O texto a seguir correu as redes sociais acompanhando as imagens dos deputados correndo dos índios ao adentrar na tal dita casa do povo no último dia 16 de abril em uma cena sem dúvida alguma impagável. A ação de ocupação da câmara foi um ato de bravura dos povos indígenas que nos enche de orgulho de ser brasileiros ao mesmo tempo que foi uma cena de imensa vergonha para os nada nobre deputados. A jornalista Elaine Tavares retrata o caso em um belo e oportuno artigo publicado no jornal Brasil de Fato e que colamos aqui na íntegra.
Por que correram, deputados?
A cena protagonizada pelos deputados seria risível se não representasse claramente o que pensam dos índios. Os engravatados correram, desesperados, quando viram um pequeno grupo de indígenas avançando em danças rituais pelo meio do plenário. Para eles, aqueles homens e mulheres nada mais são do que selvagens, perigosos e ameaçadores. Não conseguem os ver como cidadãos brasileiros, iguais a eles em direitos e deveres. Os deputados correram por que? De medo? E por que teriam medo? Porque sabem muito bem o que fazem e como tratam os povos indígenas nesse país
Elaine Tavares As comunidades indígenas do Brasil estão em processo de crescimento. Desde 1991 , segundo mostraram os dados do IBGE, o aumento da população foi de 205%. Hoje, o Brasil já contabiliza 896,9 mil índios de 305 etnias, e em quase todos os municípios (80%) tem alguma pessoa autodeclarada indígena. Até mesmo alguns grupos já considerados extintos, como os Charrua, se levantam, se juntam, retomam suas raízes, formam associações e lutam por território. Isso significa que a luta que vem incendiando a América Latina desde o início dos anos 90 já chegou por aqui.
Não é sem razão que causou tanto estupor a declaração dos Guarani Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, de resistir até o último homem caso forem retirados de suas terras. É que as comunidades já estão fartas de conversinhas e promessas governamentais. Querem ver seus direitos garantidos agora e estão dispostos a lutar. Isso também coloca todo mundo em polvorosa, porque, de certa forma, quando os índios estão quietinhos nas aldeias, são muito bem vistos. Mas, bastou levantar o tacape para que os racistas e reacionários de plantão já se alvorocem. É o que acontece hoje em Santa Catarina, quando é chegada a hora da desintrusão da terra indígena do Morro dos Cavalos. Aceitos por vários anos, vivendo em condições precárias em poucos hectares, agora que tiveram as terras definitivamente demarcadas e lutam pela desocupação do território, provocam o ódio de comunidades pacatas e cheias de "gente de bem".
Também é o que se vê na luta contra Belo Monte e as demais hidrelétricas que poderão destruir boa parte da vida no Xingu. As revoltas das comunidades indígenas e ribeirinhas incitam os velhos ódios e não faltam as vozes a clamar contra o que chamam de "obstáculos ao progresso". Já as fazendas de gado e de monocultura que destroem pouco a pouco a Amazônia são vistas como "desenvolvimento". Da mesma forma foram julgados como baderneiros e oportunistas os indígenas que ocuparam e resistiram na Aldeia Maracanã por sete longos anos, querendo unicamente preservar um espaço histórico. Foram retirados à força, como se fossem bandidos.
Agora, os ataques vem do governo e do Congresso Nacional, no qual tramita uma proposta de mudança na Constituição, a PEC 215. Essa proposta tem por objetivo transferir para o Congresso Nacional a competência de aprovar a demarcação das terras indígenas, criação de unidades de conservação e titulação de terras quilombolas, que até então é de responsabilidade do poder executivo, por meio da Funai, do Ibama e da FCP, respectivamente. A aprovação da PEC põe em risco as terras indígenas já demarcadas e inviabiliza toda e qualquer possível demarcação futura.
Além disso também está em vigor a portaria 303, da AGU, que define que qualquer terra já demarcada pode ser revista e tirada das comunidades, basta que dentro delas haja algo que seja do interesse dessa gente sempre pronta a sugar as riquezas do país (minérios, petróleo, rios). Ou seja, é a forma moderna de dominação dos mesmos velhos opressores. Se antes eram os arcabuzes, agora é a lei. E o que é mais espantoso, uma lei que viola a Carta Magna.
Por isso é que os indígenas brasileiros organizados decidiram fazer uma ação em Brasília, junto aos deputados. Sabem que não dá para confiar numa casa cujos habitantes foram eleitos por grupos econômicos que sistematicamente vêm rapinando as riquezas da nação e, portanto, não hesitarão passar por cima de comunidades inteiras se isso for necessários aos seus interesses. E tanto isso é verdade que ontem (dia16.04) eles estavam lá, tentando conversar, tentando entrar na casa que dizem, é do povo. Mas, estavam impedidos. Só que decidiram não aceitar uma imposição sem sentido. Se a casa é do povo, entrariam. E foi o que fizeram. Forçaram a porta e adentraram ao plenário, onde os engravatados os ignoravam.
A cena protagonizada pelos deputados seria risível se não representasse claramente o que pensam dos índios. Os engravatados correram, desesperados, quando viram um pequeno grupo de indígenas avançando em danças rituais pelo meio do plenário. Para eles, aqueles homens e mulheres nada mais são do que selvagens, perigosos e ameaçadores. Não conseguem os ver como cidadãos brasileiros, iguais a eles em direitos e deveres. Os deputados correram por que? De medo? E por que teriam medo? Porque sabem muito bem o que fazem e como tratam os povos indígenas nesse país.
A vergonhosa correria rendeu frutos aos indígenas. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), acabou propondo uma saída honrosa. A casa suspenderia a criação da comissão especial que iria apreciar o mérito da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 e criaria um grupo paritário para discutir os temas de interesse dos povos indígenas. Os índios reunidos no Salão Verde conversaram e deliberaram aceitando a proposta .
Agora é vigiar porque esse não vai ser um debate fácil. Tanto o governo como os grupos de poder que financiam a maioria dos deputados querem poder dispor das terras indígenas que estão cheias de riqueza. Mas, o fato é que a ação do "abril indígena" conseguiu pelo menos colocar em pauta um tema que já vem caminhando desde anos e não recebe a devida atenção nem pela mídia nem pelos deputados. Foi uma vitória, parcial e temporária, mas ainda assim uma vitória. O que prova por a + b que só a ação direta e organizada faz a vida das gentes avançar. E, para aqueles que estão aí, na luta sempre, a cena do apavoramento dos deputados deixa muito claro que eles sim, têm medo, embora não tenham prurido de destruir sistematicamente o modo de vida dos povos indígenas. A lição do abril indígena é singela: é preciso fazer com essa gente que não leva em conta os desejos das maiorias voltem a ter medo delas. A luta de classes avança por aqui também...
Noite de 27 de março de 1973. Marlon Brando é indicado ao oscar de melhor ator em O Poderoso Chefão, mas ao invés dele, uma jovem de 26 anos trajando roupas tradicionais indígenas é quem se dirige ao palco. Meio sem jeito Roger Moore lhe oferece a estatueta para ficar ainda mais desconcertado com sua recusa. A mulher apresentada como Sacheen Littlefeather (Sachen Pena Pequena) tinha em suas mãos uma carta de Marlon Brando esclarecendo sua ausência e recusa ao prêmio, que não pôde ser lida em função da ameaça da indígena sair do local algemada. Em seu lugar, Pena Pequena fez a seguinte declaração:
Olá. Meu nome é Sasheen Littlefeather. Eu sou Apache e eu sou presidenta do Comitê Nacional de Imagens Afirmativas dos Nativos Americanos.
Estou representando Marlon Brando esta noite e ele pediu-me para lhes falar em um discurso muito longo, que não poderei compartilhar com vocês hoje, por causa do tempo, mas ficarei feliz em compartilhar com a imprensa depois, que ele com muito pesar não pode aceitar este prêmio muito generoso.
E a razão para isto é o tratamento dado aos índios americanos hoje pela indústria cinematográfica - desculpe-me - e na televisão, em filmes regravados, e também com os acontecimentos recentes em Wounded Knee.
Rogo para que neste momento não seja vista como uma intrusa nesta noite, e que no futuro, nossos corações e os nossos entendimentos possam se reunir com amor e generosidade.
Obrigado em nome de Marlon Brando.
O discurso que Brando havia preparado era obviamente muito maior. Foi substituído por uma declaração que não poderia superar em hipótese alguma o tempo de 1 minuto. Em determinado momento a ativista calou-se, sendo vaiada por uns poucos e aplaudida por outros. O episódio foi reproduzido na grande imprensa obviamente de forma muito negativa. Em pouco tempo veio a notícia de que Sacheen não era Sachhen, que era na verdade Marie e que não era indigena coisa alguma e sim uma atriz contratada por Marlon Brando.
Marie Louise Cruz, esse era o nome da mulher, pelo menos seu nome de batismo. E sim, ela era uma atriz que em 1973 participou de seu primeiro filme, o Conselheiro do Crime (Il Consigliori). Mas da mesma forma ela também era Pena Pequena e uma ativista do movimento indígena, e agora havia protagonizado o primeiro ato de protesto político da história do Oscar, colocando a revolta de Wounded Knee no centro das atenções de toda a imprensa, quando aquilo que mais queria o governo Nixxon era exatamente mantê-lo bem escondido. Naquela mesma noite centenas de indígenas que ocupavam o pequeno distrito de Dakota do Sul exigindo respeito ao direito de viver em suas terras estavam cercados por agentes do FBI armados até os dentes. O cerco durou 71 dias, com um saldo de 2 mortes e mais de 500 presos e feridos, encerrando-se com mais uma rendição por parte dos povos indígenas e mais um acordo não cumprido por parte do governo federal dos EUA.
Passados quarenta anos, hoje, outro governo federal está disposto a enfrentar povos indígenas para explorar as terras onde eles nasceram. Mas ao invés de Wounded Knee e Richard Nixxon, o lugar é Belo Monte, e a presidenta que está disposta a massacrar direitos e vidas dos indígenas é a petista Dilma Roussef. Ao que tudo indica a história se repetirá como uma imensa tragédia, sem o glamour do protesto de um Marlon Brando, mas com tanta coragem quanto, ou quem sabe ainda mais do que a que protagonizou a jovem apache que impediu a premiação da máfia.
Abaixo o video com o momento em que o Oscar não foi entregue: