segunda-feira, 30 de novembro de 2015

"Centralismo democrático: entre a pedra e o caminho" (texto de ​Sérgio Domingues)


Sérgio Domingues é sociólogo e funcionário da UFRJ, colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação fundado pelo saudoso Vito Giannotti e militante do PSOL. É de sua autoria o texto "Centralismo democrático: entre a pedra e o caminho" que divulgamos aqui neste post que versa sobre uma das polêmicas mais recorrentes e pulsantes no que se refere a organização dos revolucionários. Como fruto dos anos do tacão stalinista, o centralismo democrático, foi via de regra demonizado por várias correntes, agrupamentos e ativistas. E não é pra menos. Ainda hoje, é possível ver organizações que se afirmam trotskistas, o que deveria ser sinônimo de anti-stalinistas, aplicando um tipo de centralismo que apesar da alcunha de democrático, silencia e sufoca diferenças em seu seio. Algo absolutamente diferente da experiências do centralismo-democrático aplicado por Lênin, Trotsky e seus companheiros, tanto durante a ditadura czarista, como os governos pós-fevereiro de 17 e até mesmo o período de guerra civil pós-outubro.

O texto de Sérgio de Domingues é uma importante contribuição que começa com um exemplo muito didático sobre a necessidade de remover uma grande pedra do caminho, o que em nosso caso como o próprio autor relata, é o capitalismo.

Boa leitura.

Centralismo democrático: entre a pedra e o caminho


Adelmo Genro Filho costumava explicar a necessidade de adotar o centralismo democrático com uma imagem didática. Trata-se de imaginar um grupo de pessoas que encontra uma grande pedra impedindo que sigam seu caminho. Se cada pessoa empurrar a pedra para um lado diferente, não vão conseguir movê-la. Será preciso que entrem num acordo, primeiro. Discutam e decidam com que força, ferramentas e em que direção o obstáculo deve ser afastado. Só depois disso devem, todas, iniciar a ação. Se ela se provar errada, voltam a discutir e fazem nova tentativa.

No caso de um partido socialista a pedra é a exploração da sociedade capitalista, que temos que superar, destruindo seus pontos de apoio. O movimento unitário é necessário porque os pontos de apoio da sociedade capitalista também são centralizados. Os capitalistas concorrem entre si ferozmente. Disputam postos no poder político e financeiro de modo selvagem. Mas, diante da menor ameaça a seus interesses. Diante de qualquer risco para seus lucros, suas propriedades, seu poder político, eles se unem. Esquecem suas diferenças e as ofensas que trocaram. Voltam-se unidos contra a ameaça. Geralmente, representada pela luta dos trabalhadores. E estes não podem se dar ao luxo de permanecer dispersos, enquanto seu inimigo está unido e forte.

Mas as coisas não são tão simples. Quem acompanhou a história do movimento socialista do século passado sabe que o centralismo democrático está longe de ser consenso entre as forças anticapitalistas.

Voltando a usar a imagem da pedra, o problema surge quando a maioria faz força empurrando a rocha, enquanto alguns ficam só olhando. Ou pior, sobem na pedra e ficam dando ordens lá de cima: “Mais pra direita, mais pra esquerda”. “Tem que usar mais força. Desse jeito, não vai dar”. Falam muito e não fazem nada. É o que a tradição socialista costuma chamar de centralismo burocrático. Ou seja, alguns conseguem se instalar em posições de comando. Em posições administrativas. Em confortáveis gabinetes e escritórios. Dão ordens, escrevem tratados, fazem teorias. Enviam tudo, lá de cima, para que a maioria, cá embaixo, execute. Está errado, claro. Nenhum socialista honesto pode aceitar isso.

No entanto, como evitar que o centralismo democrático se transforme em centralismo burocrático? Afinal, aparentemente, na grande maioria dos casos em que o centralismo democrático foi utilizado como forma de organização, ele se transformou em sua versão burocrática. Daí, a justa desconfiança de muitos camaradas combativos e de luta em relação ao centralismo.

O que fazer com Lênin?

Comecemos pelo começo. O primeiro a usar o conceito de centralismo foi Lênin. Mas, antes dele, o conceito já funcionava de alguma forma. É o caso das regras da Liga Comunista e do estatuto da Associação Internacional dos Trabalhadores, da época de Marx. Em ambos, estava prevista a necessidade de que seus membros agissem de forma unitária. Uma vez que uma tarefa fosse votada e decidida, todos deveriam agir juntos para cumpri-la.

Mas há experiências ainda mais antigas. Desde as primeiras ações sindicais, o centralismo também estava presente de alguma forma. Numa assembléia, podem se apresentar posições contrárias ou favoráveis a uma greve. Porém, uma vez decidido o início de uma paralisação, todos devem fazer a greve. Quem não fizer, é traidor. É fura-greve.

Isso acontece porque a classe operária é dividida. Dividida em ramos de trabalho diferentes. Dividida pela competição por um salário melhor. Dividida por preconceitos de cor, sexo, religião. A isso, as forças socialistas precisam responder com unidade. Com centralismo. Se não, não dá pra fazer nem uma greve.

A diferença é que Lênin teorizou o centralismo democrático para um partido revolucionário. Uma organização que pretende enfrentar radicalmente os exploradores. Algo que quer dar a batalha final. Não ficar no meio do caminho e ver a classe dominante retomar terreno.

Em 1904, Lênin escreveu algo que faz arrepiar os cabelos até de seus mais entusiasmados seguidores. Criticando os mencheviques disse: "a idéia básica do camarada Martov... é [produto] justamente de seu ‘democratismo’. A idéia da construção do partido de baixo para cima. Minha idéia, ao contrário, é o ‘burocratismo’, no sentido de que o partido deve ser construído de cima para baixo. Do congresso para a organização individual do partido." (Lênin, Obras [em russo], VII, pp 365-366 – citado por Toni Cliff, em sua biografia sobre Rosa Luxemburgo).

Assustador, sem dúvida. Tais posições ficaram ainda mais famosas em “O que fazer?” e “Duas táticas da social-democracia na revolução proletária”, também de Lênin. Mas, o revolucionário russo não era homem de posições congeladas. Em 1905, nos debates de preparação para o 3o congresso do partido, disse que seus pontos de vistas organizativos não eram universais: "Em condições políticas de liberdade, nosso partido pode e deve refazer inteiramente a regras...". É que Lênin pensou aquelas regras para um momento em que as condições políticas da Rússia eram as de uma ditadura terrível. Já não era mais o caso, após a revolução de 1905.

E quando Rosa Luxemburgo criticou sua concepção de centralismo aparecida em “O que fazer?”, Lênin respondeu que tratava-se de uma posição superada. Tanto assim que, em 1920, não gostou da notícia de que “O que fazer?” seria traduzido para outros idiomas. Pediu para que a edição fosse acompanhada por comentários claros sobre as condições em que o livro foi escrito.

Outro exemplo aconteceu quando a 3a Internacional Comunista discutia seus estatutos, em 1919. Lênin se opôs a propostas que considerava “muito russas” e exageravam a centralização. Ele dizia que o excesso de centralização não se adaptava às condições da Europa ocidental.

De qualquer maneira, a concepção de centralismo democrático permaneceu. Não como algo feito de cima para baixo. Ao contrário, com o máximo de democracia. Em outro de seus livros, isso ficou mais claro. Trata-se de “O Estado e a Revolução”. Lançado às vésperas da revolução de 1917, o livro foi escrito por quem pressentia a tomada do poder. A necessidade de pensar como funcionaria um Estado governado pelos trabalhadores. Por isso, é inspirado na única experiência parecida com isso, até então. A Comuna de Paris, de 1871. No livro, Lênin diz que a democracia dos trabalhadores tem que funcionar na base da mais ampla e intensa discussão antes de qualquer decisão. Como na Comuna, as funções de legislar, governar, julgar, executar, não podem ser separadas. Teoria e prática têm que fazer parte das tarefas cumpridas por todos. E o Estado precisa ir se enfraquecendo e não se fortalecendo. Pois já não tem serventia à medida que as classes vão desaparecendo. Como vimos, as posições de Lênin mudaram. Mas na verdade, o centralismo democrático nunca foi uma fórmula rígida. Sempre foi uma maneira de combinar ampla discussão com ação unitária. Sempre levando em conta as condições concretas da realidade. Quando isso se transformou em uma fórmula é que tornou-se centralismo burocrático. A insistência na variedade de formas com que o centralismo democrático se manifesta sempre esteve presente nas obras dos marxistas.

Trotsky, Gramsci e a tentação de subir na rocha

Em sua obra “Sobre o centralismo e o Regime”, Trotsky chama a atenção para o fato de que centralismo e democracia nunca estão em uma proporção exata: “Quando o problema é a ação política, o centralismo domina a democracia. A democracia retoma seu lugar novamente quando o partido precisa examinar criticamente suas próprias ações. O equilíbrio entre democracia e centralismo se estabelece na luta real. Às vezes, este equilíbrio é violado e de novo restabelecido”.

Gramsci tratou do tema da mesma forma. Em “O moderno príncipe”, ele deu o nome de “centralismo orgânico” ao centralismo democrático. Vejam o que ele disse: “Esta ‘organicidade’ somente pode ser encontrada no centralismo democrático. Algo que seria, por assim dizer, um “centralismo” em movimento. Ou seja, uma contínua adaptação da organização ao movimento real. Um encontro dos impulsos vindos de baixo com as ordens a partir de cima. Um contínuo bombeamento de elementos vindos da base partidária para dentro da moldura sólida em que ficam as lideranças e que assegura a permanente e regular acumulação de experiências. O centralismo democrático é ‘orgânico’ porque dá conta do movimento. E este não passa do modo orgânico como a realidade histórica se revela e não se solidifica mecanicamente na forma de burocracia. Ao mesmo tempo, dá conta daquilo que é relativamente estável e permanente, ou que, pelo menos, se move em uma direção mais facilmente previsível...”. Sem dúvida, são visões dinâmicas e dialéticas da organização partidária.

Ainda assim, são legítimas as preocupações de quem vê com desconfiança o centralismo democrático. Este texto não tem a intenção de acabar com isso. Ao contrário. Tudo o que foi dito não deve servir para desculpar Lênin, Trotsky e outros por erros ou tragédias que vieram a ser cometidos em nome do centralismo. Mas, também não podemos trancar o debate com a recusa de algo que não pode ser recusado: a busca de formas de criar e manter a unidade dos trabalhadores em luta.

A verdade é que não há como garantir isso de forma pura. Vivemos numa sociedade hierárquica, em que alguns mandam e muitos obedecem. Alguns pensam, a maioria executa. Com o tempo, essas diferenças somente se aprofundam. Exercem uma pressão constante e esmagadora sobre uma organização que pretende ser o contrário disso. Obrigam a que esta organização reaja de forma quase espelhada. Respondendo ao autoritarismo burguês com o centralismo dos trabalhadores. À repressão deles com nossa autodefesa. A idéias conservadoras e autoritárias com valores revolucionários e libertários. Este espelho está sempre tentando distorcer a luz autoritária que vem de fora. Transformá-la em imagens do que devem ser as relações humanas. Nem sempre isso acontece. É uma luta dura, mas que precisa ser feita.

Por mais que tenhamos divergências, a rocha continua no meio do caminho. A pressão para que alguns parem de empurrar a pedra e passem a dar ordens é grande. Se cederem à tentação, aí, eles passam a fazer parte do problema e não da solução. Temos que ficar atentos a isso. Nesse caso, quem está sobre a pedra tem que ser removido junto com ela.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O forte e marcante "Gritaram-me Negra" de Victoria Santa Cruz


"Gritaram-me Negra" é uma perfomance poética da afro-peruana Victoria Santa Cruz que narra a dupla descoberta da negritude de uma mulher, primeiro aos sete, aliás quase cinco anos de idade pela força da vergonha e seguida negação, e tempos mais tarde após não sobrar mais nada para a mulher negra a não ser afirmando-se.

Victoria Santa Cruz foi poetisa, coreógrafa, estilista e folclorista, que a partir de sua própria experiência (a criança de menos de 5 anos do poema é ela mesma) passa a dedicar sua vida adulta a difundir as diversas vertentes culturais afro-peruanas. Falecida aos 91 anos em 2014, tem seu poema "Gritaram-me Negra" reivindicado e interpretado por diversos setores do movimento de negros e negras.

Abaixo separamos não só o poema em português como alguns videos de interpretações deste poema-manifesto que não basta ser lido ou ouvido, ele precisa ser também visto.




Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Perguntas a um homem bom #poema de Bertold Brecht




Avança: ouvimos dizer que és um homem bom.

Não te deixas comprar, mas o raio que incendeia a casa, também não pode ser comprado.

Manténs a tua palavra. Mas que palavra disseste?

És honesto, dás a tua opinião. Mas que opinião?

És corajoso. Mas contra quem?

És sábio. Mas para quem?

Não tens em conta os teus interesses pessoais. Que interesses consideras, então?

És um bom amigo. Mas serás também um bom amigo de gente boa?

Agora escuta: sabemos que és nosso inimigo. 
Por isso vamos encostar-te ao paredão. 

Mas tendo em conta os teus méritos e boas qualidades
vamos encostar-te a um bom paredão e matar-te
com uma boa bala de uma boa espingarda e enterrar-te
com uma boa pá na boa terra.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Impeachment: o discurso que une golpistas e governistas

E já se foram quase nove meses do quarto mandato do petismo no governo federal e um dos temas mais recorrentes durante esse período foi o da possibilidade de impeachment. O assunto tornou-se quase que como um samba de uma nota só: surgiu denúncia de corrupção na Petrobrás, impeachment; pedaladas fiscais, impeachment; aumento no preço da gasolina, impeachment; alta do dólar, impeachment. Na última semana a "Standard & Poor's" rebaixou o grau de investimento do país e o que veio logo em seguida? "O governo da Dilma acabou",  "o governo corre o risco de não concluir o mandato" e "melhor acabar com o desastre do governo Dilma agora do que esperar mais 3 anos". Ou seja, impeachment, impeachment e impeachment. E não pensem que tal discurso é somente da "burguesia golpista". O próprio governismo também faz questão de divulgar que o perigo está logo ali na esquina e que é preciso "defender a democracia" a qualquer custo.

Mas será que o "impeachment" de fato está em questão? Por que se estiver meus amigos, é preciso que toda a esquerda socialista ajuste sua linha para não só se posicionar contra mas como também resistir à interrupção do governo de Dilma Rousseff. Existe alguma dúvida em relação a isso? Qualquer impedimento ao governo petista será feito não por questões de crime de responsabilidade mas por pura perda de apoio no Congresso Nacional, o que configurará nada mais, nada menos, do que um atentado contra o tal "regime democrático de direito", leia-se, um golpe. Um golpe ao estilo paraguaio, é verdade. Bem diferente daquele que os mais exaltados das marchas dos coxinhas gostariam que fosse, mas ainda assim será um golpe.

Mas será que para nós, trabalhadores, existe real problema no parlamento burguês destituir o governo burguês de plantão e colocar em seu lugar um outro governo burguês? No fim das contas, não é tudo a mesma coisa? Afinal, ora bolas, o projeto de Dilma e do PT são ou não são idênticos ao projeto de Aécio e do PSDB? Não é exatamente por isso que parte da esquerda socialista defende a linha do "Nem-Nem" e do "Chega de Dilma, PT, PSDB"? Será que de fato não seria melhor destituir logo Dilma que ataca os trabalhadores e ao menos assim conseguir uma trégua para reorganizar o movimento operário e popular?

A resposta a todas essas perguntas pode ser obtida respondendo a uma outra questão: quem sairá mais fortalecido com a cassação de Dilma? Ora, nos termos que estão postos a destituição de Dilma será nada mais nada menos do que uma prova de força da oposição burguesa. E se ela sai mais forte, mais forte ainda sai seu projeto.

Mas assim como engana-se quem coloca sinal de igual entre Dilma e Aécio, engana-se ainda mais, quem se deixa levar pelo discurso histérico de lá vem o golpe. Não existe interesse na grande burguesia na queda de Dilma. O Itaú não quer, Bradesco também não, muito menos FIESP e FIRJAN. Existe interesse desses em "ajuste fiscal" e "reformas estruturais". Leia-se corte de verbas nas áreas sociais e serviço público e ataques aos direitos dos trabalhadores. Mesmo os que muito defendem interromper o governo Dilma, o que querem mesmo é que o governo seja ainda mais duro nos cortes que já vem fazendo. Ou seja, no fim das contas, o tal discurso pelo impeachment não passa de pura chantagem. Chantagem da oposição burguesa, para que o governo pare de ser "populista" e "bonzinho" e também chantagem do governismo, para justificar aos movimentos sociais que precisa "cortar na própria carne" para seguir governando.

Aqui é preciso muito cuidado e atenção da esquerda socialista. Não está em questão defender o governo Dilma de um possível golpe, porque simplesmente ele não existe. Mas está em questão sim, lutar contra os ataques às condições de vida da classe trabalhadora. É preciso ter a coragem para chamar unidade para lutar sendo capaz de identificar o que de fato unifica os trabalhadores e movimentos sociais sendo capaz até mesmo de arrastar às ruas parcelas do governismo. Chega de cortes sociais e ataque aos direitos do povo pobre e trabalhador! Nem ajuste fiscal do Levy, nem agenda Brasil do Renan, nem muito menos cortes no orçamento pra satisfazer banqueiro! Que os ricos paguem pela crise!

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O velho León e Natalia em Coyoacán (#poema de Paulo Leminsky interpretado por Vitor Ramil) #75anosSemTrotsky


desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás de outro vindo
você e eu sonhando e dormindo


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Por que odiar o PT (artigo de @gduvivier)


Mais um texto excelente de Gregório Duvivier para deixar com ainda mais ódio a imensa legião de coxinhas de nosso Brasil varonil foi publicado hoje em sua coluna na Folha de São Paulo. Em "Por que odiar o PT", Duvivier separa o ódio de classe de todo o espectro direitoso que ronda o país do mais do que justa indignação daqueles que apostaram suas esperanças de um novo Brasil ao levar o Partido dos Trabalhadores ao governo e receberam em troca as velhas alianças possíveis e as malditas medidas capitalistas de sempre.

Texto primoroso com o qual discordo do desfecho. Não existe ação de despejo sendo levada em frente pelos senhores do poder. Se antes talvez até ventilavam tal hipótese, hoje a renegam sem sombra de dúvida. Se antes não víamos FIESP e FIERJ pedindo a cabeça de Dilma, agora as vemos pedindo diálogo e moderação por parte dos oposicionistas de direita. Até mesmo a Globo, o grande bastião do conservadorismo reacionário brasileiro, mudou de tom e afirma categoricamente que Dilma só deve sair em 2018 ao passar a faixa a seu sucessor devidamente eleito e empossado.

Os gritos histéricos dos que clamam Fora Dilma, Duvivier, hoje, mais do que nunca, não passam exatamente disso: gritos histéricos.

De toda forma eis o texto que vale demais a leitura:

Por que odiar o PT


A primeira vez que me deparei com uma urna eletrônica foi para votar no Lula. E Lula se elegeu, depois de três tentativas malfadadas. Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto: com a prepotência característica dos 16 anos, tive a certeza de que era o meu voto que tinha feito toda a diferença.

A rua estava cheia de pessoas da minha idade que tinham essa mesma certeza. O Brasil tinha acabado de ganhar uma Copa do Mundo, mas a euforia agora era ainda maior: foi a gente que fez o gol da virada. Parecia que o Brasil tinha jeito, e o jeito era a gente –essa gente que nasceu de 1982 a 1986 e votava agora pela primeira vez.

Acabaram-se os problemas do Brasil –a gente chegou. Lembro das ruas cheias, das bandeiras do PT, lembro de abraçar desconhecidos na Cinelândia –Lula lá, brilha uma estrela.

Logo vi que não era o meu voto que tinha feito o Lula se eleger, nem o dos meus amigos, nem o da minha geração. Quem elegeu o Lula –isso logo ficou claro– foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade.

Lula só alugou esse apartamento por quatro anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos sonhos –tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram algumas mudanças –as empregadas passaram a ganhar mais–, mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa.

Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês –mas por razões diferentes. Odeio porque ele cumpriu a promessa de continuidade. Odeio porque ele não rompeu com os esquemas que o antecederam. Odeio por causa de Belo Monte e do total descompromisso com qualquer questão ambiental e indígena. Odeio porque nunca os bancos lucraram tanto. Odeio pela liberdade e pelos ministérios que ele deu ao PMDB. Odeio pelos incentivos à indústria automobilística e à indústria bélica. Odeio porque o Brasil hoje exporta armas para Iêmen, Paquistão, Israel e porque as revoltas do Oriente Médio foram sufocadas com armas brasileiras. Odeio porque acabaram de cortar 3/4 das bolsas da Capes.

O PT é indefensável –cavou esse abismo com seus pés. Mas assim como não fomos nós que elegemos Lula, engana-se quem vai às ruas e acha que está tirando Dilma do poder. Quem está movendo essa ação de despejo são os ratos que o PT não teve coragem de expulsar.

domingo, 26 de julho de 2015

Parece mentira: Globo e Zorra ridicularizam coxinhas e amantes da ditadura.


A Rede Globo de Televisão é um dos maiores instrumentos de alienação e propagação de ideais reacionários do país tendo nascido e ganhado poder durante os governos militares. Sua programação ao longo dos anos, com raros destaques, irradia ódio e preconceito em especial em seus programas humorísticos. Entre esses programas, um ganhou destaque nos últimos anos, por ser a fina flor do há de mais degradante: o Zorra Total.

Talvez pra se descolar um pouco da imagem de apoiadores da ditadura e de golpistas que bem ou mal acaba afetando o apelo comercial de seus produtos, a Globo e o Zorra levaram ao ar um inusitado quadro que relembra os festivais da canção ridicularizando o sentimento coxinha de amor à ditadura militar: o FICO (Festival Internacional do Coxinha).

Nele a "Jovem Guarda" e "Pare o Casamento" viram "as Jovens Guardas" e "Volte Agora" onde se pede a volta dos milicos, afinal os rolezinhos não deixam ninguém ir ao Shopping; "Jair Rodrigues" e "Disparada" viram "Capitão Rodrigues" e "Disparate" cantando que "não mais vai ter eleição, ninguém mais pode voltar, eu venho lá do quartel, já falei com o coronel para o Congresso fechar" e por aí vai.

O quadro termina de forma triunfal com a banda "Paramilitares do Retrocesso" baixando porrada na plateia logo após terem cantado "Para não dizer que não pisei em flores".

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Nem golpe, nem greve geral no horizonte. Sigamos em frente.


Passados 130 dias (mais de 4 meses) do primeiro grande ato de rua pró-impeachment de Dilma Roussef, o governo petista segue seu rumo ainda que aos trancos e barrancos. Impressiona sim, o modo como a presidenta foi capaz de queimar tão ferozmente seu capital político conquistado com grande dificuldades nas últimas eleições presidenciais, ao ponto de ter sua popularidade jogada ao "volume morto".

Apesar disso, enganam-se aqueles que pensam que o governo acabou, está paralisado ou mesmo prestes a cair. Isso não é verdade. Existe uma crise política, é inegável. O modo petista de governar baseado na eterna e inquestionável coalizão de classes, vaza por todos os lados. Isso sim, é verdade. Não é a toa que sua autoridade foi repetidamente colocada no canto da parede pelo até agora presidente da Câmara dos Deputados, o medonho senhor Eduardo Cunha. Mas não é verdade que o governo esteja semi-morto.

O que tem sido, afinal de contas, o maldito ajuste fiscal levado adiante por Joaquim Levy com as bençãos de Dilma? E para coroar, o que é o PPE, o Programa de Proteção às Empresas, digo, ao Emprego? Quer algo melhor que isso? A crise econômica impõe sua agenda e o governo ao invés de tomar medidas para diminuir os lucros dos grandes bancos, latifúndios e empresas coibindo quaisquer demissões seja impondo multas, fim de benefícios e até mesmo estatizando, oferece como saída a redução da folha de pagamento dos trabalhadores. Absurdo dos absurdos.

Mas o que impressiona não é que o governo faça isso. Sequer impressiona que as centrais sindicais governistas e pelegas sejam as grandes defensoras do tal programa. O que impressiona é a passividade e a paciência da imensa maioria da classe. Os famigerados doze anos de governo de Frente Popular impregnaram com muita força a desmobilização, a desmoralização e a confusão no seio dos trabalhadores. Isso não pode, em hipótese alguma, ser menosprezado.

A burguesia sabe que não pode abrir mão da dedicação do lulo-petismo em manter a paz social. Ela não pode abrir mão de Dilma. Ao menos agora não. Não é a toa que em plena crise econômica com o mercado demitindo como há muito não demitia, com a previsão do crescimento do PIB encolhendo, e com seus sucessivos recordes de lucros ameaçados, não temos o presidente da FIESP elevando o tom contra o governo. Não é a toa que ruralistas não declararam guerra contra o governo que segue permitindo que siga matando impunemente lideranças camponesas, populares e indígenas. Os grandes bancos então? Esses seguem sorridentes anunciando seus novos recordes de lucratividade. E o imperialismo? É preciso falar algo a mais depois de Obama dar um grande cala-boca na repórter da Globo News ao sair em defesa de Dilma e do papel de "Global Player" do Brasil na economia mundial?

Então, acalmem-se todos. Não existe nenhum golpe a vista no horizonte. Sendo assim não está colocada como tarefa construir marchas, comitês anti-golpe ou qualquer coisa do tipo. Fazer isso é meramente sair na defesa do governo impulsionando a desmoralização e a desmobilização.

Ainda que os pró-impeachment vociferem e que as organizações Globo dêem amplitude aos seus gritos de ódio e horror, a queda de Dilma pelas mãos da direita organizada está mais para conto da carochinha do qualquer outra coisa.

Por outro lado, é preciso também dizer seriamente que não está colocada a possibilidade de uma greve geral no país para um curto ou médio prazo com os elementos que estão colocadas na realidade. E quanto mais a oposição de esquerda gritar "Greve Geral" mais ela, a greve, se distanciará de nós. Assim como gritar "Olha o golpe" quando não há risco de golpe desmoraliza e desmobiliza, também é um imenso desserviço à classe trabalhadora gritar "Vamos juntos construir a greve geral" quando não há condições objetivas muito menos subjetivas para tanto, Se é que não é ainda pior.

A palavra de ordem "Greve Geral" não é para simples propaganda. Ela traz em si o sentido de ação. Agitá-la tem o sentido de colocar em marcha sua construção. E não se faz isso quando não é possível de fato construí-la. Usá-la sem uma base na realidade é simplesmente banalizá-la. Não se faz isso sem graves consequências. É como a fábula de Esopo do pastorzinho que cansado de cuidar das ovelhas saía gritando "Lobo! Lobo!" para se divertir fazendo com que aldeões saiam em sua defesa sem encontrar lobo algum. Até que um belo dia quando o lobo realmente apareceu e o menino gritou, "Lobo! Lobo!", ninguém o atendeu, pois de tão banalizado o grito ninguém conseguiu acreditar que fosse verdade.

Então, em especial aos ativistas que levantam neste momento a tarefa da greve geral fica o chamado a não desperdiçar munição a toa. Não temos balas para ficar atirando para cima. Não temos direito a isso. Deixem disso e passemos de fato a enfrentar o governo e suas medidas, luta após luta, greve após greve, reconquistando a confiança da classe em suas próprias forças, até que de fato a Greve Geral se torne simplesmente inevitável.

domingo, 5 de julho de 2015

Pagu: poetisa, escritora e militante trotskista

O movimento de massas brasileiro já deu luz à milhares de homens e mulheres fantásticos que se levantaram contra a exploração e a opressão de seu tempo. Poucos são aqueles cujo brilho e força foram capazes de atropelar a máquina estatal que a todo custo os tenta apagá-los da história ou minimizá-los, esvaziá-los de todo conteúdo revolucionário ou mesmo direcionar tal conteúdo para uma ou outra esfera do comportamento humano. Que sejam esquecidos, e se não for possível esquecê-los que as lembranças sejam turvas e nunca completas.

Uma dessas figuras foi a militante revolucionária Patricia Galvão (1910-1962), imortalizada como Pagu. Com 15 anos começou sua carreira de jornalista e aos 18 passou a participar do movimento antropofágico. Em 1930, ingressou no Partido Comunista Brasileiro, com seu então companheiro Oswald de Andrade, e em 1931, aos 21 anos, tornou-se a primeira mulher a ser presa no governo Vargas por questões abertamente políticas ao participar ativamente da greve dos estivadores de Santos sendo uma das principais oradoras do movimento paredista. Foi a primeira das 23 prisões que colecionaria em sua vida.

Entre 1933 e 1935 viajou pela Europa e enviou artigos a jornais brasileiros. Sua viagem ao exterior e em especial à própria URSS foi fundamental para sua adesão à luta anti-stalinista. Voltando ao Brasil em 1937 aderiu ao grupo dissidente do PCB, dirigido por Herminio Sacchetta e Heitor Ferreira Lima. Em 1939, presa mais uma vez, publicou uma carta que tornou público seu rompimento com o stalinismo. E em agosto do mesmo ano integrou a presidência de honra do congresso do Partido Socialista Revolucionário, seção brasileira da IV Internacional

A seguir reproduzimos sua a carta de 1939 que merece ser lida, conhecida e divulgada para que Pagu possa ser conhecida muito mais do que como um nome de música.

Companheiros!

Este documento vai com o meu apoio absoluto aos camaradas revolucionários pela posição que tomaram frente à burocracia internacional que tem travado a marcha do movimento revolucionário e traído o proletariado da URSS e as conquistas da Revolução soviética. A minha posição foi tomada depois de uma análise meticulosa, longa e objetiva, que se iniciou com a primeira dúvida produzida na minha passagem pela URSS. É a minha convicção revolucionária que me coloca ao lado dos companheiros na luta contra a burocracia, por um partido verdadeiramente revolucionário, pela Revolução Proletária Internacional. Autorizo a publicação mesmo com meu nome legal, total ou em parte.

A burocracia soviética na URSS

Os sintomas da formação de uma burocracia soviética, depois da tomada do poder por Hitler, só se tem agravado, e hoje não é mais possível ignorar-se ou ficar-se indiferente ante os crimes e, o que é pior, os erros da casta governamental soviética. A sua existência pode ser constatada não só praticamente mas também teoricamente, procurando-se as causas das sucessivas derrotas que tem sofrido o proletariado nestes últimos 10 anos em que as crises do capitalismo têm se mostrado mais graves. Só esse fenômeno faz pensar que simultaneamente entrou em crise a direção do proletariado. Um rápido exame da política seguida pelas organizações operárias evidencia o caráter oportunista e capitalista desta política. A que se deve isto? A erros teóricos e práticos a que está sujeita qualquer organização revolucionária? Evidentemente não. Os erros dos partidos revolucionários são eminentemente descontínuos. As verdadeiras causas primeiras dessa política, hoje internacional, devem ser buscadas na necessidade sentida pela burocracia soviética de manter-se no usufruto das conquistas da Revolução, na impossibilidade de conciliar os interesses do proletariado internacional com os daqueles que se proclamam seus chefes.

A burocracia soviética saiu do Partido Comunista Russo, isto porque na fase imediatamente pós-revolucionária todo o poder político e administrativo encontra-se nas mãos do Partido. Nesta fase, toda obra revolucionária é criar condições para a descentralização cada vez maior. É enfim cumprir a palavra de Lenin: “Tornar o governo desnecessário é a maior tarefa deste governo”. Na Rússia, contudo, essa tarefa teve que ser relegada a um segundo plano. Isto porque circunstâncias diversas, tais como a existência de estados burgueses nas suas fronteiras, a situação pré-revolucionária em grande número de países da Europa, fizeram com que o Partido não pudesse considerar a revolução de Outubro como uma vitória definitiva, mas apenas como uma etapa vitoriosa na luta revolucionária do proletariado. O partido viu, e viu justo, que as conquistas da revolução só poderiam ser mantidas com o desenvolvimento da revolução internacional. Esta a primeira verdade necessária para a compreensão da gênese da burocracia termidoriana. A revolução russa não podia ser tida como um fim. E não o foi de fato. O seu desenvolvimento natural e dialético seria o prosseguimento da revolução proletária no campo internacional. Em vez disso, sacrificou-se a revolução internacional – como sacrifica-se ainda hoje. Conseqüentemente sacrifica-se a revolução russa. E como esta ação fosse contrária a tudo que é marxismo, só podia gerar o absolutismo burocrático, os privilégios excessivos dos dirigentes, o conservantismo nacional. Como se pode comportar esta casta, constituída na sua quase totalidade de arrivées, diante das conquistas da Revolução proletária? A revolução foi feita tendo por fim o estabelecimento de uma sociedade sem classes, sem privilegiados, portanto sem deserdados. Uma sociedade concebida nestes moldes não teria necessidade de uma burocracia profissional para exercer uma coerção estatal, por isso mesmo que as funções seriam exercidas pelos próprios cidadãos. As condições a que aludimos fizeram com que a estrutura atual do Estado soviético seja o oposto desse ideal. Ora, nós sabemos que não há governo que possa se exercer sem uma ideologia real ou fictícia. E a burocracia viu-se obrigada a apoiar-se, pelo menos ficticiamente, na ideologia comunista revolucionária. Conseguiu isto, mascarando e dissimulando seus privilégios com a mentira, justificando com fórmulas comunistas relações e fatos que nada têm realmente com o comunismo.

O abismo entre a palavra e a realidade é cada vez mais profundo, daí ser necessário rever cada ano não apenas as fórmulas mais sagradas, mas até os próprios princípios. Deste modo, a burocracia bonapartista não só apossa-se das conquistas da revolução mas falseia-a, despindo-a dos seus caracteres mais essenciais sob a alegação de que constituem “erros de esquerda”. À maior dissonância ela revela o seu caráter policial, perseguindo, “depurando” sob o rótulo de trotskismo. Do estado soviético, do estado operário, fez um estado totalitário. A própria efervescência das idéias e das relações sociais, que são o fenômeno natural que segue qualquer grande transformação social, tornou-se-lhe perigosa. Ela teme a discussão porque teme a crítica, e teme a crítica porque teme a massa. O seu verdadeiro medo é ver perdidos os seus privilégios, daí o não permitir nenhuma discussão, daí as prisões, daí as deportações, os fuzilamentos. Teme a crítica e por este temor mesmo ela só pode perceber os fenômenos através dos bureaux e não através das discussões, que são o único índice preciso. Os bureaux são um aparelho de coerção, não um aparelho de ação. A burocracia pode produzir burocratas e lacaios servis, nunca revolucionários. Ela terá que ser necessariamente vacilante e pouco segura na sua ação. Ao primeiro embate histórico toda sua inconsistência interior manifestar-se-á .

A burocracia no exterior

A IC sofreu, como não podia deixar de sofrer, grandes modificações, quer na sua ação política, quer na sua organização, desde que a Revolução foi vitoriosa em um país. Esta ação que naturalmente devia tornar-se mais decisiva e mais eficaz, dada a existência de um ponto de apoio material – um Estado operário – tornou-se negativa, senão criminosa. A origem deste fato está na própria burocracia soviética. A Internacional tornou-se, de organização revolucionária do proletariado, um apêndice da burocracia termidoriana, um órgão para manter-lhe os privilégios. Os métodos da Internacional são um esboço grotesco dos métodos da burocracia bonapartista, as suas organizações, instrumentos servis, a sua imprensa, o eco da imprensa soviética. Se a história tivesse permitido que a revolução russa seguisse o seu desenvolvimento natural, a IC seria o instrumento da extroversão da Revolução de Outubro, seria o meio de dragar para o proletariado internacional as energias obtidas com a tomada do poder. Em vez disso a União Soviética toma a posição de introversão, procura captar todas as forças do proletariado para “a defesa da URSS” (isto é, defesa da burocracia), relegando para um plano inferior a revolução internacional. Realmente a burocracia stalinista age no sentido de que a União Soviética tome, juridicamente, no quadro das relações internacionais, todas as características de um estado burguês. Acordos econômicos e militares com países capitalistas fizeram com que a URSS perdesse definitivamente a sua liberdade de ação no exterior. Que foi a IC em tudo isto? Ela foi o instrumento junto às massas trabalhadoras da política de “escoras internacionais” empreendida pela estupidez burocrática, na ânsia de garantir-se. Ela serviu para fabricar, nos países de maior influência da URSS, a atmosfera de calma interior, necessária à preparação bélica, desenvolvendo em escala internacional a política de frentes populares com a burguesia. Castrou as massas operárias, impregnando o ar de um espírito reformista e anti-revolucionário, confundindo capciosamente defesa da casta governamental com a defesa da União Soviética. A URSS só seria realmente defendida por uma ação efetivamente revolucionária do proletariado internacional; mas a burocracia dirigente só pode se defender à custa de conchavos e de alianças internacionais. Mais. A burocracia é naturalmente oportunista, daí os ziguezagues que caracterizaram a sua política externa e portanto aquela da IC. Nesses ziguezagues, em que tudo o que era bolchevismo foi perdido, a IC freou o proletariado, traiu-o, até amarrá-lo ao imperialismo, lançando-lhe a esperança numa messiânica guerra futura. Como pode, porém, a IC chegar a tal ponto de degenerescência, sem possuir um aparelho estatal para reprimir as divergências, revolucionárias naturalmente, que haveriam de surgir no seu seio? É claro que a IC não conseguiria chegar à decrepitude atual senão fugindo lentamente daquilo que, de Lenin para cá, denominou-se bolchevismo.

Bolchevismo é o método marxista de ação revolucionária. A IC nega-o objetivamente quando se lança nos braços dos países democráticos, em vez de explorar tecnicamente os recursos de que pode dispor o proletariado na sua luta, recursos que, pela profundeza dos fenômenos históricos de que emanam, excluem naturalmente a política de recuos sistemáticos, de conchavos ou de uniões. Toda ação objetiva da IC hoje visa atenuar os antagonismos de classe e colocar o proletariado, pelo menos teoricamente, como o aproveitador fugaz dos choques interburgueses. Daí ligá-lo a determinados grupos da burguesia, tirar-lhe a independência política e até orgânica. Que tem isto de comum com o marxismo-leninismo, que faz toda sua ação objetiva se basear na oposição de classe a classe, forçando ao mesmo tempo teoricamente os meios do proletariado atingir o poder e praticamente o modo de exercê-lo? Para que esta ação se faça de modo conciso e justo é necessário que o Partido viva subjetivamente apoiado em dois princípios: unidade de ação e democracia mais ampla. E compreende-se: as organizações revolucionárias são do proletariado. A linha política será tanto mais justa quanto maior for a consciência que estas organizações tenham das suas próprias forças, e quanto maior for o conhecimento que tenham da realidade. E a realidade, a situação objetiva, não pode ser sentida por bureaux; ela só é percebida pela própria massa. Daí ser imprescindível para que uma organização revolucionária continue como tal que as sua iniciativas políticas partam da base, ao menos no seu esboço. Daí remonta aos quadros dirigentes, onde terá uma forma mais precisa, voltando então à massa, que adota as realizações práticas. Mas não é formal este processo de mecânica organizatória bolchevique. Aí está a história do partido russo até a revolução. Essa democracia interna permite que a massa só aja com uma certa consciência da ação, daí a firmeza, a unidade. A IC viu-se diante de um dilema: ou burocratizar- se ou agir contra os interesses da casta governamental soviética. E assim empreendeu e realizou a obra completa da burocratização de suas seções. Paulatinamente foi-se centralizando o poder político, os dirigentes habituando-se a ver a massa de longe, através de hipóteses; as discussões foram tomando um caráter cada vez mais secundário diante das ordens cada vez mais ditatoriais da direção. Hoje a obra está terminada. Ela pode ser contemplada em toda a sua extensão: o servilismo ou o meio dos militantes de base, as dissonância cada vez mais raras e cada vez mais violentamente abafadas, a imenso importância dos bureaux em relação à base, a putrefação ideológica. Hoje a burocracia da Internacional impera absoluta, mas a própria organização burocrática fará com que ao primeiro grande embate histórico as sua seções se desagreguem, apareçam cisões nos seus seios.

Seria errôneo e artificial julgar que tais cisões sejam apenas fenômenos de desagregação. Elas são também, e em grande parte, função das traições de classe, da própria composição dos partidos. E não nos esqueçamos que “se as diferenças de pontos de vista no seio do partido coincidir com diferenças de classe nenhuma força nos afastará da cisão” (Lenin – Testamento). À medida que nos aproximamos do epílogo das crises mais ou menos continuadas do capitalismo, vamos sentindo a necessidade de abandonar aqueles que traíram o proletariado na China, na França, na Alemanha, na Espanha, sob pena de sermos cúmplices de uma catástrofe histórica. A burocracia perdendo terreno, acuada pela massa operária, será cada vez mais violenta na sua ação compressora. Isto é um caráter que lhe é específico. Não esqueçamos as palavras de Stalin, palavras típicas de um golpe bonapartista: “Estes quadros só serão destituídos pela guerra civil” (Pleno do CC de agosto de 27).

Os elementos conscientes e capazes saberão o caminho a seguir. Saberão encarar a burocracia como um acidente funesto, mas incapaz de deter a marcha da história.

Saudações revolucionárias!

PAGU

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Auto-defesa é isso aí... #GreekRevolution


Aconteceu em Atenas. Durante manifestação popular uma bomba explodiu entre manifestantes e rapidamente a comissão de segurança da Frente da Esquerda Anticapitalista Grega (ANTARSYA) perfilou-se em frente ao batalhão de choque da polícia de forma a assegurar que a manifestação pudesse transcorrer tranquilamente. Auto-defesa é isso aí...

terça-feira, 2 de junho de 2015

Formação política e teórica, aspecto fundamental do militante revolucionário. (texto de Bruno Rodrigues)

O texto a seguir é uma elaboração do meu camarada Bruno Rodrigues, militante revolucionário cearense, sobre a necessidade indispensável de formação política para todo ativista que não pretenda se tornar um "militonto" tal como resgata a citação de Plínio de Arruda Sampaio destacada no texto.

Bruno faz o favor de colocar os pingos nos "i"s em relação ao tema da formação, que é tremendamente negligenciada pela imensa maioria das correntes da esquerda revolucionária, reduzida à publicação de livros por uns, à repetição de "chavões" quase que como mantras sagrados por outros e por aí vai.

Uma contribuição valiosa e importante.

Boa leitura!

Formação política e teórica, aspecto fundamental do militante revolucionário.



“(...) Os oprimidos têm que juntar força, pensamento e 
esperteza para vencer a dominação.
Para que o ativismo não faça do militante um "militonto", ele deve ser capaz de "desmontar' o sistema capitalista e
apresentar saídas que apontem para a solução de seus problemas.
É fácil derrotar quem não estuda quem não para pra pensar.
É triste saber que muitos "estudados" não entram na luta.
Mas é imperdoável que um lutador não pare para estudar, não seja também um intelectual. (...)
Cartilha "Trabalho de base” da Consulta Popular, organizada por Plínio de Arruda Sampaio e Ranulfo Peloso.

Sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária.
V. I. Lênin

Quem diz que sabe, mas não sabe fazer, ainda não sabe.
F. Dostoievski


O apreço pela formação teórica revolucionária é uma característica marcante e de enorme destaque na vida de toda organização socialista séria. Por isso é errônea a ideia de que a formação, seja individual ou coletiva, deve ficar secundarizada para quando der, como se sua importância fosse menor que a de uma atividade de panfletagem ou de organização de um ato, por exemplo. Tal linha de pensamento é muito comum nas organizações reformistas que costumam separar a teoria da prática. Em geral e não por mero acaso, nesses tipos de organizações há tarefismo desenfreado, seguidismo aos dirigentes, embriaguez autoproclamatória, ausência de critica e autocrítica, pouca democracia interna e por aí vai.

Dizemos que não é por mero acaso, pois se impera uma divisão de tarefas onde um polo detém o conhecimento e, portanto manda no outro polo que apenas cumpre tais tarefas de forma acrítica, não podendo haver assim condições democráticas de debate interno. Fatalmente, também não haverá política revolucionária e logo, sobrará tarefismo pros militantes de base. O tarefismo por sua vez nos dificulta o pensamento e mina a capacidade de questionar. Quando não fazemos o exercício de nos questionarmos e questionarmos as nossas inúmeras certezas que cristalizamos nas nossas mentes, fica fácil cair na embriaguez autoproclamatória, no culto aos dirigentes e na reprodução de chavões. Dessa forma o militante passa a crer que seu dirigente é infalível e que sua corrente é detentora da sacra verdade revolucionária revelada por São Marx. Nessas condições, o militante dificilmente pode crescer, pois, ou quebra e se afasta da luta para procurar respostas em outro lugar ou se consolida como senso comum de esquerda e como sabemos, o senso comum é e sempre será um obstáculo à consciência revolucionária. Infelizmente, é fácil, extremamente fácil encontrar casos assim em boa parte das correntes.

Feita essa primeira ressalva, não queremos dizer que devemos ser dogmáticos com o marxismo como quem lê o evangelho ou que devamos canonizar os autores consagrados. O marxismo não é a chave mágica para o reino da revolução, é na verdade um poderoso e útil guia (e não um manual) para a compreensão do mundo e ação transformadora de milhares de revolucionários. Ser dogmático não é o mesmo que ter convicção. Os sectários têm uma enorme dificuldade de entender assim e por isso vivem isolados. Como se sabe, as seitas e os dogmas também não são lá muito úteis para as revoluções.

Em geral, um militante se move pela dúvida. Esta é, a priori, uma grande aliada, pois ela nos arranca do comodismo e nos empurra adiante para que saiamos em busca de respostas:

- Como rebato o argumento da tendência liberal que está se construindo no meu curso e diz que o capitalismo é viável para os pobres?
- No meu trabalho, alguém disse que o socialismo é impossível, pois é impossível que trabalhadores consigam governar. Onde acho exemplos na história que provam o contrário?
- Será mesmo o estado de Israel o detentor legitimo dos diretos sobre o território da Palestina?

Apoiamos-nos na premissa de que a formação militante não se resume a quantidade de livros que se tenha lido ou a quantidade de grupos de estudos que se tenha realizado. Claro que uma boa bagagem literária que possa nos prover conhecimentos em marxismo, história, filosofia, sociologia, economia e inclusive em cultura geral, é sem dúvida nenhuma, fundamental. Mas formação não se limita somente a esse aspecto unilateral do aprendizado.

Acreditamos, na verdade, que a formação política é o resultado do acumulo literário somado à experiência prática executada no cotidiano, formando assim uma totalidade bem mais abrangente e complexa que a mera soma das partes. Para ser um bom militante não basta ter só erudição sem que se tenha uma prática diária onde pôr à prova seus conhecimentos e principalmente, que saiba assimilar o que se aprende com espírito crítico e autocrítico:

A questão de saber se ao pensamento humano cabe alguma verdade objetiva [...] não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na prática que o homem tem de provar a verdade, isto é, a realidade e o poder, a natureza interior [...] de seu pensamento. (...) Marx e Engels, A ideologia Alemã.

Afirmamos isso, pois entendemos que diferente do que a rigor se crê, a teoria revolucionária marxista é uma ciência e como tal, não é possível assimilá-la inteiramente na academia ou em manuais, como se esta fosse uma peça forjada que se adquire ou se dá ou um receita de bolo com ingredientes reunidos que se prepara segundo um esquema pré-definido. Ao contrário, marxismo se aprende tão somente quando fincamos os pés no campo da luta de classes real e concreta. Afirmar isso é ainda mais importante, diante da tendência muito comum que se desenvolve em muitos grupos embrionários, de adaptar-se às vicissitudes da rotina acadêmica, o que acaba neutralizando a ação do grupo tornando-o um inofensivo clube de intermináveis debates, possivelmente tutelado por algum guru-professor universitário.

A isso chamamos de academicismo. Podemos citar como exemplo de desvio academicista aqueles camaradas que conhecemos por estudar muito e não militarem e que em muitas vezes são bastante vaidosos, para não dizer, narcisistas. São companheiros que às vezes dominam a teoria muito bem, mas como não são militantes, muitas vezes se saem desastrosos quando tentam fazer uma análise de conjuntura ou não têm a menor ideia de como fazer um bom trabalho de base com agitação e propaganda na base do seu curso ou como organizar uma chapa de CA, por exemplo. Ora, convenhamos que só a informação de como nadar, de pouco serve para a prática da natação.

Por outro lado, claro que não queremos incorrer num outro desvio, de natureza obreirista, e dizer que academia não tem nada de útil a nos oferecer. Menos ainda queremos ser impiedosos com aqueles camaradas que dedicam sua vida à atividade intelectual. Na verdade há muitos intelectuais que bastante contribuíram pra formação teórica da classe trabalhadora. Com esse argumento queremos tão somente ponderar que a atividade militante é uma totalidade que envolve múltiplos aspectos de forma acumulativa, cíclica, permanente e dialética: estudo, prática, reflexão crítica e autocrítica, assimilação, estudo... 
 
Nesse sentido, fazemos questão de recorrer às palavras de um antigo marxista argentino:

O marxismo fala de unidade inseparável entre teoria e prática. O marxismo não crê que estas sejam coisas distintas e complementares entre si. O marxismo nega que a teoria seja um complemento da prática, ou vice versa. Para o marxismo, a teoria e a prática não são mais que momentos de um mesmo processo que é a práxis, Isto é, a ação do homem.

No mesmo texto, o autor em questão se refere a ninguém menos que Lênin, da seguinte forma:

(...) Lênin era um homem de ação. Mas não de ação sem verdade. Para ele - e para o marxismo - a ação não se opõe ao pensamento; a ação exige o pensamento. Para o marxismo, a prática política é uma prática consciente. E para o marxismo, a prática não significa apenas adaptar-se ao existente, mas sim ter habilidade técnica para atuar sobre o existente. Para o marxismo, prática significa conhecimento profundo da realidade e ação plenamente consciente, ou seja, baseada no conhecimento. (...) Milciades Peña, O que é marxismo?

Um bom militante deve buscar sempre elevar seu conhecimento. Precisa crer que está em permanente construção intelectual e, portanto deve repudiar a ideia arrogante de que já sabe o bastante. Falamos de conhecer não só o marxismo, a lógica dialética, a economia política ou a história do movimento operário, mas de ter cultura geral mesmo, instruir-se em outros segmentos do conhecimento humano como o cinema, a literatura, as ciências, os idiomas, etc. Não na intenção de nos tornarmos aquele típico personagem diletante e presunçoso, pedante e sem raízes na classe trabalhadora, alheio à prática militante e pretenso guia genial da humanidade, mas para nos tornarmos militantes que consigam superar a si mesmos no dia a dia e sermos melhores em nossa atividade revolucionária diária. Quem faz já sabe, quem pensa sobre o que faz, faz melhor, ensina a sabedoria popular. Nessa perspectiva, a experiência dos velhos bolcheviques é inspiradora:

(...) Naturalmente, nem todos os bolcheviques são mananciais do conhecimento, porém sua cultura lhes eleva muito por cima do nível médio das massas. Em suas fileiras se contam alguns dos intelectuais mais brilhantes da época. Sem duvida alguma, o revolucionário profissional bolchevique difere muito do precoce burocrata descrito por seus inimigos. (...) Pierre Broué, O Partido bolchevique.

Há outro desvio tão grave e tão comum quanto o academicismo ou o obreirismo, que é o movimentismo, o ativismo pelo ativismo que se basta das tarefas cotidianas como um fim em si mesmo. Tais vícios, como já assinalamos, são traços próprios das organizações reformistas, nãos das revolucionárias.

Na história das principais organizações revolucionárias, a formação sempre teve lugar privilegiado. Mesmo a grande revolução russa em sua fase preparatória, foi precedida pela existência de inúmeros círculos operários que se reuniam para estudar o marxismo. Alguns intelectuais marxistas do calibre de Plekhanov, Martov, Lênin, Vera Zasulich e Trotsky começaram sua experiência de militância no interior desses círculos ilegais, onde sua tarefa, além do estudo do marxismo, era a alfabetização de trabalhadores combinada com a agitação e propaganda clandestina do socialismo e da luta contra a monarquia.

Mas a formação de bons militantes marxistas, aliás, não é das tarefas mais simples. Requer disciplina, esforço e dedicação, pois afinal marxismo é uma ciência, uma concepção de mundo que abarca um amplo espectro de conhecimento. Marx nos ensinava que em toda a ciência o difícil é o começo. Em que pese essa dificuldade, ela pode ser amenizada com o estudo coletivo que é uma excelente forma de estudar.

Via de regra, se não há uma conjuntura propícia, em que a classe trabalhadora esteja em luta ofensiva, a tarefa da formação revolucionária torna-se particularmente penosa. Na verdade, acreditamos que na experiência da luta um revolucionário consegue educar-se com mais rapidez, amplitude e profundidade, do que em épocas onde as condições de luta não estão muito favoráveis. Aqui vale o conselho de um revolucionário veterano:

A verdadeira educação das massas nunca pode estar separada de sua luta política independente e, sobretudo, da luta revolucionária. Só a luta educa a classe explorada, só a luta revela a magnitude de sua força, amplia seus horizontes, desenvolve sua inteligência e forja sua vontade. Lênin, Jornadas Revolucionárias, 1905

A burguesia no seu processo de formação e desenvolvimento social, muito antes de tomar o poder na Europa já havia iniciado sua revolução no campo ideológico com o iluminismo e com o incentivo ao mecenato [1]. Apoiando-se na intelligentsia, ela foi criando as condições históricas pra tomar de assalto em definitivo o mundo feudal, que já estava caminhando para a ruína. Na medida em que ela assentou os alicerces da sua dominação ideológica, ampliou seu poder político/econômico e vice versa. Não é gratuita a ideia exposta no capitulo primeiro d’A Ideologia Alemã de Marx e Engels:

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem a sua disposição os meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual.

(...)

Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que eles o fazem em toda sua extensão, portanto, entre outras coisas, que eles dominam também como pensadores, como produtores de ideias, que regulam a produção e a distribuição de ideias de seu tempo; e, por conseguinte, que suas ideias são as ideias dominantes da época. (...)

Em contrapartida, a classe trabalhadora luta por sua emancipação partindo de condições bem mais precárias, pois em primeiro lugar, ela sequer é classe para si, ou seja, (ainda) não desenvolveu consciência de classe nem conhece sua própria história; admira e vota nos seus inimigos de classe; reproduz a retórica burguesa e mesmo seus sindicatos ou partidos, muitas vezes, também podem servir como correia de transmissão da ideologia burguesa; pode até cumprir papel de polícia patronal, diante de uma eventual greve, por exemplo, quando alguém fura a greve ou cabueta outro trabalhador grevista; é cotidianamente alienada e embrutecida pelo individualismo, consumismo, violência, álcool, religião, pornografia, machismo, homofobia, racismo, etc. Enquanto que pra cada quadro que se forma em meio à classe trabalhadora e vira um bom tribuno revolucionário leal e dedicado, a burguesia edifica seu estado maior intelectual formando centenas de, Adam’s Smiths, Ciro’s Gomes, Fernando’s Henriques ou Delfin’s Netos nas suas Oxford’s ou Havard’s da vida, com carreiras, títulos, prestígio e toda sorte de benesses materiais.

É possível vencer a burguesia que dispõe desses formidáveis recursos e impõe uma desigualdade abismal nas condições de luta? Trotsky dizia que a essência da tragédia é alentar grandes planos, porém dispor de meios precários. A burguesia nos lançou nessa trágica situação onde nos privaram de quase todas as possibilidades de vencê-los. Mesmo assim, com todo peso do seu esforço, nem a burguesia nem o stalinismo puderam apagar algo que é muito caro para nós revolucionários: a memória histórica da luta de classes.

Por suposto que é possível vencê-los. Estamos convictos disso, pois a história de todo o séc. XX está recheada de provas que mostram que é perfeitamente possível dobrá-los e derrotá-los. A batalha maior a ser empreendida pela nossa geração nesse século que recém se abriu se inicia com a batalha por recuperar a consciência classista entre as parcelas mais jovens, mais numerosas e mais exploradas do proletariado e por resgatar a ideia de que o socialismo é tão necessário quanto possível. Isso se dá, participando de cada pequena greve ou mobilização estudantil, popular ou sindical, combinando apoio e solidariedade classista com intensa agitação e propaganda revolucionária. Como nos ensinou aquele conhecido filósofo alemão, as ideias que penetram nas massas ganham força material, portanto, a formação revolucionária e o resgate permanente dessa memória histórica da luta de classes são algumas das mais valiosas armas que dispomos na disputa pela consciência da classe trabalhadora.

Em particular, achamos que as atividades de estudo e teoria sempre devem ter por critério central, a formação de mulheres revolucionárias. É vital incentivar que cada vez mais, mulheres revolucionárias revelem seus talentos e que surjam grandes oradoras, excelentes propagandistas, ótimas escritoras, eminentes organizadoras, boas intelectuais marxistas orgânicas e assim por diante, pois é necessário desmontar a hegemonia masculina muito comum nas organizações de esquerda. Ora, se metade da classe trabalhadora é do sexo feminino, não faz o menor sentido que à frente das organizações de esquerda estejam majoritariamente camaradas do sexo masculino. Isso é uma distorção absurda. Além do quê, se já é difícil que um camarada homem se revele um grande quadro, por tudo que já expusemos acima, para que se desenvolva uma grande revolucionária mulher então, isso se torna um desafio de redobrada dificuldade, pois contra ela jogam diversos fatores: o machismo da sociedade patriarcal que inclusive se reflete no interior das organizações de esquerda, a pressão das famílias, namorados, etc. Logo, é obrigação da organização revolucionária refletir em suas fileiras o protagonismo da mulher proletária, dando todas as condições para que as companheiras se desenvolvam plenamente, cabendo à organização servir-lhe de contra-mola a todas essas pressões retrógradas que puxam a mulher revolucionária para o beco obscuro da servidão doméstica e patriarcal.

Por fim, o trato de um revolucionário para com o conhecimento deve ser sempre de extremo zelo e rigor, tanto do ponto de vista de quem passa um conhecimento como de quem recebe, trabalhando na perspectiva de quanto mais conhecimento for socializado, melhor. Vale mais uma vez recorrer aos ensinamentos daquele velho teórico argentino:

O marxismo recusa a concepção tradicional do ensino como um processo em que uma pessoa ativa ensina e muitas pessoas passivas aprendem. Esta concepção, que se baseia na divisão entre teoria e prática, entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, deve ser trocada por uma que vê o ensino como um processo criador, no qual todo o grupo – o que ensina e os que aprendem – trabalham ativamente, confrontando seus conhecimentos e suas ideias, e, através deste confronto, aquele que aprende consegue partilhar de um novo conhecimento e o que ensina aprofunda seus conhecimentos.

Engels disse a seus alunos: “a primeira coisa que devem aprender aqui é a estar de pé”. Quer dizer, em tensão, alertas e em atividade, em atitude criadora. “Se o aprender se limitasse simplesmente a receber, não daria resultado muito melhor que escrever em água”. Aquele que estuda algo deve recriar esse algo dentro de si mesmo. Não é questão de receber algumas noções de marxismo. É preciso investigar o marxismo, enfrentá-lo, penetrar profundamente na matéria que se requer aprender e deixar que essa matéria penetre profundamente no intelecto e na emoção daquele que aprende, caso contrário, não é possível a aprendizagem. Só se aprende através da investigação. De modo que nossa tarefa será investigarmos juntos o marxismo. Juntos teremos que descobrir e redescobrir o marxismo, começando por sua essência, que é o mais difícil de se captar, e fugindo das vulgarizações e simplificações de estilo de alguns manuais. (...) Milciades Peña, O que é marxismo?

Toda iniciativa como grupos de leitura e estudo de tal ou qual obra ou autor deve ser bem vinda e incentivada nas organizações revolucionárias, porém nunca podem ser vistas como um fim em si mesmo. Da mesma forma, todo grupo revolucionário pode e deve buscar nos intelectuais socialistas, de quem se requer boa didática e bom domínio de conteúdo, o apoio necessário nas atividades de formação sem, no entanto, criar uma perspectiva de tê-los como tutores ou guias, afinal a classe trabalhadora precisa que se formem bons militantes capazes de abstrair autonomamente sobre as grandes questões da luta de classes e do marxismo, e não um rebanho acrítico cujas ações e pensamentos são teleguiados por um suposto papa do conhecimento.

Se pra burguesia que a tudo torna mercadoria vale a lei do “time is Money”, para nós revolucionários o precioso pouco tempo livre que dispomos, é oportunidade de manter nossa saúde intelectual em dia.

Rechacemos com afinco o empirismo, o improviso artesanal e o pragmatismo militante dos oportunistas e socialistas amarelos em geral, que sempre desprezaram a teoria marxista com preconceitos tacanhos e frases rebaixadas. Deixemos o pedantismo do ambiente hermético e estéril da academia pros academicistas, pois lá é o lugar deles, não dos revolucionários. É de dentro de um ambiente saudável e de elevado nível intelectual e espírito critico e de ação consciente e, portanto, desalienada, de onde serão recrutados os grandes tribunos que servirão na linha de frente dos grandes combates da classe trabalhadora.

Bruno Rodrigues


Notas: 
[1] Conforme a definição apresentada no Grande Dicionário Larousse Cultural da Língua Portuguesa, Ed. Nova Cultural: 
 ILUMINISMO s.m 1. Movimento intelectual que caracterizou o pensamento europeu do séc. XVIII, particularmente na França, Inglaterra e Alemanha, baseado na crença do poder da razão para solucionar os problemas sociais. 
 MECENATO s.m (Do lat. Maecenas, n.pr.) Proteção dada às letras, às ciências e às artes, concedida por pessoas ricas e que as amam.