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sexta-feira, 18 de março de 2016
domingo, 3 de janeiro de 2016
"Da Paz", conto #fabuloso de @marcelinofreire
Nos idos dos anos 2000, em especial no Rio de Janeiro, disseminou-se um movimento de marchas pela paz, com caminhadas com pessoas de branco carregando flores, fotos e cartazes pedindo paz e justiça. As caminhadas ganhavam especial comoção quando alguma criança do lado nobre da cidade era de alguma forma vítima de violência. Em São Paulo, tais marchas ganharam força em função das ações no PCC em 2006. Foi nesse contexto que o escritor pernambucano Marcelino Freire foi inquerido a escrever um conto com a temática das tais marchas. Inspirou-se ao ver uma das atrizes de malhação com seu "kit paz" convocando o evento.
Segue o texto brilhante e ao final as interpretações emocionantes de Naruna Costa, Renan Inqérito e do próprio Marcelino.
Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.
Segue o texto brilhante e ao final as interpretações emocionantes de Naruna Costa, Renan Inqérito e do próprio Marcelino.
Da Paz
Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
PM torturou estudante em SP! Imediata punição para os torturadores! Alckmin, você é o culpado!
Se a greve dos metroviários de São Paulo já merecia todo apoio e solidariedade possível, nesta segunda-feira, dia 09, um motivo a mais nos foi dado para estar contra o governo Alckmin e a favor dos lutadores do metrô e de todos aqueles que lhe prestam solidariedade.
O estudante de direito da PUC-SP e militante da Anel e do PSTU, Murilo Magalhães, foi preso, humilhado e espancado pela polícia militar de São Paulo por participar de um ato em solidariedade à greve dos metroviários. Murilo iria se acorrentar ao prédio da Secretaria de Segurança Pública em um ato simbólico pela reabertura das negociações por parte do governo com o movimento grevista, uma ação aliás muito comum em muitas partes do mundo. O que não foi comum foi a reação da polícia, que sob alegação de depredação de patrimônio público e resistência à tortura, deteve Murilo.
Ao completarmos 50 anos do golpe de 1964, no qual muitos lutadores foram detidos, torturados e mortos, o episódio protagonizado pela Polícia de Alckmin escancara que a tortura não só fez parte de nossa história como está presente até os dias de hoje, sendo usada de forma indiscriminada e comprovando que o tal "Estado Democrático de Direito" não passa de repressão pura e deslavada contra todos os que ousam levantar a voz e lutar.
- Nossa completa solidariedade a Murilo!
- Pela imediata demissão dos torturadores!
- Chega de tortura! Pelo afastamento do Secretário de Segurança Pública!
- Que Alckmin venha a público declarar que não aceita tortura em seu governo. Se não o fizer que fique claro que o governador não só é conivente, como é responsável por ela, e que seja criminalizado por tanto!
domingo, 1 de junho de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Carta aos senhores governantes por ocasião da morte de um trabalhador em Fortaleza #MataramMaisUmTrabalhador #NãoVaiTerÔnibus #TemQuePararTudo
Senhor Prefeito Roberto Cláudio,
Senhor Governador Cid Gomes,
Senhora Presidenta Dilma Rousseff,
Morreu hoje um trabalhador rodoviário vítima da violência que tomou de assalto a cidade de Fortaleza. Os maravilhosos programas de repressão à criminalidade prometidos pelos senhores com lindos prédios novos, fardas bacanas e bonitas, carros importados, toneladas de armas novas e a contratação de mais e mais policiais não adiantaram absolutamente de nada!
Todo o investimentos feito pelos senhores para garantir paz aos grandes negócios, sejam eles da FIFA ou outro qualquer, não tem garantido o mais básico de todos os direitos aos trabalhadores: O direito à vida!
Que fique definitivamente claro: a culpa é de vocês! Vocês, senhores governantes, são os culpados pela morte desse e de muitos outros trabalhadores!
Pois que aguentem as consequências!
Nossa paciência está chegando ao fim. Hoje são os rodoviários parados! Amanhã poderá ser muito mais!
#MataramMaisUmTrabalhador #NãoVaiTerÔnibus #TemQuePararTudo #DilmaACulpaÉSua #CidACulpaÉSua #RobertoCláudioACulpaÉSua
quarta-feira, 26 de março de 2014
˜Pra falar a verdade eu até gosto de trem lotado, é bom pra xavecar a mulherada!˜
Acredite se quiser, essa pérola de estímulo a violência contra a mulher trabalhadora faz parte da propaganda do governo de São Paulo para defender o uso de veículos sobre trilhos. É isso mesmo. A propaganda foi ao ar via difusão por rádio esta semana relatando os avanços do governo tucano na área do transporte público e minimizar as super-lotações em função do mal dimensionamento da rede pública. E qual foi a forma que a turma do Alckmin econtrou para tanto? Apresentar nada mais, nada menos, a vantagem da presença da "mulherada" pronta para ser "xavecada" (leia-se encoxada ou mesmo estuprada).
O Núcleo de Multimídia do Estadão postou no YouTube a "peça" publicitária.
O Núcleo de Multimídia do Estadão postou no YouTube a "peça" publicitária.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Artigo fantástico de @gduvivier ridiculariza as idiotices reacionárias dos últimos dias
Simplesmente fantástico o artigo "Acabou a baderna" publicado na coluna de Gregorio Duvivier no portal da Folha nesta segunda-feira, dia 17. Gregorio que é ator, escritor, humorista e um dos criadores do Porta dos Fundos, com este texto ganha definitivamente o posto de colunista político do momento. Com o dom da ironia como poucos, ele consegue em poucas palavras desmontar os inúmeros argumentos utilizados para criminalizar os movimentos sociais, e em especial Marcelo Freixo do PSOL, que foi o alvo predileto da grande imprensa nos últimos dias.
Em uma passagem de seu texto Gregório divinamente ridiculariza a manchete do G1 que espalhou a anti-notícia bomba que "Estagiário do advogado diz que ativista disse que homem, etc, etc, etc". Mas apesar do formato zombeteiro, o texto de Gregório é dos mais sérios, em especial em suas últimas conclusões.
Vale demais a leitura.
Acabou a baderna
Acabou a baderna. Encontraram o grande financiador do movimento. Já foi provado que membros do PSOL doaram 150 reais para se realizar uma ceia de Natal para mendigos e o dinheiro foi usado para comprar várias rabanadas. Como se sabe, poucas coisas são mais letais que uma rabanada na cara, especialmente se ela estiver dormida.
Muita gente já deve ter morrido a golpes de rabanada do PSOL. Isso porque o pessoal não declarou o panetone. Um panetone é uma arma branca! Ainda mais se for daqueles bem duros, da Visconti. Quando pega na testa, mata na hora. Mas não vai mais matar ninguém. A fonte secou!
Engraçado pensar que alguns acreditavam que o motivo da revolta de junho era a insatisfação popular. Finalmente ficou provado que não. O povo está muito feliz. Eduardo Paes já aumentou a passagem de novo. E não vai dar em nada. O povo não tem problema nenhum com aumento de passagem. O povo não tem problema nenhum com nada. Quem inventa problema é a esquerda caviar. O povo está feliz. Sempre esteve.
Detalhe: ao exumarem o corpo de Josef Stálin, descobriu-se que em sua farda, no bolso esquerdo, havia uma estrela na qual podia-se ler as impressões digitais de Iran Kruschewsky, assessor de Stálin, cuja filha primogênita, Anna Nicolaievna, foi amante de Miriam Pletskaya, embaixatriz da extinta Tchecoslováquia cujo filho, Benjamin Berndorff, tem as mesmas iniciais de Bruno Bianchi, ortopedista brasileiro nascido em 1967, mesmo ano em que nasceu o deputado Marcelo Freixo. Procurado, o deputado negou qualquer envolvimento com o regime stalinista.
"Não acho que o ano em que eu nasci seja um dado relevante para tecer esse tipo de conexão estapafúrdia", afirmou o deputado, saindo pela tangente. A palavra "estapafúrdia", no entanto, já havia sido usada por José Sapir, meu cunhado, para designar a roupa que uma senhora usava em Copacabana, bairro do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu Oscar Niemeyer, stalinista confesso. Ou seja...
A legislação vai mudar, graças a Deus (e à Dilma). Não vamos mais tolerar baderna. A ex-guerrilheira, quem diria, vai baixar o AI-5. O Brasil finalmente está virando um país sério: bandido preso no poste, Polícia Militar ameaçando Porta dos Fundos, leis antiterrorismo. O caminho se abriu. Este é o ano em que Bolsonaro vai assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos. Chegou o momento, Capitão! Em abril, nossa revolução faz 50 anos.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
'Eu não, meu senhor' (artigo de José de Sousa Martins no @estadao)
O Estadão publicou neste sábado texto do sociólogo e professor da USP, José de Sousa Martins, sobre o caso do garoto negro de 15 anos encontrado nu e acorrentado pelo pescoço em um poste. O caso ficou nacionalmente conhecido por ter sido veiculado no jornal do SBT com um depoimento de defesa dos "justiceiros" feito pela âncora ultra-reacionária Raquel Cheiragrade Sheherazade. Por consideramos extremamente relevante publicamos na íntegra o texto que pode ser lido no próprio site aqui.
'Eu não, meu senhor'
Era de noite. Foi no Flamengo. Trinta marmanjos chegaram em 15 motos. Os quatro adolescentes caminhavam para Copacabana, "para tomar um banho de mar". "Era (um) fortão e tinha um magrinho. O magrinho já chegou jogando a moto em cima. Vou matar! Vou matar os quatro!" A moto e a enturmação fizeram o magrinho ficar fortão e valente. O magrinho foi acusando: "Bando de ladrão, fica roubando bicicleta dos outros". Três dos garotos conseguiram fugir. O menino de 15 anos, não. Nenhum deles estava de bicicleta.
Desde quando seus antepassados foram trazidos da África, empilhados em navios negreiros, para serem vendidos no Valongo depois de estirados na praia para destravar o corpo, o menino negro sabe quem manda e quem obedece. O tronco e a chibata no lombo de seus antepassados surraram também sua memória e lhe ensinaram as lições que sobrevivem 125 anos depois da liberdade sem conteúdo da Lei Áurea. A lei que libertou os brancos do fardo da escravidão antieconômica. Mais de um século depois, o menino ainda sabe como é que se fala até mesmo com moleque que herdou os mimos da casa-grande: "Eu não, meu senhor, todo mundo aqui é trabalhador", defendeu-se.
Esse menino descende de homens livres há mais de um século. Mas a chibata ficou lá dentro da alma, ferindo, dobrando, humilhando, criando desconfiança, ensinando artimanhas de quilombo para sobreviver. Esse "meu senhor" diz tudo, fala alto, grita na consciência dos que a tem. Esse "meu senhor" desdiz a liberdade, desmente a Lei Áurea, nos leva de volta aos tempos da senzala, do tronco e do pelourinho. Esse "meu senhor" expressa uma liberdade não emancipadora, que não integrou o negro senão nas funções subalternas de uma escravidão dissimulada, mas não na ressocialização para a liberdade e para a cidadania. Quem acusa o menino não sabe que a sociedade não pode colher o fruto que não semeou.
No dia 13 de maio de 1888 não libertamos ninguém. Continuamos todos escravos da escravidão que não acaba, da moral retorcida que nos legou, da consciência cindida que nos faz crer que somos uma coisa sendo outra. No mundo novo da liberdade abstrata de um contrato fictício não podemos nos encontrar porque não encontramos o outro, não podemos ser livres porque não nos libertamos no outro, não podemos ter direitos de que os outros carecem.
O menino levou uma surra de capacetes. "Bateu, bateu", disse ele a uma repórter. Desmaiou. Foi ferido a faca na orelha. Com uma trava de bicicleta, foi amarrado pelo pescoço num poste. Coisa de gente muito valente, coisa de macho: 30 homens contra um menino franzino. E na Câmara dos Deputados houve quem se orgulhasse disso. Confessou um deputado mais inclinado ao justiçamento do que à Justiça: "Praticou um ato corajoso quem deu uma surra nesse vagabundo, porque os moradores estão cansados de serem roubados e assaltados por essa gentalha". Isto é, gentinha, populacho, ralé. O mesmo tratamento que tinha vigência antes da lei do 13 de Maio, quando o escravo era considerado coisa, semovente, mercadoria, um ser abaixo da condição humana. Mero animal de trabalho, com a diferença de que das azêmolas diferia porque falava, gemia, chorava, sabia.
A Lei Áurea trouxe implícita a igualdade jurídica do negro liberto, coisa que não ficou muito clara na Constituição de 1891, que condicionou a cidadania ao ter propriedade e ao ser alfabetizado, não ser mendigo, não ser mulher, não ser praça de pré. A igualdade do 13 de Maio era, portanto, uma igualdade relativa. Porém, quem não é igual não pode ser livre. O deputado que agora, no próprio Parlamento, se congratula com os agressores do menino negro, revoga a Lei Áurea, restaura a inferioridade social do cativo e dos filhos e herdeiros do cativeiro. Traz de volta o feitor.
O Estado brasileiro, de que o deputado é membro e privilegiado beneficiário, é um Estado omisso, descumpridor das próprias leis que inventa e promulga. A delinquência juvenil é fruto dessa omissão e do desamparo que engendra e alimenta. Mas fruto, também, da pseudocidadania dos atiradores de pedra e dos linchadores, dos que reclamam direitos, omitindo-se quanto aos deveres correspondentes. No próprio caso ocorrido no Flamengo, alguns boyzinhos de 14 que foram presos e já estão soltos declararam que patrulham "o Aterro em busca de potenciais autores de delitos". O caso do menino deixa claro que os "potenciais autores de delitos" têm cor e raça. O vigilantismo reacionário ergue uma muralha de terror para criar um território fechado e excludente, só deles. Uma pátria particular, impatriótica.
O menino foi libertado pelos bombeiros que o socorreram. Tiveram que usar maçarico para cortar o cabo de aço que lhe atava o pescoço ao poste. Foi levado para o hospital. De lá fugiu e foi espontaneamente se apresentar na casa abrigo da prefeitura do Rio. Os agressores louvados pelo deputado não se apresentaram em lugar nenhum. Fugiram. Por aí se vê que ao menos o menino tem recuperação.
'Eu não, meu senhor'
Era de noite. Foi no Flamengo. Trinta marmanjos chegaram em 15 motos. Os quatro adolescentes caminhavam para Copacabana, "para tomar um banho de mar". "Era (um) fortão e tinha um magrinho. O magrinho já chegou jogando a moto em cima. Vou matar! Vou matar os quatro!" A moto e a enturmação fizeram o magrinho ficar fortão e valente. O magrinho foi acusando: "Bando de ladrão, fica roubando bicicleta dos outros". Três dos garotos conseguiram fugir. O menino de 15 anos, não. Nenhum deles estava de bicicleta.
Desde quando seus antepassados foram trazidos da África, empilhados em navios negreiros, para serem vendidos no Valongo depois de estirados na praia para destravar o corpo, o menino negro sabe quem manda e quem obedece. O tronco e a chibata no lombo de seus antepassados surraram também sua memória e lhe ensinaram as lições que sobrevivem 125 anos depois da liberdade sem conteúdo da Lei Áurea. A lei que libertou os brancos do fardo da escravidão antieconômica. Mais de um século depois, o menino ainda sabe como é que se fala até mesmo com moleque que herdou os mimos da casa-grande: "Eu não, meu senhor, todo mundo aqui é trabalhador", defendeu-se.
Esse menino descende de homens livres há mais de um século. Mas a chibata ficou lá dentro da alma, ferindo, dobrando, humilhando, criando desconfiança, ensinando artimanhas de quilombo para sobreviver. Esse "meu senhor" diz tudo, fala alto, grita na consciência dos que a tem. Esse "meu senhor" desdiz a liberdade, desmente a Lei Áurea, nos leva de volta aos tempos da senzala, do tronco e do pelourinho. Esse "meu senhor" expressa uma liberdade não emancipadora, que não integrou o negro senão nas funções subalternas de uma escravidão dissimulada, mas não na ressocialização para a liberdade e para a cidadania. Quem acusa o menino não sabe que a sociedade não pode colher o fruto que não semeou.
No dia 13 de maio de 1888 não libertamos ninguém. Continuamos todos escravos da escravidão que não acaba, da moral retorcida que nos legou, da consciência cindida que nos faz crer que somos uma coisa sendo outra. No mundo novo da liberdade abstrata de um contrato fictício não podemos nos encontrar porque não encontramos o outro, não podemos ser livres porque não nos libertamos no outro, não podemos ter direitos de que os outros carecem.
O menino levou uma surra de capacetes. "Bateu, bateu", disse ele a uma repórter. Desmaiou. Foi ferido a faca na orelha. Com uma trava de bicicleta, foi amarrado pelo pescoço num poste. Coisa de gente muito valente, coisa de macho: 30 homens contra um menino franzino. E na Câmara dos Deputados houve quem se orgulhasse disso. Confessou um deputado mais inclinado ao justiçamento do que à Justiça: "Praticou um ato corajoso quem deu uma surra nesse vagabundo, porque os moradores estão cansados de serem roubados e assaltados por essa gentalha". Isto é, gentinha, populacho, ralé. O mesmo tratamento que tinha vigência antes da lei do 13 de Maio, quando o escravo era considerado coisa, semovente, mercadoria, um ser abaixo da condição humana. Mero animal de trabalho, com a diferença de que das azêmolas diferia porque falava, gemia, chorava, sabia.
A Lei Áurea trouxe implícita a igualdade jurídica do negro liberto, coisa que não ficou muito clara na Constituição de 1891, que condicionou a cidadania ao ter propriedade e ao ser alfabetizado, não ser mendigo, não ser mulher, não ser praça de pré. A igualdade do 13 de Maio era, portanto, uma igualdade relativa. Porém, quem não é igual não pode ser livre. O deputado que agora, no próprio Parlamento, se congratula com os agressores do menino negro, revoga a Lei Áurea, restaura a inferioridade social do cativo e dos filhos e herdeiros do cativeiro. Traz de volta o feitor.
O Estado brasileiro, de que o deputado é membro e privilegiado beneficiário, é um Estado omisso, descumpridor das próprias leis que inventa e promulga. A delinquência juvenil é fruto dessa omissão e do desamparo que engendra e alimenta. Mas fruto, também, da pseudocidadania dos atiradores de pedra e dos linchadores, dos que reclamam direitos, omitindo-se quanto aos deveres correspondentes. No próprio caso ocorrido no Flamengo, alguns boyzinhos de 14 que foram presos e já estão soltos declararam que patrulham "o Aterro em busca de potenciais autores de delitos". O caso do menino deixa claro que os "potenciais autores de delitos" têm cor e raça. O vigilantismo reacionário ergue uma muralha de terror para criar um território fechado e excludente, só deles. Uma pátria particular, impatriótica.
O menino foi libertado pelos bombeiros que o socorreram. Tiveram que usar maçarico para cortar o cabo de aço que lhe atava o pescoço ao poste. Foi levado para o hospital. De lá fugiu e foi espontaneamente se apresentar na casa abrigo da prefeitura do Rio. Os agressores louvados pelo deputado não se apresentaram em lugar nenhum. Fugiram. Por aí se vê que ao menos o menino tem recuperação.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Lênin nos lembra qual nosso objetivo quando o assunto é o Estado.
Direto de setembro de 1917, Lênin esclarece o que almejam os comunistas quando o assunto é o Estado:
Nosso objetivo final é a supressão do Estado, isto é, de toda violência, organizada e sistemática, de toda coação sobre os homens em geral. Não desejamos o advento de uma ordem social em que caducasse o princípio da submissão da minoria à maioria. Mas, em nossa aspiração ao socialismo, temos a convicção de que ele tomará a forma do comunismo e que, em conseqüência, desaparecerá toda necessidade de recorrer à violência contra os homens, à submissão de um homem a outro de uma parte da população à outra. Os homens, com efeito, habituar-se-ão a observar as condições elementares da vida social, sem constrangimento nem subordinação.
domingo, 3 de novembro de 2013
Charge fantástica de @WillLeite resgata letra de Engenheiros do Hawaii para dar som ao caso Amarildo
No último dia 25/10, Will Leite postou uma charge genial em sua página, o WillTirando. Will foi buscar matéria prima para seu traço na música "Somos quem podemos ser" do álbum de 1988, "Ouça o que eu digo: não ouça ninguém" da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii.
Usando do recurso dos quadrinhos, o cartunista passou pelos versos "Quem ocupa o trono tem culpa/ Quem oculta o crime também/ Quem duvida da vida tem culpa/ Quem evita a dúvida também tem" trazendo à tona o caso do pedreiro Amarildo, morto pela polícia do Rio de Janeiro.
Fantástico Will. Meus parabéns.
sábado, 5 de outubro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Policial militar baiano agride casal a pauladas. "Mostra a mão! Mostra! Bora minha filha!" #DesmilitarizacaoJA
Um quarto revirado e mal iluminado. Ao pé da parede, duas pessoas negras: ele, cabeça baixa a maior parte do tempo; ela, semi-nua contorcendo-se e gemendo de dor. Do outro canto da sala, dois policiais, um com câmera nas mãos filmando a cena, o outro com um porrete de madeira dando ordens a ela, e em seguida a ele. A mão dela estirada com a palma para cima é seguida do seguinte "diálogo":
- Palhaçada, viu?
Paaaaaahhhh!!!
- Cadê? Cadê? Mostra a mão. Mostra.
Paaaaaahhhh!!!
- Aaaaiiiiiiii! Ô meu Deus não bate.
- Cadê? Bora minha filha.
Paaaaaahhhh!!!
- Aii! Aii!
- Mostre a mão!
Paaaaaahhhh!!!
- Ai!!!
O policial vira para o homem e diz:
- Esse aqui agora
Paaahhh!! Paaaahhh!!! Paaaaahhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!
- Ahh!
Paaaaaahhhh!!A câmera na mão do policial cinegrafista, passeia pelo vão até passar pela garota que pula, esfrega a mão no corpo e geme de dor e fala meio que sem fôlego que não agüenta mais. O policial que encheu as mãos do casal de pauladas, olha pro homem e diz:
- Você pode ir embora!
A mulher pergunta:
- Ô moço, por que eu vou ficar? Por que moço? Eu não fiz nada.
Ao passo que o policial responde:
- Você vai "descer as cordas".
Não.... isso não é nenhum conto macabro de alguma mente doentia para entreter leitores com mentes mais doentias ainda. A cena existe e está no YouTube. Os protagonista desse registro de tortura física finalizado com uma fala que denota um estupro, possivelmente também filmado,, são dois policiais do município de Cadeias, na Bahia. As cenas são revoltantes.
Não faltam relatos sobre a brutalidade no Brasil e em especial na Bahia, uma das policias mais violentas do país. E a cada novo relato temos a absoluta certeza de que a policia militar brasileira tem que acabar. E urgentemente.
Segue o video.
terça-feira, 23 de julho de 2013
@PMERJ brinca com fogo: Coquetel molotov lançado contra policiais foi obra de P2. #Veja #Divulgue
Não é a toa que a policia militar do Rio tem interesse em deter a imprensa livre tal como fez com os repórteres do @MidiaNinja. Poucas horas após os acontecimentos da noite do dia 22 de julho em que um coquetel molotov foi arremessado contra policiais, fato este amplamente coberto pela grande mídia, videos independentes começaram a pipocar na internet associando o suposto ativista incendiário com agentes infiltrados nas manifestações, os agora mais que famosos e popularizados "P2".
Tudo é muito rápido mas é possível verificar que o homem que lançou a bomba caseira é branco, usa calça jeans e camisa preta. Seu rosto estava coberto com uma camisa branca. Em outro dois videos captados de diferentes ângulos é possível ver dois homens brancos de calças jeans e camisas pretas se misturando rapidamente com policiais e tratando de retirar a camisa o quanto antes. Um deles carrega uma mochila nas costas.
A cada novo elemento que vem a tona sobre as manifestações @PMERJ só confirma o que já gritaram os verdadeiros manifestantes: "Ei, Beltrame, a polícia é um vexame!"
O video a seguir faz a junção dos dois momentos. Veja e divulgue.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
O apogeu da covardia (texto de @mariomagalhaes_)
O jornalista carioca Mário Magalhães, autor do livro a biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo”, publicou hoje em seu blog o texto "O apogeu da covardia" onde comenta sobre a comoção carioca acerca da depredação do Leblon na madrugada do dia 18 de julho e o silêncio desinteressado acerca dos dez mortos da Favela da Maré pelo BOPE na madrugada do dia 25 de junho. Vale a leitura.
O apogeu da covardia: lojas quebradas no Leblon comovem o Rio e o jornalismo, mas os mortos pela PM na Maré já foram esquecidos
O Rio se comoveu com o quebra-quebra ocorrido no Leblon na virada de 17 para 18 de julho de 2013. Balanço da baderna: depredação de orelhões, placas e 25 lojas.
O Rio não se comoveu com a morte de pelo menos dez pessoas na Maré na noite de 24 e na madrugada de 25 de junho, menos de um mês atrás.
O Rio em questão é o retratado pelo jornalismo mais influente. Danos ao patrimônio no bairro bacana, paraíso onde vivi por tantos anos, receberam muito mais atenção do Estado, dos meios de comunicação e de parcela expressiva da classe média do que a perda de vidas na favela Nova Holanda, no complexo da Maré.
É muita covardia. Contra quem? Contra os de sempre, os mais pobres.
Os crimes contra o patrimônio na zona sul foram obra de bandidos, de fascistoides, de ultra-esquerdistas, incluindo pseudo-anarquistas, de pequenos burgueses vagabundos e de alguns miseráveis desejosos de trajar roupas de grife (alguém viu um operário vandalizando?). Como queimam o filme dos protestos e beneficiam o governo estadual com o verniz de vítima, talvez haja infiltrados de origem nebulosa. Cometeram crimes, têm de ser punidos escrupulosamente, nos termos da lei.
Na Maré, o Bope invadiu a favela contra a vontade dos policiais que lá estavam. O efetivo era minúsculo, pois o grosso do batalhão estava cuidando de reprimir manifestações políticas. Resultado: uma bala provavelmente disparada por traficante de drogas matou um sargento da tropa de elite.
Em seguida, sobreveio a vendeta, com a invasão massiva. Nove moradores locais mortos e nenhum PM ferido gravemente. Confronto? Isso tem outro nome: chacina. No mínimo, dois jovens não tinham antecedentes criminais, um deles de 16 anos. A legislação penal brasileira não prevê pena de morte, para qualquer crime, ainda que seja o de assassinato.
Na Maré, o grosso do jornalismo não informou nem a identidade dos mortos, com exceção da do PM. No Leblon, os personagens tinham nome, sobrenome e lágrimas de quem perdeu alguns bens. Na favela, o pranto das mães que perderam seus rebentos quase não saiu no jornal.
A cúpula da segurança do Estado convocou uma reunião de emergência horas depois de os vândalos detonarem no Leblon. Alguém sabe de um encontro dessa natureza para tratar do morticínio na Maré?
Há mais diferenças além da essencial, entre crime contra a vida e crime contra o patrimônio. No bairro das adoráveis novelas do Manoel Carlos, aprontaram criminosos que devem responder judicialmente por si mesmos. Na Maré, atuaram agentes públicos. Se não se sabe ao certo qual foi o comportamento deles, a responsabilidade é do Estado, que deveria investigar para valer, e não encenar apurações.
As agências bancárias com vidros estilhaçados e as butiques dilapidadas costumam estar protegidas por seguros. Que seguro haveria de confortar os irmãos do pessoal morto na Maré?
Acadêmicos, jornalistas, autoridades e politiqueiros que não pronunciaram uma única sílaba sobre a Maré agora posam de valentões bradando contra a desordem no Leblon. Eles só saem em defesa dos mais ricos, os pobres que se danem. São covardes, não valentes.
Merece respeito o sofrimento de tantos antigos vizinhos meus que se assustaram com o pega pra capar. Mas a vida seguiu. Na Maré, para tantos pais, a vida seguiu sem seus filhos. Já cantou Chico Buarque, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu _teria um quarto ou dormiria no colchão da sala o adolescente que mataram?
O farisaísmo não reconhece limites. Às vésperas do desembarque do papa, celebra-se a existência. Mas muitos corações, que nojo, abalam-se apenas com a perda de patrimônio, e não de vidas. O que diria Francisco?
O recado das últimas semanas é que, para muita gente, crime contra a vida não é nada diante de crime contra o patrimônio.
Isso não é só covardia. É barbárie.
domingo, 16 de junho de 2013
sábado, 15 de junho de 2013
sexta-feira, 14 de junho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
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