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| Eduardo Galenao, 1940 - 2015. |
segunda-feira, 13 de abril de 2015
"O medo nos governa..." #RecordarEduardoGaleano #HastaSiempreGaleano
sábado, 11 de abril de 2015
O indispensável artigo de Enio Bucchionni sobre o regime interno do partido bolchevique
"É preciso estudar outubro", nos deixou escrito o revolucionário russo Leon Trotsky. E nada mais justo. Muito se difama o socialismo e a experiência soviética a partir do que representou o golpe e a camisa de força stalinista. Muitos falam das mortes e dos males do comunismo, tentando igualar marxismo e o anti-marxismo stalinista, mas nada mata, desgraça e amaldiçoa mais a humanidade do que o capitalismo moderno, e é preciso superá-lo. Ou melhor, é preciso destruí-lo. E nada mais justo que estudar o que fizeram aqueles que de algum modo conseguiram derrotá-lo, ainda que episodicamente. Assim como era uma obrigação para os revolucionários da primeira década do século XX estudar a Comuna de Paris (1871) é também uma obrigação redobrada, estudar a revolução russa de 1917. E estudar 1917 é necessariamente estudar o partido bolchevique e seu regime interno.
Para sorte dos revolucionários do século XXI muita coisa existe produzida e aliás o próprio "Lições de Outubro" de Trotsky é prova material do que era o regime interno bolchevique, mesmo após a morte de Lênin. O livro é uma polêmica aberta e pública de um membro do bureau político com seus camaradas de organismo Zinoviev e Kamenev. A reação deles? Censuraram Trotsky? Mandaram recolher "Lições de Outubro"? Nada disso. Foram para o debate político com novos textos públicos, ainda que caluniosos. E isso se deu em 1924.
Mas além desse exemplo, existem muitos outros e uma das fontes mais interessantes de tais exemplos é o livro de Pierre Broué, o partido Bolchevique escrito em 1959/1960. Para nossa alegria o militante trotskista brasileiro, Enio Bucchioni resolveu nos brindar com a missão de sintetizar a verdadeira tradição do regime interno bolchevique registrado nas páginas de Broué em uma série de quatro artigos sobre o tema cujo primeiro foi publicado ontem, dia 10/04, no blog Convergência.
O artigo toca em pontos importantíssimos que vão desde concepção de centralismo democrático, até a formação interna. Em determinado momento o texto diz: "O estímulo à formação coletiva e individual deve ser sempre uma diretriz de todo partido que se reivindica do socialismo. Muitas vezes o que se vê é o estímulo ao “tarefismo” desenfreado". Qualquer semelhança com algumas organizações políticas brasileiras, infelizmente, não é mera coincidência.
O artigo toca em pontos importantíssimos que vão desde concepção de centralismo democrático, até a formação interna. Em determinado momento o texto diz: "O estímulo à formação coletiva e individual deve ser sempre uma diretriz de todo partido que se reivindica do socialismo. Muitas vezes o que se vê é o estímulo ao “tarefismo” desenfreado". Qualquer semelhança com algumas organizações políticas brasileiras, infelizmente, não é mera coincidência.
O texto de Ênio é indispensável para aqueles que verdadeiramente dedicam suas vidas e seus sonhos para a construção de organizações que se dizem leninistas mas possuem um regime interno que teria no próprio Lênin um gigantesco opositor se acaso vivo fosse. Por sua imensa importância o republicamos aqui.
Boa leitura.
Boa leitura.
A propósito do regime interno dos bolcheviques antes de fevereiro de 1917
Recentemente foi traduzido e impresso para a língua portuguesa pela editora Sundermann o precioso livro O Partido Bolchevique, do renomado historiador francês Pierre Broué. Eu havia lido em espanhol e, por mero acaso e curiosidade, voltei a folheá-lo por inteiro. Inúmeras são as informações que nos fazem saborear avidamente o texto de Broué do princípio ao fim, conforme a brilhante resenha recentemente feita pelo companheiro Ramsés Eduardo Pinheiro no Blog Convergência.
Nas primeiras dezenas de páginas de um montante de oitocentas e cinquenta e nove há um assunto extremamente interessante e apaixonante que talvez passe despercebido pelos leitores que tenham pouca militância política ou que nunca foram adeptos de algum partido. Trata-se da concepção do regime interno baseado no centralismo-democrático criado por Lênin na fração bolchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo, POSD-R, cujas linhas mestras estão delineadas no livro “Que Fazer”, de 1902.
A bem da verdade, porque poucos sabem ou se recordam, antes de 1918, todas as correntes marxistas existentes na antiga Rússia se encontravam no POSD-R. No seu interior havia as mais variadas frações, tendências e grupos ao redor das duas principais correntes: os mencheviques e os bolcheviques. Havia, no entanto, um só Partido. A rigor não havia o Partido Bolchevique até alguns meses após a revolução de 1917, mas sim a fração bolchevique do POSD-R. Somente em março de 1918 é que foi fundado o Partido Comunista Russo (bolchevique).
Nas páginas de Broué está a descrição trágica da passagem do regime interno baseado no centralismo e na democracia da época de Lênin, para o centralismo burocrático ou de caserna, em vigor desde a crescente dominação do stalinismo. A partir de meados da década de 20, este centralismo burocrático implantado no Partido Comunista da União Soviética, logo se espalhou para todos os partidos da III Internacional, incluindo aí o Partido Comunista do Brasil e o seu sucedâneo, o Partido Comunista Brasileiro. Tal processo levou à morte da democracia interna e o surgimento do poder absoluto e da infalibilidade dos seus secretários-gerais tipo Stalin, Prestes e demais burocratas.
Lênin vota contra a sua própria fração
Após a primeira revolução de 1905, derrotada, seguiu-se um período de muitos anos de extrema reação por parte da ditadura tzarista. O movimento operário entrou em profundo refluxo, foram inúmeras as prisões de militantes do POSD-R e até mesmo muitos deles abandonaram suas atividades partidárias. Segundo Broué
“Apesar da desilusão de muitos militantes, bem como das numerosas deserções, os bolcheviques voltam a empreender as tarefas que haviam iniciado clandestinamente antes de 1905. No entanto, eles também não se veem livres de divergências internas. A maioria queria boicotar as eleições, desta vez porque a lei eleitoral de Stolypin faz com que seja impossível para a classe operária estar representada equitativamente. Sobre essa questão, Lênin opinava que tal palavra de ordem, lançada num momento de apatia e de indiferença na classe operária, corre o risco de isolar os revolucionários, que, em vez de disso, deveriam se apegar a todas as ocasiões que lhes fossem oferecidas para desenvolver publicamente o seu programa. Tanto as eleições como a III Duma devem ser utilizadas como tribuna para os socialistas que, apesar de não terem nenhuma ilusão sobre a sua verdadeira natureza, não podem desperdiçar essa forma de propaganda. Apesar do isolamento em que se encontrava dentro de sua própria fração, Lênin não vacila em votar sozinho, junto com os mencheviques, contra o boicote das eleições , isso na conferência de Kotka no mês de julho de 1907. Contudo, os partidários do boicote voltam a tomar a iniciativa depois das eleições, pedindo a demissão dos socialistas que tinham sido eleitos. Esses partidários da “retirada”, conhecidos como “otzovistas”, encabeçados por Krasin e Bogdanov – ambos até então braço direito de Lênin e membros do Comitê Central do POSD-R ,segundo Broué – seguem aumentando seus contingentes através do apoio do grupo “ultimatista” do comitê de Petrogrado, que se manifestam contrários a toda participação nas atividades legais, inclusive nos sindicatos, intensamente vigiados pela polícia”.[1]
Lênin não foi expulso pela quebra do centralismo-democrático, nem sequer censurado por ter votado com os mencheviques contra todos os bolcheviques de sua própria fração. Nessa ocasião Lênin julgava importantíssima a participação da social-democracia nas eleições parlamentares, tanto assim é que foi o responsável direto na orientação dos bolcheviques nesse processo e entendia como nenhum outro toda a complicada e insólita legislação eleitoral da Russia tzarista. Lênin escreveu muitas centenas de páginas sobre as eleições para a Duma, polemizando contra os mencheviques – que propunham aliança com a burguesia liberal – em detrimento da conformação de um bloco de esquerda entre a social-democracia, os socialistas revolucionários e os trudoviques. Posteriormente, Lênin convence a maioria dos bolcheviques para suas posições.
O que se pode depreender dos fatos relacionados acima é que não é o modelo organizativo que deve reger a política, mas sim é a política prática é que deve modelar o regime interno de um partido. A política rege a organização e não o seu inverso.
A concepção de Lênin sobre as divergências internas
Conforme registra Broué
“Desde 1894 Lênin afirmava em sua polêmica com o populista Mikailovsky:
‘É rigorosamente certo que não existe entre os marxistas a completa unanimidade. Esta falta de unanimidade não revela a fraqueza mas sim a força dos social-democratas russos. O consenso daqueles que se satisfazem com a aceitação de “verdades reconfortantes”, esta terna e comovedora unanimidade, foi substituída pelas divergências entre pessoas que necessitam uma explicação da organização econômica real, da organização econômica atual da Rússia. Uma análise de sua verdadeira evolução econômica, de sua evolução política e do resto de suas superestruturas”.[2]
Mais adiante Broué dá a visão cabal de como Lênin encarava as discussões internas dentro de sua fração bolchevique:
“As divergências de opinião no interior dos partidos políticos ou entre eles” escreve Lênin em julho de 1905, “se solucionam geralmente não somente com as polêmicas, senão também com o desenvolvimento da própria vida política. Em particular, as divergências a propósito da tática de um partido terminam por se liquidar, de fato, pela adesão à linha correta pelos mantenedores das teses errôneas, já que o próprio curso dos acontecimentos elimina dessas teses o seu conteúdo e o seu interesse”.[3]
Assim era a compreensão leninista acerca do regime interno do seu partido. As diferenças são necessárias, bem-vindas e fortalecem o partido. A unanimidade é burra, diria alguém anos mais tarde. No partido stalinista, a unanimidade sempre foi um fator constante.
No entanto, as divergências internas, em consequência da visão de Lênin, devem ter um desfecho no transcorrer da luta de classes real e não apenas nas discussões intestinas, pois as visões corretas ou equivocadas são testadas e verificadas na realidade. A prática seria o critério da verdade. A justeza da linha política – defendidas pela maioria ou pelas minorias – seria posta à prova pelo partido em suas ações e/ou em seus balanços de atividades.
Aqui também há em Lênin o critério da provisoriedade de tempo em relação às divergências internas, ou seja, o surgimento de blocos, grupos, tendências e frações devem ser fenômenos conjunturais em função de qual seria a melhor política para a intervenção do partido na luta de classes no momento dado. Não há espaço, na visão Leninista, para agrupamentos vitalícios. Os agrupamentos eternos são da era stalinista, em função dos interesses em comum da casta burocrática e dos seus privilégios materiais e de prestígio derivados da manutenção do poder.
O regime interno: meio e não fim
Um partido tem sua unidade baseada em pressupostos programáticos e históricos reivindicados em comum por seus militantes. Na época de Lênin, era a reivindicação das heranças teóricas de Marx e Engels que forjavam essa unidade. Tanto assim é que havia um único partido, o Partido Operário Social-Democrata Russo, POSD-R, e todos os seus membros se reivindicavam marxistas. No entanto, havia várias interpretações distintas acerca do marxismo e de sua aplicação na prática política. Isso configurava tendências teóricas, políticas, estratégicas e táticas, muitas vezes distintas tanto no seio da II Internacional bem como em suas secções nacionais.
No entanto, o centralismo-democrático garantia o fundamental, ou seja, a unidade do partido para a ação baseada nas proposições políticas da maioria. Segundo Broué
“Em realidade, o propósito fundamental de Lênin foi construir um partido para a ação e, desde esse ponto de vista, nem a sua organização, nem a sua natureza, nem o seu desenvolvimento, nem seu próprio regime interno podiam ser concebidos com independência das condições políticas gerais, do grau de liberdades públicas existentes e da relação de forças entre a classe operária, o Estado e as classes possuidoras”.[4]
Ou seja, a política é que determina o regime interno e a organização, e não o inverso. Como veremos adiante, muitas vezes o próprio Lênin “quebrará” o centralismo-democrático, o regime interno, em função de momentos importantes da luta de classes onde um erro político de estratégia ou de tática poderia trazer prejuízos incalculáveis para o proletariado e suas lutas.
O obrerismo stalinista sepultou a democracia interna
Um dos aspectos mais relevantes da fração bolchevique era a formação teórica dos seus quadros mais antigos que iriam formar a coluna vertebral revolucionária de Outubro. Essa verdadeira obsessão de Lênin vem desde muito cedo, desde , pelo menos, 1902, conforme se pode ler no “Que Fazer”:
“Este fato testemunha que a primeira e mais imperiosa das nossas obrigações é contribuir para a formação de operários revolucionários que, do ponto de vista da sua atividade no partido, estejam ao mesmo nível que os revolucionários intelectuais (sublinhamos: do ponto de vista de sua atividade no partido, porque sob outros aspectos não é, antes pelo contrário,, tão fácil nem tão urgente, embora necessário, que os operários atinjam o mesmo nível). Por isso, devemo-nos dedicar principalmente a elevar os operários ao nível dos revolucionários e não a descer, nós próprios, ao nível da “massa operária”, e infalivelmente ao nível do ‘operário médio’”.[5]
Broué em seu livro reforça a visão leninista sobre a questão da formação
“Em suas fileiras se acostuma a aprender a ler e cada militante se converte em responsável pelos estudos de um grupo onde se educa e se discute. Os adversários do bolchevismo costumam se burlar desse gosto deles pelos livros que, em determinados momentos, converte o partido numa espécie de “clube de sociologia”; no entanto, a preparação da conferência de Praga contribuiu com toda espécie de garantias para a efetividade da escola de quadros de Longjumeau, integrada por várias dezenas de militantes que escutam e discutem quarenta e cinco lições de Lênin, trinta das quais versam sobre economia política e dez sobre a questão agrária, e além disso, são vistas aulas de história do partido russo, de história sobre o movimento operário ocidental, de direito, de literatura e técnica jornalística”.[6]Toda essa formação de quadros nos anos anteriores à revolução foi extremamente importante. Entre outros motivos, porque só pode haver democracia interna num ambiente entre militantes em certa igualdade de condições culturais, intelectuais e de formação marxista, de modo que cada um tenha opinião própria, não ficando a reboque dos mais “politizados”, dos “mais velhos” ou dos “dirigentes” tradicionais. O estímulo à formação coletiva e individual deve ser sempre uma diretriz de todo partido que se reivindica do socialismo. Muitas vezes o que se vê é o estímulo ao “tarefismo” desenfreado, ou seja, há uma divisão de funções num partido despolitizado: aos dirigentes cumpre pensar e “dirigir”, para os demais cumpre executar, cumprir as tarefas. Outras ocasiões o que se nota é o “estudo dirigido”, ou seja, o estudo “selecionado” apenas para aprovar a linha política estabelecida pelo partido. Em ambos os casos não se formam militantes comunistas, marxistas, capazes de raciocinar, debater e opinar conforme o que pensa. O que se tem é um militante médio que tende a seguir, de forma acrítica, o raciocínio de outro “mais capaz” ou “mais “velho”, gerando a desigualdade e o emblocamento de posições de forma automática.
Há quem ignore a história da fração bolchevique ou apenas a conheça de modo superficial. O próprio Lênin esteve várias e várias vezes em minoria dentro do partido, perdendo discussões para os seus próprios discípulos. Mas, há quem creia que Lênin foi Deus e sempre esteve certo. Como se fosse possível um eterno vencedor das polêmicas internas, um dirigente infalível. O único infalível, segundo os stalinistas, foi o próprio Stalin, ainda que os cristãos acham que o Papa assim o é.
O começo do fim da democracia interna no partido bolchevique acontece com sinistra “Promoção Lênin”, em 1924, logo após sua morte. Em essência, tal política consistiu no recrutamento massivo para o partido, sem estágio probatório, de duzentos mil novos membros operários, que foram incorporados nessa “promoção”. Quase todos eram inexperientes, mas já elegíveis para cargos de responsabilidade. Desse total, 30% apenas sabiam ler, e não mais do que 10% eram capazes de manter um debate político sério. Em cima e no controle deles existia um aparelho enorme e piramidal, em cujo vértice encontrava-se Stalin, secretário-geral do Politburo e membro do Burô de Organização. Em mãos do aparato, esse contingente de operários despolitizados se converte numa dócil massa de manobra que sempre seguia e votava nos dirigentes oficiais. Evidentemente, já não temos mais a igualdade entre os membros do partido e, portanto, morre a democracia interna e o regime leninista.
Inteligentes e imbecis, rebeldes e disciplinados
Broué narra um episódio extremamente interessante no livro citado, onde, durante a I Guerra Mundial, ele e Bukarin não chegavam a um acordo em relação ao problema do Estado. Note-se que Bukarin, bem mais jovem que Lênin, havia sido educado politicamente pelo maestro. Nessa controvérsia entre os dois, Lênin pede a Bukarin que não publique nenhum trabalho sobre essa questão de modo a não acentuar os desacordos entre eles, já que, segundo Lênin, nenhum dos dois tinha estudado suficientemente o tema. No decorrer dos anos, Lênin e seu discípulo Bukarin iriam ter outras divergências, entre as quais a mais famosa ficou por conta da assinatura ou não do tratado de paz de Brest-Litovsky com a Alemanha imperialista meses após a revolução de Outubro. Broué expõem da seguinte forma a visão de Lênin sobre o regime interno do partido:
“Que os sentimentais se lamentem e deem os seus gemidos: mais conflitos!Mais diferenças internas! Ainda mais polêmicas! Nós responderemos: jamais se formou uma social-democracia revolucionária sem o contínuo surgimento de novas lutas”.[7]Mais adiante, Lênin sentencia que o primeiro dos deveres de um revolucionário é criticar os seus próprios dirigentes. A opinião dele quando escreve a Bukarin, segundo Broué, é “que se o partido excluísse os militantes inteligentes, porém pouco disciplinadas, e ficasse apenas com os imbecis disciplinados, afundaria.”[8] A esse respeito, completa Broué, a história do partido bolchevique, como a de sua fração, são de uma larga sucessão de conflitos ideológicos que Lênin vai superando sucessivamente através de uma prolongada dose de paciência. Da unidade de critérios surge da discussão, quase permanente, que se opera, tanto sobre as questões fundamentais como a propósito da tática a seguir a cada momento.
Notas:
[1] Broué, p. 60
[2] Broué, p. 72
[3] Broué, p. 73
[4] Broué, p. 73
[5] Lenine, p. 132
[6] Broué, p. 91
[7] Broué, p. 94
[8] Broué, p. 94 – 95
Bibliografia
BROUÉ, Pierre. El partido bolchevique, Editorial Ayuso, 1973, Madrid
LENINE, Vladinir Ilich Uianov. Que Fazer, Editorial Estampa, 1973, Lisboa
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Barrar nas ruas a PL da terceirização. Exigir de Dilma não só o veto mas que rompa com a burguesia.
A PL da terceirização foi aprovada na Câmara dos Deputados. O sociólogo Ruy Braga talvez seja um dos que melhor definiu o que significa tal proposta: "a maior derrota da classe trabalhadora desde a ditadura militar". Exatamente. Nenhum outro ataque ocorrido sobre os governos Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor, Sarney ou até mesmo os próprios governos militares pode ser considerado tão duro e nefasto. Nenhum deles teve a ousadia para simplesmente rasgar a Consolidação das Leis Trabalhistas com tanta determinação. Também nenhum congresso havia chegado a esse ponto. Agora isso é passado. Trezentos e vinte e quatro deputados federais não se intimidaram e resolveram avançar com tudo contra os já tão poucos direitos dos trabalhadores brasileiros.
Já estava claro que o Congresso empossado em primeiro de janeiro de 2015 era o mais reacionário desde a queda dos governos militares em 1985. Já estava claro que viria chumbo grosso por aí. Os doze anos de conciliação de classe empurrados goela abaixo na classe trabalhadora brasileira pelos governos do PT não passariam sem cobrar sua fatura. Quanto mais os trabalhadores e os movimentos sociais foram desmobilizados e desmoralizados no decorrer desses doze anos, mais os setores reacionários se sentiram e se sentem a vontade para avançar.
Isso está expresso mais do que comprovadamente na forma como se deu a votação. Vinte dos vinte e sete partidos votaram majoritariamente para que a terceirização passe a ser a regra no país. Dentre eles, seis votaram 100% contra os trabalhadores (PEN, PMN, PRP, PSDC, PV e Solidariedade). Alguns ficaram na casa dos 90 a 80% contra por ocasião de um ou outro desgarrado como é o caso do DEM (17 x 2), do PMDB (55 x 6) , do PP (34 x 3) e do PSDB (44 x 2). Somente cinco partidos, com seus 71 parlamentares, foram 100% a favor de nossos direitos trabalhistas. Nem mesmo o PCdoB entrou nessa seleta lista, com 1 deputado votando vergonhosamente pela terceirização.
O PT embora tenha votado em bloco contra a PL governa o país ao lado da imensa maioria dos que querem o Brasil precarizado. É claro que o PT tem culpa. Como chamar de base aliada PP, PRB, PMDB, PSD, PR e PDT que votam em imensa maioria em posição contrária ao partido da presidenta? A quem interessa a tal governabilidade construída com partidos de destroem nossos direitos trabalhistas? Com certeza não a nós, trabalhadores.
Aqui está colocada uma imensa possibilidade na arena da luta de classes brasileira. Em nossa história recente nunca esteve colocada a possibilidade de construção de uma verdadeira greve geral que sacuda o país. Não que não houvesse necessidade. Não que não houvesse razões para tanto. Mas o cenário nunca foi tão propício. O ajuste fiscal de Levy e Dilma por mais que representassem uma ofensiva contra a classe, nem de longe a motivava a cruzar os braços ou tomar decididamente as ruas. O mesmo não se pode afirmar agora.
É preciso massificar o que significa a PL da terceirização e acumular forças para sacudir o Brasil. Construir grandes atos em todas as grandes cidades unindo na luta todos os que estão contra a terceirização. E na medida que lutamos juntos é preciso colocar o petismo na parede exigindo que essa tal governabilidade seja desfeita, exigindo de Dilma que vete a PL e que rompa com a burguesia, construindo um governo dos trabalhadores da cidade e do campo.
É hora de preparar as barricadas!
Exigimos não só o veto presidencial mas que os ministros de partidos que votaram na PL da terceirização saiam imediatamente do governo!
Ou eles param essa PL ou não devemos poupar esforços para parar o Brasil!
segunda-feira, 6 de abril de 2015
A batalha pelos terminais (artigo de Natan Braga) #privatizacaoNAO
O prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio do PROS (mesmo partido do ex-ministro Cid Gomes), anunciou recentemente sua mais nova política em "defesa" da mobilidade urbana na cidade: a privatização dos terminais da cidade. Até o momento o ato não foi merecedor de grande atenção dos movimentos sociais mas isso não necessariamente ficará assim por muito tempo, ou pelo menos, não deveria ficar assim nem um minuto a mais. Felizmente nem todo mundo enxerga o tema como algo desimportante. Esse é o caso do camarada Natan Braga que postou em modo restrito o texto "A batalha pelos terminais" e que aqui publico com a devida autorização do autor.
Boa leitura e vamos à luta.
A prefeitura tem a intenção de privatizar os terminais de Fortaleza como a mais nova façanha de Roberto Cláudio na mobilidade urbana. Inicia-se um novo ciclo de lutas pelo Transporte em uma arena até então impensável aos movimentos sociais da cidade. Isso só demonstra o quanto a realidade é dinâmica.
Aos fatos:
A lógica presente aqui é a da mercantilização de mais esse espaço público. Os terminais podem transformar-se em verdadeiros shopping centers com seguranças privados com plena liberdade para por exemplo cometer abusos contra os mais pobres. Junto com isso, alguns serviços tanto poderão como deverão ser cobrados, a exemplo do que acontece na Rodoviária Engenheiro João Thomé onde o uso do banheiro é pago.
Nessa batalha pelos terminais está em jogo, também, o futuro dos atuais permissionários que têm no negócio dentro do terminal a sua fonte de renda.
Mais do que nunca os trabalhadores de Fortaleza precisam posicionar-se e com organização, não só impor uma derrota aos planos do prefeito como exigir a reforma e ampliação do sistema de terminais e a sua manutenção como espaço público operado pela ETUFOR. Eis a linha mais que necessária para o momento: Em defesa do transporte público de qualidade em Fortaleza, todos na luta contra a política privatista de Roberto Cláudio.
Notas:
¹ Dados da Wikipedia
² Dados do Anuário de Fortaleza 2012-2013
³ Dados do Jornal O Povo
Boa leitura e vamos à luta.
A BATALHA PELOS TERMINAIS
A prefeitura tem a intenção de privatizar os terminais de Fortaleza como a mais nova façanha de Roberto Cláudio na mobilidade urbana. Inicia-se um novo ciclo de lutas pelo Transporte em uma arena até então impensável aos movimentos sociais da cidade. Isso só demonstra o quanto a realidade é dinâmica.
Aos fatos:
- Construídos durante a primeira administração de Juraci Magalhães (1990-1992)¹, os 7 terminais de Fortaleza recebem diariamente mais de 1 milhão de passageiros² e nunca passaram por reforma ou ampliação digna de citação. A tática do sucatear e privatizar parece muito clara aqui.
- A operação do sistema custa à ETUFOR R$ 2 milhões de reais por mês ou R$ 24 milhões por ano.
- O prefeito afirma que é necessário um Investimento de R$ 84 milhões para reforma e ampliação dos terminais³.
A lógica presente aqui é a da mercantilização de mais esse espaço público. Os terminais podem transformar-se em verdadeiros shopping centers com seguranças privados com plena liberdade para por exemplo cometer abusos contra os mais pobres. Junto com isso, alguns serviços tanto poderão como deverão ser cobrados, a exemplo do que acontece na Rodoviária Engenheiro João Thomé onde o uso do banheiro é pago.
Nessa batalha pelos terminais está em jogo, também, o futuro dos atuais permissionários que têm no negócio dentro do terminal a sua fonte de renda.
Mais do que nunca os trabalhadores de Fortaleza precisam posicionar-se e com organização, não só impor uma derrota aos planos do prefeito como exigir a reforma e ampliação do sistema de terminais e a sua manutenção como espaço público operado pela ETUFOR. Eis a linha mais que necessária para o momento: Em defesa do transporte público de qualidade em Fortaleza, todos na luta contra a política privatista de Roberto Cláudio.
Notas:
¹ Dados da Wikipedia
² Dados do Anuário de Fortaleza 2012-2013
³ Dados do Jornal O Povo
terça-feira, 31 de março de 2015
quarta-feira, 25 de março de 2015
"Experiência e intuição não nos bastam. É preciso método materialista para enxergar o momento."
O capítulo "A arte da insurreição" é sem sombra de dúvida parada obrigatória para todos aqueles que entendem que é preciso dedicação individual e coletiva para que a humanidade possa livrar-se dos pesados grilhões da exploração capitalista e de todas suas mazelas.
Aqui destacamos uma pequena passagem do texto:
"A intuição e a experiência são necessárias à direção revolucionária, tal como em todos os outros domínios da arte criadora. Mas isso não basta. A arte do mágico pode também, com sucesso, repousar sobra a intuição e a experiência. A arte do curador político não basta todavia senão para as épocas e períodos onde predomina a rotina. Numa época de grandes reviravoltas históricas não tolera as obras dos mágicos. A experiência, mesmo inspirada pela intuição, não basta. É preciso um método materialista permitindo descobrir, por detrás das sombras chinesas dos programas e das palavras de ordem, o momento real dos corpos da sociedade."
Particularmente, gosto da sua acidez ao comparar aqueles movidos tão somente pela aura da experiência com bons mágicos e seus truques que podem até impressionar em momentos de normalidade política. Mas palavras mágicas repetidas ao vento não são suficientes em momentos de reviravoltas. É preciso o método materialista. Ou seja, é preciso ciência. E para que? Para "descobrir por trás das sombras chinesas dos programas e das palavras de ordem, o momento real dos corpos da sociedade". Leia-se é preciso entender a correlação de forças das classes sociais. E tanto o programa como as palavras de ordem são os instrumentos para isso. Não para expressar nossas vontades, mas para capturar "o momento real dos corpos da sociedade". Eis a verdadeira arte para os revolucionários.
Aos interessados, vale a visita ao Arquivo Marxista na Internet para a leitura..
segunda-feira, 23 de março de 2015
JARDINS DOS IMPEACHMENTS QUE SE BIFURCAM (sete perspectivas pós queda de Dilma segundo @gduvivier)
Gregório Duvivier nos brinda com a análise das perspectivas políticas que se apresentam para os brasileiros tendo em vista os futuros possíveis a partir da interrupção do mandato de Dilma Roussef. São sete realidades paralelas descritas de forma inteligente e muito bem-humorada, é claro.
JARDINS DOS IMPEACHMENTS QUE SE BIFURCAM
1. Convocam-se novas eleições. Lula se candidata. Ganha. O governo segue corrupto e conservador, mas agora ganhou uma injeção de carisma. Metáforas futebolísticas entretêm povo e imprensa. Em 2018 Lula é reeleito e em 2022 Lula elege Dilma.
Ou 2. Convocam-se novas eleições. Lula não se candidata. Aécio ganha. O governo não dura uma semana: Anastasia, chefe da Casa Civil, está envolvido na Operação Lava Jato, assim como toda a base governista. Convocam-se novas eleições. Lula se candidata. Ganha. Ver futuro 1.
Ou 3. Dilma renuncia. Michel Temer assume. O PMDB agora governa o Brasil sem intermediários. Temer protagoniza a CPI do botox: descobre-se que o preenchimento facial diário do presidente era pago com a verba da saúde. O governo, apesar de mais corrupto do que o anterior, tem a aprovação popular. O povo depôs Dilma. Está feliz. Ao fim do mandato, Temer é eleito para a Academia Brasileira de Letras. E Lula se candidata à presidência. Ver futuro 1.
Ou 4. Dilma renuncia, Michel Temer também. O presidente do Câmara, Eduardo Cunha, é quem assume a presidência e dá um golpe evangélico: muda o nome do país para Estado Cristão Independente, nos EUA é conhecido como CrIsis. A corrupção atinge níveis estratosféricos, mas o povo não tem conhecimento porque os escândalos não passam na Record.
Ou 5: Eduardo Cunha, que tem seu nome citado em 11 de cada dez escândalos de corrupção dos últimos 20 anos, não pode tomar posse. Renan Calheiros assume. Em quatro horas de governo, Renan protagoniza nove escândalos de corrupção e é deposto com a melhor média da história: 2,25 escândalos por hora. Entra para a história como Renan, o breve.
Ou 6. O exército responde aos chamados e dá um golpe de Estado. Na hora em que Bolsonaro vai tomar posse, descobre-se que ele não sabe assinar o nome. Coronel Telhada assume em seu lugar. A Rede Globo afirma que o Brasil finalmente retomou o milagre do crescimento. A seleção canarinho ganha a Copa de 2018. Técnico: Dunga. O povo vai às ruas festejar.
Ou 7. Graças à pressão popular, todos os políticos envolvidos na Lava Jato vão parar na cadeia, assim como os corruptos do setor privado. A pressão faz o Congresso (o que sobrou dele) aprovar uma reforma que proíbe o financiamento privado de campanha. Todos os políticos agora dispõem da mesma verba e do mesmo tempo de televisão, logo os deputados mais esclarecidos vencem as eleições. O voto agora é facultativo, a maconha é legalizada, o aborto é oferecido pelo SUS e as igrejas finalmente passam a pagar impostos. O Brasil parece até primeiro mundo.
(Esse último futuro é um exercício de ficção.)
quinta-feira, 19 de março de 2015
Olhar um pouco melhor o 15 de março é também enxergar o que pode vir depois
Não é possível ter dúvida alguma que o dia 15 de março de 2015 entrou para a história. Milhares tomaram as ruas de várias cidades do país contra o governo Dilma. Na Avenida Paulista imagens aéreas mostraram uma das maiores marchas populares já realizadas na cidade de São Paulo, mais de 200 mil pessoas. A manifestação realizada na capital paulista em março de 2015 foi maior que qualquer outra realizada em junho de 2013, quando a repressão policial ao movimento passe livre desatou o evento que hoje é conhecido por todos nós como as jornadas de junho. Naquele ano, a Avenida Paulista viu manifestações de 110 mil pessoas. Este ano o pico chegou a quase 160 mil pessoas e considerando os que se somaram ou saíram durante as 4 horas de duração do ato, foram 100 mil pessoas a mais que em 2013. Seria lindo se não fosse trágico.
Infelizmente, e como já era esperado, as manifestações foram claramente reacionárias. A defesa da democracia tal como a Globo tentou fazer colar em sua cobertura extraordinária com dedicação maior do que em dia de eleição, foi atropelada pelos gritos de Fora Dilma acompanhados de cartazes reivindicando intervenção militar para salvar o Brasil. Assustador? Pois bem... vamos com calma. É verdade que as coisas são feias mas não adianta de absolutamente nada começar a roer as unhas com medo do golpe nem se desfazer do seu exemplar do "A Capital" de Eça de Queiroz. De muito mais serventia nos seria uma espiadela mais cuidadosa da manifestação a partir da perspectiva do público participante. Façamos isso.
São Paulo é a cidade mais populosa do país, contando com praticamente 12 milhões dos 200 milhões de brasileiros. Olhando por aí, ficamos sabendo que a Paulista foi ocupada por 1,75% da população da capital paulista. Ainda é muita gente, mas a perspectiva já não é a mesma e já se começa, a partir daí, a se ter uma noção de que tipo de gente de fato participou da marcha reacionária do dia 15. Nem se precisaria de pesquisa do Datafolha para se afirmar que a classe trabalhadora paulista faltou à festa. Mas, para nossa alegria a pesquisa existe. Pois vamos a ela.
Segundo o Datafolha:
- 63% foram homens;
- 69% de cor branca, 20% pardos, 5% pretos, 3% amarelos e 1% indío.
- A idade média foi de 40 anos;
- 76% possuiam ensino superior, 21% somente o ensino médio e 2%, o fundamental;
- 85% participam da PEA (população economicamente ativa) com 37% de assalariados, 11% de autônomos, 7% de liberais e 14% de empresários;
- 14% ganham até 3 salários mínimos, 15% de 3 a 5, 27% de 5 a 10, 22% de 10 a 20 e 19% acima de 20 salários;
- 84% nunca haviam participado de uma manifestação antes;
- 82% eram eleitores de Aécio, 14% anularam ou não votaram e somente 3% votaram em Dilma.
- 47% disseram espontaneamente estar nas ruas contra a corrupção, 27% contra a Dilma, 20% contra o PT, 15% contra os políticos e 6% por mais segurança.
- 85% acreditam na democracia, 10% consideram a ditadura como alternativa e outros 3% consideram isso indiferente.
Postos os números o que concluímos? O dia 15, gostem ou não seus defensores e participantes, foi um ato majoritariamente masculino, branco, velho, elitista, aecista e anti-petista. Mas os rótulos não nos são suficientes. Alguns desse números merecem um pouco mais de atenção, entre eles o da renda mensal dos participantes. Somente 14% ganham até 3 salários mínimos, ou seja, R$ 2364,00, enquanto 19% ganham acima de R$ 15.000,00. Por aí já entende-se que o peso pesado da classe trabalhadora que objetivamente ganha abaixo de 3 salários, não se envolveu com a marcha anti-petista. Não estavam lá os garis (R$ 970,00), pedreiros (R$ 1.393,50) e serventes (R$ 1.145,10), vigilantes (R$ 1.583,59), gráficos (R$ 1.280,40), comerciários (R$ 1.253,69), e um largo etcétera de categorias.
Também não compareceram os sem teto, favelados e desempregados afinal de contas é difícil acreditar que pessoas nessas condições nunca tenham participado de um protesto na sua vida (lembrar que 84% foram às ruas pela primeira vez). Sem falar que somente 5% se enxerga como negro. Definitivamente a classe trabalhadora não se comoveu pelo apelos globais.
Mas ao mesmo tempo isso não quer dizer que a classe está disposta a defender o governo frente populista de Dilma. Tanto é assim que ela também não deu peso ao ato da sexta-feira. dia 13 de março. Não rompeu com o governo ao ponto de se deixar arrastar pela direção da classe média paulista, mas também não está disposta a ser fiadora do PT e de Dilma. É muito importante ter isso em mente. Até mesmo porque o fato de não haver nenhum golpe a vista no horizonte não quer dizer que isso não possa mudar. É tudo uma questão de correlação de forças. Se a direitada começa a ganhar gosto pelas ruas e a arrancar pequenas vitórias na forma de capitulações do governo e do parlamento é possível que comece a arrastar atrás de si de forma mais significativa, tanto setores da direita convencional organizada em partidos burgueses e até mesmo destacamentos armados da própria polícia militar. Mas, insisto, ainda não é isso que está posto.
Por hora, a realidade nos aponta uma perspectiva que ruma pela direita mas o resultado pode ser totalmente diferente na medida em que o peso da classe trabalhadora entre nessa equação.
E eis o desafio: entender a situação em que se encontra a classe trabalhadora e ser capaz de canalizar seus desejos e necessidades correntes em um programa para ação. Nada de desesperos, nem de se deixar impressionar ou mesmo se precipitar. Nada de chamar a tomar de assalto as ruas ou parar as fábricas sem antes captar os sentimentos da classe. Nada de tarefas nem para os trabalhadores, nem para nós mesmos que não haja capacidade de se fazer materializar. O momento é de explicar pacientemente os grandes ataques que estão por vir e assim ir preparando-se para entrar na luta quando chegar a hora. Um passo atrás do outro e sempre em frente. Mantenhamo-nos firmes!
terça-feira, 17 de março de 2015
segunda-feira, 16 de março de 2015
"A mais maldita das heranças do PT" (artigo de @brumelianebrum no @elpais_brasil)
A escritora e repórter Eliane Brum publicou nesta segunda, 16 de março, no portal El País, artigo com o nome "A mais malditas das heranças do PT" que à luz das manifestações dos dias 13 e em especial, do dia 15, faz a análise do que signifcou a maldição dos 12 anos de governo petista, não pela corrupção, mas pelo afastamento das ruas e cooptação de vários setores do movimento popular, além do estanhamento de parte considerável do ativismo com o governo petista. Algumas passagens do texto não tem nossa concordância, em especial a que dá como caduca, a luta entre pobres e ricos , leia-se "luta de classes", mas ainda assim consideramos que vale a leitura e por isso colamos o artigo na íntegra dando destaque para algumas passagens que consideramos extremamente relevantes e oportunas.
Boa leitura.
O maior risco para o PT, para além do governo e do atual mandato, talvez não seja a multidão que ocupou as ruas do Brasil, mas a que não estava lá. São os que não estavam nem no dia 13 de março, quando movimentos como CUT, UNE e MST organizaram uma manifestação que, apesar de críticas a medidas de ajuste fiscal tomadas pelo governo, defendia a presidente Dilma Rousseff. Nem estavam no já histórico domingo, 15 de março, quando centenas de milhares de pessoas aderiram aos protestos, em várias capitais e cidades do país, em manifestações contra Dilma Rousseff articuladas nas redes sociais da internet, com bandeiras que defendiam o fim da corrupção, o impeachment da presidente e até uma aterradora, ainda que minoritária, defesa da volta da ditadura. São os que já não sairiam de casa em dia nenhum empunhando uma bandeira do PT, mas que também não atenderiam ao chamado das forças de 15 de março, os que apontam que o partido perdeu a capacidade de representar um projeto de esquerda – e gente de esquerda. É essa herança do PT que o Brasil, muito mais do que o partido, precisará compreender. E é com ela que teremos de lidar durante muito mais tempo do que o desse mandato.
Tenho dúvidas sobre a tecla tão batida por esses dias do Brasil polarizado. Como se o país estivesse dividido em dois polos opostos e claros. Ou, como querem alguns, uma disputa de ricos contra pobres. Ou, como querem outros, entre os cidadãos contra a corrupção e os beneficiados pela corrupção. Ou entre os a favor e os contra o governo. Acho que a narrativa da polarização serve muito bem a alguns interesses, mas pode ser falha para a interpretação da atual realidade do país. Se fosse simples assim, mesmo com a tese do impeachment nas ruas, ainda assim seria mais fácil para o PT.
Algumas considerações prévias. Se no segundo turno das eleições de 2014, Dilma Rousseff ganhou por uma pequena margem – 54.501.118 votos contra 51.041.155 de Aécio Neves –, não há dúvida de que ela ganhou. Foi democraticamente eleita, fato que deve ser respeitado acima de tudo. Não existe até esse momento nenhuma base para impeachment, instrumento traumático e seríssimo que não pode ser manipulado com leviandade, nem mesmo no discurso. Quem não gostou do resultado ou se arrependeu do voto, paciência, vai ter de esperar a próxima eleição. Os resultados valem também quando a gente não gosta deles. E tentar o contrário, sem base legal, é para irresponsáveis ou ignorantes ou golpistas.
No resultado das eleições ampliou-se a ressonância da tese de um país partido e polarizado. Mas não me parece ser possível esquecer que outros 37.279.085 brasileiros não escolheram nem Dilma nem Aécio, votando nulo ou branco e, a maior parte, se abstendo de votar. É muita gente – e é muita gente que não se sentia representada por nenhum dos dois candidatos, pelas mais variadas razões, à esquerda e também à direita, o que complica um pouco a tese da polarização. Além das divisões entre os que se polarizariam em um lado ou outro, há mais atores no jogo que não estão nem em um lado nem em outro. E não é tão fácil compreender o papel que desempenham. No mesmo sentido, pode ser muito arriscado acreditar que quem estava nos protestos neste domingo eram todos eleitores de Aécio Neves. A rua é, historicamente, o território das incertezas – e do incontrolável.
Há lastro na realidade para afirmar também que uma parte dos que só aderiram à Dilma Rousseff no segundo turno era composta por gente que acreditava em duas teses amplamente esgrimidas na internet às vésperas da votação: 1) a de que Dilma, assustada por quase ter perdido a eleição, em caso de vitória faria “uma guinada à esquerda”, retomando antigas bandeiras que fizeram do PT o PT; 2) a de votar em Dilma “para manter as conquistas sociais” e “evitar o mal maior”, então representado por Aécio e pelo PSDB. Para estes, Dilma Rousseff não era a melhor opção, apenas a menos ruim para o Brasil. E quem pretendia votar branco, anular o voto ou se abster seria uma espécie de traidor da esquerda e também do país e do povo brasileiro, ou ainda um covarde, acusações que ampliaram, às vésperas das eleições, a cisão entre pessoas que costumavam lutar lado a lado pelas mesmas causas. Neste caso, escolhia-se ignorar, acredito que mais por desespero eleitoral do que por convicção, que votar nulo, branco ou se abster também é um ato político.
Faz sentido suspeitar que uma fatia significativa destes que aderiram à Dilma apenas no segundo turno, que ou esperavam “uma guinada à esquerda” ou “evitar o mal maior”, ou ambos, decepcionaram-se com o seu voto depois da escolha de ministros como Kátia Abreu e Joaquim Levy, à direita no espectro político, assim como com medidas que afetaram os direitos dos trabalhadores. Assim, se a eleição fosse hoje, é provável que não votassem nela de novo. Esses arrependidos à esquerda aumentariam o número de eleitores que, pelas mais variadas razões, votaram em branco, anularam ou não compareceram às urnas, tornando maior o número de brasileiros que não se sentem representados por Dilma Rousseff e pelo PT, nem se sentiriam representados por Aécio Neves e pelo PSDB.
Esses arrependidos à esquerda, assim como todos aqueles que nem sequer cogitaram votar em Dilma Rousseff nem em Aécio Neves porque se situam à esquerda de ambos, tampouco se sentem identificados com qualquer um dos grupos que foi para as ruas no domingo contra a presidente. Para estes, não existe a menor possibilidade de ficar ao lado de figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) ou de defensores da ditadura militar ou mesmo de Paulinho da Força. Mas também não havia nenhuma possibilidade de andar junto com movimentos como CUT, UNE e MST, que para eles “pelegaram” quando o PT chegou ao poder: deixaram-se cooptar e esvaziaram-se de sentido, perdendo credibilidade e adesão em setores da sociedade que costumavam apoiá-los.
Essa parcela da esquerda – que envolve desde pessoas mais velhas, que historicamente apoiaram o PT, e muitos até que ajudaram a construí-lo, mas que se decepcionaram, assim como jovens filhos desse tempo, em que a ação política precisa ganhar horizontalidade e se construir de outra maneira e com múltiplos canais de participação efetiva – não encontrou nenhum candidato que a representasse. No primeiro turno, dividiram seus votos entre os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL, ou votaram em Marina Silva, em especial por sua compreensão da questão ambiental como estratégica, num mundo confrontado com a mudança climática, mas votaram com dúvidas. No segundo turno, não se sentiram representados por nenhum dos candidatos.
Marina Silva foi quem chegou mais perto de ser uma figura com estatura nacional de representação desse grupo à esquerda, mais em 2010 do que em 2014. Mas fracassou na construção de uma alternativa realmente nova dentro da política partidária. Em parte por não ter conseguido registrar seu partido a tempo de concorrer às eleições, o que a fez compor com o PSB, sigla bastante complicada para quem a apoiava, e assumir a cabeça de chapa por conta de uma tragédia que nem o mais fatalista poderia prever; em parte por conta da campanha mentirosa e de baixíssimo nível que o PT fez contra ela; em parte por equívocos de sua própria campanha, como a mudança do capítulo do programa em que falava de sua política para os LGBTs, recuo que, além de indigno, só ampliou e acentuou a desconfiança que muitos já tinham com relação à interferência de sua fé evangélica em questões caras como casamento homoafetivo e aborto; em parte porque escolheu ser menos ela mesma e mais uma candidata que supostamente seria palatável para estratos da população que precisava convencer. São muitas e complexas as razões.
O que aconteceu com Marina Silva em 2014 merece uma análise mais profunda. O fato é que, embora ela tenha ganhado, no primeiro turno de 2014, cerca de 2,5 milhões de votos a mais do que em 2010, seu capital político parece ter encolhido, e o partido que está construindo, a Rede Sustentabilidade, já sofreu deserções de peso. Talvez ela ainda tenha chance de recuperar o lugar que quase foi seu, mas não será fácil. Esse é um lugar vago nesse momento.
Há uma parcela politizada, à esquerda, que hoje não se sente representada nem pelo PT nem pelo PSDB, não participou de nenhum dos panelaços nem de nenhuma das duas grandes manifestações dos últimos dias, a de 15 de março várias vezes maior do que a do dia 13. É, porém, muito atuante politicamente em várias áreas e tem grande poder de articulação nas redes sociais. Não tenho como precisar seu tamanho, mas não é desprezível. É com essa parcela de brasileiros, que votou em Lula e no PT por décadas, mas que deixou de votar, ou de jovens que estão em movimentos horizontais apartidários, por causas específicas, que apontam o que de fato deveria preocupar o PT, porque esta era ou poderia ser a sua base, e foi perdida.
A parcela de esquerda que não bateria panelas contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderia, aponta a falência do PT em seguir representando o que representou no passado. Aponta que, em algum momento, para muito além do Mensalão e da Lava Jato, o PT escolheu se perder da sua base histórica, numa mistura de pragmatismo com arrogância. É possível que o PT tenha deixado de entender o Brasil. Envelhecido, não da forma desejável, representada por aqueles que continuam curiosos em compreender e acompanhar as mudanças do mundo, mas envelhecido da pior forma, cimentando-se numa conjuntura histórica que já não existe. E que não voltará a existir. Essa aposta arriscada precisa que a economia vá sempre bem; quando vai mal, o chão desaparece.
Fico perplexa quando lideranças petistas, e mesmo Lula, perguntam-se, ainda que retoricamente, por que perderam as ruas. Ora, perderam porque o PT gira em falso. O partido das ruas perdeu as ruas – menos porque foi expulso, mais porque se esqueceu de caminhar por elas. Ou, pior, acreditou que não precisava mais. Nesse contexto, Dilma Rousseff é só a personagem trágica da história, porque em algum momento Lula, com o aval ativo ou omisso de todos os outros, achou que poderia eleger uma presidente que não gosta de fazer política. Estava certo a curto prazo, podia. Mas sempre há o dia seguinte.
Não adianta ficar repetindo que só bateu panela quem é da elite. Pode ter sido maior o barulho nos bairros nobres de São Paulo, por exemplo, mas basta um pequeno esforço de reportagem para constatar que houve batuque de panelas também em bairros das periferias. Ainda que as panelas batessem só nos bairros dos ricos e da classe média, não é um bom caminho desqualificar quem protesta, mesmo que você ou eu não concordemos com a mensagem, com termos como “sacada gourmet” ou “panelas Le Creuset”. Todos têm direito de protestar numa democracia e muitos dos que ridicularizam quem protestou pertencem à mesma classe média e talvez tenham uma ou outra panelinha Le Creuset ou até pagou algumas prestações a mais no apartamento para ter uma sacada gourmet, o que não deveria torná-los menos aptos nem a protestar nem a criticar o protesto.
Nos panelaços, só o que me pareceu inaceitável foi chamar a presidente de “vagabunda” ou de “vaca”, não apenas porque é fundamental respeitar o seu cargo e aqueles que a elegeram, mas também porque não se pode chamar nenhuma mulher dessa maneira. E, principalmente, porque o “vaca” e o “vagabunda” apontam a quebra do pacto civilizatório. É nesses xingamentos, janela a janela, que está colocado o rompimento dos limites, o esgarçamento do laço social. Assim como, no domingo de 15 de março, essa ruptura esteve colocada naqueles que defendiam a volta da ditadura. Não há desculpa para desconhecer que o regime civil militar que dominou o Brasil pela força por 21 anos torturou gente, inclusive crianças, e matou gente. Muita gente. Assim, essa defesa é inconstitucional e criminosa. Com isso, sim, precisamos nos preocupar, em vez de misturar tudo numa desqualificação rasteira. É urgente que a esquerda faça uma crítica (e uma autocrítica) consistente, se quiser ter alguma importância nesse momento agudo do país.
Também não adianta continuar afirmando que quem foi para as ruas é aquela fatia da população que é contra as conquistas sociais promovidas pelo governo Lula, que tirou da miséria milhões de brasileiros e fez com que outros milhões ascendessem ao que se chamou de classe C. Pessoas as quais é preciso respeitar mais pelo seu passado do que pelo seu presente ficaram repetindo na última semana que quem era contra o PT não gostava de pobres nos aeroportos ou estudando nas universidades, entre outras máximas. É fato que existem pessoas incomodadas com a mudança histórica que o PT reconhecidamente fez, mas dizer que toda oposição ao PT e ao governo é composta por esse tipo de gente, ou é cegueira ou é má fé.
Num momento tão acirrado, todos que têm expressão pública precisam ter muito mais responsabilidade e cuidado para não aumentar ainda mais o clima de ódio – e disseminar preconceitos já se provou um caminho perigoso. Até a negação deve ter limites. E a negação é pior não para esses ricos caricatos, mas para o PT, que já passou da hora de se olhar no espelho com a intenção de se enxergar. De novo, esse discurso sem rastro na realidade apenas gira em falso e piora tudo. Mesmo para a propaganda e para o marketing, há limites para a falsificação da realidade. Se é para fazer publicidade, a boa é aquela capaz de captar os anseios do seu tempo.
É também por isso que me parece que o grande problema para o PT não é quem foi para as ruas no domingo, nem quem bateu panela, mas quem não fez nem uma coisa nem outra, mas também não tem a menor intenção de apoiá-lo, embora já o tenha feito no passado ou teria feito hoje se o PT tivesse respeitado as bandeiras do passado. Estes apontam o que o PT perdeu, o que já não é, o que possivelmente não possa voltar a ser.
O PT traiu algumas de suas bandeiras de identidade, aquelas que fazem com que em seu lugar seja preciso colocar máscaras que não se sustentam por muito tempo. Traiu não apenas por ter aderido à corrupção, que obviamente não foi inventada por ele na política brasileira, fato que não diminui em nada a sua responsabilidade. A sociedade brasileira, como qualquer um que anda por aí sabe, é corrupta da padaria da esquina ao Congresso. Mas ser um partido “ético” era um traço forte da construção concreta e simbólica do PT, era parte do seu rosto, e desmanchou-se. Embora ainda existam pessoas que merecem o máximo respeito no PT, assim como núcleos de resistência em determinadas áreas, secretarias e ministérios, e que precisam ser reconhecidos como tal, o partido traiu causas de base, aquelas que fazem com que se desconheça. Muitos dos que hoje deixaram de militar ou de apoiar o PT o fizeram para serem capazes de continuar defendendo o que o PT acreditava. Assim como compreenderam que o mundo atual exige interpretações mais complexas. Chamar a estes de traidores ou de fazer o jogo da direita é de uma boçalidade assombrosa. Até porque, para estes, o PT é a direita.
A parcela à esquerda que preferiu ficar fora de manifestações a favor ou contra lembra que tão importante quando discutir a corrupção na Petrobras é debater a opção por combustíveis fósseis que a Petrobras representa, num momento em que o mundo precisa reduzir radicalmente suas emissões de gases do efeito estufa. Lembra que estimular a compra de carros como o governo federal fez é contribuir com o transporte privado individual motorizado, em vez de investir na ampliação do transporte público coletivo, assim como no uso das bicicletas. É também ir na contramão ao piorar as condições ambientais e de mobilidade, que costumam mastigar a vida de milhares de brasileiros confinados por horas em trens e ônibus lotados num trânsito que não anda nas grandes cidades. Lembra ainda que estimular o consumo de energia elétrica, como o governo fez, é uma irresponsabilidade não só econômica, mas socioambiental, já que os recursos são caros e finitos. Assim como olhar para o colapso da água visando apenas obras emergenciais, mas sem se preocupar com a mudança permanente de paradigma do consumo e sem se preocupar com o desmatamento tanto da floresta amazônica quanto do Cerrado quanto das nascentes do Sudeste e dos últimos redutos sobreviventes de Mata Atlântica fora e dentro das cidades é um erro monumental a médio e a longo prazos.
Os que não bateram panelas contra o PT e que não bateriam a favor lembram que a forma de ver o país (e o mundo) do lulismo pode ser excessivamente limitada para dar conta dos vários Brasis. Povos tradicionais e povos indígenas, por exemplo, não cabem nem na categoria “pobres” nem na categoria “trabalhadores”. Mas, ao fazer grandes hidrelétricas na Amazônia, ao ser o governo de Dilma Rousseff o que menos demarcou terras indígenas, assim como teve desempenho pífio na criação de reservas extrativistas e unidades de conservação, ao condenar os povos tradicionais ao etnocídio ou à expulsão para a periferia das cidades, é em pobres que são convertidos aqueles que nunca se viram nesses termos. Em parte, a construção objetiva e simbólica de Lula – e sua forma de ver o Brasil e o mundo – encarna essa contradição (escrevi sobre isso aqui), que o PT não foi capaz nem quis ser capaz de superar no poder. Em vez de enfrentá-la, livrou-se dos que a apontavam, caso de Marina Silva.
O PT no governo priorizou um projeto de desenvolvimento predatório, baseado em grandes obras, que deixou toda a complexidade socioambiental de fora. Escolha inadmissível num momento em que a ação do homem como causa do aquecimento global só é descartada por uma minoria de céticos do clima, na qual se inclui o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, mais uma das inacreditáveis escolhas de Dilma Rousseff. A síntese das contradições – e também das traições – do PT no poder não é a Petrobras, mas Belo Monte. Sobre a usina hidrelétrica já pesa a denúncia de que só a construtora Camargo Corrêa teria pagado mais de R$ 100 milhões em propinas para o PT e para o PMDB. É para Belo Monte que o país precisaria olhar com muito mais atenção. É na Amazônia, onde o PT reproduziu a visão da ditadura ao olhar para a floresta como um corpo para a exploração, que as fraturas do partido ao chegar ao poder se mostram em toda a sua inteireza. E é também lá que a falácia de que quem critica o PT é porque não gosta de pobre vira uma piada perversa.
A sorte do PT é que a Amazônia é longe para a maioria da população e menos contada pela imprensa do que deveria, ou contada a partir de uma visão de mundo urbana que não reconhece no outro nem a diferença nem o direito de ser diferente. Do contrário, as barbaridades cometidas pelo PT contra os trabalhadores pobres, os povos indígenas e as populações tradicionais, e contra uma floresta estratégica para o clima, para o presente e para o futuro, seriam reconhecidas como o escândalo que de fato são. É também disso que se lembram aqueles que não gritaram contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderiam.
Lembram também que o PT não fez a reforma agrária; ficou aquém na saúde e na educação, transformando “Brasil, Pátria Educadora” num slogan natimorto; avançou muito pouco numa política para as drogas que vá além da proibição e da repressão, modelo que encarcera milhares de pequenos traficantes num sistema prisional sobre o qual o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já disse que “prefere morrer a cumprir pena”; cooptou grande parte dos movimentos sociais (que se deixaram cooptar por conveniência, é importante lembrar); priorizou a inclusão social pelo consumo, não pela cidadania; recuou em questões como o kit anti-homofobia e o aborto; se aliou ao que havia de mais viciado na política brasileira e aos velhos clãs do coronelismo, como os Sarney.
Isso é tão ou mais importante do que a corrupção, sobre a qual sempre se pode dizer que começou bem antes e atravessa a maioria dos partidos, o que também é verdade. Olhar com honestidade para esse cenário depois de mais de 12 anos de governo petista não significa deixar de reconhecer os enormes avanços que o PT no poder também representou. Mas os avanços não podem anular nem as traições, nem os retrocessos, nem as omissões, nem os erros. É preciso enfrentar a complexidade, por toda as razões e porque ela diz também sobre a falência do sistema político no qual o país está atolado, para muito além de um partido e de um mandato.
Há algo que o PT sequestrou de pelo menos duas gerações de esquerda e é essa a sua herança mais maldita. E a que vai marcar décadas, não um mandato. Tenho entrevistado pessoas que ajudaram a construir o PT, que fizeram dessa construção um projeto de vida, concentradas em lutas específicas. Essas pessoas se sentem traídas porque o partido rasgou suas causas e se colocou ao lado de seus algozes. Mas não traídas como alguém de 30 anos pode se sentir traído em seus últimos votos. Este tem tempo para construir um projeto a partir das novas experiências de participação política que se abrem nesse momento histórico muito particular. Os mais velhos, os que estiveram lá na fundação, não. Estes sentem-se traídos como alguém que não tem outra vida para construir e acreditar num novo projeto. É algo profundo e também brutal, é a própria vida que passa a girar em falso, e justamente no momento mais crucial dela, que é perto do fim ou pelo menos nas suas últimas décadas. É um fracasso também pessoal, o que suas palavras expressam é um testemunho de aniquilação. Algumas dessas pessoas choraram neste domingo, dentro de casa, ao assistir pela TV o PT perder as ruas, como se diante de um tipo de morte.
O PT, ao trair alguns de seus ideias mais caros, escavou um buraco no Brasil. Um bem grande, que ainda levará tempo para virar marca. Não adianta dizer que outros partidos se corromperam, que outros partidos recuaram, que outros partidos se aliaram a velhas e viciadas raposas políticas. É verdade. Mas o PT tinha um lugar único no espectro partidário da redemocratização, ocupava um imaginário muito particular num momento em que se precisava construir novos sentidos para o Brasil. Era o partido “diferente”. Quem acreditou no PT esperou muito mais dele, o que explica o tamanho da dor daqueles que se desfiliaram ou deixaram de militar no partido. A decepção é sempre proporcional à esperança que se tinha depositado naquele que nos decepciona.
É essa herança que precisamos entender melhor, para compreender qual é a profundidade do seu impacto no país. E também para pensar em como esse vácuo pode ser ocupado, possivelmente não mais por um partido, pelo menos não um nos moldes tradicionais. Como se sabe, o vácuo não se mantém. Quem acredita em bandeiras que o PT já teve precisa parar de brigar entre si – assim como de desqualificar todos os outros como “coxinhas” – e encontrar caminhos para ocupar esse espaço, porque o momento é limite. O PT deve à sociedade brasileira um ajuste de contas consigo mesmo, porque o discurso dos pobres contra ricos já virou fumaça. Não dá para continuar desconectado com a realidade, que é só uma forma estúpida de negação.
Boa leitura.
A mais maldita das heranças do PT
O maior risco para o PT, para além do governo e do atual mandato, talvez não seja a multidão que ocupou as ruas do Brasil, mas a que não estava lá. São os que não estavam nem no dia 13 de março, quando movimentos como CUT, UNE e MST organizaram uma manifestação que, apesar de críticas a medidas de ajuste fiscal tomadas pelo governo, defendia a presidente Dilma Rousseff. Nem estavam no já histórico domingo, 15 de março, quando centenas de milhares de pessoas aderiram aos protestos, em várias capitais e cidades do país, em manifestações contra Dilma Rousseff articuladas nas redes sociais da internet, com bandeiras que defendiam o fim da corrupção, o impeachment da presidente e até uma aterradora, ainda que minoritária, defesa da volta da ditadura. São os que já não sairiam de casa em dia nenhum empunhando uma bandeira do PT, mas que também não atenderiam ao chamado das forças de 15 de março, os que apontam que o partido perdeu a capacidade de representar um projeto de esquerda – e gente de esquerda. É essa herança do PT que o Brasil, muito mais do que o partido, precisará compreender. E é com ela que teremos de lidar durante muito mais tempo do que o desse mandato.
Tenho dúvidas sobre a tecla tão batida por esses dias do Brasil polarizado. Como se o país estivesse dividido em dois polos opostos e claros. Ou, como querem alguns, uma disputa de ricos contra pobres. Ou, como querem outros, entre os cidadãos contra a corrupção e os beneficiados pela corrupção. Ou entre os a favor e os contra o governo. Acho que a narrativa da polarização serve muito bem a alguns interesses, mas pode ser falha para a interpretação da atual realidade do país. Se fosse simples assim, mesmo com a tese do impeachment nas ruas, ainda assim seria mais fácil para o PT.
Algumas considerações prévias. Se no segundo turno das eleições de 2014, Dilma Rousseff ganhou por uma pequena margem – 54.501.118 votos contra 51.041.155 de Aécio Neves –, não há dúvida de que ela ganhou. Foi democraticamente eleita, fato que deve ser respeitado acima de tudo. Não existe até esse momento nenhuma base para impeachment, instrumento traumático e seríssimo que não pode ser manipulado com leviandade, nem mesmo no discurso. Quem não gostou do resultado ou se arrependeu do voto, paciência, vai ter de esperar a próxima eleição. Os resultados valem também quando a gente não gosta deles. E tentar o contrário, sem base legal, é para irresponsáveis ou ignorantes ou golpistas.
No resultado das eleições ampliou-se a ressonância da tese de um país partido e polarizado. Mas não me parece ser possível esquecer que outros 37.279.085 brasileiros não escolheram nem Dilma nem Aécio, votando nulo ou branco e, a maior parte, se abstendo de votar. É muita gente – e é muita gente que não se sentia representada por nenhum dos dois candidatos, pelas mais variadas razões, à esquerda e também à direita, o que complica um pouco a tese da polarização. Além das divisões entre os que se polarizariam em um lado ou outro, há mais atores no jogo que não estão nem em um lado nem em outro. E não é tão fácil compreender o papel que desempenham. No mesmo sentido, pode ser muito arriscado acreditar que quem estava nos protestos neste domingo eram todos eleitores de Aécio Neves. A rua é, historicamente, o território das incertezas – e do incontrolável.
Há lastro na realidade para afirmar também que uma parte dos que só aderiram à Dilma Rousseff no segundo turno era composta por gente que acreditava em duas teses amplamente esgrimidas na internet às vésperas da votação: 1) a de que Dilma, assustada por quase ter perdido a eleição, em caso de vitória faria “uma guinada à esquerda”, retomando antigas bandeiras que fizeram do PT o PT; 2) a de votar em Dilma “para manter as conquistas sociais” e “evitar o mal maior”, então representado por Aécio e pelo PSDB. Para estes, Dilma Rousseff não era a melhor opção, apenas a menos ruim para o Brasil. E quem pretendia votar branco, anular o voto ou se abster seria uma espécie de traidor da esquerda e também do país e do povo brasileiro, ou ainda um covarde, acusações que ampliaram, às vésperas das eleições, a cisão entre pessoas que costumavam lutar lado a lado pelas mesmas causas. Neste caso, escolhia-se ignorar, acredito que mais por desespero eleitoral do que por convicção, que votar nulo, branco ou se abster também é um ato político.
Faz sentido suspeitar que uma fatia significativa destes que aderiram à Dilma apenas no segundo turno, que ou esperavam “uma guinada à esquerda” ou “evitar o mal maior”, ou ambos, decepcionaram-se com o seu voto depois da escolha de ministros como Kátia Abreu e Joaquim Levy, à direita no espectro político, assim como com medidas que afetaram os direitos dos trabalhadores. Assim, se a eleição fosse hoje, é provável que não votassem nela de novo. Esses arrependidos à esquerda aumentariam o número de eleitores que, pelas mais variadas razões, votaram em branco, anularam ou não compareceram às urnas, tornando maior o número de brasileiros que não se sentem representados por Dilma Rousseff e pelo PT, nem se sentiriam representados por Aécio Neves e pelo PSDB.
Esses arrependidos à esquerda, assim como todos aqueles que nem sequer cogitaram votar em Dilma Rousseff nem em Aécio Neves porque se situam à esquerda de ambos, tampouco se sentem identificados com qualquer um dos grupos que foi para as ruas no domingo contra a presidente. Para estes, não existe a menor possibilidade de ficar ao lado de figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) ou de defensores da ditadura militar ou mesmo de Paulinho da Força. Mas também não havia nenhuma possibilidade de andar junto com movimentos como CUT, UNE e MST, que para eles “pelegaram” quando o PT chegou ao poder: deixaram-se cooptar e esvaziaram-se de sentido, perdendo credibilidade e adesão em setores da sociedade que costumavam apoiá-los.
Essa parcela da esquerda – que envolve desde pessoas mais velhas, que historicamente apoiaram o PT, e muitos até que ajudaram a construí-lo, mas que se decepcionaram, assim como jovens filhos desse tempo, em que a ação política precisa ganhar horizontalidade e se construir de outra maneira e com múltiplos canais de participação efetiva – não encontrou nenhum candidato que a representasse. No primeiro turno, dividiram seus votos entre os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL, ou votaram em Marina Silva, em especial por sua compreensão da questão ambiental como estratégica, num mundo confrontado com a mudança climática, mas votaram com dúvidas. No segundo turno, não se sentiram representados por nenhum dos candidatos.
Marina Silva foi quem chegou mais perto de ser uma figura com estatura nacional de representação desse grupo à esquerda, mais em 2010 do que em 2014. Mas fracassou na construção de uma alternativa realmente nova dentro da política partidária. Em parte por não ter conseguido registrar seu partido a tempo de concorrer às eleições, o que a fez compor com o PSB, sigla bastante complicada para quem a apoiava, e assumir a cabeça de chapa por conta de uma tragédia que nem o mais fatalista poderia prever; em parte por conta da campanha mentirosa e de baixíssimo nível que o PT fez contra ela; em parte por equívocos de sua própria campanha, como a mudança do capítulo do programa em que falava de sua política para os LGBTs, recuo que, além de indigno, só ampliou e acentuou a desconfiança que muitos já tinham com relação à interferência de sua fé evangélica em questões caras como casamento homoafetivo e aborto; em parte porque escolheu ser menos ela mesma e mais uma candidata que supostamente seria palatável para estratos da população que precisava convencer. São muitas e complexas as razões.
O que aconteceu com Marina Silva em 2014 merece uma análise mais profunda. O fato é que, embora ela tenha ganhado, no primeiro turno de 2014, cerca de 2,5 milhões de votos a mais do que em 2010, seu capital político parece ter encolhido, e o partido que está construindo, a Rede Sustentabilidade, já sofreu deserções de peso. Talvez ela ainda tenha chance de recuperar o lugar que quase foi seu, mas não será fácil. Esse é um lugar vago nesse momento.
Há uma parcela politizada, à esquerda, que hoje não se sente representada nem pelo PT nem pelo PSDB, não participou de nenhum dos panelaços nem de nenhuma das duas grandes manifestações dos últimos dias, a de 15 de março várias vezes maior do que a do dia 13. É, porém, muito atuante politicamente em várias áreas e tem grande poder de articulação nas redes sociais. Não tenho como precisar seu tamanho, mas não é desprezível. É com essa parcela de brasileiros, que votou em Lula e no PT por décadas, mas que deixou de votar, ou de jovens que estão em movimentos horizontais apartidários, por causas específicas, que apontam o que de fato deveria preocupar o PT, porque esta era ou poderia ser a sua base, e foi perdida.
A parcela de esquerda que não bateria panelas contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderia, aponta a falência do PT em seguir representando o que representou no passado. Aponta que, em algum momento, para muito além do Mensalão e da Lava Jato, o PT escolheu se perder da sua base histórica, numa mistura de pragmatismo com arrogância. É possível que o PT tenha deixado de entender o Brasil. Envelhecido, não da forma desejável, representada por aqueles que continuam curiosos em compreender e acompanhar as mudanças do mundo, mas envelhecido da pior forma, cimentando-se numa conjuntura histórica que já não existe. E que não voltará a existir. Essa aposta arriscada precisa que a economia vá sempre bem; quando vai mal, o chão desaparece.
Fico perplexa quando lideranças petistas, e mesmo Lula, perguntam-se, ainda que retoricamente, por que perderam as ruas. Ora, perderam porque o PT gira em falso. O partido das ruas perdeu as ruas – menos porque foi expulso, mais porque se esqueceu de caminhar por elas. Ou, pior, acreditou que não precisava mais. Nesse contexto, Dilma Rousseff é só a personagem trágica da história, porque em algum momento Lula, com o aval ativo ou omisso de todos os outros, achou que poderia eleger uma presidente que não gosta de fazer política. Estava certo a curto prazo, podia. Mas sempre há o dia seguinte.
Não adianta ficar repetindo que só bateu panela quem é da elite. Pode ter sido maior o barulho nos bairros nobres de São Paulo, por exemplo, mas basta um pequeno esforço de reportagem para constatar que houve batuque de panelas também em bairros das periferias. Ainda que as panelas batessem só nos bairros dos ricos e da classe média, não é um bom caminho desqualificar quem protesta, mesmo que você ou eu não concordemos com a mensagem, com termos como “sacada gourmet” ou “panelas Le Creuset”. Todos têm direito de protestar numa democracia e muitos dos que ridicularizam quem protestou pertencem à mesma classe média e talvez tenham uma ou outra panelinha Le Creuset ou até pagou algumas prestações a mais no apartamento para ter uma sacada gourmet, o que não deveria torná-los menos aptos nem a protestar nem a criticar o protesto.
Nos panelaços, só o que me pareceu inaceitável foi chamar a presidente de “vagabunda” ou de “vaca”, não apenas porque é fundamental respeitar o seu cargo e aqueles que a elegeram, mas também porque não se pode chamar nenhuma mulher dessa maneira. E, principalmente, porque o “vaca” e o “vagabunda” apontam a quebra do pacto civilizatório. É nesses xingamentos, janela a janela, que está colocado o rompimento dos limites, o esgarçamento do laço social. Assim como, no domingo de 15 de março, essa ruptura esteve colocada naqueles que defendiam a volta da ditadura. Não há desculpa para desconhecer que o regime civil militar que dominou o Brasil pela força por 21 anos torturou gente, inclusive crianças, e matou gente. Muita gente. Assim, essa defesa é inconstitucional e criminosa. Com isso, sim, precisamos nos preocupar, em vez de misturar tudo numa desqualificação rasteira. É urgente que a esquerda faça uma crítica (e uma autocrítica) consistente, se quiser ter alguma importância nesse momento agudo do país.
Também não adianta continuar afirmando que quem foi para as ruas é aquela fatia da população que é contra as conquistas sociais promovidas pelo governo Lula, que tirou da miséria milhões de brasileiros e fez com que outros milhões ascendessem ao que se chamou de classe C. Pessoas as quais é preciso respeitar mais pelo seu passado do que pelo seu presente ficaram repetindo na última semana que quem era contra o PT não gostava de pobres nos aeroportos ou estudando nas universidades, entre outras máximas. É fato que existem pessoas incomodadas com a mudança histórica que o PT reconhecidamente fez, mas dizer que toda oposição ao PT e ao governo é composta por esse tipo de gente, ou é cegueira ou é má fé.
Num momento tão acirrado, todos que têm expressão pública precisam ter muito mais responsabilidade e cuidado para não aumentar ainda mais o clima de ódio – e disseminar preconceitos já se provou um caminho perigoso. Até a negação deve ter limites. E a negação é pior não para esses ricos caricatos, mas para o PT, que já passou da hora de se olhar no espelho com a intenção de se enxergar. De novo, esse discurso sem rastro na realidade apenas gira em falso e piora tudo. Mesmo para a propaganda e para o marketing, há limites para a falsificação da realidade. Se é para fazer publicidade, a boa é aquela capaz de captar os anseios do seu tempo.
É também por isso que me parece que o grande problema para o PT não é quem foi para as ruas no domingo, nem quem bateu panela, mas quem não fez nem uma coisa nem outra, mas também não tem a menor intenção de apoiá-lo, embora já o tenha feito no passado ou teria feito hoje se o PT tivesse respeitado as bandeiras do passado. Estes apontam o que o PT perdeu, o que já não é, o que possivelmente não possa voltar a ser.
O PT traiu algumas de suas bandeiras de identidade, aquelas que fazem com que em seu lugar seja preciso colocar máscaras que não se sustentam por muito tempo. Traiu não apenas por ter aderido à corrupção, que obviamente não foi inventada por ele na política brasileira, fato que não diminui em nada a sua responsabilidade. A sociedade brasileira, como qualquer um que anda por aí sabe, é corrupta da padaria da esquina ao Congresso. Mas ser um partido “ético” era um traço forte da construção concreta e simbólica do PT, era parte do seu rosto, e desmanchou-se. Embora ainda existam pessoas que merecem o máximo respeito no PT, assim como núcleos de resistência em determinadas áreas, secretarias e ministérios, e que precisam ser reconhecidos como tal, o partido traiu causas de base, aquelas que fazem com que se desconheça. Muitos dos que hoje deixaram de militar ou de apoiar o PT o fizeram para serem capazes de continuar defendendo o que o PT acreditava. Assim como compreenderam que o mundo atual exige interpretações mais complexas. Chamar a estes de traidores ou de fazer o jogo da direita é de uma boçalidade assombrosa. Até porque, para estes, o PT é a direita.
A parcela à esquerda que preferiu ficar fora de manifestações a favor ou contra lembra que tão importante quando discutir a corrupção na Petrobras é debater a opção por combustíveis fósseis que a Petrobras representa, num momento em que o mundo precisa reduzir radicalmente suas emissões de gases do efeito estufa. Lembra que estimular a compra de carros como o governo federal fez é contribuir com o transporte privado individual motorizado, em vez de investir na ampliação do transporte público coletivo, assim como no uso das bicicletas. É também ir na contramão ao piorar as condições ambientais e de mobilidade, que costumam mastigar a vida de milhares de brasileiros confinados por horas em trens e ônibus lotados num trânsito que não anda nas grandes cidades. Lembra ainda que estimular o consumo de energia elétrica, como o governo fez, é uma irresponsabilidade não só econômica, mas socioambiental, já que os recursos são caros e finitos. Assim como olhar para o colapso da água visando apenas obras emergenciais, mas sem se preocupar com a mudança permanente de paradigma do consumo e sem se preocupar com o desmatamento tanto da floresta amazônica quanto do Cerrado quanto das nascentes do Sudeste e dos últimos redutos sobreviventes de Mata Atlântica fora e dentro das cidades é um erro monumental a médio e a longo prazos.
Os que não bateram panelas contra o PT e que não bateriam a favor lembram que a forma de ver o país (e o mundo) do lulismo pode ser excessivamente limitada para dar conta dos vários Brasis. Povos tradicionais e povos indígenas, por exemplo, não cabem nem na categoria “pobres” nem na categoria “trabalhadores”. Mas, ao fazer grandes hidrelétricas na Amazônia, ao ser o governo de Dilma Rousseff o que menos demarcou terras indígenas, assim como teve desempenho pífio na criação de reservas extrativistas e unidades de conservação, ao condenar os povos tradicionais ao etnocídio ou à expulsão para a periferia das cidades, é em pobres que são convertidos aqueles que nunca se viram nesses termos. Em parte, a construção objetiva e simbólica de Lula – e sua forma de ver o Brasil e o mundo – encarna essa contradição (escrevi sobre isso aqui), que o PT não foi capaz nem quis ser capaz de superar no poder. Em vez de enfrentá-la, livrou-se dos que a apontavam, caso de Marina Silva.
O PT no governo priorizou um projeto de desenvolvimento predatório, baseado em grandes obras, que deixou toda a complexidade socioambiental de fora. Escolha inadmissível num momento em que a ação do homem como causa do aquecimento global só é descartada por uma minoria de céticos do clima, na qual se inclui o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, mais uma das inacreditáveis escolhas de Dilma Rousseff. A síntese das contradições – e também das traições – do PT no poder não é a Petrobras, mas Belo Monte. Sobre a usina hidrelétrica já pesa a denúncia de que só a construtora Camargo Corrêa teria pagado mais de R$ 100 milhões em propinas para o PT e para o PMDB. É para Belo Monte que o país precisaria olhar com muito mais atenção. É na Amazônia, onde o PT reproduziu a visão da ditadura ao olhar para a floresta como um corpo para a exploração, que as fraturas do partido ao chegar ao poder se mostram em toda a sua inteireza. E é também lá que a falácia de que quem critica o PT é porque não gosta de pobre vira uma piada perversa.
A sorte do PT é que a Amazônia é longe para a maioria da população e menos contada pela imprensa do que deveria, ou contada a partir de uma visão de mundo urbana que não reconhece no outro nem a diferença nem o direito de ser diferente. Do contrário, as barbaridades cometidas pelo PT contra os trabalhadores pobres, os povos indígenas e as populações tradicionais, e contra uma floresta estratégica para o clima, para o presente e para o futuro, seriam reconhecidas como o escândalo que de fato são. É também disso que se lembram aqueles que não gritaram contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderiam.
Lembram também que o PT não fez a reforma agrária; ficou aquém na saúde e na educação, transformando “Brasil, Pátria Educadora” num slogan natimorto; avançou muito pouco numa política para as drogas que vá além da proibição e da repressão, modelo que encarcera milhares de pequenos traficantes num sistema prisional sobre o qual o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já disse que “prefere morrer a cumprir pena”; cooptou grande parte dos movimentos sociais (que se deixaram cooptar por conveniência, é importante lembrar); priorizou a inclusão social pelo consumo, não pela cidadania; recuou em questões como o kit anti-homofobia e o aborto; se aliou ao que havia de mais viciado na política brasileira e aos velhos clãs do coronelismo, como os Sarney.
Isso é tão ou mais importante do que a corrupção, sobre a qual sempre se pode dizer que começou bem antes e atravessa a maioria dos partidos, o que também é verdade. Olhar com honestidade para esse cenário depois de mais de 12 anos de governo petista não significa deixar de reconhecer os enormes avanços que o PT no poder também representou. Mas os avanços não podem anular nem as traições, nem os retrocessos, nem as omissões, nem os erros. É preciso enfrentar a complexidade, por toda as razões e porque ela diz também sobre a falência do sistema político no qual o país está atolado, para muito além de um partido e de um mandato.
Há algo que o PT sequestrou de pelo menos duas gerações de esquerda e é essa a sua herança mais maldita. E a que vai marcar décadas, não um mandato. Tenho entrevistado pessoas que ajudaram a construir o PT, que fizeram dessa construção um projeto de vida, concentradas em lutas específicas. Essas pessoas se sentem traídas porque o partido rasgou suas causas e se colocou ao lado de seus algozes. Mas não traídas como alguém de 30 anos pode se sentir traído em seus últimos votos. Este tem tempo para construir um projeto a partir das novas experiências de participação política que se abrem nesse momento histórico muito particular. Os mais velhos, os que estiveram lá na fundação, não. Estes sentem-se traídos como alguém que não tem outra vida para construir e acreditar num novo projeto. É algo profundo e também brutal, é a própria vida que passa a girar em falso, e justamente no momento mais crucial dela, que é perto do fim ou pelo menos nas suas últimas décadas. É um fracasso também pessoal, o que suas palavras expressam é um testemunho de aniquilação. Algumas dessas pessoas choraram neste domingo, dentro de casa, ao assistir pela TV o PT perder as ruas, como se diante de um tipo de morte.
O PT, ao trair alguns de seus ideias mais caros, escavou um buraco no Brasil. Um bem grande, que ainda levará tempo para virar marca. Não adianta dizer que outros partidos se corromperam, que outros partidos recuaram, que outros partidos se aliaram a velhas e viciadas raposas políticas. É verdade. Mas o PT tinha um lugar único no espectro partidário da redemocratização, ocupava um imaginário muito particular num momento em que se precisava construir novos sentidos para o Brasil. Era o partido “diferente”. Quem acreditou no PT esperou muito mais dele, o que explica o tamanho da dor daqueles que se desfiliaram ou deixaram de militar no partido. A decepção é sempre proporcional à esperança que se tinha depositado naquele que nos decepciona.
É essa herança que precisamos entender melhor, para compreender qual é a profundidade do seu impacto no país. E também para pensar em como esse vácuo pode ser ocupado, possivelmente não mais por um partido, pelo menos não um nos moldes tradicionais. Como se sabe, o vácuo não se mantém. Quem acredita em bandeiras que o PT já teve precisa parar de brigar entre si – assim como de desqualificar todos os outros como “coxinhas” – e encontrar caminhos para ocupar esse espaço, porque o momento é limite. O PT deve à sociedade brasileira um ajuste de contas consigo mesmo, porque o discurso dos pobres contra ricos já virou fumaça. Não dá para continuar desconectado com a realidade, que é só uma forma estúpida de negação.
sábado, 14 de março de 2015
Alguns comentários sobre o 15 de março ou "desliguem o alarme, não há nenhum golpe a vista no horizonte!"
Vivemos um clima de acirramento político no país, como há muito não se vê. O corriqueiro é vermos a disputa que estamos vendo agora no período eleitoral onde praticamente se manifesta o clima de final de campeonato, aquele "FlaFlu" político e estupidamente despolitizado do tipo, bem "o meu é melhor que o teu e pronto". À direita é à esquerda, é aquele mais do mesmo intragável. A direitada estérica e infecunda grita "Nunca se roubou tanto nesse país!", "A corrupção é culpa do PT, a luta de classe é culpa do PT!", "Querem transformar o Brasil em uma Venezuela, em uma Cuba!", "Forças armadas façam alguma coisa, salvem o país!", blá, blá, blá... Já o governismo lulo-petista avisa em tom pesado e funesto "Golpe à vista! Golpe á vista! Soem os alarmes! Golpe à vista!". Ao seus avisos anexam recomendações "aguentemos o amargor dos remédios governistas, não é hora de colocar o governo na parede, é preciso cerrar fileiras ao lado do polo democrático contra os golpistas".
Como o caso dos argumentos da direita raivosa é de tratamento psicológico e não de argumentação política, o melhor é que deixemos os profissionais de saúde tratar do assunto. Já a argumentação do petismo é possível e preciso, um pouco de reflexão. Até mesmo porque mal fazem 3 décadas que as botas dos governos militares foram recolhidas de nossos pescoços, e essa é sempre uma hipótese que os ativistas dos movimentos populares, em especial, os socialistas revolucionários precisam ter em mente.
Então nos dediquemos um pouco a analisar o tema do "golpe" partindo em primeiro lugar de a quem interessaria o fim da experiência de 12 anos dos governos de frente popular no Brasil.
1. O grosso do empresariado brasileiro não rompeu com o governo e não tem interesse em instabilidade política que por sua vez significa menos negócios, menos lucros em especial em um cenário de crise econômica mundial não resolvido. Banqueiros, latifundiários, grandes industriais, varejistas se não estão em um momento de plena satisfação em função da situação econômica não tão tranquila, não estão em campanha aberta contra Dilma, até mesmo porque estão muito bem representados em seu governo. O setor do empresariado que poderia estar em pé de guerra poderia ser por exemplo o da construção civil, meio que afetado pelas obras paralisadas em função das denúncias de grandes empreiteiras na operação Lava-Jato, mas não é o que estamos vendo pelo menos até agora. Nem mesmo o grosso da oposição de direita organizada em partidos políticos não quer a queda do governo (vide FHC e Tasso).
2. O setor do empresariado com mais interesse em derrotar o governo e que agradeceria enormemente uma renúncia ou algo do gênero é o ligado aos grandes grupos de comunicação meio que movidos pela grave crise que vivem. Ainda assim não possuem coragem para defender uma suposta necessidade de uma ruptura democrática, via golpe.
3. Por fim, o imperialismo não tem motivo algum para investir na queda do governo. As relações comerciais com Brasil não passam por nenhuma contenda nem os interesses das grandes corporações multinacionais em solo nacional passam por qualquer ameaça. Para o governo estadunidense mais interessa investir na instabilidade venezuelana do que forçar uma no Brasil.
Em resumo não existe interesse da burguesia nacional e internacional, e sem seu apoio não existe nenhuma possibilidade de golpe no horizonte. Mas e quanto ao "povo brasileiro"? Do nosso ponto de vista de nada interessa enxergar a sociedade escondida por trás dessa categoria de indeterminação social, chamada "o povo". Nos debrucemos sobre o espírito e o comportamento das classes sociais, em especial a chamada classe média, o grande proletariado e o subproletariado urbano.
1. A classe média segue em violenta ruptura com o governo. A gasolina acima dos R$ 3,00 é um imensa restrição ao seu status quo. Seguro desemprego, licença maternidade, FGTS, corte no orçamento da saúde e da educação? Para a classe média isso não gera a menor comoção. Mas quanto à gasolina isso é algo que não dá pra encarar. Não é a toa que vez por outra voltam à tona aqueles protestos imbecis de fazer fila em postos e abastecer 50 centavos de gasolina e pagar no cartão ou em cédulas grande e ainda por cima pedir o troco. Ainda assim a classe média e seus interesses não é capaz de mover nem a burguesia para um golpe, nem muito menos a classe trabalhadora para uma revolução.
2. O grande proletariado urbano segue paciente. Existe sim um desconforto crescente com os caminhos trilhados pelo governo em especial por conta do arrocho e alta dos preços mas ainda não vemos nenhuma disposição para grandes lutas. Corrupção, Petrobrás, lava-jato, mensalão povoam seus olhos e ouvidos mas são tão significativos para a classe quanto um episódio da novela das oito. Ainda contam como um enorme contrapeso o maior poder de compra do salário mínimo nos últimos 50 anos, a facilidade de crédito e os vários sonhos de consumo realizados. Somados à deseducação, desmoralização e desmobilização dos últimos 12 anos que não permitiram uma ação independente e cotidiana da classe, a situação ainda que com a tendência de aumento de greves em 2015, segue de semi-paralisia.
3. Já o subproletiariado urbano em suas várias camadas e tons age de forma muito desigual. Trabalhadores precarizados não encontram eco em seus pares cltistas ou com estabilidade, ainda assim é possível enxergar o crescimento de suas lutas (vide UFF, Brasilia, Vale, etc). Dos movimentos sociais organizados, o que provavelmente ganhou mais notoriedade na última década foi o MTST em função da luta por moradia digna. A própria luta em junho de 2013 teve um eco enorme no subproletariado urbano altamente escolarizado em função da alta das tarifas do transporte público. Pesa contra este setor da classe, o nível de desorganização e a ausência de tradição de luta.
Tudo isso pode mudar se os ataques aos direitos trabalhistas tomarem outra proporção. Praticamente o governo tem feito seus movimentos pelas beiradas. Se na esteira do "tenham paciência" coloca-se em marcha o fator 85/95 para aposentadoria, se a inflação fugir do controle para níveis insuportáveis, ou outra coisa do gênero, talvez aí sim teremos uma possibilidade do peso pesado da classe trabalhadora levantar-se e arrastar consigo tanto os setores do subproletariado como da própria classe média. Mas por hora, não é isso que está posto.
Resumindo: não estamos diante nem de um golpe fascista, nem muito menos do prenúncio de uma grande vaga de lutas da classe trabalhadora. Erram tanto aqueles que chamam a subir barricadas contra a ofensiva da direita como aqueles que chamam a avançar pela esquerda e derrotar o governo e suas medidas via paralisação nacional. E ambos os erros são nefastos.
quinta-feira, 12 de março de 2015
A enxaqueca nacional (via @opovoonline)
A edição do jornal O Povo desta quinta-feira, dia 12/03, traz artigo muito oportuno assinado pelo jornalista Henrique Araújo com o nome "A enxaqueca nacional" que trata do clima "pré 15 de março" inicialmente alimentado pelas redes sociais e hoje distribuído em cadeia nacional pelos grandes meios de comunicação. Nele Henrique indaga, afinal de contas quem é o sujeito social do tal 15M, muito à luz do próprio perfil dos participantes que vem confirmando e promovendo a manifestação.
Segue o artigo. Boa leitura.
Um espectro ronda o Brasil – é o espectro do dia 15 de março. Começou como uma marola, mas agora, depois do álbum de figurinhas da Copa do Janot, ameaça ganhar força. O que vai acontecer no próximo domingo? Muita gente se pergunta. Povão nas ruas? Gatos pingados? Caras pálidas ou coloridas? Onde o ponto de encontro, no pátio Dom Luís ou na Praça Portugal? Vão de pulôver ou de abadá? Distribuirão pulseiras quânticas ou bandanas de uma marca de cosméticos? Haverá estandes de apoio com acompanhamento médico a cada quarteirão e reaplicação de bloqueador solar? Venda de camisetas do Luciano Huck? Wifi? Manobrista?
O esforço de adivinhação é mais que curiosidade. Quero tentar enxergar o rosto desse Brasil que bate panelas (Tramontina?) na varanda do apartamento (160m² e pé direito alto?) num domingo de noite (sob ar-condicionado?), mas ignora quando um pedreiro é morto pela Polícia num morro carioca, um adolescente é espancado amarrado a um poste, o filho de um casal gay é assassinado. Quero conhecer a verdade que cala fundo na alma desse cidadão e dessa cidadã que chamam de vagabunda uma mulher já avançada na idade, mas tratam com deferência um governador que mentiu sobre a segurança hídrica do estado que administra.
Quem é esse povo que expulsou Guido Mantega de um hospital enquanto o ex-ministro acompanhava a esposa que se tratava de câncer? Quem é essa gente que vaiou os médicos cubanos? Os mesmos do #viadutosim? Os que afixaram no vidro da SUV “Fora Dilma e leve junto o PT”? Quem é essa gente para quem o feminicídio desrespeita a universalidade dos direitos, mas não se preocupa em investigar o morticínio de mulheres a cada ano? Quem é essa gente que pretende instituir o Dia do Orgulho Hetero? É a mesma que acredita na mão invisível do mercado, mas não consegue explicar a débâcle mundial em 2008?
É ocioso comparar o 15/3 às manifestações de junho de 2013. Primeiro, porque já houve manifestações – a de domingo, mesmo que uma parte da imprensa esteja empenhada em divulgar local, data e hora, rotas de ônibus e sugestões de frases para cartazes, ainda é uma possibilidade. Além disso, as motivações políticas se distanciam no tempo e no espaço. Um, a Copa do Mundo e os gastos com as obras; o outro, uma genérica revolta contra a corrupção, um moralismo que faz tabula rasa do Congresso e esse sentimento cada vez mais difuso de anti-petismo.
Quando soube que a “classe média alta, caucasiana e heteronormativa” (li essa bobagem no Facebook) havia protestado, tentei enxergar tudo como se fosse minha avó. Diante de qualquer cena, ela suspirava e dizia algo que, traduzido para o português de hoje, equivale a ”vida que segue”. Minha avó não era conformista, tampouco alarmista, muito menos “dilmista” ou “lulista”. Diria que uma leitora de Terêncio: nada do que fosse humano lhe era estranho. Guerra civil, terceiro turno, tentativa de golpe: patacoada. Minha avó só se espantava com o que já não causava espanto. Hoje, o que causa espanto não é que as pessoas batam panelas nas varandas de suas casas, mas que só façam isso pelas razões erradas.
Segue o artigo. Boa leitura.
A enxaqueca nacional
Um espectro ronda o Brasil – é o espectro do dia 15 de março. Começou como uma marola, mas agora, depois do álbum de figurinhas da Copa do Janot, ameaça ganhar força. O que vai acontecer no próximo domingo? Muita gente se pergunta. Povão nas ruas? Gatos pingados? Caras pálidas ou coloridas? Onde o ponto de encontro, no pátio Dom Luís ou na Praça Portugal? Vão de pulôver ou de abadá? Distribuirão pulseiras quânticas ou bandanas de uma marca de cosméticos? Haverá estandes de apoio com acompanhamento médico a cada quarteirão e reaplicação de bloqueador solar? Venda de camisetas do Luciano Huck? Wifi? Manobrista?
O esforço de adivinhação é mais que curiosidade. Quero tentar enxergar o rosto desse Brasil que bate panelas (Tramontina?) na varanda do apartamento (160m² e pé direito alto?) num domingo de noite (sob ar-condicionado?), mas ignora quando um pedreiro é morto pela Polícia num morro carioca, um adolescente é espancado amarrado a um poste, o filho de um casal gay é assassinado. Quero conhecer a verdade que cala fundo na alma desse cidadão e dessa cidadã que chamam de vagabunda uma mulher já avançada na idade, mas tratam com deferência um governador que mentiu sobre a segurança hídrica do estado que administra.
Quem é esse povo que expulsou Guido Mantega de um hospital enquanto o ex-ministro acompanhava a esposa que se tratava de câncer? Quem é essa gente que vaiou os médicos cubanos? Os mesmos do #viadutosim? Os que afixaram no vidro da SUV “Fora Dilma e leve junto o PT”? Quem é essa gente para quem o feminicídio desrespeita a universalidade dos direitos, mas não se preocupa em investigar o morticínio de mulheres a cada ano? Quem é essa gente que pretende instituir o Dia do Orgulho Hetero? É a mesma que acredita na mão invisível do mercado, mas não consegue explicar a débâcle mundial em 2008?
É ocioso comparar o 15/3 às manifestações de junho de 2013. Primeiro, porque já houve manifestações – a de domingo, mesmo que uma parte da imprensa esteja empenhada em divulgar local, data e hora, rotas de ônibus e sugestões de frases para cartazes, ainda é uma possibilidade. Além disso, as motivações políticas se distanciam no tempo e no espaço. Um, a Copa do Mundo e os gastos com as obras; o outro, uma genérica revolta contra a corrupção, um moralismo que faz tabula rasa do Congresso e esse sentimento cada vez mais difuso de anti-petismo.
Quando soube que a “classe média alta, caucasiana e heteronormativa” (li essa bobagem no Facebook) havia protestado, tentei enxergar tudo como se fosse minha avó. Diante de qualquer cena, ela suspirava e dizia algo que, traduzido para o português de hoje, equivale a ”vida que segue”. Minha avó não era conformista, tampouco alarmista, muito menos “dilmista” ou “lulista”. Diria que uma leitora de Terêncio: nada do que fosse humano lhe era estranho. Guerra civil, terceiro turno, tentativa de golpe: patacoada. Minha avó só se espantava com o que já não causava espanto. Hoje, o que causa espanto não é que as pessoas batam panelas nas varandas de suas casas, mas que só façam isso pelas razões erradas.
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