segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Por que odiar o PT (artigo de @gduvivier)


Mais um texto excelente de Gregório Duvivier para deixar com ainda mais ódio a imensa legião de coxinhas de nosso Brasil varonil foi publicado hoje em sua coluna na Folha de São Paulo. Em "Por que odiar o PT", Duvivier separa o ódio de classe de todo o espectro direitoso que ronda o país do mais do que justa indignação daqueles que apostaram suas esperanças de um novo Brasil ao levar o Partido dos Trabalhadores ao governo e receberam em troca as velhas alianças possíveis e as malditas medidas capitalistas de sempre.

Texto primoroso com o qual discordo do desfecho. Não existe ação de despejo sendo levada em frente pelos senhores do poder. Se antes talvez até ventilavam tal hipótese, hoje a renegam sem sombra de dúvida. Se antes não víamos FIESP e FIERJ pedindo a cabeça de Dilma, agora as vemos pedindo diálogo e moderação por parte dos oposicionistas de direita. Até mesmo a Globo, o grande bastião do conservadorismo reacionário brasileiro, mudou de tom e afirma categoricamente que Dilma só deve sair em 2018 ao passar a faixa a seu sucessor devidamente eleito e empossado.

Os gritos histéricos dos que clamam Fora Dilma, Duvivier, hoje, mais do que nunca, não passam exatamente disso: gritos histéricos.

De toda forma eis o texto que vale demais a leitura:

Por que odiar o PT


A primeira vez que me deparei com uma urna eletrônica foi para votar no Lula. E Lula se elegeu, depois de três tentativas malfadadas. Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto: com a prepotência característica dos 16 anos, tive a certeza de que era o meu voto que tinha feito toda a diferença.

A rua estava cheia de pessoas da minha idade que tinham essa mesma certeza. O Brasil tinha acabado de ganhar uma Copa do Mundo, mas a euforia agora era ainda maior: foi a gente que fez o gol da virada. Parecia que o Brasil tinha jeito, e o jeito era a gente –essa gente que nasceu de 1982 a 1986 e votava agora pela primeira vez.

Acabaram-se os problemas do Brasil –a gente chegou. Lembro das ruas cheias, das bandeiras do PT, lembro de abraçar desconhecidos na Cinelândia –Lula lá, brilha uma estrela.

Logo vi que não era o meu voto que tinha feito o Lula se eleger, nem o dos meus amigos, nem o da minha geração. Quem elegeu o Lula –isso logo ficou claro– foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade.

Lula só alugou esse apartamento por quatro anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos sonhos –tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram algumas mudanças –as empregadas passaram a ganhar mais–, mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa.

Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês –mas por razões diferentes. Odeio porque ele cumpriu a promessa de continuidade. Odeio porque ele não rompeu com os esquemas que o antecederam. Odeio por causa de Belo Monte e do total descompromisso com qualquer questão ambiental e indígena. Odeio porque nunca os bancos lucraram tanto. Odeio pela liberdade e pelos ministérios que ele deu ao PMDB. Odeio pelos incentivos à indústria automobilística e à indústria bélica. Odeio porque o Brasil hoje exporta armas para Iêmen, Paquistão, Israel e porque as revoltas do Oriente Médio foram sufocadas com armas brasileiras. Odeio porque acabaram de cortar 3/4 das bolsas da Capes.

O PT é indefensável –cavou esse abismo com seus pés. Mas assim como não fomos nós que elegemos Lula, engana-se quem vai às ruas e acha que está tirando Dilma do poder. Quem está movendo essa ação de despejo são os ratos que o PT não teve coragem de expulsar.