-se a voz. Ocupa ou não ocupa? Agora já não mais. Não é tempo de pressionar, dizem uns, outros dizem que é tempo de disputar. Afinal é tempo de quê?
Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?
Por um Assentado
Um assentamento novo, cheio de promessas não cumpridas. Está tudo tão diferente! As pessoas se reúnem, querem respostas de quem deveria tomar providências. Nada muda, nada é para mudar!
Ocupações, resistências. Alguns se foram, alguns se escondem, todos por acreditar que era possível a reforma agrária, que o fim justificava os meios. Doce ilusão. Os anos passaram, vai se governo, entram-se outros e nada de mudar.
Ontem ocupávamos fazenda de presidentes, hoje se senta à mesa para negociar com a presidenta. Ontem eram apoiadores, hoje somos mais que amigos. Ontem era na marra, hoje nem na canetada. O que mudou?
Novas parcerias surgiram, agroecologia será feita com o agronegócio. Enquanto isso, em uma terra não muito distante, pessoas podem ser despejadas e não têm casa, não têm terra. Triste começo.
Queríamos terra, créditos para produzir. Teremos que trabalhar na cidade para abastecer a mesa. Fazer jóias para pagar as contas. Temos um palmo de terra. A merenda escolar quer feijão, arroz parborizado ou achocolatado industrializado. Vamos esperar as crianças gostarem de alface, mandioca, banana ou quem sabe abóbora?
Onde está o poder de pressão? Ocupar e depois negociar. Abrir as porteiras e deixa povo levantar seus barracos, destruir as canas, plantar. Isso parece não pertencer mais a esta bandeira.
Grita-se a voz. Ocupa ou não ocupa? Agora já não mais. Não é tempo de pressionar, dizem uns, outros dizem que é tempo de disputar. Afinal é tempo de quê?
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
"Eu sei, mas não devia" (#poema de Marina Colasanti recitado por Antônio Abujamra)
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
Perdeu Emicida... nenhum machismo merece respeito
Poema por poema fico com o da Verinha da Silveira.
"Ouvi teu poema com som de canção
Mas esta melodia não alivia meu coração
Não adianta dizer que disse outrora
Se o que me maltrata é o que cantas agora.
Eu, assim como todas as mulheres, como você diz
Merecemos respeito, merecemos uma vida feliz
Por que cantastes então censurando nossa liberdade
Vestindo de macho recalcado seu personagem?
Por que cantas que merecemos apanhar ? Me diz?
Por que cantas que merecemos ser envenenadas?
Por que cantas que a mulher livre merece ser depreciada?
Por que cantas se não acredita nesta moral infeliz?
Não me venha com poeminha cheio de demagogia,
Discurso bonito? Qualquer um pode fazer sobre a laje fria.
O homem que nos romanceia, é o mesmo que nos mata,
Queremos respeito, não suas rimas dissimuladas.
Disseste que tens o direito de cantar sobre o quiser...
Cantas! Grite ao mundo todo teu direito de oprimir!
Deslize em suas melodias a opressão contra a mulher,
Só não tente com hipocrisia do que cantas se redimir."
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Policial militar baiano agride casal a pauladas. "Mostra a mão! Mostra! Bora minha filha!" #DesmilitarizacaoJA
Um quarto revirado e mal iluminado. Ao pé da parede, duas pessoas negras: ele, cabeça baixa a maior parte do tempo; ela, semi-nua contorcendo-se e gemendo de dor. Do outro canto da sala, dois policiais, um com câmera nas mãos filmando a cena, o outro com um porrete de madeira dando ordens a ela, e em seguida a ele. A mão dela estirada com a palma para cima é seguida do seguinte "diálogo":
- Palhaçada, viu?
Paaaaaahhhh!!!
- Cadê? Cadê? Mostra a mão. Mostra.
Paaaaaahhhh!!!
- Aaaaiiiiiiii! Ô meu Deus não bate.
- Cadê? Bora minha filha.
Paaaaaahhhh!!!
- Aii! Aii!
- Mostre a mão!
Paaaaaahhhh!!!
- Ai!!!
O policial vira para o homem e diz:
- Esse aqui agora
Paaahhh!! Paaaahhh!!! Paaaaahhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!A câmera na mão do policial cinegrafista, passeia pelo vão até passar pela garota que pula, esfrega a mão no corpo e geme de dor e fala meio que sem fôlego que não agüenta mais. O policial que encheu as mãos do casal de pauladas, olha pro homem e diz:
- Você pode ir embora!
A mulher pergunta:
- Ô moço, por que eu vou ficar? Por que moço? Eu não fiz nada.
Ao passo que o policial responde:
- Você vai "descer as cordas".
Não.... isso não é nenhum conto macabro de alguma mente doentia para entreter leitores com mentes mais doentias ainda. A cena existe e está no YouTube. Os protagonista desse registro de tortura física finalizado com uma fala que denota um estupro, possivelmente também filmado,, são dois policiais do município de Cadeias, na Bahia. As cenas são revoltantes.
Não faltam relatos sobre a brutalidade no Brasil e em especial na Bahia, uma das policias mais violentas do país. E a cada novo relato temos a absoluta certeza de que a policia militar brasileira tem que acabar. E urgentemente.
Segue o video.
sábado, 7 de setembro de 2013
Independência em #charges
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