sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Amor à vida... desde que não seja a vida dos palestinos, não é mesmo Rede Globo?

A novela "Amor à vida" ou "novela do Félix" possui uma história de romance proibido entre um palestino e uma israelense que funciona como uma das histórias de fundo que "inocentemente" martela a grande mentira sobre a "Guerra entre Palestina e Israel" e sobre o "Terrorismo palestino". É claro que a comunidade palestina brasileira não poderia ficar calada diante de tão descarada propaganda sionista. Abaixo reproduzo o manifesto publicado no blog "Somos Todos Palestinos".

Abaixo todas as mentiras e falsificações! Toda solidariedade ao povo palestino!

Não à falsificação histórica sobre os palestinos na novela da Globo


Nós, organizações reunidas na Frente em Defesa do Povo Palestino-SP, nos comitês de outros estados, bem como demais entidades abaixo-assinadas, repudiamos veementemente a forma como os palestinos são representados na novela “Amor à Vida”, da TV Globo. Sua resistência legítima à ocupação e apartheid israelenses que já duram 66 anos é retratada como terrorismo contra vítimas inocentes nos diálogos entre um personagem palestino, Pérsio (Mouhamed Hartouch), e uma judia (Paula Braun). Todas as vezes em que é feita referência à Palestina, fala-se em guerra, o que pressupõe dois lados iguais disputando um território. Na verdade, é uma distorção da realidade: tem-se um opressor e ocupante (Israel) e um oprimido (palestinos). Em nenhum momento, a novela faz referência ao muro do apartheid, aos inúmeros postos de controle a que estão submetidos os palestinos, bem como às leis racistas que lhes são impostas e à limpeza étnica e ataques contínuos contra eles.

O diálogo que inaugura essa farsa é permeado por desinformação e manipulação da verdade. Rebeca chega a afirmar que há muitos casais judeus e palestinos em Israel, como conviria a qualquer Estado democrático. A verdade é que Israel foi criado em 1948 como um Estado exclusivamente judeu, um entrave à democracia, já que esses têm tratamento diferenciado. Desde então, a própria convivência está comprometida. O apartheid imposto aos palestinos impede até que vivam no mesmo bairro. Os palestinos que vivem onde hoje é Israel (território palestino até 1948, ano da criação desse Estado exclusivamente judeu) são considerados cidadãos de segunda ou terceira categoria, discriminados cotidianamente, e as leis que valem para eles não são as mesmas que valem – e privilegiam – os judeus. O apartheid é explícito e amparado por uma legislação que fere o direito internacional.

Em 1948, ano que na memória coletiva árabe é conhecido como “nakba”, a catástrofe, foram expulsos de suas terras e propriedades cerca de 800 mil palestinos e aproximadamente 500 aldeias palestinas foram destruídas para dar lugar a Israel. Massacres cometidos por grupos paramilitares sionistas, contra agricultores palestinos desarmados e sem treino militar, são hoje comprovados. Os palestinos têm sido desumanizados desde o início da colonização de suas terras. Essa contextualização histórica também ficou fora da telinha.

O autor de “Amor à vida”, Walcyr Carrasco, reforçou, assim, mitos que são denunciados por vários historiadores, inclusive israelenses, como Ilan Pappe, em seu artigo “Os dez mitos de Israel”. Entre eles, o mito de que a luta palestina não tem outro objetivo que não o terror e que Israel é “forçado” a responder à violência. Segundo ele, a história distorcida serve à opressão, à colonização e à ocupação. “A ampla aceitação mundial da narrativa sionista é baseada em um conjunto de mitos que, ao final, lançam dúvidas sobre o direito moral palestino, o comportamento ético e as chances de qualquer paz justa no futuro. A razão é que esses mitos são aceitos pela grande mídia no Ocidente e pelas elites políticas como verdade.”

O Brasil não é exceção. Na contramão da campanha global por boicotes ao apartheid israelense, o governo federal se tornou nos últimos anos o segundo maior importador de tecnologias militares da potência que ocupa a Palestina e porta de entrada dessa indústria à América Latina. E sua cumplicidade com a opressão, a ocupação e o apartheid a que estão submetidos os palestinos é justificada a milhares de espectadores desavisados da novela da Globo, através de um discurso que reproduz a versão falsificada da história e se fortalece perante a representação orientalista – em que os árabes seriam “orientais” bárbaros e atrasados, ante cidadãos “pacíficos e civilizados”.

Como detentora de concessão pública (o espaço eletromagnético está na Constituição Federal, como um bem do povo) e ciente de que as telenovelas moldam comportamentos, ideias e conceitos ou ajudam a reforçar preconceitos e discriminações, a Globo comete erros históricos graves, injustiças ao povo palestino em particular e aos árabes em geral e um desrespeito ao seu público ao desinformá-lo. Denunciamos publicamente essas distorções e exigimos que a Globo se retrate nos próximos capítulos de “Amor à Vida”, programa de maior audiência da TV brasileira.

Frente em Defesa do Povo Palestino-SP / BDS Brasil
Centro Brasileiro de Estudos do Oriente Médio
Comitê Brasileiro de Defesa dos Direitos do Povo Palestino
Comitê de Solidariedade à Luta do Povo Palestino do Rio de Janeiro
Centro Cultural Palestino do Rio Grande do Sul
Comitê Gaúcho de Solidariedade ao Povo Palestino
Sociedade Árabe Palestino Brasileira de Corumbá
Comitê Democrático Palestino – Brasil
Comitê Pró-Haiti
Tribunal Popular
GTNM-SP – Grupo Tortura Nunca Mais do Estado de São Paulo
Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada
Rede Mulher e Mídia
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social
Associação Islâmica de São Paulo
UNI – União Nacional das Entidades Islâmicas
ICArabe - Instituto da Cultura Árabe
FST-SP – Fórum Sindical dos Trabalhadores-SP
CSP-Conlutas – Central Sindical e Popular
Anel – Assembleia Nacional dos Estudantes Livre
UJC – União da Juventude Comunista
PCB – Partido Comunista Brasileiro
PSOL-SP – Partido Socialismo e Liberdade
PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
Mopat – Movimento Palestina para Tod@s
Coletivo Periferia, Nossa Faixa de Gaza
Coletivo de Mulheres Ana Montenegro
União da Juventude Comunista - Brasil
Marcha Mundial de Mulheres
Movimento Mulheres em Luta
Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Algumas poucas palavras sobre aquilo que não é o #Rolezinho

Só muito, muito, muito preconceito para insinuar que o rolezinho tem qualquer traço de arrastão e isso já está mais do que claro para quem tem uma gotinha de bom senso. Nem precisava dizer isso, mas ainda assim é bom dizer. Mas assim como não é arrastão é preciso dizer que rolezinho também não é protesto. Pelo menos até esse momento. É manifestação popular da juventude proletarizada e subproletarizada paulista mas não é protesto. Parece desproposital ter que anunciar isso, mas de repente é tanta gente teorizando e inclusive apontando o rolezinho como uma forma justa e necessária de protesto que colocar os pingos nos i's acaba sendo importante.

O que vimos assistindo nos shoppings do sudeste e que vem horrorizando a classe média e a burguesada tem muito mais a ver com uma versão "flashmob" popular com uma bela pitada de pegadinha do que com uma ocupação da Avenida Paulista, por exemplo. De coincidências com os atos de protesto do último ano temos fundamentalmente o fato de ser marcado pelo Facebook. Fora isso, é preciso cautela ao analisar.

Algumas análises tentam de forma superficial fazer a relação da manifestação dos atuais rolezinhos com as jornadas de junho. Muito cuidado nessa hora. Existe uma relação do ponto de vista econômico, sim. E é muito importante estudá-la. Mas quando aprofundamos um pouquinho que seja a análise claramente vemos que o sujeito social de junho é bem diferente dos atuais passeios da juventude pobre aos templos do consumo da pequena-burguesia. O sujeito daquelas mobilizações foi fundamentalmente o novo precariado, já o das atuais "visitinhas" é a juventude subproletarizada mesmo. O teor é outro, o caráter é outro e diga-se de passagem o medo da burguesia, talvez seja muito, muito maior. Associar uma coisa a outra sem a devida cautela, é puro impressionismo.

É claro que, em especial em virtude da repressão, o lance todo pode até se tornar algo muito maior e o que até então foi brincadeira pode saltar sim para a área do protesto. Mas veja bem: "poder se tornar" e "já ser" são coisas bem diferentes. Para tornar protesto essa grande brincadeira da juventude prole é preciso muito mais. É preciso arregaçar as mangas e organizar mais que a juventude pobre, o que já é um imenso desafio não assumido por absolutamente nenhuma organização de peso nesse país. É preciso se dispor a organizar a própria periferia.

Mas como fazê-lo? E pior ainda, com que se poderá contar para fazê-lo?

Com o MST rendido e governista? Com a CUFA muito mais que oportunista? Com o movimento hip-hop via de regra já cooptado, enlatado e etiquetado para venda? Com o movimento popular esfacelado em mil pedaços graças a obra e empenho dos governos petistas? Com o eleitoralismo do PSOL ou com o movimentismo-sindicalista desenfreado do PSTU? Não. Nada disso.

O MTST até já cumpriu esse papel  no passado inclusive organizando visita da favela aos shoppings cariocas. Mas isso foi lá pelos idos de 2000, antes do governo de Frente Popular, do bolsa família, do "minha Casa, minha vida" e de um sem número de ofensivas para desmoralizar e desmobilizar a classe trabalhadora.

Diferente do que se passou em junho, não temos nenhum MPL para o povo pobre e preto do nosso Brasil varonil, que tenha autoridade para empalmar o momento. Não existe e me atrevo a afirmar que aqueles que ousarem se oferecer a sê-lo a essa altura do campeonato se candidatam a cumprir o papel de grandiosos tontos (pra dizer o mínimo).

Isso quer dizer que ninguém deve ousar fazê-lo? Depende. É pra valer ou mera coisa de momento? Se for por pura onda, honestamente que fique na sua, e deixe a juventude encontrar seu próprio caminho. Mas se não for, o desafio está posto e será preciso muito mais do que se tem feito até o momento.

A onda dos rolezinhos está aí mas honestamente ela vai passar. Já o nosso racismo, esse não, esse continuará com todas sua venerável hipocrisia. E quem ao menos sonhar em organizar nosso povo pobre precisa verdadeiramente se dispor a entender e combater o racismo. Será preciso muito mais do que palavras ditas ao vento ou impressas no papel. Será preciso atitude.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A favela foi ao shopping. Video de 2007 mostra que não é de hoje que #rolezinho de pobre não pode.


O rolezinho é a nova onda do Brasil. E que bom que seja. Ao seu modo a juventude de periferia escancara a hipocrisia nacional numa grande brincadeira que é claro assusta e muito a classe média paulista. Mas engana-se quem associa o rolezinho com uma forma de protesto ainda que inconsciente. Não. O rolezinho não é isso. Até poderia ser. Mas não é. E se fosse não seria a primeira vez que se vê isso por aqui.

Em agosto de 2000 um grupo de trabalhadores sem teto organizou uma ocupação em um grande shopping da zona sul da cidade do Rio de Janeiro que foi acompanhado pela grande imprensa e ficou guardado em especial na memória daqueles manifestantes e foi contado em um documentário prezadíssimo de menos de 20 minutos chamado "Hiato :" e que vale muito assistir.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Ariel Sharon está morto. Um carniceiro a menos no mundo. Mais um obituário com hurras.



Ariel Sharon, o carniceiro, está morto. Vai tarde, muito tarde. Soma-se ao panteão dos canalhas que nos fazem relembrar imediatamente o poema que o uruguaio Mário Benedetti escreveu em homenagem à Ronald Reagan, mas se encaixa muito bem em todos os grandes canalhas. Sharon é um deles. Vamos festejar todos. Mais um canalha está morto.

OBITUÁRIO COM HURRAS

Vamos festejar
venham todos
os inocentes
os maltratados
os que gritam de noite
os que sonham de dia
os que sofrem do corpo
os que alojam fantasmas
os que pisam descalços
os que blasfemam e ardem
os pobres congelados
os que gostam de alguém
os que nunca se esquecem
vamos festejar
venham todos
o crápula morreu
se acabou a alma negra
o ladrão
o indecente
se acabou para sempre
hurra
que venham todos
vamos festejar
a não dizer
a morte
sempre apaga tudo
tudo purifica
qualquer dia
a morte
não apaga nada
ficam
sempre as cicatrizes
hurra
morreu o cretino
vamos festejar
a não chorar de vício
que chorem seus iguais
e engulam suas lágrimas
se acabou o monstro prócer
se acabou para sempre
vamos festejar
a não ficar mornos
a não crer que este
é um morto qualquer
vamos festejar
a não tornarmos frouxos
a não esquecer que este
é um morto de merda.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Sabe qual é o lema que os EUA deveriam adotar? George Carlin sabe.


"Um país que foi fundado por donos de escravos, 
que queriam se tornar livres.
Então eles mataram um monte de brancos ingleses
para que eles pudessem continuar sendo donos de seus negros africanos,
para que eles pudessem dizimar o resto dos índios pele vermelhas
e rumassem para o Oeste roubar o resto das terras dos mexicanos pardos,
dando a eles um lugar para decolarem e lançar bombas atômicas nos japoneses amarelos!
Sabe qual é o lema que os EUA deveriam adotar?
Você nos dá uma cor e nós acabamos com ela!"

George Carlin (humorista americano)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

"Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro" (texto do jovem Trotsky em 1901)


Quando o revolucionário russo Leon Trotsky tinha seus vinte e dois anos, lá pelos idos de 1901, escreveu um texto saudando, ainda que ao seu jeito, o recém chegado século XX. É um trecho pouco conhecido da obra de Trotsky que foi resgatado pela organização "Reagrupamento Revolucionário" que fez a gentileza de traduzir para o português e publicar no Marxist Internet Archive com o título "Otimismo e PessimismoSobre o Século XX e Muitas Outras Coisas".

Boa leitura.

Dum spiro spero! [Enquanto há vida, há esperança!] ... Se eu fosse um dos corpos celestiais, eu olharia com completo desapego para esta bola miserável de sujeira e poeira ... Eu brilharia indiferente entre o bem e o mal ... Mas eu sou um homem. A história do mundo que para você, desapaixonado cálice de ciência, para você, guarda-livros da eternidade, parece apenas um momento insignificante no equilíbrio temporal, para mim é tudo! Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro, este radiante futuro no qual o homem, poderoso e belo, se tornará mestre do fluxo incerto da História e irá direcioná-lo para um horizonte sem fim de beleza, alegria e felicidade!

O século dezenove de muitas formas satisfez e de ainda mais formas enganou as esperanças do otimista ... Ele o compeliu a transferir a maioria das suas esperanças para o século vinte. Sempre que o otimista se confrontava com um fato de atrocidade, ele exclamava: Como pode isso acontecer no limiar do século vinte! Quando ele imaginasse maravilhosamente desenhado um futuro harmonioso, ele o colocava no século vinte.

E agora este século chegou! O que trouxe com ele em sua inauguração?

Na França – o escarcéu venenoso do ódio racial(1); na Áustria – disputa nacionalista...; na África do Sul – a agonia de um povo pequeno, que está sendo assassinado por um colosso(2); na própria “ilha da liberdade” – o canto triunfante da vitoriosa avareza de agiotas chauvinistas; dramáticas “complicações” no leste; rebeliões de massas populares famintas na Itália, Bulgária, Romênia ... ódio e morte, fome e sangue ...

Parece até que o novo século, este gigante recém-chegado, está determinado mesmo no momento do seu surgimento a levar o otimista ao absoluto pessimismo e a um nirvana cívico.

– Morte à Utopia! Morte à fé! Morte ao amor! Morte à esperança! Esbraveja o século vinte em salvas de fogo e ao retumbar das armas.

– Renda-se seu patético sonhador. Aqui estou eu, o seu tão esperado século vinte, o seu “futuro”.

– Não, responde o inabalado otimista: Você, você é apenas o presente.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Abram alas pro morro! Salve a música popular brasileira! Alcione e Leci Brandão cantam "O morro não tem vez"

Que tal um pouco mais de espaço pro morro? Que tal Leci Brandão e Alcione cantando "O morro não tem vez"? Salve a música popular brasileira!



O morro não tem vez
E o que ele fez já foi demais
Mas olhem bem vocês
Quando derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar

Samba pede pasagem
O morro que só estar
Abram alas pro morro
Tamborim vai falar
É 1, é 2, é 3, é 100
São 1000 a batucar
O morro não tem vez
Quando derem vez ao morro
O mundo inteiro vai cantar
Samba pede passagem
O morro quer se mostrar

Abram alas pro morro
Tamborim vai falar
É 1, é 2, é 3, é 100
É 100 a batucar
O morro não tem vez
Mas se derem vez ao morro
O mundo inteiro vai cantar
Vai cantar, vai cantar

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A voz brasileira silenciada no "The Voice BraZil"


Quase trinta milhões de votos deram ao cearense Sam Alves o título de "A voz do Brasil" no novo "reality show" da TV brasileira. Ganhou Sam, aliás "Sæm" segundo os próprios pais, com aquela pronuncia bem americanizada com o "a" pendendo pro "e".  Pois é, ganhou "Sæm", perdeu a música brasileira. Isso mesmo. A disputa foi inclusive inusitada. Enquanto o grande vencedor interpretou “Hallellujah”, canção do canadense Leonard Cohen, seus concorrentes cantaram Tim Maia ("Me dê motivo"), Dominguinhos ("De volta pro aconchego") e Renato Russo ("Monte Castelo"), três monstros sagrados da música e da voz brasileira, todos batidos pelos gritos estridentes, ainda que afinados, do cearense.

Diferente de sua primeira temporada, onde Ellen Oléria, uma mulher, negra, lésbica e musicalmente brasileiríssima arrastou o título de "a Voz", desta vez o "The Voice" brasileiro meio que atingiu seu apogeu, consagrando um homem, branco, cearense ainda que só de feto, enquanto que de fato mesmo, é estadunidense em todos os sentidos. E quando falo em todos os sentidos, não me refiro unicamente à pessoa do artista, mas em especial ao seu próprio cantar, bem no estilo Whitney Huston, e completamente importado lá das terras do norte e massificado pela grande industria fonográfica.

A cada quinta-feira um pouco da nossa brasilidade foi sendo silenciada. E aqui não me refiro sequer ao cantar em inglês, nada disso. É possível cantar em português e ainda assim não cantar o Brasil. "Sæm" fez isso, por exemplo, em seu "Hallelujah". Aliás, façamos justiça, não só ele. Da mesma forma, é possível cantar em inglês e ainda assim cantar muito de nossa identidade, a banda Sepultura, por exemplo faz isso.

Insisto: essa não é uma questão de forma. É de conteúdo.

No "The Voice" a voz do Brasil com toda sua riqueza cultural foi sendo calada, semana atrás da outra. A exclusão da potiguar Khristal foi um enorme acinte. A da carioca e sambista Gabby Moura deixou de novo o "morro sem vez". A do cearense Marcos Lessa e sua voz que nos remetia a Emilio Santiago, foi de uma frustração inenarrável. E poderíamos citar muitos outros que cantaram o samba, o rock, o sertanejo, a MPB, e muito mais. Por fim, veio a derrota de Lucy Alves, em uma de suas apresentações mais emocionantes, e que quase que inevitavelmente me trouxe a mente a ideia de que levamos uma goleada do time adversário e que ainda por cima ao celebrar seus gols pediu silêncio pra nossa torcida.

É claro que nossa voz e nossa arte é muito mais que um programa da Rede Globo. Mas é bom que estejamos preparados. O resultado do segundo "The Voice" é meio que só uma anunciação. Muitos "Sæms" ainda estão por vir.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Se tivesse realmente vencido, Mandela não seria apresentado como herói universal (texto de Slavoj Žižek)(*)


Nas últimas duas décadas da vida, Nelson Mandela foi festejado como modelo de como libertar um país do jugo colonial sem sucumbir à tentação do poder ditatorial a sem postura anticapitalista. Em resumo, Mandela não foi Robert Mugabe, e a África do Sul permaneceu democracia multipartidária com imprensa livre e vibrante economia bem integrada no mercado global e imune a horríveis experimentos socialistas. Agora, com a morte dele, sua estatura de sábio santificado parece confirmada para toda a eternidade: há filmes sobre ele (com Morgan Freeman no papel de Mandela; o mesmo Freeman, aliás, que, noutro filme, encarnou Deus em pessoa). Rock stars e líderes religiosos, esportistas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, todos dedicados a beatificar Mandela.

Mas será essa a história completa? Dois fatos são sistematicamente apagados nessa visão celebratória. Na África do Sul, a maioria pobre continua a viver praticamente como vivia nos tempos do apartheid, e a ‘conquista’ de direitos civis e políticos é contrabalançada por violência, insegurança e crime crescentes. A única mudança é que onde havia só a velha classe governante branca há agora também a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas já quase nem lembram que o velho Congresso Nacional Africano não prometera só o fim do apartheid; também prometeu mais justiça social e, até, um tipo de socialismo. Esse CNA muito mais radical do passado está sendo gradualmente varrido da lembrança. Não surpreende que a fúria outra vez esteja crescendo entre os sul-africanos pretos e pobres.

A África do Sul, quanto a isso, é só a mesma versão repetida da esquerda contemporânea. Um líder ou partido é eleito com entusiasmo universal prometendo “um novo mundo” – mas então, mais cedo ou mais tarde, tropeçam no dilema chave: quem se atreve a tocar nos mecanismos capitalistas? Ou prevalecerá a decisão de “jogar o jogo”? Se alguém perturba esse mecanismo, é rapidamente “punido” com perturbações de mercado, caos econômico e o resto todo. Por isso parece tão simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid. Mas ele chegou realmente a ter alguma escolha? Andar na direção do socialismo seria possibilidade real?

(...) Marx disse (...) em sua fórmula bem conhecida que, no universo da mercadoria, “as relações entre pessoas assumem o disfarce de relações entre coisas”.

Na economia de mercado, acontece de relações entre pessoas aparecerem sob disfarces que os dois lados reconhecem como liberdade e igualdade: a dominação já não é diretamente exercida e deixa de ser visível como tal. (...) É preciso ter em mente que a grande lição do socialismo de estado foi, sim, que a abolição direta da propriedade privada e a regulação das trocas pelo mercado, se não vierem acompanhadas de formas concretas de regulação social do processo de produção, acabam sempre, necessariamente, por ressuscitar relações diretas de servidão e dominação.

Se apenas se extingue o mercado (inclusive a exploração do mercado), sem substituí-lo por uma forma própria de organização comunista da produção e das trocas, a dominação volta como uma vingança, e com a exploração direta pelo mercado.

A regra geral é que, quando começa uma revolta contra regime opressor semidemocrático, como aconteceu no Oriente Médio em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com slogans que só se podem descrever como “formadores de massa”: pela democracia, contra a corrupção, por exemplo.

Mas adiante, quando nos vamos aproximando das escolhas mais difíceis, quando nossa revolta é vitoriosa e alcança o objetivo direto, logo nos damos conta de que o que realmente nos atormentava (a falta de liberdade pessoal, a humilhação, a corrupção das autoridades, a falta de perspectiva de, algum dia, chegar a ter uma vida decente) rapidamente troca de roupa e reaparece sob um novo disfarce.

A ideologia governante mobiliza aqui todo o seu arsenal para nos impedir de chegar àquela conclusão radical. Põem-se logo a dizer que a liberdade democrática implica responsabilidades; que a liberdade democrática tem seu preço; que ainda não estamos plenamente amadurecidos, se esperamos demais da democracia.

Assim, rapidamente, passam a nos culpar, nós mesmos, pelo nosso fracasso: numa sociedade livre – é o que nos dizem – todos somos capitalistas que investimos na nossa própria vida; e temos de alocar mais dinheiro para a educação do que para nossas festas e noitadas e lazer. Que se não fizermos assim, nossa democracia não terá sucesso.

Num plano diretamente mais político, a política externa dos EUA elaborou detalhada estratégia para controle de danos: basta converter o levante popular em restrições capitalistas-parlamentares palatáveis. Isso, precisamente, foi feito com sucesso na África do Sul, depois do fim do regime de apartheid; foi feito nas Filipinas depois da queda de Marcos; foi feito na Indonésia depois da queda de Suharto e foi feito também em outros lugares

Nessa precisa conjuntura, as políticas radicais de emancipação enfrentam o seu maior desafio: como fazer avançar as coisas depois de acabado o primeiro estágio de entusiasmo, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”, em resumo: como avançar além de Mandela, sem se converter num Mugabe.

Se quisermos permanecer fiéis ao legado de Mandela, temos de deixar de lado as lágrimas de crocodilo das celebrações e nos focar em todas as promessas não cumpridas infladas sob sua liderança e por causa dela. Assim se verá facilmente que, apesar de sua indiscutível grandeza política e moral, Mandela, no fim da vida, era também um velho triste, bem consciente de que seu triunfo político e sua consagração como herói universal não passavam de máscara para esconder derrota muito amarga. A glória universal de Mandela é também prova de que ele não perturbou a ordem global do poder.

(*) Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu, no redecastorphoto