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segunda-feira, 10 de setembro de 2018
Não existe crise 'mortal' para o capitalismo. #TrotskyEnsina
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Ênio, Trotsky, Alemanha e Brasil em tempos de impeachment
Nosso indispensável professor "Ênio Bucchioni" realizou hoje uma postagem em sua página do Facebook trazendo a tona a posição de Trotsky para Alemanha no terceiro período, momento trágico em que os comunistas sob mando de Stalin não só não combateram Hitler como tiveram a capacidade de praticamente aliar-se a eles na luta contra o "social-fascismo" na linha de por para fora o governo social-democrata de Baun.
A comparação é mais do que pertinente no momento em que setores da esquerda socialista adotam a mesma linha, com alguns retoques de cores diferentes mas a mesma linha, acerca da continuidade ou não do governo de Dilma Roussef.
Vale a leitura e a reflexão.
Trotsky e o 3° período na Alemanha
1- Desde 1928 até meados da década de 30, o stalinismo se orientou pela linha política do chamado terceiro período, onde sinteticamente, previam o fim imediato do capitalismo e por surtos revolucionários em todos os países do mundo.
2- Aqui no Brasil o PCB gerou a chamada Intentona Comunista de 1935, um putch militar sem a participação do proletariado e das massas exploradas e oprimidas e que culminou com uma tremenda repressão em todo o movimento de massas e na vanguarda por parte do governo de Getúlio Vargas.
3- O stalinismo inventou o termo social-fascismo para intitular a social-democracia. Diziam que ela era socialista nas palavras e fascista nos atos. Diziam que fascismo e social-democracia eram irmãos gêmeos.
3 - Em março de 1931, nazistas e comunistas se aliam em um plebiscito sobre a dissolução antecipada do governo da Prússia, uma posição chave controlada pelos reformistas da social-democracia comandados por Baun. Os nazistas batizam o plebiscito de plebiscito marrom, e os comunistas stalinistas , de plebiscito vermelho. Ambos colocavam o 'Fora Braun'. Os 25 milhões de votos necessários para a dissolução do governo regional da Prússia não são atingidos, mas a campanha fortalece enormemente o Partido Nazista, que sai do processo com grande autoridade.
4- Sobre esse plebiscito Trotsky escreveu no livro Revolução e Contra- Revolução na Alemanha; “ Sair às ruas com a palavra de ordem “Abaixo o governo Bruening-Braun!” quando segundo a relação de forças esse governo só pode ser substituído por um governo Hitler – Hugenberg, é puro aventureirismo. A mesma palavra de ordem adquire, entretanto, sentido inteiramente diverso se se torna uma introdução à luta imediata do próprio proletariado pelo poder. No primeiro caso, os comunistas teriam aparecido aos olhos das massas como auxiliares da reação.
5- Na página seguinte desse mesmo livro, Trotsky escreveu: “ Durante a demonstração de abril de 1917 de 1917, uma parte dos bolcheviques lançou a palavra de ordem ;”Abaixo o governo Provisório”, O Comitê Central logo chamou à ordem os ultra-esquerdistas. Devemos, bem entendido, propagar a necessidade de derrubar o governo provisório; mas, não podemos ainda chamar as massas à rua por essa palavra de ordem, pois ainda estamos em minoria na classe operária. Se, nessas condições, conseguirmos derrubar o governo provisório, não o poderemos substituir e, por conseguinte, auxiliaremos a contrarrevolução...Tal foi a posição do Partido.
6- Talvez haja alguma semelhança entre essa história acima e a situação do Brasil em 2015. Talvez!
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
O velho León e Natalia em Coyoacán (#poema de Paulo Leminsky interpretado por Vitor Ramil) #75anosSemTrotsky
desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás de outro vindo
você e eu sonhando e dormindo
quarta-feira, 25 de março de 2015
"Experiência e intuição não nos bastam. É preciso método materialista para enxergar o momento."
O capítulo "A arte da insurreição" é sem sombra de dúvida parada obrigatória para todos aqueles que entendem que é preciso dedicação individual e coletiva para que a humanidade possa livrar-se dos pesados grilhões da exploração capitalista e de todas suas mazelas.
Aqui destacamos uma pequena passagem do texto:
"A intuição e a experiência são necessárias à direção revolucionária, tal como em todos os outros domínios da arte criadora. Mas isso não basta. A arte do mágico pode também, com sucesso, repousar sobra a intuição e a experiência. A arte do curador político não basta todavia senão para as épocas e períodos onde predomina a rotina. Numa época de grandes reviravoltas históricas não tolera as obras dos mágicos. A experiência, mesmo inspirada pela intuição, não basta. É preciso um método materialista permitindo descobrir, por detrás das sombras chinesas dos programas e das palavras de ordem, o momento real dos corpos da sociedade."
Particularmente, gosto da sua acidez ao comparar aqueles movidos tão somente pela aura da experiência com bons mágicos e seus truques que podem até impressionar em momentos de normalidade política. Mas palavras mágicas repetidas ao vento não são suficientes em momentos de reviravoltas. É preciso o método materialista. Ou seja, é preciso ciência. E para que? Para "descobrir por trás das sombras chinesas dos programas e das palavras de ordem, o momento real dos corpos da sociedade". Leia-se é preciso entender a correlação de forças das classes sociais. E tanto o programa como as palavras de ordem são os instrumentos para isso. Não para expressar nossas vontades, mas para capturar "o momento real dos corpos da sociedade". Eis a verdadeira arte para os revolucionários.
Aos interessados, vale a visita ao Arquivo Marxista na Internet para a leitura..
domingo, 21 de setembro de 2014
As regras da IV Internacional
Em 1938 o texto “A agonia do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional” tornava-se a carta de fundação da Quarta Internacional, um agrupamento de revolucionários de todo mundo disposto a colocar sua militância a serviço da revolução socialista mundial.
Uma entre tantas outras passagens marcantes do texto escrito por Leon Trotsky e que ficou conhecido como "Programa de Transição" é o capítulo que versa "Contra o oportunismo e o revisionismo sem princípios".
A conjuntura era de crise econômica mundial aberta a partir de 1929 com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, vitória do fascismo na Itália e nazismo na Alemanha, guerra civil na Espanha e de preparação para uma segunda guerra imperialista. Do lado dos trabalhadores a III Internacional levava adiante a política derrotista de aliança com a dita "burguesia progressista" na forma da Frente Popular em especial na França e Espanha que desarmou o movimento de massas europeu em um período extremamente crítico. Enquanto isso, boa parte da esquerda não stalinista procurava "atalhos" e"novos caminhos que respondessem aos 'novos desafios'".
Diante desse quadro o programa da IV Internacional dizia:
"Como sempre, em épocas de reação e de declínio, aparecem em todas as partes mágicos charlatães. Querem revisar toda a marcha do pensamento revolucionário. Em lugar de aprender com o passado, eles o 'corrigem'. Uns descobrem a inconsistência do marxismo, outros proclamam a falência do bolchevismo. Uns fazem recair sobre a doutrina revolucionária a responsabilidade dos erros e dos crimes daqueles que a traíram; outros maldizem a medicina porque não assegura uma cura imediata e miraculosa. Os mais audazes prometem descobrir uma panaceia e, na espera, recomendam parar a luta de classes. Numerosos profetas da nova moral dispõem-se a regenerar o movimento operário com a ajuda de uma homeopática ética. A maioria desses apóstolos conseguiu tornar a si próprios inválidos morais antes mesmo de descer ao campo de batalha. Assim, sob a aparência de novos caminhos só se propõe ao proletariado velhas receitas enterradas há muito tempo nos arquivos do socialismo anterior a Marx."Já se vão 76 anos desde que essas linhas foram traçadas e sua regra sobre a recorrente aparição de "mágicos charlatães" segue atual. E diante deste mal, Trotsky afirmava a necessidade de declarar guerra implacável a todos os burocratas assim como "ao reformismo sem reformas, ao democratismo aliado à GPU, ao pacifismo sem paz, ao anarquismo a serviço da burguesia, aos 'revolucionários' que temem mortalmente a revolução'. Sem vencer tal praga, seu método e sua moral, que corrói por dentro o movimento operário não haveria como vencer a burguesia, dizia ele:
"Bons são os métodos e os meios que elevam a consciência de classe dos operários, sua confiança em suas próprias forcas, sua disposição à abnegação na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram nos oprimidos o medo e a docilidade diante dos opressores; sufocam o espirito de protesto e revolta e substituem a vontade das massas pela vontade dos chefes, a persuasão pela pressão, a análise da realidade pela demagogia e a falsificação. Eis por que a socialdemocracia, que prostituiu o marxismo, e o stalinismo, antítese do bolchevismo, são os inimigos mortais da revolução proletária e de sua moral."Por fim o enunciado das regras da recém nascida IV Internacional:
"Encarar a realidade de frente; não buscar a linha de menor resistência; chamar as coisas pelos seus nomes; falar a verdade às massas, não importa o quão amarga ela seja; não temer os obstáculos; ser verdadeiro nas pequenas coisas como nas grandes; basear seu programa na lógica da luta de classes; ser ousado quando a hora da ação chegar – essas são as regras da Quarta Internacional."Em épocas como a que vivemos em nosso país, onde a Frente Popular consegue governar 12 anos sem nenhuma grande resistência do movimento de massas, onde uma nova crise econômica mundial mantém-se insolúvel tendo completado seu oitavo ano, onde o fascismo volta a fascinar setores, ainda que minoritários da classe trabalhadora, e onde o marxismo é renegado na prática ainda que reivindicado nas palavras é mais que fundamental retomar, compreender e aplicar o método do programa de transição.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
A morte de Lênin e a mensagem de Trotsky
Aos 53 anos de idade, no dia 21 de janeiro de 1924, Lênin faleceu. A causa da morte é questionável. É verdade que desde 1922 já havia sofrido três acidentes vasculares cerebrais e portanto o mais aceitável até o ano de sua morte seria a hipótese de que o corpo de Vladimir Ilitch simplesmente não tivesse mais suportado o ritmo alucinado de construir o primeiro Estado Operário do planeta. Todavia, examinando sua morte à luz dos acontecimentos que se sucederam nas duas décadas seguintes é de uma inocência injustificada não aceitar a tese de assassinato pelas mãos da própria burocracia. Lênin era um obstáculo.
Ainda em 1922, Lênin acordara para a necessidade de dar a batalha contra a burocracia. Data de dezembro de 22, suas cartas em que sugere afastar Stalin, que mais tarde seriam conhecidas como seu testamento. Em 1923, pouco antes do XII Congresso fechara acordo com Trotsky para exigir diretamente do Congresso o afastamento de Stalin, e isso sem qualquer discussão prévia no Birô Político ou no Comitê Central do partido. Insistira inclusive para que Leon não fechasse nenhum acordo com o triunvirato (Kamenev, Zinoviev e Stalin). Trotsky, não o ouviu e aceitou o recuo da burocracia em troca de não colocar suas cabeças a prêmio. Não teve ele, Lênin, a oportunidade de defender por conta própria suas posições em função de recaída há pouco mais de um mês da realização do Congresso.
Em janeiro do ano seguinte, Lenin morre. Trotsky, o segundo homem mais respeitado na Rússia Soviética, estava então em Tifilis curando-se de uma enfermidade que o afastara de Moscou. Quando entrou em contato para saber a data do funeral para que pudesse se preparar para estar presente, foi informado que seria no sábado, tornando impossível de chegar a tempo. A cerimônia foi no domingo. Stalin, foi o único orador naquele dia, prostrando-se sempre ao lado do caixão pelo qual passaram quase 1 milhão de pessoas apesar do rigoroso inverno.
De Tífilis, Trotsky escreveu a seguinte mensagem em homenagem a seu "mestre".
Lênin Morreu.
Lênin Morreu. Lênin já não existe. As leis obscuras que regulam o funcionamento da circulação arterial puseram termo a essa existência. A arte da medicina viu-se impotente para operar o milagre que dela se esperava apaixonadamente, que dela exigiam milhões de corações.
Quantos homens haverá entre nós que de boa vontade e sem hesitação teriam dado o sangue até à última gota para reanimar, para regenerar o organismo do grande chefe, de Lênin Ilitch, o único, o inimitável? Mas não havia milagre possível, aí onde a ciência era impotente. E Lenine morreu. Estas palavras caem sobre a nossa consciência de uma maneira terrível, tal como o rochedo gigante cai no mar. Poderá acreditar-se? Poderá aceitar-se?
A consciência dos trabalhadores do mundo inteiro não vai querer admitir este fato, pois o inimigo dispõe ainda de uma força considerável; o caminho a percorrer é longo; a grande tarefa, a maior que jamais foi empreendida na História, não está terminada; pois Lênin é necessário à classe operária mundial, indispensável como talvez jamais alguém o tenha sido na história da humanidade.
O segundo ataque da sua doença, muito mais grave do que o primeiro, durou mais de dez meses. O sistema arterial, segundo a amarga expressão dos médicos, não cessou de "brincar" durante todo esse tempo. Terrível brincadeira em que se jogava a vida de Ilitch. Podíamos esperar uma melhoria e quase que uma cura absoluta, mas também podiamos esperar uma catástrofe. Estávamos todos à espera da convalescença, foi a catástrofe que se produziu. O regulador cerebral da respiração recusou-se a funcionar e apagou o órgão do genial pensamento.
Perdemos Ilitch. O Partido está órfão, a classe operária está órfã. É, acima de tudo, o sentimento que temos ao ouvir a notícia da morte do mestre, do chefe.
Como iremos prosseguir? Encontraremos o caminho? Não iremos perder-nos? Porque Lênin, camaradas, já não se encontra entre nós...
Lênin já não existe, mas temos o leninismo. O que havia de imortal em Lênin - os seus ensinamentos, o seu trabalho, os seus métodos, o seu exemplo - vive em nós, neste Partido que criou, neste primeiro Estado operário à cabeça do qual se encontrou e que ele dirigiu.
Neste momento, os nossos corações estão invadidos por esta dor tão profunda, porque todos nós fomos contemporâneos de Lênin, trabalhamos a seu lado, estudamos na sua escola. O nosso Partido é o leninismo em ação; o nosso Partido é o chefe coletivo dos trabalhadores. Em cada um de nós vive uma parcela de Lênin, o que constitui o melhor de cada um de nós.
Como avançaremos a partir de agora? Com o facho do leninismo na mão. Encontraremos o caminho? Sim, através do pensamento coletivo, da vontade coletiva do Partido, encontrá-lo-emos!
E amanhã, e depois de amanhã, daqui a oito dias, daqui a um mês, interrogar-nos-emos ainda: será possível que Lênin já não exista? Durante longo tempo esta morte parecer-nos-á um capricho da natureza, inverosímil, impossível, monstruoso.
Que este sofrimento cruel que sentimos, que cada um de nós sente no coração ao lembrar-se que Lênin já não existe, seja para nós um aviso diário: lembremo-nos que a nossa responsabilidade é agora muito maior. Sejamos dignos do chefe que nos instruiu!
No sofrimento e no luto, cerremos fileiras, aproximemos os nossos corações, agrupemo-nos mais estreitamente para as novas batalhas!
Camaradas, irmãos, Lênin já não está entre nós. Adeus Ilitch! Adeus, chefe!...
Estação de Tiflis, 22 de Janeiro de 1924.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Trotsky e a Frente Popular
"No momento atual, a questão das questões é a Frente Popular" escreveu Leon Trotsky em 1936. A crise econômica mundial varria toda a Europa capitalista. A Alemanha marchava desde 1933 sob a bandeira do fascismo hitleriano. A Espanha estava às portas da guerra civil entre os fascistas de Franco e o governo frente-populista de Manuel Azaña. Na França o partido socialista de Léon Blum, ao lado do partido comunista de Maurice Thorez e do partido radical-socialista de Edouard Daladier recém haviam ganho as eleições presidenciais. A questão das questões era sem sombra alguma a Frente Popular.
Banido da URSS desde 1928 e exilado na Noruega desde 1935, Trotsky não poupou esforços para ajudar seus partidários a encontrar o justo caminho do enfrentamento com a frente popular francesa. Tinha em seu currículo a autoridade histórica de quem havia enfrentado o governo de coalizão de classe russo de 1917, antes mesmo que esse tipo de governo tivesse ganhado o nome de Frente Popular. As inúmeras cartas do ex-comandante do exército vermelho fazem parte de uma compilação conhecida como "Aonde vai a França?" que nos dá uma verdadeira aula sobre como aqueles que buscam a revolução social devem se portar diante de governos como esses.
Apesar de todo seu esforço, os anos 1930 passaram por sobre a dedicação do velho Leon como um locomotiva desgovernada rumo ao ápice do fascismo europeu com a segunda guerra mundial, e seu próprio assassinato, no México pela picareta stalinista. Mas a obra de Trotsky segue viva, extremamente rica e muito mais que atual. "A questão das questões" ainda está colocada no cenário mundial e até por isso é preciso estudar Trotsky.
Em 1982, o trotskista francês Jean Paul Jubert, escreveu o texto “Trotsky et le Front Populaire” para o “Cahiers Leon Trotsky N.º 9” que compõe um importante aporte aos que pretendem conhecer um pouco sobre o tema.
Para os interessados segue o link para o texto traduzido para o espanhol. Boa leitura.
Banido da URSS desde 1928 e exilado na Noruega desde 1935, Trotsky não poupou esforços para ajudar seus partidários a encontrar o justo caminho do enfrentamento com a frente popular francesa. Tinha em seu currículo a autoridade histórica de quem havia enfrentado o governo de coalizão de classe russo de 1917, antes mesmo que esse tipo de governo tivesse ganhado o nome de Frente Popular. As inúmeras cartas do ex-comandante do exército vermelho fazem parte de uma compilação conhecida como "Aonde vai a França?" que nos dá uma verdadeira aula sobre como aqueles que buscam a revolução social devem se portar diante de governos como esses.
Apesar de todo seu esforço, os anos 1930 passaram por sobre a dedicação do velho Leon como um locomotiva desgovernada rumo ao ápice do fascismo europeu com a segunda guerra mundial, e seu próprio assassinato, no México pela picareta stalinista. Mas a obra de Trotsky segue viva, extremamente rica e muito mais que atual. "A questão das questões" ainda está colocada no cenário mundial e até por isso é preciso estudar Trotsky.
Em 1982, o trotskista francês Jean Paul Jubert, escreveu o texto “Trotsky et le Front Populaire” para o “Cahiers Leon Trotsky N.º 9” que compõe um importante aporte aos que pretendem conhecer um pouco sobre o tema.
Para os interessados segue o link para o texto traduzido para o espanhol. Boa leitura.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
"Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro" (texto do jovem Trotsky em 1901)
Quando o revolucionário russo Leon Trotsky tinha seus vinte e dois anos, lá pelos idos de 1901, escreveu um texto saudando, ainda que ao seu jeito, o recém chegado século XX. É um trecho pouco conhecido da obra de Trotsky que foi resgatado pela organização "Reagrupamento Revolucionário" que fez a gentileza de traduzir para o português e publicar no Marxist Internet Archive com o título "Otimismo e PessimismoSobre o Século XX e Muitas Outras Coisas".
Boa leitura.
Dum spiro spero! [Enquanto há vida, há esperança!] ... Se eu fosse um dos corpos celestiais, eu olharia com completo desapego para esta bola miserável de sujeira e poeira ... Eu brilharia indiferente entre o bem e o mal ... Mas eu sou um homem. A história do mundo que para você, desapaixonado cálice de ciência, para você, guarda-livros da eternidade, parece apenas um momento insignificante no equilíbrio temporal, para mim é tudo! Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro, este radiante futuro no qual o homem, poderoso e belo, se tornará mestre do fluxo incerto da História e irá direcioná-lo para um horizonte sem fim de beleza, alegria e felicidade!
O século dezenove de muitas formas satisfez e de ainda mais formas enganou as esperanças do otimista ... Ele o compeliu a transferir a maioria das suas esperanças para o século vinte. Sempre que o otimista se confrontava com um fato de atrocidade, ele exclamava: Como pode isso acontecer no limiar do século vinte! Quando ele imaginasse maravilhosamente desenhado um futuro harmonioso, ele o colocava no século vinte.
E agora este século chegou! O que trouxe com ele em sua inauguração?
Na França – o escarcéu venenoso do ódio racial(1); na Áustria – disputa nacionalista...; na África do Sul – a agonia de um povo pequeno, que está sendo assassinado por um colosso(2); na própria “ilha da liberdade” – o canto triunfante da vitoriosa avareza de agiotas chauvinistas; dramáticas “complicações” no leste; rebeliões de massas populares famintas na Itália, Bulgária, Romênia ... ódio e morte, fome e sangue ...
Parece até que o novo século, este gigante recém-chegado, está determinado mesmo no momento do seu surgimento a levar o otimista ao absoluto pessimismo e a um nirvana cívico.
– Morte à Utopia! Morte à fé! Morte ao amor! Morte à esperança! Esbraveja o século vinte em salvas de fogo e ao retumbar das armas.
– Renda-se seu patético sonhador. Aqui estou eu, o seu tão esperado século vinte, o seu “futuro”.
– Não, responde o inabalado otimista: Você, você é apenas o presente.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Leon Trotsky: Presente! Até o socialismo: Sempre!
Em 21 de agosto de 1940 morreu Lev Davidovich Bronstein, o homem cujas ideias e pseudônimo, Leon Trotsky, fizeram a seu tempo e de grande maneira fazem ainda hoje, 73 anos depois, estremecer de horror e ódio o coração de muitos poderosos. Foi assassinado por Ramon Mercader, um agente provocador que fingiu-se de namorado de sua secretária pessoal para aproximar-se, espionar e se possível matar o revolucionário russo. O atentado foi feito com um golpe de picareta de alpinista na cabeça do homem de então 60 anos. Ainda que ferido de morte gritou a seus seguidores que não matassem o assassino para que assim ele pudesse tornar pública a mente criminosa por trás daquilo: o carniceiro Iosef Stalin. Chegou ao hospital ainda lúcido mas logo entrou em coma vindo a morrer no dia seguinte.
Muito antes do golpe que arrancou-lhe a vida, Trotsky tinha consciência que seus dias estariam contados. Mais cedo ou mais tarde morreria. Ainda naquele ano, em fevereiro, acometido de problemas de saúde escreveu um texto que ficou conhecido como seu testamento onde professa seu amor à causa da revolução socialista que abraçara ainda aos 18 anos, à sua esposa Natasha ("fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura") e à própria vida.
Rendemos aqui nossa homenagem ao velho Leon. Que estejamos à altura de livrar o mundo de todo mal, toda opressão e toda violência tal como nos propõe seu testamento.
Leon Trotsky! Presente! Até o socialismo! Sempre!
"Minha pressão sangüínea elevada (e que continua a elevar-se) engana àqueles que me são próximos sobre minhas reais condições físicas. Estou ativo e capaz de trabalhar, mas o fim está evidentemente próximo. Estas linhas serão tornadas públicas após minha morte.
Não preciso mais uma vez refutar aqui a calúnia vil de Stalin e seus agentes: não há uma só mancha sobre minha honra revolucionária. Não entrei, nem direta nem indiretamente, em nenhum acordo, ou mesmo em nenhuma negociação de bastidores, com os inimigos da classe operária. Milhares de adversários de Stálin tombaram, vítimas de falsas acusações. As novas gerações revolucionárias reabilitarão sua honra política e tratarão seus carrascos do Kremlim como eles merecem.
Agradeço ardentemente aos amigos que se mantiveram leais através das horas mais difíceis de minha vida. Não cito nenhum em particular, porque não os posso citar todos.
Apesar disso, considero-me no direito de fazer exceção para o caso de minha companheira, Natália Ivanovna Sedova. Além da felicidade de ser um combatente da causa do socialismo, quis a sorte me reservar a felicidade de ser seu esposo. Durante quarenta anos de vida comum, ela permaneceu uma fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura. Sofreu grandes dores, principalmente no último período de nossas vidas. Encontro algum conforto no fato de que ela conheceu também dias de felicidade.
Nos quarenta e três anos de minha vida consciente, permaneci um revolucionário; durante quarenta e dois destes, combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recomeçar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imutável. Morro revolucionário proletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, por conseqüência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que o foi nos dias de minha juventude.
Natascha acabou de chegar pelo pátio até a janela e abriu-a completamente para que o ar possa entrar mais livremente em meu quarto. Posso ver a larga faixa de verde sob o muro, sobre ele o claro céu azul, e por todos os lados, a luz solar. A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo ó mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-lá plenamente."
terça-feira, 25 de junho de 2013
Alguns comentários sobre alguns argumentos meio deslocados: "o golpe" e "quem você pensa que é"
Vivemos uma efervescência política nacional como nunca se viu pelo menos nos últimos vinte e um anos. Mesmo que muitas vezes de forma atravesada, as pessoas estão debatendo, aprendendo e também ensinando muitas lições. E é assim com as pessoas que nunca foram às ruas e, não se engane, também é assim com os veteranos da militância política no país apesar de toda sua quilometragem rodada em manifestações. E é natural que no processo de aprendizado existam muitos exageros. Os exageros dos novatos já são bem conhecidos de todos e só o que se vê é debate sobre seus discursos. Mas e quanto aos exageros da militância organizada? Vamos debate-los? Separei dois desses argumentos meio deslocados e com eles deixo alguns comentários. Embora aos poucos ambos venham a sumir pela própria evolução dos acontecimentos prefiro não pecar pela omissão por mais que corra o risco de desagradar alguns bons companheiros e conhecidos. Vamos lá:
O golpe vem aí - Este é o discurso preferido da militância governista e algumas vezes até é repetido por gente boa e inocente que acaba caindo no papo dos primeiros. Como governistas não aceitam questionamento ao seu sacro-santo governo ver tanta gente na rua questionando os rumos da nação é motivo pra acionar o alerta de "golpe da direita a vista". Vem a Globo e elogia as manifestações: "pronto é golpe". Sai a propaganda eleitoral do PPS, PSDB e DEM na TV logo no mesmo período que o povo tá na rua: "taí, eu não disse? Golpe!". Esquizofrênico? Em alguns casos sim, em outros é política pensada para impor um clima de chantagem política polarizada em "ou você está com a Dilma ou é golpista". Entende?
Bem... pra quem acha que pode ser plausível o sinal alerta é bom que se diga que não há risco de golpe iminente. E aqui vão seis bons motivos: 1) O imperialismo não quer o golpe. Obama, a União Européia, o FMI ninguém quer o golpe. Até semana passada, Dilma era celebrada por todos eles como uma das mulheres mais influentes do mundo. É completamente diferente, por exemplo, da relação que foi construída entre os EUA e Chavez. 2) O mercado financeiro nacional e mundial não quer o golpe. Como o Lula tanto falou, nunca na história desse país eles ganharam tanto dinheiro. Golpe pra que? 3) O latifúndio não quer o golpe. É melhor que o PT governe e continue servindo de dique para as ocupações de terra no país. 4) O setor industrial também não quer saber de golpe. Qualquer espirro que os empresários dão o governo corre pra dar isenção e de brinde ainda ganham o silêncio dos trabalhadores seja via sindicatos, seja via as políticas compensatórias. 5) Os fundamentalistas religiosos nunca tiveram tanto controle sobre um governo. Lembram da "Carta aberta ao povo de Deus"? Pois é. 6) Até mesmo a Globo, passados mais de 10 dias dos protestos não colocou em sua grade uma única vez a questão da necessidade de um impeachment ou coisa parecida.
Então, já que não existe golpe a vista é de extremo bom tom deixar esse argumento bem longe da vista de todos.
Quem você pensa que é? - Em função da agressividade dos novos manifestantes com os partidos políticos de esquerda, seja por ignorância, seja por esperteza até de mais, veio a baila essa segunda forma de discurso deslocado que se manifesta em frases como "Enquanto você estava dormindo, nós estavamos lutando", "Onde você estava?", "Lutas dos últimos 165 anos, PRESENTE! E você?" e outros do mesmo naipe. É claro que o discurso é compreensível mas acaba por responder ao desrespeito dos novos com ainda mais desrespeito e com um tom que facilmente pode ser absorvido como arrogante. Ao invés de ajudar, via de regra, joga mais lenha na fogueira que afasta os novos manifestantes daqueles que naturalmente seriam os mais fiéis representantes de suas lutas: a esquerda socialista.
Você lutou por toda sua vida? Que excelente! Então você sem dúvida é um daqueles que Brecht chamou de imprescindíveis. E é exatamente por ser quem são, que os imprescindíveis não podem de maneira alguma abrir mão dos bons, dos muito bons e dos melhores ainda. Ao invés de reivindicar a autoridade do currículo ou da patente, meu bom amigo, argumente. Você tem todos instrumentos pra fazer isso. Então faça. Sim, é verdade que tem horas que o sangue ferve, mas respire fundo e argumente. Aqui vale abrir um parêntese: a hipótese da argumentação não vale para o caso de embate com fascistas de carteirinha. Aí não. Como dizia o velho Trotsky, "fascismo não se discute, se combate". Fecha parêntese.
E por falar em Trotsky existe uma passagem emblemática na obra mais conhecida do reporter John Reed que conta o ambiente dos dias da revolução russa que um pouco que se encaixa com o que digo aqui. Segue a história:
Um dia, quando chegava à porta de entrada, vi Trótski e sua mulher detidos por um soldado. Trótski remexeu em todos os bolsos, mas não encontrou o cartão de ingresso.Trotsky, com anos dedicados à construção da revolução, barrado por um jovem soldado recém ingresso na luta revolucionária. Mas que absurdo não? Não. Nenhum absurdo. E por acaso o argumento dos anos de serviço resolveu? Nenhum pouquinho. Então segue, o conselho de Trotsky: muita calma nessa hora, meu caro. Muita calma nessa hora.
— Não tem importância — disse, afinal, dirigindo-se ao soldado. — Você naturalmente me conhece. Sou Trótski.
— Sem o cartão você não entra — respondeu-lhe o soldado. — Seu nome não me interessa.
— Mas sou o presidente do Soviete de Petrogrado.
— Se você de fato é pessoa tão importante — replicou o soldado —, deve trazer consigo um papel qualquer, provando sua qualidade.
Trótski não teve outro remédio senão ficar calmo.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Feliz aniversário Trotsky! #95anosDaRevolucaoRussa
Quando seu pequeno Liova nasceu em 7 de novembro nos idos de 1879, David e Anna Bronstein não faziam a menor ideia do quão grandioso iria se tornar seu rebento. Nem poderiam. Mas eis que ao alcançar seus 38 anos, em 7 de novembro de 1917, Liova, então conhecido como Leon Trotsky, ao lado de Lênin e de seus companheiros bolcheviques, presenteou a humanidade com o primeiro estado operário do planeta.
Se é verdade que sem o partido bolchevique com toda sua história e tradição de anos de enfrentamentos com o regime violento do czarismo não seria possível sequer pensar o sucesso da revolução, igualmente é verdade que sem Trotsky, muito provavelmente, os bolcheviques teriam no mínimo muito mais dificuldade não só de planejar e levar à execução a revolução de outubro como também de levar adiante toda a luta cruenta contra os exércitos brancos entre os anos de 1918 e 1921.
E por ter ido tão alto e tendo levado consigo a classe operária ao que Marx chamaria de "assalto aos céus", vivenciou o que seria a maior das quedas, meio que como se amaldiçoado pelo sacrilégio de tentar libertar a humanidade de seu próprio jugo. De grande herói logo passou a caluniado por seus próprios ex-companheiros e daí em diante amargou o exílio, a perseguição e o assassinato a mando dos dirigentes do estado que ele mesmo havia ajudado a parir.
Trotsky é sem dúvida um dos nomes mais importantes de toda a história da humanidade e a ele prestamos nossa homenagem. Aos 133 anos de seu nascimento deixamos aqui o nosso Feliz Aniversário.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
É preciso estudar outubro. #95anosDaRevolucaoRussa
Neste outubro de 2012, ou no próximo novembro para quem preferir o calendário gregoriano, completam-se 95 anos da revolução bolchevique, que foi sem a menor sombra de dúvida, um dos maiores acontecimentos da história do século XX.
Para os que como eu simplesmente não aceitam o mundo tal como ele é e acreditam na necessidade de transformá-lo, entender a revolução russa de 1917 é uma tarefa indispensável, ou como diria o próprio Lev Davidovich, é preciso estudar outubro. Bem, se isso era válido nos idos de setembro de 1924, quando muitos dos que viveram a revolução ainda estavam vivos, o que dizer então nos dias de hoje.
E estudar outubro não é uma tarefa simples em especial quando a Rússia e todos os países que compuseram a extinta URSS voltaram aos braços do capitalismo, o marxismo foi negado e renegado por uma infinidade de seus ex-seguidores e a esquerda mundial de uma forma geral está em mil pedacinhos. Mas é exatamente por isso que debruçar-se sobre os acontecimentos em torno da revolução de 1917 se torna ainda mais importante. E somado à atual falta de perspectiva das massas trabalhadoras diante da crise econômica mundial, entender a revolução russa é uma tarefa das mais importantes que todo ativista que luta ou sonha por um mundo melhor precisa abraçar.
Se não fazemos isso no cotidiano que o façamos ao menos por ocasião dos seus 95 anos.
Na Rússia de 17, como nos ensina Trotsky, "a classe trabalhadora, guiada pelos bolcheviques, tentou reconstruir a vida, para eliminar a possibilidade dos acessos periódicos de loucura da humanidade e lançar as bases de uma cultura mais elevada"(*). Não foi uma tarefa pequena o que fizeram aqueles homens e mulheres. Nos deram o exemplo de que é possível. Tiraram do mundo das idéias e trouxeram para o mundo real a possibilidade dos trabalhadores governarem sem patrões a lhe explorar e parasitar; nos mostraram que é possível trabalhar menos e ainda assim viver melhor; que é possível libertar as mulheres trabalhadoras dos grilhões do trabalho doméstico; que é possível distribuir o conhecimento e a sabedoria a todos, universalizando o ensino, sem que isso signifique simplesmente preparar-se para o maldito "mercado de trabalho"; e muito, muito mais.
A revolução tem muito a nos ensinar, tanto em seus maravilhosos acertos, como nos inúmeros erros que vieram depois, em especial se a compreendemos tão somente como um "ponto de partida da nova história da humanidade em seu conjunto"(*) que ainda precisa ser escrita.
(*) As citações são da conferência pronunciada por Leon Trotsky em 27 de novembro de 1932. Ver O que foi a Revolução Russa.
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