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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

"Como a ‘liberdade sexual’ me levou ao abuso" via @revistaazmina


O texto a seguir é uma reflexão anônima postada no portal "revista AzMina" extremamente pertinente em tempos de primavera feminista.

Virou lugar comum e quase que exclusivo a bandeira de liberdade do corpo e liberdade sexual entre o movimento feminista. Em todos os atos é possível ler "meu corpo, minhas regras" estampados em faixas, cartazes e na própria pele. É um debate importante já que estamos lidando com tanta opressão e repressão, mas na medida em que é elevado ao topo do pódio das causas feministas, assume um papel reducionista e no fim rouba o protagonismo das lutas concretas do dia a dia. Quem corre risco de morte abortando clandestinamente precisa de conquista na forma da lei e não somente de poesia. Da mesma forma quem não tem onde deixar os filhos para trabalhar, quem ganha menos e trabalha mais, quem é assediada pelo patrão, quem é abusada no transporte coletivo precisa de mecanismos reais muito além de solidariedade e de memes no facebook.

O texto anônimo faz um contraponto a essa busca incessante por liberdade sexual não como fruto do feminismo mas como própria afirmação e até mesmo vitória do machismo, onde a liberdade sexual não liberta e sim, aprisiona mulheres fundamentalmente na busca do prazer do homem e para o homem.

Vale demais a leitura.

Como a ‘liberdade sexual’ me levou ao abuso


Eu sou uma mulher livre, sexualmente liberada, toda bem resolvida, sem vergonhas, sempre disposta a criar e inovar no sexo, uma transona. Ou melhor, isso é o que eu achava que eu era.

Afinal, eu adorava transar, ser sexy, fazer mil coisas na cama, sair com vários caras, vê-los pirando por mim, ficando loucos, ser a gostosona que leva os homens à loucura. Pobre de mim, que gastei anos da minha vida achando que isso é liberdade. Na verdade, é o contrário de ser livre.  Basta ler com atenção para entender o porquê.

Ser sexy, fazer os caras pirar, ser a gostosona que leva homens à loucura… Tudo isso é para eles. E eu não percebia que, no fundo, eu nunca prestava atenção em mim. Tanto que mal consigo lembrar da maior parte das minhas transas.

E em algum momento aí no meio do caminho, eu comecei a sentir dor no sexo. Na minha fase solteira mais libertária. Mas eu continuei transando, dando prazer pros homens, fazendo de tudo para deixá-los malucos. Se eu sentia prazer? Não sei, às vezes sim, às vezes não.

Mas isso era normal, não? Não é que mulher não goza sempre? Eu sempre acreditei nisso. Se eu não gozava, ah, normal! Gozar sempre é coisa de homem. E quando eles não gozavam, eu me sentia culpada. Alguma coisa eu tinha feito de errado.

Engraçado é que eu me senti por muito tempo absurdamente livre por ser assim. Por ter vibrador, por me masturbar, por transar muito, por topar anal, por fazer estripulias na cama. E a dor, bem, ela era a companheira. Compensava, na minha cabeça.

Até que eu comecei a namorar, o namoro evoluiu e caminhava para ser uma relação duradoura. Eu queria muito que fosse duradoura e incrível. Mas, com a rotina, era cada vez mais difícil eu me sentir incrível, a rainha do sexo, e a dor foi ganhando espaço na minha cabeça.

Então, eu decidi tratar a dor, para poder ter uma vida sexual incrível com o homem que amo e manter nossa relação funcionando. Passei por médicos, fiz exames e muitas coisas. Descobrimos que nada de errado havia ali na minha linda vagina. O problema estava na minha cabeça.

Era preciso fazer terapia. Foi só ali, no divã, que eu entendi que de livre eu não tinha nada, nunca tive. Ela nunca me falou isso assim, mas ao longo do processo terapêutico, eu percebi que sexo para mim era totalmente sobre dar prazer ao homem. Sobre ser desejada, sobre sentir que eu tinha algum valor para aquele homem. Nada era sobre mim, meu corpo, meu prazer. Até mesmo deixar de sentir dor tinha sido algo para o outro, pra garantir que eu não deixaria de transar e assim manteria meu relacionamento.

De repente, me dei conta de que nem conhecia minha vagina. Na teoria, sabia tudo, mas eu nunca havia parado para me masturbar de formas diferentes das que sempre fazia. Aos 27 anos de idade, eu não sabia dizer o que me estimulava, o que me excitava, quais partes do meu corpo e da minha vagina me deixavam com tesão. Em compensação, sabia completamente como dar prazer a um homem, chupar do jeito certo, dar de quatro pra ele gozar rápido, gemer de um jeito excitante, escolher as lingeries que mais seduzem.

A origem disso tudo? Um mix de coisas. Eu sou insegura, tenho a autoestima baixa, não me sinto boa em nada. E de repente, transando, comecei a me sentir boa fazendo uma coisa: dando prazer. Eu nunca consegui me autorreconhecer. Eu preciso do reconhecimento do outro, e, pra mim, isso tem vindo dos homens. E quando não vem, eu me sinto um lixo.

Eu poderia dizer que isso é um fruto da minha criação, de como eu me formei, construí minha autoestima. Mas a verdade é que, por trás disso, está o machismo. Como toda menina, eu fui criada querendo ser linda. Da minha mãe, das minhas amigas, de todo mundo, eu ouvia que precisava ser bonita para arrumar namorado, pra não ficar sozinha pra sempre. Os filmes, as revistas, as novelas, tudo sempre me dizia que eu precisava conquistar os homens.

Como eu sempre quis ser livre, fugir das amarras, achei que me liberar sexualmente era um jeito de fugir dessa coisa de que eu precisava de UM homem para ser feliz. Mas continuou dentro de mim a lógica de que eu precisava agradar OS homens, pra me sentir valorizada.

Some a isso o fato de que, por mais que se fale sobre sexo, pouco se fala sobre o prazer. Quantas amigas não comentavam suas estripulias: quantas vezes na mesma noite conseguiu fazer o cara transar ou gozar, como fulano disse que ela chupava incrivelmente bem, como transou no lugar xis ou ípsilon. Pouquíssimas eram as vezes em que alguma mulher dizia “eu gosto disso ou daquilo”. E quando rolava, era uma coisa tão superficial, cheia de tabus e medos.

Claro que, nisso tudo, meu prazer ficou de lado, completamente esquecido. Eu não me tocava de verdade, eu não me olhava, eu não sentia.

Por que eu sinto dor? Essa é a pergunta que mais me tenho feito ultimamente.

Sinceramente, não sei responder com 100% de certeza. Já cogitei que tenha sido abusada sexualmente em algum momento, bêbada demais para me lembrar. Hoje estou mais propensa a pensar que sim, fui abusada, mas não no sentido mais literal da coisa. Fui abusada por mim mesma e pelo machismo, porque me deixei convencer de que era o certo e o normal. Porque fingi orgasmos, porque transei sem vontade, porque enchi a cara pra conseguir abrir as pernas, porque seduzi caras e fiz sexo simplesmente pra me sentir desejada, sem sentir prazer algum, porque abri mão dos meus desejos pra satisfazer os dos outros.

Nenhum homem nunca me estuprou, nunca abusou de mim, mas eu me deixei ser abusada por todos. E, neste momento, eu não culpo esses homens, até porque vários deles queriam mesmo me agradar. Como eles iam saber o que eu sentia e pensava, se eu não falava nem demonstrava? É claro que todos estavam preocupados com o próprio prazer.  Eu é que devia ter me preocupado mais com o meu prazer e é isso que estou tentando fazer.

Como disse a minha (santa) psicóloga: o prazer não vem do outro, ele está dentro de nós. Claro que o sexo é algo a dois (ou mais) e que todos ali querem ver todos felizes, ou deveria ser assim. Mas antes de querer dar prazer, eu precisava ter aprendido a sentir prazer. Isso sim é ser livre: saber gozar, do meu jeito, independente de alguém estar ficando louco ou me achando sexy.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Xingamento: @gduvivier disseca os palavrões que só reforçam o machismo


O ator e comediante Gregório Duvivier nos brindou essa semana em sua coluna da Folha de São Paulo com o texto Xingamento que explica de forma simples a imbecilidade dos palavrões que homens e mulheres usamos para ofender aos outros e que somente reforçam o machismo nosso de cada dia.

Fica o desafio a todos os que lutam contra o machismo: pare de ofender mulheres com seus "inocentes" palavrões. Pare com o Puta que Pariu, com o Filho da Puta, e até mesmo com o Corno. Aproveite e pare de associar sexualidade com violência e deixe de lado o Vai se Fuder, o Fudeu, o Foda, o Vai Tomar no Cu e o Chupa. Enfim, pare você o quanto antes de reforçar o machismo e a cultura do estupro.

Boa leitura!

Xingamento


Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também— a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: "Brother, essa Dilma é uma piranha". Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior?

Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: "Essa eu comeria fácil" ou "Até que não é tão baranga assim". O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola: 1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo. 2. As que estão não são pessoas piores.

Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: "O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou." Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas.

Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta- ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn. O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo. 1. Não vende. 2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?

Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

As bobagens que se diz por aí: "Como pode ser de esquerda e beber coca-cola?"


Se fala muita bobagem da esquerda por aí. Uma dessas bobagens é aquela da tal "incoerência" entre ser de esquerda e beber Coca-Cola, comer McDonnald's, usar Microsoft Windows, etc, etc e mais outro tanto de etcéteras. Já ouvi cada uma das ditas incoerências que citei acima e inclusive usadas contra mim. Bom... não sou muito fã de Coca-cola, sanduíches do McDonald's, nem muito menos do Windows, mas não por me reivindicar de esquerda, aliás, acho uma imensa asneira vincular uma coisa à outra. Não sou fã porque prefiro outros produtos, seja porque deixei de gostar de refrigerantes, acho horríveis aqueles sanduíches produzidos em série e considero o Windows uma verdadeira bosta (pelo menos até o Windows 7). Nem por isso deixaria de consumir cada um desses esses produtos caso fosse necessário e de modo algum me sentiria nenhum pouquinho a menos de esquerda por isso.

Sim é verdade que Coca-cola é um simbolo do capitalismo desde muito antes do RPM cantar que a China já a bebia lá pelos idos de 1985. Da mesma forma é verdade que o "M" amarelo da grande fast-food estadunidense e seu palhaço Ronald são a cara do consumismo moderno. E, sim, a Microsoft tornou Bill Gates, um dos homens mais ricos do mundo por anos a fio. Mas levar o que é fato ao extremo de traçar como um verdadeiro certificado de esquerda a não utilização de qualquer um desses produtos é de uma idiotice digna de quem tem preguiça, mas muita preguiça mesmo, de pensar um pouquinho que seja.

Em certa medida o raciocínio é similar ao que levou o movimento operário em seu nascedouro a se enfrentar com as máquinas no início do século XIX. Pois bem, não são as máquinas ou as coisas que elas produzem que fazem do capitalismo o que é. São as relações sociais. Que os ludistas culpassem as máquinas ainda se consegue dar o desconto de ter de enfrentar a revolução industrial, agora depois de mais de 200 anos da bandalheira do capital, sacar essas comparaçõezinhas, é muita dificuldade de raciocínio. Então, pra deixar claro o quanto esse tipo de consumo influencia no teor de esquerda de alguém vale dizer que se um ativista for a uma passeata contra a exploração em sua categoria e em seguida for comer um hamburguer sem gosto do McDonnalds, esse cara é sim de esquerda, e honestamente será muito mais de esquerda, do que aquele que fica em casa lendo livros de economia política comprados em sebo tomando chazinho e sem nunca ter levantado um único dedo para defender suas posições.

Um amigo uma vez me disse que no socialismo não se deixaria de produzir Coca-Cola. Pelo contrário, ela seria servida encanada na casa de cada trabalhador. Espero que no socialismo consigamos produzir coisas muito mais saborosas e saudáveis do que o tal refrigerante de cola, mas gosto muito do argumento desse meu amigo. No fim das contas nada melhor que um exagero para combater e ridicularizar outro. Que venha encanada então. Tenho a ligeira impressão que Che aprovaria.

sábado, 28 de julho de 2012

"Então eu estou falando da TV Globo" disse Pedro Cardoso ao criticar as empresas que contratam paparazzis


Não sou muito de assistir Rede Globo, não gosto do Pedro Bial nem dou IBOPE pro seu recente programa "Na Moral". Considero que via de regra estarei aproveitando melhor meu tempo navegando, lendo, conversando, namorando minha amada esposa ou mesmo dormindo do que dedicando alguns minutos que sejam a esses programas globais que supostamente seriam "formadores de opinião". Eis que vez por outra essa escolha pode me fazer perder algumas boas pérolas como por exemplo a  participação do ator Pedro Cardoso no "Na Moral" que foi ao ar dia 12 de julho enfocando a relação entre os paparazzi e as tais "figuras públicas". Felizmente praticamente de tudo se acha no YouTube e o meu amigo Fabrício do blog Videos Incendiários divulgou o video lá.

Em sua participação Pedro Cardoso fez um baita de um belo discurso responsabilizando os capitalistas (ele usa esse termo mesmo) que financiam os paparazzi para conseguir imagens que vendam suas revistas, imagens muitas vezes inventadas, mentiras enlatadas digamos assim. E o que se segue é uma verdadeira saia justa com Bial tentando justificar a ação dos empresários que só vendem tais "notícias" porque as pessoas gostam de comprar isso e até mesmo mudar de assunto quando o fotógrafo e dono de uma agência de publicidade revela que seu maior cliente, ou o Patrão nesse caso, é a própria TV Globo. "Então eu estou falando da TV Globo" diz Pedro Cardoso.

A cena é impagável. Vale muito a pena assistir.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Super-beijo gay nas páginas da DC Comics. Ponto pra ela. #homofobiaNão


A DC comics já havia anunciado que um de seus super-personagens iria sair do armário. Após alguns dias de suspense a editora revelou quem é o mais novo super-gay das histórias em quadrinhos e o fez em grande estilo: com um super-beijaço muito bem dado. A imagem das páginas que mostram o encontro inesperado de Allan Scott, o lanterna verde original, e seu namorado Sam em Hong Kong foram divulgadas nesta quinta-feira, dia 31/05/2012 com um comentário do responsável pela história, James Robinson.

Mesmo pra quem acompanha as histórias em quadrinhos é sempre complicado entender as reviravoltas no mundo dos heróis em especial nas HQ's da DC. O Lanterna Verde gay não é aquele bem conhecido seja pelos desenhos animados ou pelo recente filme no cinema. Aquele é o Hal Jordan criado em 1959 e um dos mais importantes personagens da DC. O Allan Scott foi criado em 1940 e não era gay. Aliás casou-se, teve dois filhos, e um deles, o Manto Negro, era gay. Num desses muitos recomeços de história que a editora usa seja pra tentar organizar suas inúmeras confusões, seja para tirar de cena personagens "pouco rentáveis", o Manto Negro simplesmente deixou de existir. Agora meio que pra compensar a perda de um super-herói homossexual, a DC resolveu recomeçar a história do Allan o introduzindo como gay.

Confuso? Mas pouco importa não é mesmo? Independente do zig-zag e da confusão, a DC merece um ponto pela coragem de não só anunciar um super-herói gay, como principalmente por fazê-lo com um super-beijo daqueles. Particularmente prefiro a coerência da Marvel e a coragem de assumir a defesa do casamento gay utilizando um integrante dos x-men, o Estrela Polar. Mas isso não gera demérito algum para a DC. Se isso é mera concorrência ou não, também tanto faz.

Parabéns às duas grandes editoras e que suas histórias e personagens ajudem nossas crianças a serem adultos mais tolerantes do que nós mesmos.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sobre o que é e o que não é a #marchadasvadias e porque a esquerda socialista deve ser contra.


Na noite anterior à realização da edição 2012 da marcha das vadias publiquei o post "porque sou contra a #marchadasvadias" partindo de uma reflexão que a marcha nem é de esquerda, nem deveria ser reivindicada pela esquerda, em especial a dita socialista. Passado o fim de semana e publicados os primeiros posts e fotos da marcha eis que sobram referências às participações do PSOL e do PSTU nas marchas em todo o país. O movimento mulheres em luta da CSP-Conlutas, central ligada ao PSTU, chegou inclusive a convocar a participação, o que faz necessário no mínimo uma análise um pouco mais cuidadosa sobre a marcha das vadias e assim ter a clareza se o evento merece ou não ser fortalecido.

A marcha como muitos de seus defensores divulgam é uma iniciativa para "resignificar" o termo vadia afirmando que "se ser livre é ser vadia somos todas vadias". O mote central é a questão da liberdade sexual com muitas placas, cartazes e corpos pintados com "meu corpo, minhas regras", "ei machista, meu orgasmo é uma delicia", "eu escolho com que eu trepo", "nem puta, nem santa, livre" e um infindável número de consignas e "refrões" do mesmo estilo. O público notadamente tem sido de jovens universitárias e setores femininos da classe média, dificilmente se consegue perceber algum setor mais prole nas marchas em todo o país. O tema da violência contra a mulher está pautado mas praticamente como um pano de fundo para o ator principal que é o "direito ao corpo". E é claro que a sociedade que vivemos nega o direito ao próprio corpo, e não se engane, inclusive para os próprios homens. É o que chamamos de alienação. Somos todos aliendados de descobrir quem somos ou o que podemos ser em absolutamente todos os aspectos. Mas existem sim aqueles a quem o "direito de ser" é ainda mais negado, e entre eles estão as mulheres. Sim, isso é real.

Mas precisamos ir mais a fundo para entender o que é e o que não é a marcha. Comecemos com a composição social que citamos antes: estudantes universitárias e setores femininos da classe média, ou seja, setores não proles. E sendo assim, nada mais justo que a marcha expresse as ideias e ideais das classes que a compõem e que a dirigem, a classe média, ou para quem preferir, a chamada pequena-burguesia. Nada mais justo que a bandeira seja, o direito ao corpo. Afinal esses setores não precisam de creche, emprego digno, aumento de salário mínimo. Nada disso. Precisam que a sociedade aceite o direito dessas mulheres exercerem o poder sobre seu próprio corpo, de vestirem o que quiserem e transarem com quem quiser na hora que quiserem. Isso é o central na marcha. Todo o resto não passa de simples coadjuvante.

É exatamente por isso que a tarefa fundamental posta pela marcha é a de "resignificar" a palavra vadia. Torná-la sinônimo de mulheres que sabem o que querem e que não estão aí pra seu ninguém porque ninguém tem nada a ver com isso. Agora, alguém honestamente acha que com isso a violência contra a mulher diminuirá um milímetro que seja? É claro que não, né? Mas isso por si só não invalida essa tarefa por mais que ela seja absolutamente sem sentido. O fato é que a demanda de mudar o significado de uma palavra não moverá a maioria das mulheres em nenhum lugar do mundo. Ela não encontrará eco nas imensa maioria das donas de casa que precisam é do fim do trabalho doméstico. Não tocará os corações das mães mais pobres (que são a maioria das mães) pois elas precisam mesmo é de creche. Ela não encontrará identidade nas operárias que precisam de salário igual pra trabalho igual, fim do assédio no trabalho, aumento do salário mínimo, e um largo etcétera. Nem muito menos moverá as próprias vítimas de violência que precisam de abrigos e leis mais duras contra seus agressores. Nada disso é a pauta central da marcha das vadias. Quem quiser acreditar que é que acredite mas simplesmente está se enganando. E vindo da esquerda socialista, infelizmente está ajudando a enganar os que nela confiam.

Por ser uma marcha da classe média ela não consegue enxergar o capitalismo como inimigo e sim a sociedade machista patriarcal. E já que o problema é com "a sociedade" o enfrentamento é com tudo e todos e ao mesmo tempo com ninguém. Não há porque por exemplo exigir ou enfrentar os governos de plantão. Não é a toa que o ponto alto da marcha na capital federal tenha sido o enfrentamento com um machista que ousou falar o que não devia a algumas participantes. Foi acuado, posto pra correr e preso. Mereceu. Mas é de um triste simbolismo que exatamente na cidade que é o coração do poder político no país tenha sido esse o principal acontecimento. E a Dilma, gente?

Por fim, para não perder a oportunidade gostaria de citar mais uma vez Lenin em sua conversa com Clara Zetkin, imaginando que de alguma forma isso deixe ao menos a dúvida em muitos socialistas honestos que defendem e participaram da marcha. O velho Ulianov após defender a necessidade de um forte movimento internacional de mulheres repreendera Zetkin por não ter impedido que o partido alemão dedicasse seu tempo e energia em debater com as operárias o quanto as relações sexuais e o matrimônio eram peças de museu, com o que Clara após justificar-se, concordou. Segue o trecho:
A que conduz, na final das contas, esse exame insuficiente e não marxista da questão? Ao seguinte: a que os problemas sexuais e matrimoniais não sejam vistos como parte da principal questão social e que, ao contrário, a grande questão social, apareça como parte, como apêndice do problema sexual. A questão fundamental é relegada a segundo plano, como secundária. Isso não só prejudica a clareza da questão, mas obscurece o pensamento em geral, a consciência de classe das operárias.

Outra observação, que não é inútil. O sábio Salomão dizia: cada coisa a seu tempo. Peço-vos responder: é precisamente este o momento de manter ocupadas as operárias, meses inteiros, para falar-lhes do modo como se ama ou se é amado, do modo como se faz a corte ou se aceita a corte entre os vários povos, tanto no passado, como no presente e no futuro? E é isso que se denomina orgulhosamente de materialismo histórico?
Bem, depois de tudo isso dito e depois de recorrer pela segunda vez a Lênin, tenho absoluta clareza que muitos seguirão defendendo que a participação na marcha e a luta pela resignificação são importantes até porque participam sim mas de uma forma "diferente". Bom, eu honestamente espero que ao menos para alguns tenha ficado no mínimo a dúvida para que dela possa quem sabe nascer a correção dessa infeliz política.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Porque sou contra a #marchadasvadias

A marcha das vadias que acontece nacionalmente neste dia 26 de maio praticamente é reivindicada por todos os setores da esquerda brasileira e rechaçado obviamente por todas as matizes e espécies de direitosos de plantão. Aos poucos a manifestação vem se tornando um divisor de águas. É contra a marcha? É de direita. É a favor dela? É de esquerda. A coisa é tão de um jeito que é cada vez mais comum ver perfis de militantes e ativistas de organizações socialistas como o PSOL e até mesmo do PSTU reivindicando o evento. Bem, não sou a favor da marcha e sou daqueles que pode se dizer que são de esquerda sem nenhuma concessão. E me permitam, ou não, não me somarei ao coro dos que chamam a fortalecer essa iniciativa como se ela tivesse o mesmo caráter da marcha da maconha ou das marchas do dia do orgulho gay. Não enxergo assim. E vejo na verdade com tristeza, o 8 de março ser esvaziado em especial de conteúdo, enquanto a marcha ganha força.

A primeira sluts walk ocorreu ano passado, 2011, no Canadá e teve como motivação a justa e necessária resposta à forma como a polícia vinha tratando os inúmeros casos de abuso sexual na Universidade de Toronto. O policial Michael Sanguinetti indicou como forma de combater a violência, que "as mulheres evitassem se vestir como vadias para não serem vítimas". Como resposta a essa declaração nojenta e absurda, 3000 pessoas ocuparam as ruas de Toronto com cartazes reivindicando, digamos assim, "o direito de ser vadia". Rapidamente várias outras marchas foram ocorrendo mundo afora e em 2012 chegam agora à sua segunda edição.

Antes de mais nada é fundamental condenar e combater qualquer argumento que responsabilize a vítima pela violência sofrida por seu agressor. Estupidez da estupidez do estilo "se você se veste como vadia deve ser tratada como uma vadia". Nunca uma roupa, maquiagem, postura, ou modo de agir, pode ser considerada como um convite do tipo "sou toda tua, me pegue e me come agora". Combater essas ideologia imunda é sim uma tarefa de todos aqueles que se dizem de esquerda.

Agora uma coisa é combater duramente as ideias e argumentos machistas e até mesmo achar justa a marcha canadense de 2011. Outra coisa é passar a defender o "orgulho de ser vadia" porque a sociedade machista chama de vadia mulheres que defendem o direito à liberdade sexual. Ora essa, a sociedade racista chama negros de "neguinhos de merda" e gays de "aberrações sexuais" e nem por isso, negros e gays precisam ou muito menos devem agitar o "orgulho de ser um 'neguinho de merda' ou de ser uma 'aberração sexual'". É absolutamente sem sentido exportar a marcha canadense de 2011 para fora de seu contexto no espaço e no tempo.

Mais estranho ainda é afirmar a busca irrefreável pela liberdade sexual como uma das bandeiras fundamentais da esquerda. Isso não é assim. Pelo contrário, ela é via de regra uma reivindicação de classe-média, ou para os mais marxistas, uma reivindicação pequeno-burguesa. Nada melhor do que ler o que escreveu Clara Zetkin sobre Lênin e o Movimento Feminista para perceber isso. Nas notas de seu diário a comunista alemã relata sua conversa com o revolucionário russo onde entre outros assuntos ele versa sobre a obsessão do movimento feminista alemão sobre a questão da sexualidade.
Desconfio daqueles que estão absorvidos constante e obstinadamente com as questões do sexo, como o faquir hindu com a contemplação do próprio umbigo.

Parece-me que essa abundância de teorias sexuais, que não são em grande parte senão hipóteses arbitrárias, provém de necessidades inteiramente pessoais, isto é, da necessidade de justificar aos olhos da moral burguesa a própria vida anormal ou os próprios instintos sexuais excessivos e de fazê-la tolerá-los.

Esse respeito velado pela moral burguesa repugna-me tanto quanto essa paixão pelas questões sexuais. Tem um belo revestimento de formas subversivas e revolucionárias, mas essa ocupação não passa, no fim das contas, de puramente burguesa.
É preciso dizer algo mais?

Diante da divisão que já citei que ou se é de esquerda ou se é contra a marcha das vadias, prefiro ficar com Lenin, Clara Zetkin e as mulheres trabalhadoras, sendo de esquerda e contra a marcha.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Vem aí o primeiro casamento gay nas histórias em quadrinho #homofobianão


Pra falar a verdade não é bem o primeiro casamento gay dos quadrinhos. Já em 2002 Apollo e Midnighter casaram-se na revista The Authority da DC Comics com direito inclusive a um super-beijaço. Ainda assim podemos dizer que é o primeiro casamento homossexual com grande destaque já que será de um dos integrantes de uma das equipes de superseres mais populares do mundo dos quadrinhos: os X-men. O noivo famoso é o canadense Jean-Paul Baubier, o Estrela Polar, que pedirá a mão de seu antigo parceiro em casamento na edição 50 da revista "Os surpreendentes X-men" e já marcará o casório para a edição 51 da revista, prevista para ser lançada em 20 de junho deste ano.

Esse é um passo importantíssimo no mundo dos quadrinhos e a Marvel merece aplausos pela ousadia. É claro que não faltarão "defensores da moralidade e dos bons costumes" temerosos com o papel "nefasto e devastador" dessa HQ sobre a formação do caráter e da personalidade de crianças e adolescentes. Vale registrar que via de regra as primeiras histórias de heróis apresentavam mulheres como vítimas ou coadjuvantes e negros muitas vezes nem sequer como isso. Felizmente o mundo dá voltas e já é possível encontrar vários títulos tendo mulheres e negros à frente. Já a questão da homossexualidade, apesar de um outro personagem que tenha assumido sua orientação, segue sendo tratada como um verdadeiro tabu. E é exatamente por isso que é preciso divulgar e prestigiar a iniciativa da editora estadunidense.

Quanto aos cavaleiros da moralidade assustados com a novidade é bom dizer que não será uma HQ que tornará quem quer que seja gay, mas com certeza ela poderá ajudar a ensinar um pouco mais de tolerância entre seus leitores.

sábado, 19 de maio de 2012

Chupa! Foda-se! Vai dar esse cu!


A ofensa faz parte do dia a dia de qualquer bom cidadão na face da terra e quem disser o contrário ou vive em um país das maravilhas ou simplesmente está mentindo. Ofender é afrontar, é não aceitar o que se passa, e seu produto, a ofensa, está presente em todo o canto, seja nas coisas mais simples do dia a dia como o trânsito, a partida de futebol, a bronca tomada do patrão e uma mera topada, ou nas mais complexas como o ato de mostrar a bunda como forma de protesto feito normalmente por jovens do movimento estudantil ou mesmo os seios desnudos das loiras ucranianas do movimento Femen pela Europa adentro.

O conhecido "filho da puta" disparado contra os árbitros e suas pobres mães nos estádios de futebol são a verbalização do não engolir o gol roubado, o pênalti concedido, a falta não marcada ou quem sabe marcada indevidamente contra seu time do coração. E ja reparou quando finalmente vem o gol? Se veio do outro time é uma chuva de palavrões. Mas quando não… aí é um verdadeiro gozo e é claro que é preciso celebrá-lo. Acompanhe o twitter em dia de jogo no momento de um gol naquelas partidas disputadíssimas e tente contar a quantidade infindável de "Chupa!" disparados contra o adversário goleado para entender que a ofensa não é uma arma somente para os maus momentos. Não basta ganhar. É preciso humilhar o inimigo derrotado. Afinal que graça tem meu time ganhar se não puder sacanear o time arqui-rival, inimigo de todas as horas? Né verdade?

A ofensa, além da versão falada, também pode vir gesticulada como o internacionalmente conhecido dedo médio em riste, o cotoco, um verdadeiro símbolo de contestação normalmente apontado para o outro como uma arma onipotente e indestrutível. Nas mãos de quem sabe usá-lo acaba virando mesmo uma arma e que o diga o rapper Emicida, preso por usá-la em defesa dos moradores da comunidade Eliana Silva desabrigados pela polícia mineira.

Mas antes que me interpretem mal, este não é um elogio à ofensa na forma de gesto, ato ou palavrão. Não. Pelo menos não aos que estamos acostumados a ver, ouvir, falar e fazer. Na verdade prefiro confrontá-los. Por uma simples razão: não aceito que se alimente a ideia de que sexo violento é normal, usual e popular. Assim como não aceito que se relacione o preto com tudo que é ruim, não aceito que se relacione sexo como forma de agredir o outro. Por que raios "foder" tem que ser algo ruim? Por que mandar "tomar no cu" quem nos incomoda? Por que disparar o "chupa" na cara de quem se quer humilhar? Sexo é algo tão degradante e humilhante assim comparável a mandar alguém à merda? Ou quando disparamos as ofensas contra nossos desafetos estamos querendo que eles sofram "se fodendo", "dando o cu" ou "chupando"? Se é pra necessariamente ser sofrido e humilhante estamos admitindo que o sexo possa ser usado como violência contra os que nos desagradam? É isso? Se for, honestamente estou contra.

Que tal pensar nisso da próxima vez que for ofender alguém, hein? Fica a dica.