sexta-feira, 18 de março de 2016
Estudantes denunciam o descaso com a educação no Ceará
Os estudantes do Grêmio Chico da Matilde divulgaram videos esta semana sobre o descaso das escolas públicas em Fortaleza, denunciando o caso do CAIC no bairro Bom Jardim que está sem aulas por falta d´água.
Seguem os videos.
Seguem os videos.
terça-feira, 15 de março de 2016
A palavra de ordem é PREPAREMOS NOSSAS FORÇAS! (texto de Bruno Rodrigues)
Compartilhamos análise de conjuntura de nosso camarada Bruno Rodrigues que aponta a importante necessidade de PREPARAR NOSSAS FORÇAS diante da situação em que nos encontramos com esgotamento do PT, assanhamento da direita, aumento das lutas e surgimento de uma nova vanguarda.
Boa leitura.
Boa leitura.
“O mais contagiante entusiasmo rapidamente esfria-se ou evapora se não encontra uma clara compreensão das leis do desenvolvimento histórico. Frequentemente, observamos como os jovens entusiastas, ao dar uma cabeçada na parede convertem-se em sábios oportunistas; como ultra-esquerdistas desenganados passam em curto tempo a ser burocratas conservadores, assim como pessoas fora da lei se corrigem e se convertem em excelentes policiais. Adquirir conhecimento e experiência e ao mesmo tempo não dissipar o espírito lutador, o auto- sacrifício revolucionário e a disposição de ir até o final, esta é a tarefa da educação e da auto-educação da juventude revolucionária”
Leon Trotsky
"E o que a algum tempo era jovem e novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer"
Belchior
Num país cujo cenário político está atravessado por uma crise agudíssima ao mesmo tempo que a economia vem cambaleando sucessivamente, tudo pode acontecer. O ano mal começou, e para a surpresa dos mais distraídos, uma onda de ocupação de escolas em SP e GO, “de repente” tomou o centro das atenções políticas do país, no que ficou conhecido como “Primavera Secundarista”. Em SP, o plano de “Reorganização” escolar, anunciado pelo governador Geraldo Alckmin foi o que acendeu o pavio dos estudantes, enquanto que em GO, foi o plano do governador Marconi Perilo que consistia em entregar a gestão das escolas para as malfadadas OS's, o detonador das ocupações. Por sinal, ambos os governadores são do PSDB.
Nesses dois estados, praticamente uma geração inteira de novos ativistas, à escala de alguns milhares, distribuídos em mais de 200 escolas em SP e 23 em GO, puderam fazer sua própria experiência com a ação direta: aprenderam a manejar a linguagem da luta política, da agitação e da propaganda; aprenderam a politizar e canalizar sua rebeldia contra os partidos do capital; descobriram com os seus próprios sentidos, os mecanismos de dominação do estado burguês; tonaram-se porta-vozes ou oradores, à frente de dezenas de outros ativistas; forjaram-se como lideranças locais; e ao fim, fizeram o seu próprio balanço em torno do que se passou. Em poucas semanas, puderam aprender coletivamente mais do que pode ser aprendido em anos de estudo individual. Algumas das principais lições políticas, dessa magnífica experiência, foram assimiladas e permanecerão em cada estudante que esteve naquelas ocupações. Encheram a muitos de nós com entusiamo, orgulho e esperança.
Dali em diante estaria lançado um exemplo. As flores dessa primavera, também brotaram em escolas de outros estados, como nas do RJ, onde hoje mesmo, não são poucos os que estão tomando as ruas, cerrando fileiras e se unindo aos professores em greve. Sobretudo, não imaginaram que estavam abrindo o caminho para os mais de 2000 metalúrgicos da empresa MABE, instalada em Campinas e Hortolândia no interior de SP. Incendiados, os operários se espelharam no que acontecia nas escolas e repetiram a experiência nas duas plantas da empresa, depois de ficarem três meses sem receber seus salários e benefícios: ocuparam a fábrica.
Professores em várias outras cidades também fizeram greves, como em Teresina e Fortaleza. Na capital cearense, como raramente se vê, os jovens trabalhadores precarizados do call center da Oi, arrastando o sindicato atrás de si, assumiam a linha de frente da luta em belíssimas paralisações na porta da empresa, em uma grande avenida da cidade. Na verdade, o último balanço do SAG-DIEESE a respeito do número de greves em 2013, atesta uma curva acendente no quesito quantidade de greves, como não se tem visto desde finais da década de 80, ainda que não consiga levar em conta as chamadas “greves selvagens” [1].
Em cada uma dessas experiências mencionadas, a luta organizada da juventude estudantil, dos professores e dos operários, pôde contar com a simpatia popular, quando famílias locais se solidarizavam e iam atém às ocupações prestar apoio material e político. Ao mesmo tempo, cada uma dessas mobilizações foi protagonizada por gerações inteiramente novas, e à revelia das entidades oficiais vinculadas aos interesses políticos do governo federal, tal como também foi na greve dos garis no RJ e na greve dos servidores estaduais do PR, em 2014, nas greves da peãozada do PAC, entre 2010 e 2013, e entre os petroleiros no ano passado, em sua maior greve nas últimas duas décadas.
A dinâmica da vida política brasileira definitivamente não é mais a mesma, principalmente depois de junho de 2013. O termômetro político, desde então, oscila entre temperaturas muito baixas para muito elevadas, praticamente num pestanejar. Aquele velho senso comum, já tão talhado ao limite da exaustão que afirma que o brasileiro possui uma essência passiva irremediável, vai sendo paulatinamente desmistificado e tudo indica que, pelo menos os próximos anos já mais não serão um “tranquilo passeio” para a burguesia. O relógio da história vê seus ponteiros operando em ritmo um pouco mais rápido, na medida em que as tensões sociais se agudizam. É preciso dedicar redobrada atenção aos acontecimentos, pois só estamos em Março de 2016 e o ano já promete sobressaltos muito maiores do que o que testemunhamos até então.
A combinação de queda no PIB, anunciada em 3,45% só para esse ano, mais taxa de juros batendo na casa dos 14,25% ao ano e um índice de desemprego estimado em 15,5% só entre a juventude, e mais uma exuberante coleção de epidemias somado com a explosão de violência nas cidades, sinaliza a magnitude da crise que está sendo descarregada sobre os ombros do proletariado brasileiro.
Particularmente, desde o início de seu segundo mandato presidencial, o governo de Dilma Rousseff se empenha de forma muito solícita em aplicar um receituário econômico dos mais amargos para a classe trabalhadora, onde as distintas áreas do serviço público, mas também o que sobra dos direitos trabalhistas, vêm sofrendo bombardeio permanente. A bola da vez é a previdência social, com a tentativa de impor a idade mínima, através de uma nova reforma. O preço desse regime de austeridade social à la FHC-PSDB, em síntese, é a ampliação e o aprofundamento da precarização das condições de vida da classe trabalhadora, em proveito dos lucros estratosféricos do sistema financeiro. Estão cegamente determinados a ir até as últimas consequências na aplicação dos planos de ajuste, como quem não percebe que pode estar “cutucando a onça com vara curta”.
Há muita frustração nas ruas, muito mau humor e muita insatisfação. As massas seguem suas vidas diárias, incomodadas, sem saber onde vão chegar. Se queixam nas filas dos bancos, dos ônibus e dos supermercados, pois estão sentido o seu nível de vida sendo deteriorado, o preço de itens básicos, indispensáveis na refeição, cada vez mais lhes pesando no bolso e o flagelo do desemprego, que já atinge 8,4 milhões de brasileiros, como uma ameaça sempre iminente. Descobriram que as benesses que gozavam, provenientes do crédito facilitado, quando o governismo vendia aos quatro ventos o mito da “nova classe média”, tornaram-se um grilhão de endividamento em seus tornozelos, da mesma forma que se desvanece no ar, o mito da ascensão econômica e social, possibilitada por programas federais de acesso ao ensino superior.
Essa cortina de ilusões foi um dos fatores que rendeu prestígio político ao PT, possibilitando eleger por duas vezes, a candidata Dilma Rousseff como sucessora de Lula. Mas aqueles tempos de relativa bonança e estabilidade econômico-social de uma década atrás, foram pelos ares de uma vez por todas.
Em razão do profundo desgaste provocado pela crise econômica que se arrasta pelos últimos anos, já se percebe que há um amplo e contínuo, ainda que lento, deslocamento de massas para a oposição ao governo.
Uma parte desse clima de insatisfação, vem sendo capitalizado pelos setores que fazem oposição ao governo pela direita, como aqueles alinhados com o PSDB/DEM, ou figuras ainda mais conservadoras e no mínimo deploráveis, como J. Bolsonaro ou S. Malafaia. Se apoiando nas extrações de classe média da sociedade e articulando conchavos com figuras da burocracia do estado burguês brasileiro, estes setores vêm se animando com a possibilidade de impor um golpe à la Paraguai [2], interromper o mandato de Dilma Rousseff antes das eleições de 2018 e assumirem por sua própria conta, as rédeas dos planos de ajustes. Se a primeira tentativa de golpe mediada por Eduardo Cunha (PMDB), via impeachment, perdeu fôlego e recuou, esse segundo round entre a oposição burguesa vs governo, tende a ser bem mais agudo, como pareceu claro nos lances midiáticos em torno da “condução coercitiva” de Lula pela PF e episódio de pedido de prisão preventiva, também de Lula, expedido pelo MP-SP. Que não restem dúvidas do lado cá: a classe trabalhadora, por mais insatisfeita que possa estar, jamais pode confundir sua justa e legítima indignação, com os interesses da oposição burguesa; menos ainda pode recuar em sua experiência com o governo, e abraçar a chantagem da CUT-UNE-MST-LPJ, que objetivamente impedem a ruptura Dilma-Lula. Ao fim e ao cabo, qualquer vacilação ou estreiteza sectária nesse campo, pode redundar nos colocando, na melhor das hipóteses, na condição de mero coro laudatório de uma dessas duas forças em disputa.
Contudo, nada está perdido, por mais difícil que possa parecer a situação. Parcelas da classe trabalhadora já começaram a se movimentar, protagonizando a maior quantidade de greves das duas últimas décadas. Longe de nós enganarmos a nós mesmos, acreditando que o caminho está ladeado de flores vermelhas para os militantes classistas. No entanto, a intervenção consciente e perseverante dos revolucionários nos próximos meses, apoiada nas mobilizações, pode ser capaz de reverter a correlação de forças em proveito da nossa classe. O ponto de partida está na defesa persistente da construção da UNIDADE CONTRA OS AJUSTES FISCAIS DO GOVERNO DILMA, como chave política capaz de alavancar a necessária unificação das lutas e criar as condições para derrotar tanto o PT-PMDB, como o PSDB-DEM.
A geração de jovens secundaristas que está despertando, não carrega as ilusões no lulismo nem as derrotas do passado, que tanto pesam sobre as cabeças das gerações anteriores. Essa é característica que, aliás, também se reflete nas fábricas, canteiros de obras, bancos, serviços públicos, e outras tantas categorias, onde há uma nova geração de trabalhadores.
Em geral, muitas vezes a história provou que a juventude é um termômetro social, de onde pode-se aferir o grau de febre pela qual passa o conjunto da sociedade. Por ser mais sensível e desembaraçada de quaisquer amarras, ela pode antecipar, cronologicamente, os movimentos que a posteriori se desatarão no próprio seio da classe trabalhadora. As lutas da juventude desse ano, são indícios poderosos que apontam nessa perspectiva. Não há razão nenhuma, portanto, para se justificar qualquer atitude pessimista, mas também não há tempo para tergiversações.
O tempo histórico tem se acelerado em vários países e o Brasil está, aos poucos, despertando e acompanhando esse ritmo. Com o olhar voltado para o futuro, os socialistas revolucionários precisam adequar sua atividade militante cotidiana ao espírito do momento, que é centralmente ordenado por uma consigna elementar: PREPAREMOS NOSSAS FORÇAS, o que em outras palavras, significa dizer que a tarefa posta na ordem do dia é: ajudar a vanguarda a educar-se com as ideias do marxismo revolucionário; instruir novos ativistas no espírito da camaradagem, do classismo e do internacionalismo; impulsionar e defender a democracia operária de forma intransigente; cobrar das organizações vacilantes ou sectárias, a necessária unidade de ação para a luta; empenhar-se com afinco no trabalho de base; se incorporar nas campanhas de solidariedade; fazer de cada experiência da luta de classes, uma “escola de guerra” contra o capital, ajudando os trabalhadores a recuperar a confiança em suas próprias forças; combater as ilusões semeadas pelos reformistas e o freio burocrático das organizações pelegas; agitar bem alto a bandeira vermelha do socialismo; ajudar a construir novas ferramentas para a luta.
A militância nos próximos anos deve estar obrigatoriamente voltada para a necessidade de forjar e organizar, no calor das lutas que virão, novos quadros, capazes de servir à classe trabalhadora como instrumento de luta, sob pena de desperdiçar novas oportunidades históricas. Essa foi a mais severa lição que ficou daquele junho de 2013.
[1] http://www.dieese.org.br/estudosepesquisas/2013/estPesq79balancogreves2013.pdf
[2] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/06/senado-condena-lugo-em-processo-politico-no-paraguai.html
Nesses dois estados, praticamente uma geração inteira de novos ativistas, à escala de alguns milhares, distribuídos em mais de 200 escolas em SP e 23 em GO, puderam fazer sua própria experiência com a ação direta: aprenderam a manejar a linguagem da luta política, da agitação e da propaganda; aprenderam a politizar e canalizar sua rebeldia contra os partidos do capital; descobriram com os seus próprios sentidos, os mecanismos de dominação do estado burguês; tonaram-se porta-vozes ou oradores, à frente de dezenas de outros ativistas; forjaram-se como lideranças locais; e ao fim, fizeram o seu próprio balanço em torno do que se passou. Em poucas semanas, puderam aprender coletivamente mais do que pode ser aprendido em anos de estudo individual. Algumas das principais lições políticas, dessa magnífica experiência, foram assimiladas e permanecerão em cada estudante que esteve naquelas ocupações. Encheram a muitos de nós com entusiamo, orgulho e esperança.
Dali em diante estaria lançado um exemplo. As flores dessa primavera, também brotaram em escolas de outros estados, como nas do RJ, onde hoje mesmo, não são poucos os que estão tomando as ruas, cerrando fileiras e se unindo aos professores em greve. Sobretudo, não imaginaram que estavam abrindo o caminho para os mais de 2000 metalúrgicos da empresa MABE, instalada em Campinas e Hortolândia no interior de SP. Incendiados, os operários se espelharam no que acontecia nas escolas e repetiram a experiência nas duas plantas da empresa, depois de ficarem três meses sem receber seus salários e benefícios: ocuparam a fábrica.
Professores em várias outras cidades também fizeram greves, como em Teresina e Fortaleza. Na capital cearense, como raramente se vê, os jovens trabalhadores precarizados do call center da Oi, arrastando o sindicato atrás de si, assumiam a linha de frente da luta em belíssimas paralisações na porta da empresa, em uma grande avenida da cidade. Na verdade, o último balanço do SAG-DIEESE a respeito do número de greves em 2013, atesta uma curva acendente no quesito quantidade de greves, como não se tem visto desde finais da década de 80, ainda que não consiga levar em conta as chamadas “greves selvagens” [1].
Em cada uma dessas experiências mencionadas, a luta organizada da juventude estudantil, dos professores e dos operários, pôde contar com a simpatia popular, quando famílias locais se solidarizavam e iam atém às ocupações prestar apoio material e político. Ao mesmo tempo, cada uma dessas mobilizações foi protagonizada por gerações inteiramente novas, e à revelia das entidades oficiais vinculadas aos interesses políticos do governo federal, tal como também foi na greve dos garis no RJ e na greve dos servidores estaduais do PR, em 2014, nas greves da peãozada do PAC, entre 2010 e 2013, e entre os petroleiros no ano passado, em sua maior greve nas últimas duas décadas.
A dinâmica da vida política brasileira definitivamente não é mais a mesma, principalmente depois de junho de 2013. O termômetro político, desde então, oscila entre temperaturas muito baixas para muito elevadas, praticamente num pestanejar. Aquele velho senso comum, já tão talhado ao limite da exaustão que afirma que o brasileiro possui uma essência passiva irremediável, vai sendo paulatinamente desmistificado e tudo indica que, pelo menos os próximos anos já mais não serão um “tranquilo passeio” para a burguesia. O relógio da história vê seus ponteiros operando em ritmo um pouco mais rápido, na medida em que as tensões sociais se agudizam. É preciso dedicar redobrada atenção aos acontecimentos, pois só estamos em Março de 2016 e o ano já promete sobressaltos muito maiores do que o que testemunhamos até então.
A combinação de queda no PIB, anunciada em 3,45% só para esse ano, mais taxa de juros batendo na casa dos 14,25% ao ano e um índice de desemprego estimado em 15,5% só entre a juventude, e mais uma exuberante coleção de epidemias somado com a explosão de violência nas cidades, sinaliza a magnitude da crise que está sendo descarregada sobre os ombros do proletariado brasileiro.
Particularmente, desde o início de seu segundo mandato presidencial, o governo de Dilma Rousseff se empenha de forma muito solícita em aplicar um receituário econômico dos mais amargos para a classe trabalhadora, onde as distintas áreas do serviço público, mas também o que sobra dos direitos trabalhistas, vêm sofrendo bombardeio permanente. A bola da vez é a previdência social, com a tentativa de impor a idade mínima, através de uma nova reforma. O preço desse regime de austeridade social à la FHC-PSDB, em síntese, é a ampliação e o aprofundamento da precarização das condições de vida da classe trabalhadora, em proveito dos lucros estratosféricos do sistema financeiro. Estão cegamente determinados a ir até as últimas consequências na aplicação dos planos de ajuste, como quem não percebe que pode estar “cutucando a onça com vara curta”.
Há muita frustração nas ruas, muito mau humor e muita insatisfação. As massas seguem suas vidas diárias, incomodadas, sem saber onde vão chegar. Se queixam nas filas dos bancos, dos ônibus e dos supermercados, pois estão sentido o seu nível de vida sendo deteriorado, o preço de itens básicos, indispensáveis na refeição, cada vez mais lhes pesando no bolso e o flagelo do desemprego, que já atinge 8,4 milhões de brasileiros, como uma ameaça sempre iminente. Descobriram que as benesses que gozavam, provenientes do crédito facilitado, quando o governismo vendia aos quatro ventos o mito da “nova classe média”, tornaram-se um grilhão de endividamento em seus tornozelos, da mesma forma que se desvanece no ar, o mito da ascensão econômica e social, possibilitada por programas federais de acesso ao ensino superior.
Essa cortina de ilusões foi um dos fatores que rendeu prestígio político ao PT, possibilitando eleger por duas vezes, a candidata Dilma Rousseff como sucessora de Lula. Mas aqueles tempos de relativa bonança e estabilidade econômico-social de uma década atrás, foram pelos ares de uma vez por todas.
Em razão do profundo desgaste provocado pela crise econômica que se arrasta pelos últimos anos, já se percebe que há um amplo e contínuo, ainda que lento, deslocamento de massas para a oposição ao governo.
Uma parte desse clima de insatisfação, vem sendo capitalizado pelos setores que fazem oposição ao governo pela direita, como aqueles alinhados com o PSDB/DEM, ou figuras ainda mais conservadoras e no mínimo deploráveis, como J. Bolsonaro ou S. Malafaia. Se apoiando nas extrações de classe média da sociedade e articulando conchavos com figuras da burocracia do estado burguês brasileiro, estes setores vêm se animando com a possibilidade de impor um golpe à la Paraguai [2], interromper o mandato de Dilma Rousseff antes das eleições de 2018 e assumirem por sua própria conta, as rédeas dos planos de ajustes. Se a primeira tentativa de golpe mediada por Eduardo Cunha (PMDB), via impeachment, perdeu fôlego e recuou, esse segundo round entre a oposição burguesa vs governo, tende a ser bem mais agudo, como pareceu claro nos lances midiáticos em torno da “condução coercitiva” de Lula pela PF e episódio de pedido de prisão preventiva, também de Lula, expedido pelo MP-SP. Que não restem dúvidas do lado cá: a classe trabalhadora, por mais insatisfeita que possa estar, jamais pode confundir sua justa e legítima indignação, com os interesses da oposição burguesa; menos ainda pode recuar em sua experiência com o governo, e abraçar a chantagem da CUT-UNE-MST-LPJ, que objetivamente impedem a ruptura Dilma-Lula. Ao fim e ao cabo, qualquer vacilação ou estreiteza sectária nesse campo, pode redundar nos colocando, na melhor das hipóteses, na condição de mero coro laudatório de uma dessas duas forças em disputa.
Contudo, nada está perdido, por mais difícil que possa parecer a situação. Parcelas da classe trabalhadora já começaram a se movimentar, protagonizando a maior quantidade de greves das duas últimas décadas. Longe de nós enganarmos a nós mesmos, acreditando que o caminho está ladeado de flores vermelhas para os militantes classistas. No entanto, a intervenção consciente e perseverante dos revolucionários nos próximos meses, apoiada nas mobilizações, pode ser capaz de reverter a correlação de forças em proveito da nossa classe. O ponto de partida está na defesa persistente da construção da UNIDADE CONTRA OS AJUSTES FISCAIS DO GOVERNO DILMA, como chave política capaz de alavancar a necessária unificação das lutas e criar as condições para derrotar tanto o PT-PMDB, como o PSDB-DEM.
A geração de jovens secundaristas que está despertando, não carrega as ilusões no lulismo nem as derrotas do passado, que tanto pesam sobre as cabeças das gerações anteriores. Essa é característica que, aliás, também se reflete nas fábricas, canteiros de obras, bancos, serviços públicos, e outras tantas categorias, onde há uma nova geração de trabalhadores.
Em geral, muitas vezes a história provou que a juventude é um termômetro social, de onde pode-se aferir o grau de febre pela qual passa o conjunto da sociedade. Por ser mais sensível e desembaraçada de quaisquer amarras, ela pode antecipar, cronologicamente, os movimentos que a posteriori se desatarão no próprio seio da classe trabalhadora. As lutas da juventude desse ano, são indícios poderosos que apontam nessa perspectiva. Não há razão nenhuma, portanto, para se justificar qualquer atitude pessimista, mas também não há tempo para tergiversações.
O tempo histórico tem se acelerado em vários países e o Brasil está, aos poucos, despertando e acompanhando esse ritmo. Com o olhar voltado para o futuro, os socialistas revolucionários precisam adequar sua atividade militante cotidiana ao espírito do momento, que é centralmente ordenado por uma consigna elementar: PREPAREMOS NOSSAS FORÇAS, o que em outras palavras, significa dizer que a tarefa posta na ordem do dia é: ajudar a vanguarda a educar-se com as ideias do marxismo revolucionário; instruir novos ativistas no espírito da camaradagem, do classismo e do internacionalismo; impulsionar e defender a democracia operária de forma intransigente; cobrar das organizações vacilantes ou sectárias, a necessária unidade de ação para a luta; empenhar-se com afinco no trabalho de base; se incorporar nas campanhas de solidariedade; fazer de cada experiência da luta de classes, uma “escola de guerra” contra o capital, ajudando os trabalhadores a recuperar a confiança em suas próprias forças; combater as ilusões semeadas pelos reformistas e o freio burocrático das organizações pelegas; agitar bem alto a bandeira vermelha do socialismo; ajudar a construir novas ferramentas para a luta.
A militância nos próximos anos deve estar obrigatoriamente voltada para a necessidade de forjar e organizar, no calor das lutas que virão, novos quadros, capazes de servir à classe trabalhadora como instrumento de luta, sob pena de desperdiçar novas oportunidades históricas. Essa foi a mais severa lição que ficou daquele junho de 2013.
[1] http://www.dieese.org.br/estudosepesquisas/2013/estPesq79balancogreves2013.pdf
[2] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/06/senado-condena-lugo-em-processo-politico-no-paraguai.html
segunda-feira, 14 de março de 2016
Explicando a terceirização com Os Simpsons
O episódio de abril de 2006 do seriado "Os Simpsons" aborda um tema importantíssimo e ainda atual apesar de já passada quase uma década de sua exibição: o Outsourcing, ou melhor dizendo a Terceirização. No eposódio o senhor Burnies decide terceirizar a planta da Usina Nuclear de Springfield para a India e resolve anunciar tal medida exibindo um filme para os funcionários. O empresário não só consegue demitir todos os trabalhadores como consegue jogar uns contra os outros ao anunciar que teria que manter uma vaga que é é disputada literalmente na base do tapa.
Segue trecho do video:
domingo, 28 de fevereiro de 2016
OCUPAR E RESISTIR #RapDuBom
As ocupações das escolas secundaristas de São Paulo renderam muitos sonhos, esperanças, exemplos, documentários e também como diria Rappin Hood, "Rap do Bom". Pelo menos é o que se pode ver em "Ocupar e Resistir" dos estudantes Luka (Koka) do Grêmio do Caetano de Campos da Consolação e Fabrício Ramos.
Aperta o play e sente o som.
OCUPAR E RESISTIR
Salve família
Secundarista na voz
Vai segurando
De São Paulo pro mundo
A rua é nossa
Você tem sede do quê?
Eu quero outra escola
Não mexe com quem tá quieto
Acordei olhei pro lado
Vi manifestação
E do outro lado vi
Uma pá de ocupação
Enquanto uns gritavam felizes
É campeão
Outros apanhavam e lutavam
Pela educação
Política desinteressante
Causada pela corrupção
Estigma digna indignação
Qual seria o tema do
Debate em questão
Gol da Alemanha
Ou senador no mensalão
Suor cansaço
Causado pela exaustão
Fome e morte
Causada pela ambição
Enquanto nas ruas
O que se vê é opressão
Auto opressão
E na mídia
Alienação
E quem será o culpado em questão
Aquele que é eleito
Ou aquele que
Vota na eleição
Direita tropa de choque
Em cima o governo fascista
Esquerda argumentação
Embaixo secundarista (2x)
Ocupar e resistir (8x)
Quantos lutaram
Gritaram faleceram
Mais de mil?
Aqui vai virar o Chile
Ou o Chile virou o Brasil?
Memorável
Luta consciente
E coincidentemente incrível
E é difícil e dói saber
E descobrir
Que a única coisa
Que cresce mais que a inflação
É o genocídio
Só pra deixar bem claro, irmão
Não tem arrego
Você fecha a minha escola
E eu tiro o seu sossego.
Salve família
A rua é nossa
Ocupar e resistir (25x)
Aperta o play e sente o som.
OCUPAR E RESISTIR
Salve família
Secundarista na voz
Vai segurando
De São Paulo pro mundo
A rua é nossa
Você tem sede do quê?
Eu quero outra escola
Não mexe com quem tá quieto
Acordei olhei pro lado
Vi manifestação
E do outro lado vi
Uma pá de ocupação
Enquanto uns gritavam felizes
É campeão
Outros apanhavam e lutavam
Pela educação
Política desinteressante
Causada pela corrupção
Estigma digna indignação
Qual seria o tema do
Debate em questão
Gol da Alemanha
Ou senador no mensalão
Suor cansaço
Causado pela exaustão
Fome e morte
Causada pela ambição
Enquanto nas ruas
O que se vê é opressão
Auto opressão
E na mídia
Alienação
E quem será o culpado em questão
Aquele que é eleito
Ou aquele que
Vota na eleição
Direita tropa de choque
Em cima o governo fascista
Esquerda argumentação
Embaixo secundarista (2x)
Ocupar e resistir (8x)
Quantos lutaram
Gritaram faleceram
Mais de mil?
Aqui vai virar o Chile
Ou o Chile virou o Brasil?
Memorável
Luta consciente
E coincidentemente incrível
E é difícil e dói saber
E descobrir
Que a única coisa
Que cresce mais que a inflação
É o genocídio
Só pra deixar bem claro, irmão
Não tem arrego
Você fecha a minha escola
E eu tiro o seu sossego.
Salve família
A rua é nossa
Ocupar e resistir (25x)
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Gregos fazem sua terceira greve geral de 2016. E a nossa quando sai mesmo?
Nesta quinta-feira, dia 04/02, em torno de 50 mil trabalhadores se reuniram no centro de Atenas que mais uma vez virou palco de guerra com manifestantes enfrentando a repressão policial a base de paus, pedras e coquetéis molotov. As imagens da batalha campal impressionam mas são só uma pequena demonstração de força e capacidade de luta a que chegaram os gregos. Escolas por todo o país foram paradas, o transporte entre as ilhas gregas e o continente foi suspenso, o transporte público parou e até mesmo hospitais ficaram somente com o pessoal de emergência. É a terceira greve geral de 24 horas nos últimos 30 dias contra a situação de crise que se abateu na Grécia e obviamente também contra Tsipras, por mais que alguns ainda tentem dizer que não.
Diante de tal demonstração de força é normal que venha uma pergunta a mente: "afinal quando teremos a nossa greve geral? e como diabos os gregos conseguiram chegar a esse nível de mobilização?"
Comparações são sempre um terreno bem delicado e se vamos fazê-las é de bom tom ter uma visão um pouco mais ampla.
É importante que se saiba que os gregos passaram pelo pão que o capeta amassou até chegar ao nível de radicalização em que se encontram. A taxa de crescimento de suicídios entre os gregos atingiu níveis dos mais assustadores de toda a Europa desde que a crise econômica começou a dar as cartas antes que as soluções coletivas começassem a ganhar as ruas. Enquanto a taxa de desemprego no Brasil segue abaixo de 10%, na Grécia esse índice é de 25%. Entre os mais jovens (15-24 anos) é superior aos 50%. O endividamento grego é de 180% do PIB, já no Brasil esse índice está na casa dos 60%. É esse cenário de caos e falta de perspectiva que empurrou os gregos a acumular tantos quilômetros rodados em greves gerais nos últimos anos. Só entre 2009 e 2014 a Grécia viveu quase 30 greves gerais, 25 delas concentradas no período que vai desde o começo da crise até o ano de 2012.
No Brasil, ao que me vem a cabeça, a última grande greve geral foi em março de 1989. A queda do Collor em 1992 por exemplo não foi acompanhada de nenhuma greve geral. O PT e a CUT poderiam ter convocado, não o fizeram. Preferiram entoar o slogan "Feliz 1994" permitindo que a burguesia prepara-se sua saída da crise política tirando da manga FHC e o plano real.
Em 1995, se poderia ter chamado também uma grande greve seguindo o exemplo da greve petroleira. Quem tinha a maior autoridade para fazê-lo era a CUT que vergonhosamente optou por pedir aos petroleiros que voltassem ao trabalho. A greve foi derrotada com tanques de guerra invadindo as refinarias e os petroleiros amargando uma derrota histórica que permitiu ao governo FHC impor sua agenda de privatizações.
Já não temos uma grande central sindical nem muito menos um grande partido de classe capaz de empalmar o descontentamento crescente de nossa gente. A reorganização política e sindical aberta com a chegada do lulismo à presidência não pariu nenhuma grande alternativa à esquerda que fosse capaz de superar as organizações anteriores. Muito pelo contrário, fomos tomados por um mar de confusão, desmoralização e desmobilização sem fim. Uma grande greve que pare os principais centros de uma país continental como o Brasil exigirá grandes instrumentos e ferramentas de lutas nacionais. E isso quando vivemos uma grande tendência a lutas isoladas em todo território nacional.
Se não temos grandes instrumentos ao menos deveríamos ter a capacidade de construir a unidade na luta. Mas o movimento organizado de uma forma geral vive um estado de desconfiança permanente e uma tremenda incapacidade de agir em frente. Somos incapazes de fazer o debate político das diferenças que nos separam e de inclusive combater as posições do outro sem romper a unidade na ação diante do menor suspiro. Da mesma forma temos sido incapazes de perceber o que de uma forma ou de outra pode nos unir, ainda que momentaneamente.
Os tempos do petismo fizeram muito mal ao movimento organizado brasileiro. Passou da hora de superá-lo.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Você precisa assistir o documentário "Anjos Rebeldes" da @TVBrasil
A TV Brasil produziu o documentário "Anjos Rebeldes" sobre o movimento de ocupações das escolas secundaristas em São Paulo que enfrentou a truculência policial e do governo Alckmin e impôs a derrota do projeto de "reorganização" que pretendia fechar 94 escolas.
Com 51 minutos de duração, "Anjos Rebeldes" ouviu ocupantes, pais de alunos, professores, especialistas sobre educação, jornalistas, entre tantos outros sobre o episódio que sem dúvida alguma entrou para a história do movimento de massas brasileiro e com certeza mudou também seu futuro.
O resultado do documentário é emocionante. Recomendadíssimo.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Pornografia e violência contra a mulher (texto de Melissa de Miranda) #antiporn
Pesquisa da Universidade da Califórna indica que homens que costumam pagar por sexo têm maior tendência a cometer agressões sexuais do que homens que não têm esse hábito. O tema foi tratado ano passado em artigo pelo médico Jairo Bouer em seu blog no UOL e é a base para o artigo da ativista Melissa de Miranda em seu primeiro artigo do ano publicado em sua página do Facebook. Mas o texto de Melissa não se detém especificamente na prostituição. O alvo é outro: a pornografia.
Vale a leitura.
Um estudo indicou que homens que pagam por sexo são mais propensos a cometer estupros. O motivo? Seu relacionamento com sexo é impessoal: só interessa o prazer dele, não o da outra pessoa. É dissociado, as minas são vistas como um utensílio descartável.
"Outros estudos já tinham associado essa falta de empatia com atos de violência contra a mulher. Muitos especialistas, hoje, encaram a prostituição como uma forma de abuso sexual. E esperam que os resultados desse estudo ajudem a derrubar o mito de que consumidores de prostituição são ‘caras legais, apenas sexualmente frustrados’”.
O problema vai além disso.
E sim, eu vou encher o saco sobre o seu pornôzinho. Desculpa aí! Como diriam as publicações gordofóbicas insuportáveis de dieta pós-Ano Novo, “você é o que você consome” e eu não sei se quero viver numa sociedade assim.
A pornografia foi colocada num pedestal pós-moderno. Toda crítica é moralismo. Mas a forma como esse conteúdo vem sendo produzido (machista, irreal e cada vez mais hardcore, graças à livre concorrência) e consumido em massa (na internet) também contribui para essa cultura de insensibilização para sexo..
A humanidade do outro é secundária ao seu tesão. Não importa o que aparece na tela ou seus bastidores grotescos, o importante é gozar. Não importa como aquela garota ou aquele “vídeo caseiro” chegou lá, o importante é gozar. Não importa como o filme foi feito e definitivamente não importa se a mulher está gostando.
A probabilidade, hoje em dia, é que você vai fazer mais sexo com seu computador do que com uma garota. Então... Quem se importa com a garota?
E não vem me dizer que a maior parte da pornografia é de boas. Porque não é. Fico imaginando meninos de 12 anos vendo mulheres humilhadas na cara, com a garganta engasgada, usadas por mais de um, agindo como crianças inocentes e sendo seduzidas, corrigidas ou coagidas e submetidas a todo tipo de estripulia, de posição não-prazerosa que culmine no orgasmo do ator homem. Ou lendo títulos como “comendo duas vadias” e “banho com adolescente”, a la XVideos.
Somos coniventes com a pedofilia, com esse falocentrismo. Com uma sexualidade agressiva, com vídeos em que o orgasmo feminino é irrelevante e ridicularizado. “Todo mundo sabe que a mulher não está gostando”, “ela finge muito mal”... Tá. Então por que estamos assistindo?
Se você abrir qualquer site de pornô gratuito e observar todas as fotos, todos anúncios, todos os termos usados nos títulos, eu duvido que te faça sentir bem sobre ser mulher.
E se você é homem, talvez não se importe.
Boicotamos um macarrão Barilla porque o CEO fez um comentário homofóbico, mas não boicotamos sites com anúncios misóginos, humilhantes e agressivos. Com conteúdo P E D Ó F I L O. Sabe?
E aí vêm me dizer: “Ah, não tem outra opção” ou “Me masturbar é muito importante”. E eu me pergunto se é realmente uma escolha tão vergonhosa ou "último recurso" assim, se falamos abertamente sobre a pornografia que consumimos e fazemos piada com os sites que frequentamos, sem problematizar.
Então penso na minha adolescência, em mim mesma e em amigas em relacionamentos heterossexuais, fazendo sexo sem sentir prazer durante anos. Algumas mulheres pela vida inteira. Se submetendo desde jovens a todo tipo de posição sem realmente estar confortável ou entender aquilo, só para agradar... Para ver o cara feliz. Contentando-se com o contato físico, com o carinho e não com o sexo em si. Colocando seu orgasmo em segundo plano, porque (assim como nos filmes) uma mulher não sentir prazer é culturalmente aceito.
Quem liga? Certamente não os caras que cresceram achando que minas têm que ser putas na cama. Ou que viram nos vídeos que é só colocar o I no O que o trabalho tá feito. Certamente não o cara que tem tesão em ménage a trois e assedia garotas em relacionamentos lésbicos. Nem o namorado bacana que fica chateado porque não ganhou sexo e “poxa, né, amor...”. E menos ainda o mano que convence a namorada a fazer sexo anal mesmo que ela sinta um pouco de dor.
Por que as mulheres estão nessa posição? Se desdobrando e se submetendo? Por que essa falta de empatia com elas? Como o mundo pode usufruir tanto da sexualização feminina e não dar a mínima para as garotas?
Os donos do Xvideos também não se importam. Nem os seus usuários. E sequer vou entrar no mérito dos vídeos amadores e do revenge porn, porque aí é provocar a ira dos defensores da pornografia online. Ou concordamos com o conteúdo desses sites (e muitos concordam), ou somos coniventes.
E você provavelmente se autodenominaria como da segunda categoria. Dos que ignoram a pedofilia em sites pornôs. Ou o sucesso da categoria “teen” (atualmente, é o termo pornô mais buscado no Google), porque mentalmente não compactua com esta cultura e confia que a sociedade tem discernimento. Muito discernimento. Ou ainda dos que não se incomodam que a agressividade em vídeos pornôs seja direcionada 6% a homens... e estimados 94% a mulheres.
São diferentes tipos de violência de gênero, todos alimentados pela mesma cultura. Uma cultura que não tem empatia com as mulheres. Que faz tanta menina transar sem tesão e tanta mulher depender da indústria pornô e da prostituição para viver.
“Você tira o poder da mulher. O seu trabalho, a sua família, o seu dinheiro. Você a deixa com uma única moeda... a moeda com que ela nasceu. Pode ser de mau gosto e degradante, mas se ela precisar, ela vai gastá-la” – Red (Orange Is The New Black)
E acreditem: isso tem menos a ver com “emancipação feminina” e mais com 70% do tráfico humano mundial ser de mulheres, escravizadas ou forçadas à prostituição. Dados da ONU, não meus.
A exceção não faz a regra neste caso. A maioria daquelas mulheres não está por cima, mas isso não parece gerar empatia. O distanciamento cresce. E eu entendo que todos temos hipocrisias ideológicas em nossas vidas, mas poucas delas estão filmadas e colocadas bem na nossa cara.
Que em 2016, o tesão seja problematizado.
Sobre o estudo:
http://bit.ly/1JZnV7n
O estudo em si (inglês):
http://bit.ly/1PLPypc
Relatório da ONU sobre tráfico humano:
http://bit.ly/1MVDGMM
TEDx - "Por que parei de ver pornô":
http://bit.ly/1S630HC
Dados sobre a indústria pornô e depoimentos de diferentes atrizes sobre os abusos e a "iniciação" (recomendo ler!):
http://bit.ly/1O6O3Bk
Dados da organização Stop Porn Culture:
http://bit.ly/1PgSirG
Dados sobre buscas pornôs ("teens"):
http://bit.ly/1JZt8w9
Vale a leitura.
Pornografia e violência contra a mulher
Um estudo indicou que homens que pagam por sexo são mais propensos a cometer estupros. O motivo? Seu relacionamento com sexo é impessoal: só interessa o prazer dele, não o da outra pessoa. É dissociado, as minas são vistas como um utensílio descartável.
"Outros estudos já tinham associado essa falta de empatia com atos de violência contra a mulher. Muitos especialistas, hoje, encaram a prostituição como uma forma de abuso sexual. E esperam que os resultados desse estudo ajudem a derrubar o mito de que consumidores de prostituição são ‘caras legais, apenas sexualmente frustrados’”.
O problema vai além disso.
E sim, eu vou encher o saco sobre o seu pornôzinho. Desculpa aí! Como diriam as publicações gordofóbicas insuportáveis de dieta pós-Ano Novo, “você é o que você consome” e eu não sei se quero viver numa sociedade assim.
A pornografia foi colocada num pedestal pós-moderno. Toda crítica é moralismo. Mas a forma como esse conteúdo vem sendo produzido (machista, irreal e cada vez mais hardcore, graças à livre concorrência) e consumido em massa (na internet) também contribui para essa cultura de insensibilização para sexo..
A humanidade do outro é secundária ao seu tesão. Não importa o que aparece na tela ou seus bastidores grotescos, o importante é gozar. Não importa como aquela garota ou aquele “vídeo caseiro” chegou lá, o importante é gozar. Não importa como o filme foi feito e definitivamente não importa se a mulher está gostando.
A probabilidade, hoje em dia, é que você vai fazer mais sexo com seu computador do que com uma garota. Então... Quem se importa com a garota?
E não vem me dizer que a maior parte da pornografia é de boas. Porque não é. Fico imaginando meninos de 12 anos vendo mulheres humilhadas na cara, com a garganta engasgada, usadas por mais de um, agindo como crianças inocentes e sendo seduzidas, corrigidas ou coagidas e submetidas a todo tipo de estripulia, de posição não-prazerosa que culmine no orgasmo do ator homem. Ou lendo títulos como “comendo duas vadias” e “banho com adolescente”, a la XVideos.
Somos coniventes com a pedofilia, com esse falocentrismo. Com uma sexualidade agressiva, com vídeos em que o orgasmo feminino é irrelevante e ridicularizado. “Todo mundo sabe que a mulher não está gostando”, “ela finge muito mal”... Tá. Então por que estamos assistindo?
Se você abrir qualquer site de pornô gratuito e observar todas as fotos, todos anúncios, todos os termos usados nos títulos, eu duvido que te faça sentir bem sobre ser mulher.
E se você é homem, talvez não se importe.
Boicotamos um macarrão Barilla porque o CEO fez um comentário homofóbico, mas não boicotamos sites com anúncios misóginos, humilhantes e agressivos. Com conteúdo P E D Ó F I L O. Sabe?
E aí vêm me dizer: “Ah, não tem outra opção” ou “Me masturbar é muito importante”. E eu me pergunto se é realmente uma escolha tão vergonhosa ou "último recurso" assim, se falamos abertamente sobre a pornografia que consumimos e fazemos piada com os sites que frequentamos, sem problematizar.
Então penso na minha adolescência, em mim mesma e em amigas em relacionamentos heterossexuais, fazendo sexo sem sentir prazer durante anos. Algumas mulheres pela vida inteira. Se submetendo desde jovens a todo tipo de posição sem realmente estar confortável ou entender aquilo, só para agradar... Para ver o cara feliz. Contentando-se com o contato físico, com o carinho e não com o sexo em si. Colocando seu orgasmo em segundo plano, porque (assim como nos filmes) uma mulher não sentir prazer é culturalmente aceito.
Quem liga? Certamente não os caras que cresceram achando que minas têm que ser putas na cama. Ou que viram nos vídeos que é só colocar o I no O que o trabalho tá feito. Certamente não o cara que tem tesão em ménage a trois e assedia garotas em relacionamentos lésbicos. Nem o namorado bacana que fica chateado porque não ganhou sexo e “poxa, né, amor...”. E menos ainda o mano que convence a namorada a fazer sexo anal mesmo que ela sinta um pouco de dor.
Por que as mulheres estão nessa posição? Se desdobrando e se submetendo? Por que essa falta de empatia com elas? Como o mundo pode usufruir tanto da sexualização feminina e não dar a mínima para as garotas?
Os donos do Xvideos também não se importam. Nem os seus usuários. E sequer vou entrar no mérito dos vídeos amadores e do revenge porn, porque aí é provocar a ira dos defensores da pornografia online. Ou concordamos com o conteúdo desses sites (e muitos concordam), ou somos coniventes.
E você provavelmente se autodenominaria como da segunda categoria. Dos que ignoram a pedofilia em sites pornôs. Ou o sucesso da categoria “teen” (atualmente, é o termo pornô mais buscado no Google), porque mentalmente não compactua com esta cultura e confia que a sociedade tem discernimento. Muito discernimento. Ou ainda dos que não se incomodam que a agressividade em vídeos pornôs seja direcionada 6% a homens... e estimados 94% a mulheres.
São diferentes tipos de violência de gênero, todos alimentados pela mesma cultura. Uma cultura que não tem empatia com as mulheres. Que faz tanta menina transar sem tesão e tanta mulher depender da indústria pornô e da prostituição para viver.
“Você tira o poder da mulher. O seu trabalho, a sua família, o seu dinheiro. Você a deixa com uma única moeda... a moeda com que ela nasceu. Pode ser de mau gosto e degradante, mas se ela precisar, ela vai gastá-la” – Red (Orange Is The New Black)
E acreditem: isso tem menos a ver com “emancipação feminina” e mais com 70% do tráfico humano mundial ser de mulheres, escravizadas ou forçadas à prostituição. Dados da ONU, não meus.
A exceção não faz a regra neste caso. A maioria daquelas mulheres não está por cima, mas isso não parece gerar empatia. O distanciamento cresce. E eu entendo que todos temos hipocrisias ideológicas em nossas vidas, mas poucas delas estão filmadas e colocadas bem na nossa cara.
Que em 2016, o tesão seja problematizado.
Sobre o estudo:
http://bit.ly/1JZnV7n
O estudo em si (inglês):
http://bit.ly/1PLPypc
Relatório da ONU sobre tráfico humano:
http://bit.ly/1MVDGMM
TEDx - "Por que parei de ver pornô":
http://bit.ly/1S630HC
Dados sobre a indústria pornô e depoimentos de diferentes atrizes sobre os abusos e a "iniciação" (recomendo ler!):
http://bit.ly/1O6O3Bk
Dados da organização Stop Porn Culture:
http://bit.ly/1PgSirG
Dados sobre buscas pornôs ("teens"):
http://bit.ly/1JZt8w9
domingo, 3 de janeiro de 2016
"Da Paz", conto #fabuloso de @marcelinofreire
Nos idos dos anos 2000, em especial no Rio de Janeiro, disseminou-se um movimento de marchas pela paz, com caminhadas com pessoas de branco carregando flores, fotos e cartazes pedindo paz e justiça. As caminhadas ganhavam especial comoção quando alguma criança do lado nobre da cidade era de alguma forma vítima de violência. Em São Paulo, tais marchas ganharam força em função das ações no PCC em 2006. Foi nesse contexto que o escritor pernambucano Marcelino Freire foi inquerido a escrever um conto com a temática das tais marchas. Inspirou-se ao ver uma das atrizes de malhação com seu "kit paz" convocando o evento.
Segue o texto brilhante e ao final as interpretações emocionantes de Naruna Costa, Renan Inqérito e do próprio Marcelino.
Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.
Segue o texto brilhante e ao final as interpretações emocionantes de Naruna Costa, Renan Inqérito e do próprio Marcelino.
Da Paz
Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Apesar de tudo, obrigado 2015. Dois mil e dezesseis, vamos à luta!
Dois mil e quinze já era. E não vai deixar saudades, não é mesmo? Afinal, foi crise pra lá, crise pra cá, cortes de direitos, demissões e mais demissões. Um roteiro que ninguém quer ver se repetir no novo ano que começa. Por outro lado 2015 ao menos merece ser abordado de um ângulo um pouquinho diferente.
Quem se lembra do final de 2014, com os resultados eleitorais que levaram ao Congresso Nacional sua composição mais reacionária de toda a história e da preparação do gabinete da recém reeleita presidenta, Dilma Roussef, com figuras como Levy e Kátia Abreu sabe que estávamos diante de um round, digo, ano que tínhamos tudo pra levar uma gigantesca surra.
Ainda em dezembro 2014, a reeleita já afirmava que o ano novo seria duríssimo para os brasileiros dos andares de baixo. O termo ajuste fiscal já entrava na agenda de governo com uma proposta para "economizar" 100 bilhões de reais. É sempre bom deixar claro que o tal ajuste fiscal que tanto se falou nada mais é do que cortes, arrocho e precarização do serviço público. E também foi em dezembro de 2014 que Dilma 2.0 não só começou a falar como colocou em vigor medidas para dificultar o acesso ao seguro desemprego, PIS/PASEP, seguro defeso, etc.. Ou seja, a depender do governo, 2014 já tinha deixado claro que íamos sentir saudades.
Mas não foi só do governo federal que a pancadaria já estava anunciada. Com uma bancada BBB supervitaminada e fortalecida no Congresso Nacional, 2015 nos preparava um verdadeiro show de horrores. E não foi pra menos. Ainda em fevereiro, o famigerado Eduardo Cunha foi eleito para presidente da Casa. Em sua agenda estavam a redução da maioridade penal, ilegalizar o pouco de aborto legal, o "bolsa estupro", o dia do orgulho heterossexual, o estatuto da família, estatuto do desarmamento, apoio ao sistema de saúde privado e a terceirização.
Pra completar a confirmação de que estávamos diante de um ano perdido, ainda em março, a direitada tomou as ruas e inaugurou um movimento até então inédito na democracia brasileira: o carnacoxinha. Só na Paulista foram 160 mil pessoas pedindo "Fora Dilma", "Fora PT" e também "Intervenção militar". A termo de comparação, em junho de 2013 a maior manifestação na Paulista colocou 110 mil pessoas na rua. Não tinha como não olhar pra frente e não ver com muito medo o desenrolar do ano.
E esse é o ponto. Mesmo com toda a ofensiva do lado de lá, e tanta desmoralização e desmobilização do lado de cá, eles não nos levaram à lona. E não é que não tentaram. Simplesmente não conseguiram.
Ainda no primeiro semestre não conseguiram impor o maldito PL 4330 nem a redução da maioridade. A Câmara até aprovou mas diante da reação popular o Senado simplesmente não topou levar adiante. E no segundo semestre então nem se fala, além da malfadada ameaça permanente de impeachment que deixaria a vida dos trabalhadores ainda pior mas que não conseguiu se efetivar, Cunha colocou em discussão o PL 5069 que levou às ruas milhares de mulheres no país e pôs em pauta o movimento feminista como há muito não vimos.
E pra deixar o peito cheio de orgulho, 2015 nos presenteou com um movimento em defesa da escola pública na capital paulista de encher os olhos e o coração. Mais de duzentas escolas ocupadas por uma nova geração de lutadores que impôs brilhantemente a derrota do governo tucano. Se fizermos contas superficiais em termos quantitativos, duzentas escolas vezes uma média de cinquenta ocupantes, chegamos a um número de 10.000 novos ativistas só em São Paulo que experimentaram a necessidade de auto-organização e resistência, enfrentando-se com uma das PMs mais truculentas do país e ainda por cima, não se deixando arrastar pelos aparatos derrotistas que se tornaram as entidades estudantis como UNE, UBES e companhia.
Aos que lutam e resistem, o anos de 2015, por mais que tenha sido sofrido, honestamente até que terminou com um gostinho de quero mais. Em especial as primaveras feminista e secundarista do ano que chegou ao fim nos deixaram sementes de esperança para o ano que começa. Que aliás será de luta pois o governo já anunciou que quer reforma da previdência e ajuste (leia-se cortes e arrocho). E se depender do que aprendemos nos enfrentamentos do ano que se foi, 2016 tem tudo pra ser de grandes vitórias.
Então... apesar de tudo, obrigado 2015. Dois mil e dezesseis, vamos à luta!
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
O Trono do Estudar
E quem disse que 2015 foi puro espetáculo de horrores? Nada disso. Teve espetáculo também de mulheres contra Cunha, de estudantes na rua e pra fechar ainda teve até de artistas em defesa do "estudar". Esta semana caiu na rede o clipe da música de Dani Black em apoio ao movimento de ocupações de escolas secundaristas que tomou São Paulo durante o mês de novembro e fez recuar o governo tucano e ganhou simpatia de todo o país.
O clipe juntou Chico Buarque, Zélia Duncan, Paulo Miklos, Arnaldo Antunes, Dado Villa Lobos, Pedro Luis, Lucas Silveira e até Tetê Espíndola, que aliás é a mãe de Dani Black. Em um tom tipicamente nordestino, "Trono do Estudar", atira "Nem a lei, nem estado, nem turista, nem palácio, nem artista, nem polícia militar. Vocês vão ter que me engolir". Fabuloso, né não?
Vale muito conferir.
Trono do Estudar
Ninguém tira o trono do estudar
Ninguém é o dono do que a vida dá
E nem me colocando numa jaula Porque sala de aula
Essa jaula vai virar
A vida deu os muitos anos de estrutura do humano à procura do que Deus não respondeu
Deu a história, a ciência, a arquitetura, deu a arte e deu a cura e a cultura pra quem leu
Depois de tudo até chegar neste momento me negar conhecimento é me negar o que é meu
Não venha agora fazer furo em meu futuro, me trancar num quarto escuro e fingir que me esqueceu
Vocês vão ter que acostumar porque
Ninguém tira o trono do estudar Ninguém é o dono do que a vida dá
E nem me colocando numa jaula Porque sala de aula
Essa jaula vai virar
E tem que honrar e se orgulhar do trono mesmo e perder o sono mesmo para lutar pelo que é seu
Que neste trono todo ser humano é rei seja preto, branco, gay, rico, pobre, santo, ateu
Pra ter escolha tem que ter escola ninguém quer escola, isto ninguém pode negar
Nem a lei, nem estado, nem turista, nem palácio, nem artista, nem polícia militar
Vocês vão ter que me engolir, se entregar
Porque ninguém tira o trono do estudar
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
O chamado a "Eleições Gerais" neste instante é ou não um erro?
E quando se pensava que o ano estava acabando e nada de novo poderia ganhar grande notoriedade para além da emocionante luta dos estudantes secundaristas de São Paulo, eis que todos os holofotes se voltam para Brasília. O presidente da Câmara dos Deputados e achacador-mor da República, Eduardo Cunha (PMDB) acatou a admissibilidade do pedido de impeachment da presidenta Dilma Roussef. Fez isso, no mesmo dia em que deputados do PT finalmente e após grande relutância assumiram a posição de que não o defenderiam no Conselho de Ética na votação sobre a admissibilidade do processo contra Cunha. No fim, seu ato foi pura retaliação em um movimento que tem o sentido primeiro de protelar quaisquer decisões do Conselho de Ética que poderiam levar à cassação de seu mandato e uma possível prisão.
Essa politica pequena, cheia de artimanhas e imundices que dá nojo a qualquer um, apesar de não trazer nenhum ar de entusiasmo aos que lutam por um mundo melhor, merece e muita nossa atenção porque dela temos muito desdobramentos que afetarão diretamente a vida em especial dos trabalhadores brasileiros.
Antes de mais nada é preciso entender que o que está em curso no Planalto Central é sim, um golpe. Não um golpe com os tanques nas ruas a la 1964 mas um golpe parlamentar. É bem verdade que não existe interesse da grande burguesia nacional ou internacional, muito menos da Casa Branca, em um processo de interrupção do governo Dilma em meio a uma grande crise econômica mundial. Mas Eduardo Cunha à frente do Congresso Nacional é um elemento absolutamente imponderável no cenário político brasileiro e sequer escrúpulos tem para jogar às favas. Sendo assim, o golpe ou ao menos sua tentativa, está sim em curso.
Mas se está previsto na Constituição por que seria um golpe?
Simplesmente porque não existe motivo plausível para um impedimento por dentro das regras normais do jogo democrático burguês. As tais pedaladas fiscais nem de longe são razão para tanto. Se fossem FHC não poderia ter completado seu mandato e Temer também precisaria ser impedido. No fim das contas a questão não é técnica ou legal, é política. O governo não governa, não tem apoio do parlamento, nem muito menos popularidade, mas nada disso é motivo para impeachment. Poderia ser motivo para os trabalhadores tomarem as ruas, fazer greve geral e assim fazer cair o governo através de um renúncia. Mas para impeachment de fato não há base.
Então, estamos diante de um golpe e ponto. Não que ele vá ser vitorioso, até porque não existem votos suficientes na oposição de direita para impô-lo (são necessários 2/3 dos deputados e o governo tem um pouco mais de 1/3 a seu lado), mas devemos ter ao menos o cuidado de chamar as coisas por seus nomes.
Mas será que no fim das contas o resultado do golpe seria ruim para a classe trabalhadora brasileira? Não seria melhor logo dar um fim nesse governo inerte e colocar um outro no lugar? Será que até mesmo para destravar as lutas não seria interessante deixar de ter o PT e a figura do Lula, com a UNE, UBES, MST, CUT e um monte de sindicatos funcionando como camisa de força das lutas sociais? Será que não estamos diante de um daqueles males que vem pra bem?
A resposta é sinceramente um grande NÃO.
O fato de sabermos que Dilma governa para os ricos não quer dizer que seu governo é simplesmente igual a qualquer outro governo burguês. Nenhum governo burguês é igual ao outro, simples assim. Existem, por exemplo, governos com mais ataques às liberdades democráticas e governos com menos ataques. Isso não quer dizer que eles deixam de ser burgueses porque por exemplo, apoiam a legalização da maconha, a legalização do aborto ou o casamento homossexual. Nada disso. Não é isso que determina seu caráter de classe. O governo Dilma é terrível e precisa ser derrotado, mas não é possível que tenhamos dúvida que um governo Temer será pior e um governo Cunha, ainda mais. Tirar Dilma e deixar assumir Temer ou Cunha é defender que os trabalhadores sejam ainda mais atacados. É preparar um imenso infeliz 2016 com uma nova reforma da previdência, privatização da Petrobras, privatização do SUS, privatização da rede pública de ensino, aprovação do PL 5069 e por aí vai. Ou seja será levar à hipervelocidade a precarização da vida do povo pobre e trabalhador do país.
Nada mais justo pensar então que neste cenário o correto é chamar o FORA TODOS e novas eleições gerais, não é mesmo? Não, não é. Palavras de ordem precisam levar em consideração a correlação de forças e não levantamos palavras de ordem deste tipo, palavras de ordem para a ação, se não houver como colocá-las em ação. Levantar a hipótese de eleições gerais neste momento, onde não está em curso nenhuma grande mobilização popular para derrotar o governo, é simplesmente abrir a possibilidade que o atual Congresso reacionário seja substituído por outro ainda mais a direita.
Quanto ao PT, CUT e companhia é preciso que se diga que NÃO há como resgatá-los para as lutas sociais. Em outras palavras isso significa dizer que eles seguirão sendo camisas de força, ainda que por fora do governo. O melhor local para enfrentá-los e varrer sua influência sobre o movimento de massas é exatamente onde eles estão: no governo central. Mas é preciso a política certa para enfrentar um governo desse tipo e simplesmente torcer para que eles saiam do governo, seja derrotados em eleições, seja golpeados pela direita parlamentar, é de fato se negar a fazer política, se abster da tarefa de derrotá-lo, é seguir dando-lhes sobrevida. A classe trabalhadora merece muito mais do que isso.
A esquerda socialista não pode apressar-se em apontar quaisquer consignas mirabolantes. Pés firmes no chão e olhos para frente. É preciso entender os perigos e hierarquizar as tarefas que nos impõe a realidade. Partir da negação ao golpe parlamentar, chamar o povo a seguir engrossando o sentimento de Fora Cunha, construir nas ruas as derrotas ao ajuste de Dilma/Temer/Levy somando-se às lutas reais como a dos secundaristas de São Paulo e chamar a não se depositar nenhuma confiança nesse governo de arrocho, retirada de direitos e desemprego. Esse sim, é um bom caminho.
Essa politica pequena, cheia de artimanhas e imundices que dá nojo a qualquer um, apesar de não trazer nenhum ar de entusiasmo aos que lutam por um mundo melhor, merece e muita nossa atenção porque dela temos muito desdobramentos que afetarão diretamente a vida em especial dos trabalhadores brasileiros.
Antes de mais nada é preciso entender que o que está em curso no Planalto Central é sim, um golpe. Não um golpe com os tanques nas ruas a la 1964 mas um golpe parlamentar. É bem verdade que não existe interesse da grande burguesia nacional ou internacional, muito menos da Casa Branca, em um processo de interrupção do governo Dilma em meio a uma grande crise econômica mundial. Mas Eduardo Cunha à frente do Congresso Nacional é um elemento absolutamente imponderável no cenário político brasileiro e sequer escrúpulos tem para jogar às favas. Sendo assim, o golpe ou ao menos sua tentativa, está sim em curso.
Mas se está previsto na Constituição por que seria um golpe?
Simplesmente porque não existe motivo plausível para um impedimento por dentro das regras normais do jogo democrático burguês. As tais pedaladas fiscais nem de longe são razão para tanto. Se fossem FHC não poderia ter completado seu mandato e Temer também precisaria ser impedido. No fim das contas a questão não é técnica ou legal, é política. O governo não governa, não tem apoio do parlamento, nem muito menos popularidade, mas nada disso é motivo para impeachment. Poderia ser motivo para os trabalhadores tomarem as ruas, fazer greve geral e assim fazer cair o governo através de um renúncia. Mas para impeachment de fato não há base.
Então, estamos diante de um golpe e ponto. Não que ele vá ser vitorioso, até porque não existem votos suficientes na oposição de direita para impô-lo (são necessários 2/3 dos deputados e o governo tem um pouco mais de 1/3 a seu lado), mas devemos ter ao menos o cuidado de chamar as coisas por seus nomes.
Mas será que no fim das contas o resultado do golpe seria ruim para a classe trabalhadora brasileira? Não seria melhor logo dar um fim nesse governo inerte e colocar um outro no lugar? Será que até mesmo para destravar as lutas não seria interessante deixar de ter o PT e a figura do Lula, com a UNE, UBES, MST, CUT e um monte de sindicatos funcionando como camisa de força das lutas sociais? Será que não estamos diante de um daqueles males que vem pra bem?
A resposta é sinceramente um grande NÃO.
O fato de sabermos que Dilma governa para os ricos não quer dizer que seu governo é simplesmente igual a qualquer outro governo burguês. Nenhum governo burguês é igual ao outro, simples assim. Existem, por exemplo, governos com mais ataques às liberdades democráticas e governos com menos ataques. Isso não quer dizer que eles deixam de ser burgueses porque por exemplo, apoiam a legalização da maconha, a legalização do aborto ou o casamento homossexual. Nada disso. Não é isso que determina seu caráter de classe. O governo Dilma é terrível e precisa ser derrotado, mas não é possível que tenhamos dúvida que um governo Temer será pior e um governo Cunha, ainda mais. Tirar Dilma e deixar assumir Temer ou Cunha é defender que os trabalhadores sejam ainda mais atacados. É preparar um imenso infeliz 2016 com uma nova reforma da previdência, privatização da Petrobras, privatização do SUS, privatização da rede pública de ensino, aprovação do PL 5069 e por aí vai. Ou seja será levar à hipervelocidade a precarização da vida do povo pobre e trabalhador do país.
Nada mais justo pensar então que neste cenário o correto é chamar o FORA TODOS e novas eleições gerais, não é mesmo? Não, não é. Palavras de ordem precisam levar em consideração a correlação de forças e não levantamos palavras de ordem deste tipo, palavras de ordem para a ação, se não houver como colocá-las em ação. Levantar a hipótese de eleições gerais neste momento, onde não está em curso nenhuma grande mobilização popular para derrotar o governo, é simplesmente abrir a possibilidade que o atual Congresso reacionário seja substituído por outro ainda mais a direita.
A esquerda socialista não pode apressar-se em apontar quaisquer consignas mirabolantes. Pés firmes no chão e olhos para frente. É preciso entender os perigos e hierarquizar as tarefas que nos impõe a realidade. Partir da negação ao golpe parlamentar, chamar o povo a seguir engrossando o sentimento de Fora Cunha, construir nas ruas as derrotas ao ajuste de Dilma/Temer/Levy somando-se às lutas reais como a dos secundaristas de São Paulo e chamar a não se depositar nenhuma confiança nesse governo de arrocho, retirada de direitos e desemprego. Esse sim, é um bom caminho.
domingo, 6 de dezembro de 2015
"Quem disse que algum dia foi fácil?" nos pergunta Badaró via @BlogJunho
O achacador-mor da República e representante dos interesses mais atrasados e reacionários do país, senhor Eduardo Cunha, acatou no dia 02/12 ser admissível o pedido de impeachment de Dilma Roussef. Fez isso às vésperas de ver seu mandato cassado e em represália ao fim da proteção que o PT vinha lhe dando. O ato praticamente é a cereja no bolo do mandato do deputado na presidência da Câmara dos Deputados e é, ou ao menos deveria ser, a virada para o clímax da ofensiva direitosa de 2015.
Rapidamente setores da esquerda socialista sacaram de seus arsenais as saídas para a crise institucional. O PSTU demonstrou-se o mais ágil e deu um salto do seu até então "Chega de Dilma, etc, etc, etc", um Fora Dilma disfarçado, para uma nova versão do "Fora Todos" de 2005 aliada ao "Eleições Gerais" de 1992. O MRT, antiga LER-QI, também não demorou muito a pronunciar-se e abraçou também a causa do "Fora Todos" com a diferença de estar aliada à bandeira da Assembleia Constituinte, leia-se reforma política. Aos poucos vozes menos apressadas da esquerda socialista deixam suas contribuições ao momento como nosso indispensável professor Ênio Bucchioni relembrando Trotsky e o terceiro período na Alemanha.
Outra voz na esquerda socialista que deixou sua contribuição ainda no dia 03/12, foi o professor Marcelo Badaró Mattos, com texto publicado no Blog Junho que faz um apanhado geral do ponto onde estamos e que vale muito a leitura.
Bom proveito.
A situação atual confirma as muitas avaliações de que junho de 2013 abriu um novo momento na luta de classes no Brasil.[1] As mobilizações multitudinárias, àquela altura, colocaram em cheque o “sucesso” do modo lulopetista de governar. Se a polarização eleitoral de 2014 rendeu ao governo capitaneado pelo PT a possibilidade de recompor bases sociais de apoio, tendo por mote o voto no “menos pior” (face ao medo do retorno do tucanato) e uma certa radicalização discursiva da candidatura de Dilma, o acirramento da crise capitalista, ao obrigar o governo a uma reorientação da política econômica, desvelou as máscaras: às favas com as fachadas neodesenvolvimentistas e volta à carga pesada do arsenal neoliberal clássico – juros elevados, mais retirada de direitos, cortes orçamentários nas áreas sociais e privatizações em cascata.
Aproveitando o clima da ressaca pós-eleitoral com o governo petista, a direita política mais radical lançou-se às ruas, no primeiro semestre deste ano, buscando capitalizar os descontentamentos, especialmente dos setores médios, com as políticas anti-populares do início do segundo mandato de Dilma.[2] Um descontentamento, diga-se de passagem, já manifesto em São Paulo (que se tornaria o epicentro da efervescência reacionária) desde as eleições, conforme indicou a queda da votação petista mesmo nos seus “bastiões” tradicionais.
A onda coxinha tinha respaldo parlamentar. De aliança em aliança para ampliar a “base de apoio” no Congresso, o governo petista conseguiu a proeza de se eleger com o Congresso de perfil mais retrógrado da história recente do país, elevando o status de figuras nefastas como Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara e de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro que capitalizou a situação como figura pública da reação (ou “mito” da coxinhada). Ambos eleitos por partidos da “base aliada” diga-se de passagem. Na combinação das mobilizações reacionárias com as articulações da bancada BBB (bala, boi e bíblia) criou-se o espaço para o avanço da “pauta conservadora” no Congresso – redução da maioridade penal, limitações ainda maiores ao aborto, estatuto da família, etc. – que despertou e tem despertado resistências importantes. Sintomaticamente, porém, percebe-se que se a “pauta conservadora” avança, mas encontra resistências internas no congresso – permanece congelada no Senado -, as medidas de austeridade do “ajuste fiscal”, com toda a transferência da carga da crise para o ombro da classe trabalhadora, são aprovadas com agilidade impressionante.
De qualquer forma, as mobilizações coxo-reacionárias do primeiro semestre refluíram, na medida mesmo que os porta-vozes das organizações de classe dos dominantes negaram publicamente o apoio ao “Fora Dilma!”. No entanto, um elevado grau de imponderabilidade no jogo das manobras políticas entre o governo e seus opositores/aliados (oposição política, mas apoio de classe à principal política do governo – o “ajuste fiscal”) se manteve, em decorrência da dinâmica jurídico criminal da “operação lava a jato”, na qual, em troca de algum tempo a menos na cadeia, próceres da burguesia e da gestão do aparelho de Estado acabam por entregar cada vez mais envolvidos em tenebrosas transações com dinheiro público.
Do lado de lá
O consenso até aqui evidente da classe dominante em torno das medidas de austeridade como caminho para o enfrentamento da crise é o elemento fundamental para a avaliação da sustentabilidade ou não do governo Dilma. Tal consenso, porém, não é absoluto ou imutável. As torneiras da combinação dívida pública/juros altos continuam a irrigar os lucros dos bancos e as frações do capital aglutinadas nos fundos de investimento (e todo o capital se garante por essa via, independentemente de sua origem na produção do valor ou na intermediação comercial, de serviços e bancária) continuam a saquear o fundo público à vontade – vide o aumento dos recursos para o FIES (alimentando as grandes corporações finaceirizadas do ensino superior privado) em meio aos cortes no orçamento da educação e a ofensiva para capitalizar o Funpresp (fundo previdenciário complementar para o funcionalismo público). Entretanto, as pressões para uma “flexibilização” do ajuste, para o capital, se ampliam. Com a União e os demais entes federativos sem recursos para continuar sobre-remunerando as empreiteiras (e seus gestores hoje em grande parte encarcerados) nas obras do PAC e mega-eventos; com a desaceleração da economia chinesa abalando as previsões de expansão do agronegócio (que tem se apoiado na desvalorização do real para manter “competitividade”); ou com a brutal queda do consumo de bens de consumo duráveis (20% de retração na produção automobilística) há descontentamentos. É essa pressão que explica os discursos de maior contemporização e ênfase na retomada do crescimento feitos por Joaquim Levy, não a marola dos “neodesenvolvimentistas” do PT. E o previsível agravamento da crise tende a acirrar essas contradições.
Nada indica, entretanto, que a classe dominante ou alguma de suas frações aposte na saída da derrubada de Dilma para substituí-la por um vice peemedebista ou para buscar novas eleições antecipadas em que a imprevisibilidade será a marca. As oscilações recentes no jogo político, portanto, tem origem em outra dimensão de conflitos. É nesse marco que talvez possamos compreender melhor o efeito que poderá ter a admissibilidade do processo de impeachment por Eduardo Cunha, em ato de retaliação explícita pela mudança de posição dos deputados petistas que anunciaram voto pela admissibilidade de processo contra ele na Comissão de Ética (sic.) da Câmara.
Oposição e situação se sentiram realmente ameaçadas foi com as prisões de Delcídio Amaral – líder do governo no Senado atualmente, mas diretor da Petrobrás no segundo mandato de FHC, vale lembrar – e do banqueiro André Esteves – que financiou as campanhas de Dilma, Aécio, Cunha e meio Planalto Central, além de presentear de Lula a Aécio com viagens de luxo e ouros mimos. Diante da disjuntiva entre as grades da cela e a tornozeleira eletrônica nos palácios urbanos em que residem, a opção por delatar alguns comparsas de todas as cores partidárias e devolver uma parcela pequena do botim aos cofres públicos não é assim tão difícil.
Como a reação imediata da volta dos avatares dilmistas nas redes sociais e as comemorações de alguns petistas (que antes diziam que “qualquer impeachment é golpe”[3]) deixaram evidente, o gesto de Cunha tende a ser positivo para o governo, por propiciar uma possibilidade à desgastada Dilma de ampliar sua base de apoio, polarizando contra a figura do presidente da Câmara, cuja reputação é a pior possível. De quebra, ao retirar as prisões da semana passada do centro do noticiário, aliviam-se todos, de Lula a Aécio.
Do lado de cá
O avanço da direita reacionária, inclusive para as ruas, decorre das “jornadas de junho”, mas essencialmente como reação ao caráter de classe – da classe trabalhadora – daquelas manifestações. E o “espírito de junho” não se dissipou completamente, nem pela reação de direita, nem pelos esforços petistas – nas eleições e depois – de reaglutinar as bases de apoio do lulismo. A onda de greves do segundo semestre de 2013 e primeiro de 2014, embalada por mobilizações dos trabalhadores da área de educação e pelas paralisações à revelia, ou contra, das direções sindicais burocratizadas (garis, rodoviários, operários da construção civil, entre outras) foi impulsionada por junho. Como o foram as ocupações urbanas na luta por moradia, muitas delas dirigidas pelo MTST.
Greves na contracorrente das direções sindicais e ocupações urbanas continuaram a acontecer. A elas se somam agora dois movimentos em que o “espírito de junho” parece reviver, com o adendo de que neles não há espaço para a disputa da direção pela direita, visto que sua pauta e perfil são essencialmente de enfrentamento contra a mesma direita: a “primavera das mulheres” e as ocupações de escolas em São Paulo.
O sucesso das campanhas feministas nas redes sociais e as expressivas mobilizações de rua do movimento de mulheres pelo “Fora Cunha!” desnudam o verdadeiro sentido da “pauta conservadora”: preservar a lógica do patriarcado que reveste a dominação social no Brasil face a verdadeira elevação da consciência feminina e social na luta contra o machismo cotidiano em sua brutalidade, hoje cada vez mais difícil de invisibilizar. Por outro lado, dão o sinal para toda a esquerda socialista: unidade de ação em uma pauta progressiva – “Fora Cunha!” e “Pela vida das mulheres” – sem maiores espaços para as pautas governistas mal-disfarçadas em “Defesa da Democracia”.[4]
Já as ocupações de escolas revelam o melhor legado das jornadas de 2013. Jovens, de origem trabalhadora, estudantes da escola pública, que se levantam contra o governo tucano e sua política de desmanche da educação, em uma experiência de ocupação e auto-gestão de escolas que representa objetivamente a possibilidade de formação de uma nova geração de ativistas político-sociais comprometidos com as bandeiras socialistas e experimentados desde cedo na luta. Luta que nos últimos dias vem se acirrando, com os enfrentamentos entre a PM assassina – com seu arsenal “não letal” tão popularizado em junho: spray de pimenta, cacetete, bombas de gás e balas de borracha – e a estudantada armada da mais letal das ferramentas de luta de que dispõe: as carteiras escolares, hoje usadas para simbolizar o que a escola não é, mas poderia ser.[5]
Aos militantes da esquerda socialista não há alternativa a não ser apostar na multiplicação dessas lutas. Mas, com que perspectivas e programa de intervenção?
Nosso lugar
Estar inseridos nas lutas em curso, nesta conjuntura, é a obrigação. Essa predisposição, por certo, nem de longe resolve nossos problemas. Como atuar e com que propostas?
De uma lado, reatualiza-se a necessidade da construção de uma frente da esquerda socialista, reunindo suas organizações políticas e os movimentos sociais mais combativos e de perspectiva classista, para intervir de forma articulada nos movimentos (e não apenas nos cenários e momentos eleitorais, embora nem isso tenha sido possível nos últimos tempos). A elevação do patamar de lutas, com a unificação dos movimentos regionalizados e fragmentados em pautas setoriais, exige a formação de um polo combativo mais amplo.
Além disso, para levar adiante bandeiras essenciais nessa conjuntura – como a greve geral contra o ajuste fiscal e a retirada de direitos dos trabalhadores – precisaremos construir unidade na luta até mesmo com os setores da burocracia governista nos movimentos sindical e “popular”, o que dependerá mais que tudo da pressão de “suas” bases. No entanto, só teremos força de pressão e capacidade convocatória sobre essas bases para levar adiante tais bandeiras, com autonomia e representatividade, se construirmos uma atuação conjunta da esquerda socialista, costurada por um acordo em torno de um programa comum de intervenção.
Essa perspectiva não pode ser confundida com a proposta de uma frente de movimentos e forças políticas que inclua as organizações que dão sustentação ao governo que executa as medidas do ajuste fiscal. Esse parece ser o caso da “Frente Povo sem Medo” que, embora respaldada na respeitabilidade adquirida na luta pelo MTST, possui o efeito de sustentar a ilusão de que é possível combater o ajuste em uma aliança estável com a burocracia dirigente, que no dia a dia representa um dique de contenção da classe trabalhadora. Se do ponto de vista tático-imediato, a participação nas atividades convocadas por tal “Frente” pode representar um instrumento de resistência em situações regionais como a do “Tucanistão” paulista, no plano da conjuntura de média duração e em outras realidades regionais em que a capacidade de vertebração do MTST inexiste (sendo a “Frente” é um mero slogan do aparato governista), o apoio a esse instrumento cumpre o papel objetivo de confundir as lutas da classe trabalhadora.
Por outro lado, será necessário construir um programa de intervenção imediata que se ancore da luta realmente existente – como o movimento de mulheres e as ocupações de escolas, aos quais certamente se somarão movimentos de servidores estaduais em situação de parcelamento salarial e atraso do 13o. em diversas unidades da federação, entre outros – para propor alternativas dos trabalhadores para a crise. Não nos cabe receitar o programa completo, substituindo o papel dos protagonistas reais das lutas, nem tampouco lançar do alto palavras de ordem – como o “Fora todos!” – na suposição de que terão aderência automática em lutas que estamos distantes de dirigir, sob o risco de sermos tomados por oportunistas na esquerda, ou confundidos com a direita pelo senso comum.
Mas, quem disse que algum dia foi fácil?
[1] Ver http://blogjunho.com.br/junho-e-nos-das-jornadas-de-2013-ao-quadro-atual/ & http://blogjunho.com.br/os-sentidos-de-junho/
[2] Ver https://capitalismoemdesencanto.wordpress.com/2015/06/01/tropa-de-elite-do-neoliberalismo-1-a-nova-direita-brasileira-e-suas-conexoes-transnacionais/ & artigos subsequentes no mesmo blog.
[3] http://www.correiodobrasil.com.br/altman-pedido-de-impeachment-e-boa-noticia/
[4] Ver http://blogjunho.com.br/pl-50692013-um-retrocesso-historico-para-as-mulheres-brasileiras/
[5] http://blogjunho.com.br/a-geracao-que-educou-seus-educadores/
Rapidamente setores da esquerda socialista sacaram de seus arsenais as saídas para a crise institucional. O PSTU demonstrou-se o mais ágil e deu um salto do seu até então "Chega de Dilma, etc, etc, etc", um Fora Dilma disfarçado, para uma nova versão do "Fora Todos" de 2005 aliada ao "Eleições Gerais" de 1992. O MRT, antiga LER-QI, também não demorou muito a pronunciar-se e abraçou também a causa do "Fora Todos" com a diferença de estar aliada à bandeira da Assembleia Constituinte, leia-se reforma política. Aos poucos vozes menos apressadas da esquerda socialista deixam suas contribuições ao momento como nosso indispensável professor Ênio Bucchioni relembrando Trotsky e o terceiro período na Alemanha.
Outra voz na esquerda socialista que deixou sua contribuição ainda no dia 03/12, foi o professor Marcelo Badaró Mattos, com texto publicado no Blog Junho que faz um apanhado geral do ponto onde estamos e que vale muito a leitura.
Bom proveito.
Do ponto onde estamos: uma leitura sobre o momento atual da luta de classes no Brasil
A situação atual confirma as muitas avaliações de que junho de 2013 abriu um novo momento na luta de classes no Brasil.[1] As mobilizações multitudinárias, àquela altura, colocaram em cheque o “sucesso” do modo lulopetista de governar. Se a polarização eleitoral de 2014 rendeu ao governo capitaneado pelo PT a possibilidade de recompor bases sociais de apoio, tendo por mote o voto no “menos pior” (face ao medo do retorno do tucanato) e uma certa radicalização discursiva da candidatura de Dilma, o acirramento da crise capitalista, ao obrigar o governo a uma reorientação da política econômica, desvelou as máscaras: às favas com as fachadas neodesenvolvimentistas e volta à carga pesada do arsenal neoliberal clássico – juros elevados, mais retirada de direitos, cortes orçamentários nas áreas sociais e privatizações em cascata.
Aproveitando o clima da ressaca pós-eleitoral com o governo petista, a direita política mais radical lançou-se às ruas, no primeiro semestre deste ano, buscando capitalizar os descontentamentos, especialmente dos setores médios, com as políticas anti-populares do início do segundo mandato de Dilma.[2] Um descontentamento, diga-se de passagem, já manifesto em São Paulo (que se tornaria o epicentro da efervescência reacionária) desde as eleições, conforme indicou a queda da votação petista mesmo nos seus “bastiões” tradicionais.
A onda coxinha tinha respaldo parlamentar. De aliança em aliança para ampliar a “base de apoio” no Congresso, o governo petista conseguiu a proeza de se eleger com o Congresso de perfil mais retrógrado da história recente do país, elevando o status de figuras nefastas como Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara e de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro que capitalizou a situação como figura pública da reação (ou “mito” da coxinhada). Ambos eleitos por partidos da “base aliada” diga-se de passagem. Na combinação das mobilizações reacionárias com as articulações da bancada BBB (bala, boi e bíblia) criou-se o espaço para o avanço da “pauta conservadora” no Congresso – redução da maioridade penal, limitações ainda maiores ao aborto, estatuto da família, etc. – que despertou e tem despertado resistências importantes. Sintomaticamente, porém, percebe-se que se a “pauta conservadora” avança, mas encontra resistências internas no congresso – permanece congelada no Senado -, as medidas de austeridade do “ajuste fiscal”, com toda a transferência da carga da crise para o ombro da classe trabalhadora, são aprovadas com agilidade impressionante.
De qualquer forma, as mobilizações coxo-reacionárias do primeiro semestre refluíram, na medida mesmo que os porta-vozes das organizações de classe dos dominantes negaram publicamente o apoio ao “Fora Dilma!”. No entanto, um elevado grau de imponderabilidade no jogo das manobras políticas entre o governo e seus opositores/aliados (oposição política, mas apoio de classe à principal política do governo – o “ajuste fiscal”) se manteve, em decorrência da dinâmica jurídico criminal da “operação lava a jato”, na qual, em troca de algum tempo a menos na cadeia, próceres da burguesia e da gestão do aparelho de Estado acabam por entregar cada vez mais envolvidos em tenebrosas transações com dinheiro público.
Do lado de lá
O consenso até aqui evidente da classe dominante em torno das medidas de austeridade como caminho para o enfrentamento da crise é o elemento fundamental para a avaliação da sustentabilidade ou não do governo Dilma. Tal consenso, porém, não é absoluto ou imutável. As torneiras da combinação dívida pública/juros altos continuam a irrigar os lucros dos bancos e as frações do capital aglutinadas nos fundos de investimento (e todo o capital se garante por essa via, independentemente de sua origem na produção do valor ou na intermediação comercial, de serviços e bancária) continuam a saquear o fundo público à vontade – vide o aumento dos recursos para o FIES (alimentando as grandes corporações finaceirizadas do ensino superior privado) em meio aos cortes no orçamento da educação e a ofensiva para capitalizar o Funpresp (fundo previdenciário complementar para o funcionalismo público). Entretanto, as pressões para uma “flexibilização” do ajuste, para o capital, se ampliam. Com a União e os demais entes federativos sem recursos para continuar sobre-remunerando as empreiteiras (e seus gestores hoje em grande parte encarcerados) nas obras do PAC e mega-eventos; com a desaceleração da economia chinesa abalando as previsões de expansão do agronegócio (que tem se apoiado na desvalorização do real para manter “competitividade”); ou com a brutal queda do consumo de bens de consumo duráveis (20% de retração na produção automobilística) há descontentamentos. É essa pressão que explica os discursos de maior contemporização e ênfase na retomada do crescimento feitos por Joaquim Levy, não a marola dos “neodesenvolvimentistas” do PT. E o previsível agravamento da crise tende a acirrar essas contradições.
Nada indica, entretanto, que a classe dominante ou alguma de suas frações aposte na saída da derrubada de Dilma para substituí-la por um vice peemedebista ou para buscar novas eleições antecipadas em que a imprevisibilidade será a marca. As oscilações recentes no jogo político, portanto, tem origem em outra dimensão de conflitos. É nesse marco que talvez possamos compreender melhor o efeito que poderá ter a admissibilidade do processo de impeachment por Eduardo Cunha, em ato de retaliação explícita pela mudança de posição dos deputados petistas que anunciaram voto pela admissibilidade de processo contra ele na Comissão de Ética (sic.) da Câmara.
Oposição e situação se sentiram realmente ameaçadas foi com as prisões de Delcídio Amaral – líder do governo no Senado atualmente, mas diretor da Petrobrás no segundo mandato de FHC, vale lembrar – e do banqueiro André Esteves – que financiou as campanhas de Dilma, Aécio, Cunha e meio Planalto Central, além de presentear de Lula a Aécio com viagens de luxo e ouros mimos. Diante da disjuntiva entre as grades da cela e a tornozeleira eletrônica nos palácios urbanos em que residem, a opção por delatar alguns comparsas de todas as cores partidárias e devolver uma parcela pequena do botim aos cofres públicos não é assim tão difícil.
Como a reação imediata da volta dos avatares dilmistas nas redes sociais e as comemorações de alguns petistas (que antes diziam que “qualquer impeachment é golpe”[3]) deixaram evidente, o gesto de Cunha tende a ser positivo para o governo, por propiciar uma possibilidade à desgastada Dilma de ampliar sua base de apoio, polarizando contra a figura do presidente da Câmara, cuja reputação é a pior possível. De quebra, ao retirar as prisões da semana passada do centro do noticiário, aliviam-se todos, de Lula a Aécio.
Do lado de cá
O avanço da direita reacionária, inclusive para as ruas, decorre das “jornadas de junho”, mas essencialmente como reação ao caráter de classe – da classe trabalhadora – daquelas manifestações. E o “espírito de junho” não se dissipou completamente, nem pela reação de direita, nem pelos esforços petistas – nas eleições e depois – de reaglutinar as bases de apoio do lulismo. A onda de greves do segundo semestre de 2013 e primeiro de 2014, embalada por mobilizações dos trabalhadores da área de educação e pelas paralisações à revelia, ou contra, das direções sindicais burocratizadas (garis, rodoviários, operários da construção civil, entre outras) foi impulsionada por junho. Como o foram as ocupações urbanas na luta por moradia, muitas delas dirigidas pelo MTST.
Greves na contracorrente das direções sindicais e ocupações urbanas continuaram a acontecer. A elas se somam agora dois movimentos em que o “espírito de junho” parece reviver, com o adendo de que neles não há espaço para a disputa da direção pela direita, visto que sua pauta e perfil são essencialmente de enfrentamento contra a mesma direita: a “primavera das mulheres” e as ocupações de escolas em São Paulo.
O sucesso das campanhas feministas nas redes sociais e as expressivas mobilizações de rua do movimento de mulheres pelo “Fora Cunha!” desnudam o verdadeiro sentido da “pauta conservadora”: preservar a lógica do patriarcado que reveste a dominação social no Brasil face a verdadeira elevação da consciência feminina e social na luta contra o machismo cotidiano em sua brutalidade, hoje cada vez mais difícil de invisibilizar. Por outro lado, dão o sinal para toda a esquerda socialista: unidade de ação em uma pauta progressiva – “Fora Cunha!” e “Pela vida das mulheres” – sem maiores espaços para as pautas governistas mal-disfarçadas em “Defesa da Democracia”.[4]
Já as ocupações de escolas revelam o melhor legado das jornadas de 2013. Jovens, de origem trabalhadora, estudantes da escola pública, que se levantam contra o governo tucano e sua política de desmanche da educação, em uma experiência de ocupação e auto-gestão de escolas que representa objetivamente a possibilidade de formação de uma nova geração de ativistas político-sociais comprometidos com as bandeiras socialistas e experimentados desde cedo na luta. Luta que nos últimos dias vem se acirrando, com os enfrentamentos entre a PM assassina – com seu arsenal “não letal” tão popularizado em junho: spray de pimenta, cacetete, bombas de gás e balas de borracha – e a estudantada armada da mais letal das ferramentas de luta de que dispõe: as carteiras escolares, hoje usadas para simbolizar o que a escola não é, mas poderia ser.[5]
Aos militantes da esquerda socialista não há alternativa a não ser apostar na multiplicação dessas lutas. Mas, com que perspectivas e programa de intervenção?
Nosso lugar
Estar inseridos nas lutas em curso, nesta conjuntura, é a obrigação. Essa predisposição, por certo, nem de longe resolve nossos problemas. Como atuar e com que propostas?
De uma lado, reatualiza-se a necessidade da construção de uma frente da esquerda socialista, reunindo suas organizações políticas e os movimentos sociais mais combativos e de perspectiva classista, para intervir de forma articulada nos movimentos (e não apenas nos cenários e momentos eleitorais, embora nem isso tenha sido possível nos últimos tempos). A elevação do patamar de lutas, com a unificação dos movimentos regionalizados e fragmentados em pautas setoriais, exige a formação de um polo combativo mais amplo.
Além disso, para levar adiante bandeiras essenciais nessa conjuntura – como a greve geral contra o ajuste fiscal e a retirada de direitos dos trabalhadores – precisaremos construir unidade na luta até mesmo com os setores da burocracia governista nos movimentos sindical e “popular”, o que dependerá mais que tudo da pressão de “suas” bases. No entanto, só teremos força de pressão e capacidade convocatória sobre essas bases para levar adiante tais bandeiras, com autonomia e representatividade, se construirmos uma atuação conjunta da esquerda socialista, costurada por um acordo em torno de um programa comum de intervenção.
Essa perspectiva não pode ser confundida com a proposta de uma frente de movimentos e forças políticas que inclua as organizações que dão sustentação ao governo que executa as medidas do ajuste fiscal. Esse parece ser o caso da “Frente Povo sem Medo” que, embora respaldada na respeitabilidade adquirida na luta pelo MTST, possui o efeito de sustentar a ilusão de que é possível combater o ajuste em uma aliança estável com a burocracia dirigente, que no dia a dia representa um dique de contenção da classe trabalhadora. Se do ponto de vista tático-imediato, a participação nas atividades convocadas por tal “Frente” pode representar um instrumento de resistência em situações regionais como a do “Tucanistão” paulista, no plano da conjuntura de média duração e em outras realidades regionais em que a capacidade de vertebração do MTST inexiste (sendo a “Frente” é um mero slogan do aparato governista), o apoio a esse instrumento cumpre o papel objetivo de confundir as lutas da classe trabalhadora.
Por outro lado, será necessário construir um programa de intervenção imediata que se ancore da luta realmente existente – como o movimento de mulheres e as ocupações de escolas, aos quais certamente se somarão movimentos de servidores estaduais em situação de parcelamento salarial e atraso do 13o. em diversas unidades da federação, entre outros – para propor alternativas dos trabalhadores para a crise. Não nos cabe receitar o programa completo, substituindo o papel dos protagonistas reais das lutas, nem tampouco lançar do alto palavras de ordem – como o “Fora todos!” – na suposição de que terão aderência automática em lutas que estamos distantes de dirigir, sob o risco de sermos tomados por oportunistas na esquerda, ou confundidos com a direita pelo senso comum.
Mas, quem disse que algum dia foi fácil?
[1] Ver http://blogjunho.com.br/junho-e-nos-das-jornadas-de-2013-ao-quadro-atual/ & http://blogjunho.com.br/os-sentidos-de-junho/
[2] Ver https://capitalismoemdesencanto.wordpress.com/2015/06/01/tropa-de-elite-do-neoliberalismo-1-a-nova-direita-brasileira-e-suas-conexoes-transnacionais/ & artigos subsequentes no mesmo blog.
[3] http://www.correiodobrasil.com.br/altman-pedido-de-impeachment-e-boa-noticia/
[4] Ver http://blogjunho.com.br/pl-50692013-um-retrocesso-historico-para-as-mulheres-brasileiras/
[5] http://blogjunho.com.br/a-geracao-que-educou-seus-educadores/
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Ênio, Trotsky, Alemanha e Brasil em tempos de impeachment
Nosso indispensável professor "Ênio Bucchioni" realizou hoje uma postagem em sua página do Facebook trazendo a tona a posição de Trotsky para Alemanha no terceiro período, momento trágico em que os comunistas sob mando de Stalin não só não combateram Hitler como tiveram a capacidade de praticamente aliar-se a eles na luta contra o "social-fascismo" na linha de por para fora o governo social-democrata de Baun.
A comparação é mais do que pertinente no momento em que setores da esquerda socialista adotam a mesma linha, com alguns retoques de cores diferentes mas a mesma linha, acerca da continuidade ou não do governo de Dilma Roussef.
Vale a leitura e a reflexão.
Trotsky e o 3° período na Alemanha
1- Desde 1928 até meados da década de 30, o stalinismo se orientou pela linha política do chamado terceiro período, onde sinteticamente, previam o fim imediato do capitalismo e por surtos revolucionários em todos os países do mundo.
2- Aqui no Brasil o PCB gerou a chamada Intentona Comunista de 1935, um putch militar sem a participação do proletariado e das massas exploradas e oprimidas e que culminou com uma tremenda repressão em todo o movimento de massas e na vanguarda por parte do governo de Getúlio Vargas.
3- O stalinismo inventou o termo social-fascismo para intitular a social-democracia. Diziam que ela era socialista nas palavras e fascista nos atos. Diziam que fascismo e social-democracia eram irmãos gêmeos.
3 - Em março de 1931, nazistas e comunistas se aliam em um plebiscito sobre a dissolução antecipada do governo da Prússia, uma posição chave controlada pelos reformistas da social-democracia comandados por Baun. Os nazistas batizam o plebiscito de plebiscito marrom, e os comunistas stalinistas , de plebiscito vermelho. Ambos colocavam o 'Fora Braun'. Os 25 milhões de votos necessários para a dissolução do governo regional da Prússia não são atingidos, mas a campanha fortalece enormemente o Partido Nazista, que sai do processo com grande autoridade.
4- Sobre esse plebiscito Trotsky escreveu no livro Revolução e Contra- Revolução na Alemanha; “ Sair às ruas com a palavra de ordem “Abaixo o governo Bruening-Braun!” quando segundo a relação de forças esse governo só pode ser substituído por um governo Hitler – Hugenberg, é puro aventureirismo. A mesma palavra de ordem adquire, entretanto, sentido inteiramente diverso se se torna uma introdução à luta imediata do próprio proletariado pelo poder. No primeiro caso, os comunistas teriam aparecido aos olhos das massas como auxiliares da reação.
5- Na página seguinte desse mesmo livro, Trotsky escreveu: “ Durante a demonstração de abril de 1917 de 1917, uma parte dos bolcheviques lançou a palavra de ordem ;”Abaixo o governo Provisório”, O Comitê Central logo chamou à ordem os ultra-esquerdistas. Devemos, bem entendido, propagar a necessidade de derrubar o governo provisório; mas, não podemos ainda chamar as massas à rua por essa palavra de ordem, pois ainda estamos em minoria na classe operária. Se, nessas condições, conseguirmos derrubar o governo provisório, não o poderemos substituir e, por conseguinte, auxiliaremos a contrarrevolução...Tal foi a posição do Partido.
6- Talvez haja alguma semelhança entre essa história acima e a situação do Brasil em 2015. Talvez!
Assinar:
Postagens (Atom)









