Mostrando postagens com marcador trotskismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trotskismo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Não existe crise 'mortal' para o capitalismo. #TrotskyEnsina


Não há nenhuma crise que, por si mesma, possa ser 'mortal' para o capitalismo. As oscilações da conjuntura criam somente uma situação na qual será mais fácil ou mais difícil para o proletariado derrotar o capitalismo. A passagem da sociedade burguesa para a sociedade socialista pressupõe a atividade de pessoas vivas, que fazem sua própria história.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ênio, Trotsky, Alemanha e Brasil em tempos de impeachment


Nosso indispensável professor "Ênio Bucchioni" realizou hoje uma postagem em sua página do Facebook trazendo a tona a posição de Trotsky para Alemanha no terceiro período, momento trágico em que os comunistas sob mando de Stalin não só não combateram Hitler como tiveram a capacidade de praticamente aliar-se a eles na luta contra o "social-fascismo" na linha de por para fora o governo social-democrata de Baun.

A comparação é mais do que pertinente no momento em que setores da esquerda socialista adotam a mesma linha, com alguns retoques de cores diferentes mas a mesma linha, acerca da continuidade ou não do governo de Dilma Roussef.

Vale a leitura e a reflexão.

Trotsky e o 3° período na Alemanha


1- Desde 1928 até meados da década de 30, o stalinismo se orientou pela linha política do chamado terceiro período, onde sinteticamente, previam o fim imediato do capitalismo e por surtos revolucionários em todos os países do mundo.

2- Aqui no Brasil o PCB gerou a chamada Intentona Comunista de 1935, um putch militar sem a participação do proletariado e das massas exploradas e oprimidas e que culminou com uma tremenda repressão em todo o movimento de massas e na vanguarda por parte do governo de Getúlio Vargas.

3- O stalinismo inventou o termo social-fascismo para intitular a social-democracia. Diziam que ela era socialista nas palavras e fascista nos atos. Diziam que fascismo e social-democracia eram irmãos gêmeos.

3 - Em março de 1931, nazistas e comunistas se aliam em um plebiscito sobre a dissolução antecipada do governo da Prússia, uma posição chave controlada pelos reformistas da social-democracia comandados por Baun. Os nazistas batizam o plebiscito de plebiscito marrom, e os comunistas stalinistas , de plebiscito vermelho. Ambos colocavam o 'Fora Braun'. Os 25 milhões de votos necessários para a dissolução do governo regional da Prússia não são atingidos, mas a campanha fortalece enormemente o Partido Nazista, que sai do processo com grande autoridade.

4- Sobre esse plebiscito Trotsky escreveu no livro Revolução e Contra- Revolução na Alemanha; “ Sair às ruas com a palavra de ordem “Abaixo o governo Bruening-Braun!” quando segundo a relação de forças esse governo só pode ser substituído por um governo Hitler – Hugenberg, é puro aventureirismo. A mesma palavra de ordem adquire, entretanto, sentido inteiramente diverso se se torna uma introdução à luta imediata do próprio proletariado pelo poder. No primeiro caso, os comunistas teriam aparecido aos olhos das massas como auxiliares da reação.

5- Na página seguinte desse mesmo livro, Trotsky escreveu: “ Durante a demonstração de abril de 1917 de 1917, uma parte dos bolcheviques lançou a palavra de ordem ;”Abaixo o governo Provisório”, O Comitê Central logo chamou à ordem os ultra-esquerdistas. Devemos, bem entendido, propagar a necessidade de derrubar o governo provisório; mas, não podemos ainda chamar as massas à rua por essa palavra de ordem, pois ainda estamos em minoria na classe operária. Se, nessas condições, conseguirmos derrubar o governo provisório, não o poderemos substituir e, por conseguinte, auxiliaremos a contrarrevolução...Tal foi a posição do Partido.

6- Talvez haja alguma semelhança entre essa história acima e a situação do Brasil em 2015. Talvez!

domingo, 10 de maio de 2015

Os burocratas e a adjetivação de classe no interior das organizações revolucionárias


Em seu quarto e último artigo da série "A propósito do regime interno do partido bolchevique", o professor Enio Bucchioni se vale não dos registros do Pierre Broué mas das posições de Leon Trotsky diante de uma grande polêmica surgida nos anos 1930 no interior da Oposição de Esquerda, e em especial do SWP, partido socialista dos trabalhadores nos Estados Unidos. O interesse de Enio aqui é detonar o maniqueísmo comum nos debates dentro das esquerdas que reivindicam o movimento operário desconstruindo argumentos que se propõem a resolver as diferenças de forma tremendamente simples (e desonesta) rotulando determinada posição divergente como fruto de uma pressão de classe estranha ao proletariado. A "adjetivação de classe" como nomeia o professor, não passa no fim das contas de uma herança maldita do stalinismo e da própria burocratização dos partidos revolucionários, não tendo absolutamente nada a ver com as experiências do leninismo, nem muito menos do trotskismo.

Não são os burocratas os que são os alvos de tal adjetivação. Pelo contrário, estes tem uma capacidade singular de se adaptar e se esconder. Como nos chama atenção o professor Enio: "Todo burocrata que se preze não larga jamais a direção do seu partido, qualquer que seja a política e a linha do mesmo."

Os demais textos de Bucchioni inicialmente divulgados no Blog Convergência também podem ser lidos aqui:

Boa leitura e esperamos que com ela, conclusões melhores ainda.

A propósito do regime interno dos bolcheviques: a visão de Trotsky


As divergências internas a um Partido significam necessariamente o reflexo da existncia de pressões de classe em seu interior, ou seja, numa discussão interna uma das alas é a “proletária, revolucionária” e as outras são pequeno-burguesas ou pró-burguesas?

Buscando debater com estes questionamentos, o texto a seguir narra, nas mais diversas situações e em anos distintos, seja no interior do partido bolchevique, seja posteriormente na IV Internacional, a compreensão de Trotsky sobre o regime interno das organizações leninistas. Não se pretende, nem seria possível, encerrar por aqui a concepção de regime interno de um partido desse tipo. Nosso objetivo, portanto, é fornecer informações para que todos os interessados no tema possam conhecer, aprofundar e meditar sobre as palavras, idéias e concepções desse grande revolucionário.

A burocracia stalinista reflete qual interesse de classes?

É muito comum a adjetivação de classe em relação aos adversários numa luta política com o objetivo de desqualificação dos oponentes, às vezes até mesmo de caráter pessoal. Em vez de argumentos, fatos e análises, tenta-se imprimir um rótulo desqualificativo para, na luta interna, ganhar militantes com pouca ou nenhuma formação marxista. A afirmação mecânica de que diferentes tendências em um partido representam diferentes frações de classe, porém, era estranha a Trotsky. Ao narrar uma de suas polemicas internas no partido bolchevique, ele afirmava

“Por outra parte, não há de se entender de maneira demasiadamente simplista o pensamento de quem sustenta que as divergências no Partido e, com maior razão, os reagrupamentos, não são outra coisa do que uma luta de influências de classes opostas. Em 1920, a questão da invasão da Polônia suscitou duas correntes de opiniões, uma que preconizava uma política mais audaz, e outra que predicava a prudência. Estas duas correntes diferentes constituíam tendências de classes? Não creio que se possa afirmar isso. Tratava-se somente de divergências na apreciação da situação, das forças e dos meios. O critério essencial era o mesmo para ambas as partes.
Acontece com frequência que o Partido está em condições de resolver um problema por diferentes meios. E, se nesse caso, se produzem discussões, é apenas para se saber qual desses meios é o melhor, o mais eficaz, o mais econômico. Segundo o problema em discussão, essas divergências podem interessar a setores consideráveis do Partido, porém isso não quer dizer necessariamente que exista uma luta entre duas tendências de classe”.[1]
Muitas vezes, uma maioria de uma direção partidária que caracteriza qualquer dissidência de desvios “pequeno-burgueses”, considere-se “revolucionária e proletária e sempre com a linha correta”. Como ficou comum em organizações stalinistas, elas tendem a se transformar numa burocracia permanente, numa fração majoritária que ‘toma o poder’ dentro do Partido. Em geral, há interesses materiais nesse tipo de agrupamento, mas há também o que se chama de “pequeno poder”, principalmente no interior de organizações muito pequenas. É a conquista do prestígio e a tentação de preservá-lo ad eternum, seja como for possível.

Esse “pequeno poder” é bem real, pois tende a alinhar ao seu redor os bajuladores desejosos de participar desse círculo. Dentro de tal corte, é muito comum que surjam os ataques mais raivosos contra todos aqueles que discrepam da linha oficial, com o objetivo de afastá-los do Partido. Isso é feito, muitas vezes, através da “auto exclusão”, ou seja, o(s) que está (ão) em minoria acaba (m) por se afastar “voluntariamente” da organização.

Assim se referia Trotsky sobre o poder da burocracia stalinista:
“Todo desvio pode, no curso de seu desenvolvimento, se converter na expressão dos interesses de uma classe hostil ou semi-hostil ao proletariado. Dito isto, o burocratismo é um desvio, e um desvio nada saudável; esperamos que esta afirmação não seja polemica. No momento que isso ocorre, ela ameaça desviar o partido de sua linha justa, de sua linha de classe; é aí que reside o perigo. Porém (e esse é um fato muito instrutivo e também um dos mais alarmantes) os que afirmam com maior nitidez, com maior insistência, e até brutalmente, que toda divergência de critérios, todo grupo de opinião, ainda que seja temporário,são uma expressão dos interesses das classes inimigas do proletariado, não querem aplicar esse critério à burocracia”.[2]

O centralismo democrático para Trotsky

No livro Em Defesa do Marxismo Trotsky fazia a perfeita relação entre o regime interno do Partido com seus militantes, com as tendências e frações provisórias. Deve-se assinalar que a única fração permanente foi a fração da burocracia incrustrada nas entranhas dos aparatos do Partido e do Estado soviético, e, por seus interesses como camada social, acabou por exterminar todas as outras tendências e frações. Todo burocrata que se preze não larga jamais a direção do seu partido, qualquer que seja a política e a linha do mesmo. Segundo Trotsky
“O regime interior do partido bolchevique se caracteriza pelos métodos da centralização democrática. A concordância dessas duas noções não implica nenhuma contradição. O partido velava para que suas fronteiras estivessem sempre estritamente delimitadas, porém entendia que todos os que pertencessem a essas fronteiras tivessem o direito de determinar a orientação de sua política. A liberdade crítica e a luta de ideias formavam o conteúdo intangível da democracia do partido. A doutrina atual que proclama a incompatibilidade do bolchevismo com a existência de frações está em desacordo com os fatos. É um mito da decadência. A história do bolchevismo é, em realidade, a da luta de sus frações. Como uma organização autenticamente revolucionária que se propõe a mudar por completo o mundo e reúne sob suas bandeiras aos negadores, aos sublevados, aos combatentes de toda temeridade, poderia viver e crescer sem conflitos ideológicos, sem agrupamentos, sem formações fracionais temporais?. A clarividência da direção do partido conseguiu atenuar e abreviar várias vezes as lutas fracionais, porém não pode fazer mais que isso. O Comitê Central se apoiava nessa base efervescente de onde extraia a audácia de decidir e ordenar. A perfeita justeza de sua linha lhe conferia uma alta autoridade, precioso capital moral da centralização”.[3]

Há quem pense, seja nas ideologias de direita, seja nos meios de esquerda, que o conceito de centralismo-democrático significa pura e simplesmente a submissão dos militantes partidários às decisões da cúpula dirigente. Assim, caberia tão somente aos adeptos do partido implementar, executar as diretrizes da toda poderosa direção partidária. Tal afirmação, porem, se choca com o trotskismo de Trotsky
“Os problemas de organização do bolchevismo estão intimamente ligados aos de programa e tática (…)
Sabemos que que o regime se baseava nos princípios do centralismo democrático. Se supunha, desde o ponto de vista teórico, (e assim foi, desde o começo, na prática) que esses princípios implicavam a possibilidade absoluta para o partido de discutir, de criticar, de expressar seu descontentamento, de eleger, de destituir, ao mesmo tempo que permitia uma disciplina de ferro na ação, dirigida com plenos poderes pelos órgãos dirigentes eleitos e removíveis. Se se entendia por democracia a soberania de todo o partido sobre todos os organismos, o centralismo correspondia a uma disciplina consciente, ajuizadamente estabelecida, que pudesse garantir de certo modo a combatividade do partido (…)
No decorrer dos últimos anos, temos visto os representantes de maior responsabilidade da direção do partido fazer toda uma série de novas definições da democracia no partido, que se reduzem, no fundo, a dizer que a democracia e o centralismo significam simplesmente a submissão aos órgãos hierárquicos superiores (…)
Não se pode conceber a vida ideológica do partido sem grupos provisórios no terreno ideológico. Até agora ninguém descobriu outra maneira de proceder”[4]

Naturalmente, os grupos são um “mal” necessário, tanto como as divergências de opiniões. Porém, esse mal constitui um componente tão necessário da dialética da evolução do partido com as toxinas com relação á vida do organismo humano.

Trotsky, as frações internas e as frações públicas

Em fins da década de 1930 e começos dos anos 1940, houve uma imensa luta interna no Socialist Workers Party (SWP) norte-americano. A discussão, em essência, era sobre a defesa ou não da União Soviética, das conquistas da revolução de Outubro face à guerra mundial que se avizinhava e a possibilidade da União Soviética vir a ser derrotada pelo imperialismo.

Era uma questão de princípio, numa realidade bastante complexa, pois Stalin acabara de fazer um pacto com Hitler e, em consequência, o exército vermelho e os nazistas invadiram a Polônia e a ocuparam meio a meio.

A forte minoria, uns 40% do SWP, não defendia a União Soviética por causa da existência da burocracia stalinista e pela invasão da Polônia. Trotsky e a maioria do SWP defendiam as conquistas de Outubro e, em consequência, a luta mortal contra os imperialismos que ameaçavam invadir a União Soviética e esmagar aquelas conquistas colossais do proletariado mundial. Ao mesmo tempo, propugnavam a mais impiedosa luta pela revolução política contra o stalinismo.

A dimensão da democracia interna, nas palavras e propostas de Trotsky, assume uma preponderância extraordinária e é levada à máxima potência com o intuito de preservar a unidade do SWP até as últimas instâncias. No entanto, ao mesmo tempo, ele é totalmente inflexível na argumentação política contra a minoria.

Em meio a calorosas disputas com a minoria, Trotsky viria, em uma carta a Joseph Hansen, relembrar seus partidários da importância de garantir o mais amplo e livre debate como instrumento para preservar o partido. A importância política da disputa exigia flexibilidade democrática. Afirma Trotsky
“Alguns dos dirigentes da oposição estão preparando uma cisão; para isso apresentam a oposição, no futuro, como minoria perseguida. E muito característico de sua mentalidade. Creio que devemos responder-lhes mais ou menos da seguinte forma:
‘Vocês já estão preocupados com as nossas futuras repressões? Prometemos garantias mútuas para a futura minoria, independentemente de quem possa ser essa minoria, vocês ou nós. Estas garantias podem ser formuladas em quatro pontos:
1) Não proibição de frações;
2) Nenhuma restrição à atividade fracional, além das ditadas pela necessidade da ação comum;
3) As publicações oficiais devem, evidentemente, representar a linha estabelecida pelo novo Congresso ;
4) A futura minoria pode ter, se assim desejar, um boletim interno destinado aos membros do partido, ou um boletim comum de discussão com a maioria.’
A continuação dos boletins de discussão depois de uma larga discussão e um Congresso não é, evidentemente, uma regra, mais sim uma exceção, aliás, deplorável. Mas não somos, de modo algum, burocratas. Não temos regras imutáveis. Também no terreno organizativo somos dialéticos. Se temos no partido uma minoria importante que não está satisfeita com as decisões do Congresso, é incomparavelmente preferível legalizar a discussão depois do Congresso, do que ter uma cisão.
Se for necessário, podemos inclusive ir mais longe e propor-lhes publicar, sob a supervisão do novo Comitê Nacional, resumos especiais da discussão, não só para os membros do partido, como também para o público em geral. Devemos ir o mais longe possível neste aspecto, com o fim de desarmar as suas queixas, que são no mínimo prematuras, colocando-lhes obstáculos que impeçam a preparação de uma ruptura.
De minha parte, acredito que, nas atuais condições, o prolongamento da discussão, se canalizada com boa vontade pelas duas partes, só pode servir para a educação do partido”.[5]

Parlamentarismo, sindicalismo e o regime interno

A burocratização dos partidos revolucionários, principal responsável pela morte dos debates internos, se relaciona a diversos fatos. Muitas vezes, nas democracias-burguesas mais estáveis, à adaptação ao regime liberal-burguês é o principal responsável por isto.

Nestes casos, corre-se o risco do partido sofrer pressões eleitoreiras. Também é um fato que sempre existiram organizações que queriam mais e mais parlamentares achando que o socialismo poderia vir através de uma maioria no Parlamento e/ou fazendo alianças com setores “progressistas“ da burguesia. Esse perigo existe.

Deve-se relembrar, no entanto, que a falência da II Internacional há um século não foi apenas pela adaptação ao Parlamento e aos governos de seus respectivos países. Os poderosíssimos sindicatos dominados pela antiga socialdemocracia também tiveram papel central nessa adaptação. Tanto os ambientes parlamentares como os sindicais refletem ideologicamente no interior de qualquer partido e podem criar correntes e agrupamentos reformistas, ainda que camuflados por uma verborragia superradical.
“Seria uma imbecilidade pensar que a ala proletária do partido é perfeita. Os trabalhadores só alcançam gradualmente uma clara consciência de classe. Os sindicatos sempre criam um caldo de cultivo para desvios oportunistas. Inevitavelmente teremos que enfrentar essa questão numa das próximas etapas. Mais de uma vez o partido terá que recordara seus próprios militantes sindicais que uma adaptação pedagógica às camadas mais atrasadas do proletariado não deve se transformar numa adaptação política à burocracia conservadora dos sindicatos. Toda nova etapa de desenvolvimento, todo aumento nas fileiras do partido e a complexificação dos métodos de seu trabalho, não somente abrem novas possibilidades como também engendra novos perigos. Os operários nos sindicatos, ainda que educados na mais revolucionária das escolas, frequentemente desenvolvem a tendência a se liberar do controle do partido”[6]

Trotsky, a juventude e o regime interno

Entre os instrumentos para garantir a vida sadia no partido, Trotsky via na rebeldia justa dos jovens um potente aliado. O espirito questionador, dinâmico e não-conformista da Juventude seriam importantes barreiras à burocracia.

No artigo sobre o “Novo Curso”, assim Trotsky entendia a juventude estudantil na sociedade pós-revolucionária e no interior do Partido, relacionando-os com o regime partidário e o processo de burocratização em curso:
“Esta última (a juventude estudantil) como temos visto, reage de maneira particularmente vigorosa contra o burocratismo. Justamente Lenin havia proposto, para combater o burocratismo, recorrer decididamente aos estudantes. Devido à sua composição social e suas vinculações, os jovens estudantes são um reflexo de todos os grupos sociais do nosso partido, assim como seu estado de ânimo. Sua sensibilidade e seu ímpeto os levam a imprimir imediatamente uma força ativa a esse estado de ânimo. Como estudam , eles se esforçam para explicar e generalizar. Isso não quer dizer que todos os seus atos e estados de ânimo reflitam tendências sadias. Se assim ocorresse, significaria, e não é esse o nosso caso, ou que tudo marcha bem no partido ou que a juventude já não é o reflexo do partido.
Em princípio, é justo afirmar que nossa base não são os estabelecimentos de ensino, mas os núcleos de fábrica. Porém, ao dizer que a juventude é nosso barômetro, designamos um valor não essencial às suas manifestações políticas, mas algo sintomático. O barômetro não cria o tempo, apenas se limita a registrá-lo. Na política, o tempo é formado na profundeza das classes e nos terrenos onde essas classes entram em contato entre si….
(…) Além disso, um setor considerável de nossos novos estudantes são comunistas que tiveram uma experiência revolucionária bastante importante. E os partidários mais obstinados do “aparato” se equivocam enormemente ao desprezar essa juventude que é nosso meio de autocontrole, que deverá tomar nosso lugar e a quem pertence o futuro”.[7]

Assim era o regime interno para Trotsky, em perfeita continuidade com o partido bolchevique e com Lenin, o grande artífice e criador do partido e do regime interno.

Assim era o regime interno da IV Internacional enquanto viveu o seu maior dirigente.

Assim deve ser o regime para todos os que aderiram ao legado desses dois dos nossos maiores mestres.

Referências bibliográficas:
TROTSKY, Leon. Textos sobre o Centralismo Democrático. Buenos Aires: Antídoto, 1992.
TROTSKY, Leon. Em Defesa do Marxismo. São Paulo: Proposta, s.d.

 Notas:
[1] Trotsky, 1923, p 29
[2] Trotsky, 1923, p 28
[3] Trotsky, 1937
[4] Trotsky, 1923, 47-48
[5] Trotsky, 1940
[6] Trotsky, 1940
[7] Trotsky, 19

quarta-feira, 25 de março de 2015

"Experiência e intuição não nos bastam. É preciso método materialista para enxergar o momento."


Em momentos onde não predomina a rotina é preciso mais que intuição e experiência, nos faz lembrar o revolucionário russo Leon Trotsky, em seu História da Revolução Russa publicado em novembro de 1930. Sim, intuição e experiência são importantes, e podem até ser decisivos nos momentos de normalidade. Mas aos revolucionários é preciso muito mais.

O capítulo "A arte da insurreição" é sem sombra de dúvida parada obrigatória para todos aqueles que entendem que é preciso dedicação individual e coletiva para que a humanidade possa livrar-se dos pesados grilhões da exploração capitalista e de todas suas mazelas.

Aqui destacamos uma pequena passagem do texto:

"A intuição e a experiência são necessárias à direção revolucionária, tal como em todos os outros domínios da arte criadora. Mas isso não basta. A arte do mágico pode também, com sucesso, repousar sobra a intuição e a experiência. A arte do curador político não basta todavia senão para as épocas e períodos onde predomina a rotina. Numa época de grandes reviravoltas históricas não tolera as obras dos mágicos. A experiência, mesmo inspirada pela intuição, não basta. É preciso um método materialista permitindo descobrir, por detrás das sombras chinesas dos programas e das palavras de ordem, o momento real dos corpos da sociedade."

Particularmente, gosto da sua acidez ao comparar aqueles movidos tão somente pela aura da experiência com bons mágicos e seus truques que podem até impressionar em momentos de normalidade política. Mas palavras mágicas repetidas ao vento não são suficientes em momentos de reviravoltas. É preciso o método materialista. Ou seja, é preciso ciência. E para que? Para "descobrir por trás das sombras chinesas dos programas e das palavras de ordem, o momento real dos corpos da sociedade". Leia-se é preciso entender a correlação de forças das classes sociais. E tanto o programa como as palavras de ordem são os instrumentos para isso. Não para expressar nossas vontades, mas para capturar "o momento real dos corpos da sociedade". Eis a verdadeira arte para os revolucionários.

Aos interessados, vale a visita ao Arquivo Marxista na Internet para a leitura..

terça-feira, 3 de março de 2015

Não é por ser tático que é sem importância

Tática e estratégia são conceitos muito importantes utilizados pelo marxismo que são sacados diretamente da ciência militar e que via de regra são muito incompreendidos. Do ponto de vista do português usual, não existe menor problema em usar por exemplo a expressão "precisamos pensar uma estratégia para atingir nosso objetivo". Já do ponto de vista militar a estratégia é o próprio objetivo e não os meios para atingi-los, que por sua vez recebem a alcunha de táticas.

Neste ponto, muitos podem ser induzidos a outra confusão, que é a de menosprezar as táticas na medida do que aquilo que realmente importa é a estratégia. Uma meia verdade, já que de fato a estratégia é sim o que importa. Mas meias verdades, como dizem os chineses, não passam de mentiras inteiras. Como nem toda tática leva a estratégia, táticas erradas podem exatamente conduzir ao caminho oposto ao da estratégia. Toda vez que algum ativista do movimento, diante de um questionamento sobre sua política, saca a máxima do "ahhh... isso é tático", logo o que me vem a cabeça é que ou falta honestidade para admitir um erro, ou falta humildade para enxergar que não se tem a menor ideia do que se está fazendo.

O trotskista argentino Nahuel Moreno, em seus Conceitos Políticos Básicos de 1986, esclarece a interrelação entre ambos elementos localizando que eles são termos relativos.
"Ou seja, sempre temos que definir em relação a quê uma questão é estratégica e em relação a quê uma questão é tática.Esse caráter relativo dos dois conceitos faz com que o que é estratégico numa determinada etapa ou tarefa parcial, seja ao mesmo tempo tático em relação a um objetivo superior ou mais geral."
E para deixar mais claro, ele exemplifica a forma como estratégia e tática estão intimamente ligados:
"...numa etapa de retrocesso das lutas operárias, podemos dizer que temos a estratégia de desenvolver lutas sindicais defensivas, e que em relação a essa estratégia, a tática pode ser, por exemplo, uma greve longa e não outras táticas, como a ocupação de fábrica, por exemplo. Mas a greve longa é uma estratégia em relação à táticas, ao meio que usamos para garanti-la, como por exemplo, a organização de piquetes. E os piquetes passam a ser uma estratégia em relação à táticas que usamos para construí-lo (se são públicos, eleitos em assembléia, ou clandestinos, eleitos secretamente pelo comitê de greve). E a própria estratégia pela qual começamos, o desenvolvimento de lutas sindicais defensivas, torna-se uma tática em relação a nosso objetivo estratégico, que é obter vitórias importantes que ajudem a transformar a etapa de retrocesso em uma etapa de ascenso do movimento operário."
Em nenhum momento Moreno desdenha das táticas como sendo algo menor. Muito pelo contrário. Até mesmo porque táticas erradas no fim das contas conspiram contra a estratégia.

Entregar rainha, bispos, cavalos e torres em um jogo de xadrez pode até ser uma boa tática para salvar um rei, mas não necessariamente é a melhor para derrubar o rei do adversário.

Bem.... se por um acaso da vida for você o sorteado a ouvir o velho "isso é tático" vale devolver ao sabichão um bom "é verdade meu amigo, mas de qual estratégia estamos falando mesmo?".

domingo, 21 de setembro de 2014

As regras da IV Internacional


Em 1938 o texto “A agonia do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional” tornava-se a carta de fundação da Quarta Internacional, um agrupamento de revolucionários de todo mundo disposto a colocar sua militância a serviço da revolução socialista mundial.
 
Uma entre tantas outras passagens marcantes do texto escrito por Leon Trotsky e que ficou conhecido como "Programa de Transição" é o capítulo que versa "Contra o oportunismo e o revisionismo sem princípios".

A conjuntura era de crise econômica mundial aberta a partir de 1929 com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, vitória do fascismo na Itália e nazismo na Alemanha, guerra civil na Espanha e de preparação para uma segunda guerra imperialista. Do lado dos trabalhadores a III Internacional levava adiante a política derrotista de aliança com a dita "burguesia progressista" na forma da Frente Popular em especial na França e Espanha que desarmou o movimento de massas europeu em um período extremamente crítico. Enquanto isso, boa parte da esquerda não stalinista procurava "atalhos" e"novos caminhos que respondessem aos 'novos desafios'".

Diante desse quadro o programa da IV Internacional dizia: 
"Como sempre, em épocas de reação e de declínio, aparecem em todas as partes mágicos charlatães. Querem revisar toda a marcha do pensamento revolucionário. Em lugar de aprender com o passado, eles o 'corrigem'. Uns descobrem a inconsistência do marxismo, outros proclamam a falência do bolchevismo. Uns fazem recair sobre a doutrina revolucionária a responsabilidade dos erros e dos crimes daqueles que a traíram; outros maldizem a medicina porque não assegura uma cura imediata e miraculosa. Os mais audazes prometem descobrir uma panaceia e, na espera, recomendam parar a luta de classes. Numerosos profetas da nova moral dispõem-se a regenerar o movimento operário com a ajuda de uma homeopática ética. A maioria desses apóstolos conseguiu tornar a si próprios inválidos morais antes mesmo de descer ao campo de batalha. Assim, sob a aparência de novos caminhos só se propõe ao proletariado velhas receitas enterradas há muito tempo nos arquivos do socialismo anterior a Marx."
Já se vão 76 anos desde que essas linhas foram traçadas e sua regra sobre a recorrente aparição de "mágicos charlatães" segue atual. E diante deste mal, Trotsky afirmava a necessidade de declarar guerra implacável a todos os burocratas assim como "ao reformismo sem reformas, ao democratismo aliado à GPU, ao pacifismo sem paz, ao anarquismo a serviço da burguesia, aos 'revolucionários' que temem mortalmente a revolução'. Sem vencer tal praga, seu método e sua moral, que corrói por dentro o movimento operário não haveria como vencer a burguesia, dizia ele:
"Bons são os métodos e os meios que elevam a consciência de classe dos operários, sua confiança em suas próprias forcas, sua disposição à abnegação na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram nos oprimidos o medo e a docilidade diante dos opressores; sufocam o espirito de protesto e revolta e substituem a vontade das massas pela vontade dos chefes, a persuasão pela pressão, a análise da realidade pela demagogia e a falsificação. Eis por que a socialdemocracia, que prostituiu o marxismo, e o stalinismo, antítese do bolchevismo, são os inimigos mortais da revolução proletária e de sua moral."
Por fim o enunciado das regras da recém nascida IV Internacional:
"Encarar a realidade de frente; não buscar a linha de menor resistência; chamar as coisas pelos seus nomes; falar a verdade às massas, não importa o quão amarga ela seja; não temer os obstáculos; ser verdadeiro nas pequenas coisas como nas grandes; basear seu programa na lógica da luta de classes; ser ousado quando a hora da ação chegar – essas são as regras da Quarta Internacional."
Em épocas como a que vivemos em nosso país, onde a Frente Popular consegue governar 12 anos sem nenhuma grande resistência do movimento de massas, onde uma nova crise econômica mundial mantém-se insolúvel tendo completado seu oitavo ano, onde o fascismo volta a fascinar setores, ainda que minoritários da classe trabalhadora, e onde o marxismo é renegado na prática ainda que reivindicado nas palavras é mais que fundamental retomar, compreender e aplicar o método do programa de transição.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A morte de Lênin e a mensagem de Trotsky


Aos 53 anos de idade, no dia 21 de janeiro de 1924, Lênin faleceu. A causa da morte é questionável. É verdade que desde 1922 já havia sofrido três acidentes vasculares cerebrais e portanto o mais aceitável até o ano de sua morte seria a hipótese de que o corpo de Vladimir Ilitch simplesmente não tivesse mais suportado o ritmo alucinado de construir o primeiro Estado Operário do planeta. Todavia, examinando sua morte à luz dos acontecimentos que se sucederam nas duas décadas seguintes é de uma inocência injustificada não aceitar a tese de assassinato pelas mãos da própria burocracia. Lênin era um obstáculo.

Ainda em 1922, Lênin acordara para a necessidade de dar a batalha contra a burocracia. Data de dezembro de 22, suas cartas em que sugere afastar Stalin, que mais tarde seriam conhecidas como seu testamento. Em 1923, pouco antes do XII Congresso fechara acordo com Trotsky para exigir diretamente do Congresso o afastamento de Stalin, e isso sem qualquer discussão prévia no Birô Político ou no Comitê Central do partido. Insistira inclusive para que Leon não fechasse nenhum acordo com o triunvirato (Kamenev, Zinoviev e Stalin). Trotsky, não o ouviu e aceitou o recuo da burocracia em troca de não colocar suas cabeças a prêmio. Não teve ele, Lênin, a oportunidade de defender por conta própria suas posições em função de recaída há pouco mais de um mês da realização do Congresso.

Em janeiro do ano seguinte, Lenin morre. Trotsky, o segundo homem mais respeitado na Rússia Soviética, estava então em Tifilis curando-se de uma enfermidade que o afastara de Moscou. Quando entrou em contato para saber a data do funeral para que pudesse se preparar para estar presente, foi informado que seria no sábado, tornando impossível de chegar a tempo. A cerimônia foi no domingo. Stalin, foi o único orador naquele dia, prostrando-se sempre ao lado do caixão pelo qual passaram quase 1 milhão de pessoas apesar do rigoroso inverno.

De Tífilis, Trotsky escreveu a seguinte mensagem em homenagem a seu "mestre".


Lênin Morreu.


Lênin Morreu. Lênin já não existe. As leis obscuras que regulam o funcionamento da circulação arterial puseram termo a essa existência. A arte da medicina viu-se impotente para operar o milagre que dela se esperava apaixonadamente, que dela exigiam milhões de corações.

Quantos homens haverá entre nós que de boa vontade e sem hesitação teriam dado o sangue até à última gota para reanimar, para regenerar o organismo do grande chefe, de Lênin Ilitch, o único, o inimitável? Mas não havia milagre possível, aí onde a ciência era impotente. E Lenine morreu. Estas palavras caem sobre a nossa consciência de uma maneira terrível, tal como o rochedo gigante cai no mar. Poderá acreditar-se? Poderá aceitar-se?

A consciência dos trabalhadores do mundo inteiro não vai querer admitir este fato, pois o inimigo dispõe ainda de uma força considerável; o caminho a percorrer é longo; a grande tarefa, a maior que jamais foi empreendida na História, não está terminada; pois Lênin é necessário à classe operária mundial, indispensável como talvez jamais alguém o tenha sido na história da humanidade.

O segundo ataque da sua doença, muito mais grave do que o primeiro, durou mais de dez meses. O sistema arterial, segundo a amarga expressão dos médicos, não cessou de "brincar" durante todo esse tempo. Terrível brincadeira em que se jogava a vida de Ilitch. Podíamos esperar uma melhoria e quase que uma cura absoluta, mas também podiamos esperar uma catástrofe. Estávamos todos à espera da convalescença, foi a catástrofe que se produziu. O regulador cerebral da respiração recusou-se a funcionar e apagou o órgão do genial pensamento.

Perdemos Ilitch. O Partido está órfão, a classe operária está órfã. É, acima de tudo, o sentimento que temos ao ouvir a notícia da morte do mestre, do chefe.

Como iremos prosseguir? Encontraremos o caminho? Não iremos perder-nos? Porque Lênin, camaradas, já não se encontra entre nós...

Lênin já não existe, mas temos o leninismo. O que havia de imortal em Lênin - os seus ensinamentos, o seu trabalho, os seus métodos, o seu exemplo - vive em nós, neste Partido que criou, neste primeiro Estado operário à cabeça do qual se encontrou e que ele dirigiu.

Neste momento, os nossos corações estão invadidos por esta dor tão profunda, porque todos nós fomos contemporâneos de Lênin, trabalhamos a seu lado, estudamos na sua escola. O nosso Partido é o leninismo em ação; o nosso Partido é o chefe coletivo dos trabalhadores. Em cada um de nós vive uma parcela de Lênin, o que constitui o melhor de cada um de nós.

Como avançaremos a partir de agora? Com o facho do leninismo na mão. Encontraremos o caminho? Sim, através do pensamento coletivo, da vontade coletiva do Partido, encontrá-lo-emos!

E amanhã, e depois de amanhã, daqui a oito dias, daqui a um mês, interrogar-nos-emos ainda: será possível que Lênin já não exista? Durante longo tempo esta morte parecer-nos-á um capricho da natureza, inverosímil, impossível, monstruoso.

Que este sofrimento cruel que sentimos, que cada um de nós sente no coração ao lembrar-se que Lênin já não existe, seja para nós um aviso diário: lembremo-nos que a nossa responsabilidade é agora muito maior. Sejamos dignos do chefe que nos instruiu!

No sofrimento e no luto, cerremos fileiras, aproximemos os nossos corações, agrupemo-nos mais estreitamente para as novas batalhas!

Camaradas, irmãos, Lênin já não está entre nós. Adeus Ilitch! Adeus, chefe!...

Estação de Tiflis, 22 de Janeiro de 1924.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Trotsky e a Frente Popular

"No momento atual, a questão das questões é a Frente Popular" escreveu Leon Trotsky em 1936. A crise econômica mundial varria toda a Europa capitalista. A Alemanha marchava desde 1933 sob a bandeira do fascismo hitleriano. A Espanha estava às portas da guerra civil entre os fascistas de Franco e o governo frente-populista de Manuel Azaña. Na França o partido socialista de Léon Blum, ao lado do partido comunista de Maurice Thorez e do partido radical-socialista de Edouard Daladier recém haviam ganho as eleições presidenciais. A questão das questões era sem sombra alguma a Frente Popular.

Banido da URSS desde 1928 e exilado na Noruega desde 1935, Trotsky não poupou esforços para ajudar seus partidários a encontrar o justo caminho do enfrentamento com a frente popular francesa. Tinha em seu currículo a autoridade histórica de quem havia enfrentado o governo de coalizão de classe russo de 1917, antes mesmo que esse tipo de governo tivesse ganhado o nome de Frente Popular. As inúmeras cartas do ex-comandante do exército vermelho fazem parte de uma compilação conhecida como "Aonde vai a França?" que nos dá uma verdadeira aula sobre como aqueles que buscam a revolução social devem se portar diante de governos como esses.

Apesar de todo seu esforço, os anos 1930 passaram por sobre a dedicação do velho Leon como um locomotiva desgovernada rumo ao ápice do fascismo europeu com a segunda guerra mundial, e seu próprio assassinato, no México pela picareta stalinista. Mas a obra de Trotsky segue viva, extremamente rica e muito mais que atual. "A questão das questões" ainda está colocada no cenário mundial e até por isso é preciso estudar Trotsky.

Em 1982, o trotskista francês Jean Paul Jubert, escreveu o texto “Trotsky et le Front Populaire” para o “Cahiers Leon Trotsky N.º 9” que compõe um importante aporte aos que pretendem conhecer um pouco sobre o tema.

Para os interessados segue o link para o texto traduzido para o espanhol. Boa leitura.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

"Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro" (texto do jovem Trotsky em 1901)


Quando o revolucionário russo Leon Trotsky tinha seus vinte e dois anos, lá pelos idos de 1901, escreveu um texto saudando, ainda que ao seu jeito, o recém chegado século XX. É um trecho pouco conhecido da obra de Trotsky que foi resgatado pela organização "Reagrupamento Revolucionário" que fez a gentileza de traduzir para o português e publicar no Marxist Internet Archive com o título "Otimismo e PessimismoSobre o Século XX e Muitas Outras Coisas".

Boa leitura.

Dum spiro spero! [Enquanto há vida, há esperança!] ... Se eu fosse um dos corpos celestiais, eu olharia com completo desapego para esta bola miserável de sujeira e poeira ... Eu brilharia indiferente entre o bem e o mal ... Mas eu sou um homem. A história do mundo que para você, desapaixonado cálice de ciência, para você, guarda-livros da eternidade, parece apenas um momento insignificante no equilíbrio temporal, para mim é tudo! Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro, este radiante futuro no qual o homem, poderoso e belo, se tornará mestre do fluxo incerto da História e irá direcioná-lo para um horizonte sem fim de beleza, alegria e felicidade!

O século dezenove de muitas formas satisfez e de ainda mais formas enganou as esperanças do otimista ... Ele o compeliu a transferir a maioria das suas esperanças para o século vinte. Sempre que o otimista se confrontava com um fato de atrocidade, ele exclamava: Como pode isso acontecer no limiar do século vinte! Quando ele imaginasse maravilhosamente desenhado um futuro harmonioso, ele o colocava no século vinte.

E agora este século chegou! O que trouxe com ele em sua inauguração?

Na França – o escarcéu venenoso do ódio racial(1); na Áustria – disputa nacionalista...; na África do Sul – a agonia de um povo pequeno, que está sendo assassinado por um colosso(2); na própria “ilha da liberdade” – o canto triunfante da vitoriosa avareza de agiotas chauvinistas; dramáticas “complicações” no leste; rebeliões de massas populares famintas na Itália, Bulgária, Romênia ... ódio e morte, fome e sangue ...

Parece até que o novo século, este gigante recém-chegado, está determinado mesmo no momento do seu surgimento a levar o otimista ao absoluto pessimismo e a um nirvana cívico.

– Morte à Utopia! Morte à fé! Morte ao amor! Morte à esperança! Esbraveja o século vinte em salvas de fogo e ao retumbar das armas.

– Renda-se seu patético sonhador. Aqui estou eu, o seu tão esperado século vinte, o seu “futuro”.

– Não, responde o inabalado otimista: Você, você é apenas o presente.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Leon Trotsky: Presente! Até o socialismo: Sempre!


Em 21 de agosto de 1940 morreu Lev Davidovich Bronstein, o homem cujas ideias e pseudônimo, Leon Trotsky, fizeram a seu tempo e de grande maneira fazem ainda hoje, 73 anos depois, estremecer de horror e ódio o coração de muitos poderosos. Foi assassinado por Ramon Mercader, um agente provocador que fingiu-se de namorado de sua secretária pessoal para aproximar-se, espionar e se possível matar o revolucionário russo. O atentado foi feito com um golpe de picareta de alpinista na cabeça do homem de então 60 anos. Ainda que ferido de morte gritou a seus seguidores que não matassem o assassino para que assim ele pudesse tornar pública a mente criminosa por trás daquilo: o carniceiro Iosef Stalin. Chegou ao hospital ainda lúcido mas logo entrou em coma vindo a morrer no dia seguinte.

Muito antes do golpe que arrancou-lhe a vida, Trotsky tinha consciência que seus dias estariam contados. Mais cedo ou mais tarde morreria. Ainda naquele ano, em fevereiro, acometido de problemas de saúde escreveu um texto que ficou conhecido como seu testamento onde professa seu amor à causa da revolução socialista que abraçara ainda aos 18 anos, à sua esposa Natasha ("fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura") e à própria vida.

Rendemos aqui nossa homenagem ao velho Leon. Que estejamos à altura de livrar o mundo de todo mal, toda opressão e toda violência tal como nos propõe seu testamento.

Leon Trotsky! Presente! Até o socialismo! Sempre!

"Minha pressão sangüínea elevada (e que continua a elevar-se) engana àqueles que me são próximos sobre minhas reais condições físicas. Estou ativo e capaz de trabalhar, mas o fim está evidentemente próximo. Estas linhas serão tornadas públicas após minha morte.

Não preciso mais uma vez refutar aqui a calúnia vil de Stalin e seus agentes: não há uma só mancha sobre minha honra revolucionária. Não entrei, nem direta nem indiretamente, em nenhum acordo, ou mesmo em nenhuma negociação de bastidores, com os inimigos da classe operária. Milhares de adversários de Stálin tombaram, vítimas de falsas acusações. As novas gerações revolucionárias reabilitarão sua honra política e tratarão seus carrascos do Kremlim como eles merecem.

Agradeço ardentemente aos amigos que se mantiveram leais através das horas mais difíceis de minha vida. Não cito nenhum em particular, porque não os posso citar todos.

Apesar disso, considero-me no direito de fazer exceção para o caso de minha companheira, Natália Ivanovna Sedova. Além da felicidade de ser um combatente da causa do socialismo, quis a sorte me reservar a felicidade de ser seu esposo. Durante quarenta anos de vida comum, ela permaneceu uma fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura. Sofreu grandes dores, principalmente no último período de nossas vidas. Encontro algum conforto no fato de que ela conheceu também dias de felicidade.

Nos quarenta e três anos de minha vida consciente, permaneci um revolucionário; durante quarenta e dois destes, combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recomeçar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imutável. Morro revolucionário proletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, por conseqüência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que o foi nos dias de minha juventude.

Natascha acabou de chegar pelo pátio até a janela e abriu-a completamente para que o ar possa entrar mais livremente em meu quarto. Posso ver a larga faixa de verde sob o muro, sobre ele o claro céu azul, e por todos os lados, a luz solar. A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo ó mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-lá plenamente."

terça-feira, 25 de junho de 2013

Alguns comentários sobre alguns argumentos meio deslocados: "o golpe" e "quem você pensa que é"



Vivemos uma efervescência política nacional como nunca se viu pelo menos nos últimos vinte e um anos. Mesmo que muitas vezes de forma atravesada, as pessoas estão debatendo, aprendendo e também ensinando muitas lições. E é assim com as pessoas que nunca foram às ruas e, não se engane, também é assim com os veteranos da militância política no país apesar de toda sua quilometragem rodada em manifestações. E é natural que no processo de aprendizado existam muitos exageros. Os exageros dos novatos já são bem conhecidos de todos e só o que se vê é debate sobre seus discursos. Mas e quanto aos exageros da militância organizada? Vamos debate-los? Separei dois desses argumentos meio deslocados e com eles deixo alguns comentários. Embora aos poucos ambos venham a sumir pela própria evolução dos acontecimentos prefiro não pecar pela omissão por mais que corra o risco de desagradar alguns bons companheiros e conhecidos. Vamos lá:

O golpe vem aí - Este é o discurso preferido da militância governista e algumas vezes até é repetido por gente boa e inocente que acaba caindo no papo dos primeiros. Como governistas não aceitam questionamento  ao seu sacro-santo governo ver tanta gente na rua questionando os rumos da nação é motivo pra acionar o alerta de "golpe da direita a vista". Vem a Globo e elogia as manifestações: "pronto é golpe". Sai a propaganda eleitoral do PPS, PSDB e DEM na TV logo no mesmo período que o povo tá na rua: "taí, eu não disse? Golpe!". Esquizofrênico? Em alguns casos sim, em outros é política pensada para impor um clima de chantagem política polarizada em "ou você está com a Dilma ou é golpista". Entende?

Bem... pra quem acha que pode ser plausível o sinal alerta é bom que se diga que não há risco de golpe iminente. E aqui vão seis bons motivos: 1) O imperialismo não quer o golpe. Obama, a União Européia, o FMI ninguém quer o golpe. Até semana passada, Dilma era celebrada por todos eles como uma das mulheres mais influentes do mundo. É completamente diferente, por exemplo, da relação que foi construída entre os EUA e Chavez. 2) O mercado financeiro nacional e mundial não quer o golpe. Como o Lula tanto falou, nunca na história desse país eles ganharam tanto dinheiro. Golpe pra que? 3) O latifúndio não quer o golpe. É melhor que o PT governe e continue servindo de dique para as ocupações de terra no país. 4) O setor industrial também não quer saber de golpe. Qualquer espirro que os empresários dão o governo corre pra dar isenção e de brinde ainda ganham o silêncio dos trabalhadores seja via sindicatos, seja via as políticas compensatórias. 5) Os fundamentalistas religiosos nunca tiveram tanto controle sobre um governo. Lembram da "Carta aberta ao povo de Deus"?  Pois é. 6) Até mesmo a Globo, passados mais de 10 dias dos protestos não colocou em sua grade uma única vez a questão da necessidade de um impeachment ou coisa parecida.

Então, já que não existe golpe a vista é de extremo bom tom deixar esse argumento bem longe da vista de todos.

Quem você pensa que é? - Em função da agressividade dos novos manifestantes com os partidos políticos de esquerda, seja por ignorância, seja por esperteza até de mais, veio a baila essa segunda forma de discurso deslocado que se manifesta em frases como "Enquanto você estava dormindo, nós estavamos lutando", "Onde você estava?", "Lutas dos últimos 165 anos, PRESENTE! E você?" e outros do mesmo naipe. É claro que o discurso é compreensível mas acaba por responder ao desrespeito dos novos com ainda mais desrespeito e com um tom que facilmente pode ser absorvido como arrogante. Ao invés de ajudar, via de regra, joga mais lenha na fogueira que afasta os novos manifestantes daqueles que naturalmente seriam os mais fiéis representantes de suas lutas: a esquerda socialista.

Você lutou por toda sua vida? Que excelente! Então você sem dúvida é um daqueles que Brecht chamou de imprescindíveis. E é exatamente por ser quem são, que os imprescindíveis não podem de maneira alguma abrir mão dos bons, dos muito bons e dos melhores ainda. Ao invés de reivindicar a autoridade do currículo ou da patente, meu bom amigo, argumente. Você tem todos instrumentos pra fazer isso. Então faça. Sim, é verdade que tem horas que o sangue ferve, mas respire fundo e argumente. Aqui vale abrir um parêntese: a hipótese da argumentação não vale para o caso de embate com fascistas de carteirinha. Aí não. Como dizia o velho Trotsky, "fascismo não se discute, se combate". Fecha parêntese.

E por falar em Trotsky existe uma passagem emblemática na obra mais conhecida do reporter John Reed que conta o ambiente dos dias da revolução russa que um pouco que se encaixa com o que digo aqui. Segue a história:
Um dia, quando chegava à porta de entrada, vi Trótski e sua mulher detidos por um soldado. Trótski remexeu em todos os bolsos, mas não encontrou o cartão de ingresso.
— Não tem importância — disse, afinal, dirigindo-se ao soldado. — Você naturalmente me conhece. Sou Trótski.
— Sem o cartão você não entra — respondeu-lhe o soldado. — Seu nome não me interessa.
— Mas sou o presidente do Soviete de Petrogrado.
— Se você de fato é pessoa tão importante — replicou o soldado —, deve trazer consigo um papel qualquer, provando sua qualidade.
Trótski não teve outro remédio senão ficar calmo.
Trotsky, com anos dedicados à construção da revolução, barrado por um jovem soldado recém ingresso na luta revolucionária. Mas que absurdo não? Não. Nenhum absurdo. E por acaso o argumento dos anos de serviço resolveu? Nenhum pouquinho. Então segue, o conselho de Trotsky: muita calma nessa hora, meu caro. Muita calma nessa hora.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"A opressão e o machismo devem ser combatidos de forma implacável" (artigo de Cecília Toledo via @litci)

A Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI), organização mundial fundada pelo trotskista argentino Nahuel Moreno em 1982 e que segue na ativa desde então, publicou na semana passada um importante artigo de Cecília Toledo em seu portal tratando sobre a questão da moral revolucionária.

A partir de um episódio de machismo flagrante no SWP inglês, Cecília retoma um debate de moral imprescíndivel para os revolucionários e que quando ignorado, adiado ou menosprezado tende a transformar organizações inteiras em verdadeiros lixos imprestáveis para o movimento social.

No artigo, Cecília relata ainda que nem mesmo sua própria organização estaria imune à deformação moral e em função disso a necessidade do combate constante em defesa da moral revolucionária no seio da LIT e como se pode perceber, nada mais apropriado no momento para manter ativo o debate principista do que tal episódio inglês. O teor do artigo é claramente um alerta e um chamado para os partidos da própria LIT, mas sem dúvida alguma vale para qualquer organização que se pretenda revolucionária.

Colo aqui na íntegra o texto da trotskista.

Crise no SWP envolve a moral revolucionária e a luta contra a opressão das mulheres

Uma grave crise vem abalando o SWP inglês, um dos maiores partidos de esquerda da Inglaterra, que inclusive se reivindica trotskista. É uma crise de cunho moral e da qual a LIT não pode ficar à margem. Por um lado, os fatos graves que ocorrem em um partido de esquerda afetam os demais porque a burguesia trata de destruir a imagem da esquerda de forma conjunta, como se fossem uma única organização. Por outro lado, é através das ações de cada organização que se reivindica revolucionária que a esquerda vai construindo sua trajetória junto ao proletariado mundial.

Síntese do que ocorreu

Uma militante do partido acusou um dos membros do Comitê Central de tê-la estuprado. A Comissão de Disputas (comissão de moral) investigou o caso durante quatro dias e chegou à conclusão de que não havia provas suficientes contra o acusado. Nesse ínterim, outra militante do partido também acusou o mesmo dirigente de tê-la molestado sexualmente, desta vez por meio do assédio sexual. A Comissão de Disputas não levou em consideração essa segunda denúncia e manteve o relatório inicial, o que gerou descontentamento por parte dos delegados à Conferencia na qual o relatório foi apresentado. Também gerou protestos o fato de a militante que acusou o dirigente não ter sido convidada à Conferencia. Frente ao clima de descontentamento que se instalou, a Comissão de Disputa tratou de conduzir a discussão de forma burocrática, reduzindo o tempo de intervenção e cortando bruscamente a palavra dos oradores, impedindo que houvesse uma discussão ampla. Todos esses fatos lançaram suspeita sobre o trabalho da Comissão e do relatório apresentado, tanto que o plenário praticamente dividiu-se ao meio no momento da votação, com 231 votos a favor do relatório, 209 contra e 18 abstenções. Depois disso, abriu-se uma crise sem precedentes, com diversos militantes rompendo com o partido e inclusive vários intelectuais que sempre trabalharam com o SWP agora se recusam a qualquer colaboração com essa organização.

Por que não houve plena liberdade de discussão?

Em nossa opinião, esses fatos são graves e exigem uma reflexão profunda. Uma denúncia de estupro dentro das fileiras de um partido que se reivindica revolucionário tem de ser encarada com a maior seriedade por todos os militantes, em especial pela direção. O estupro é um tipo de violência contra as mulheres que deixa marcas pelo resto da vida. Uma mulher que já sofreu estupro passa a sentir-se permanentemente ameaçada e com medo de que isso se repita, o que a torna um ser fragilizado para todas as tarefas que tem adiante. É uma agressão física e psicológica que dificilmente se supera.

Por isso, a denúncia feita pela militante deve ser investigada exaustivamente, e a direção do partido tem de ser a maior interessada em encontrar a verdade para evitar que isso jamais volte a se repetir no seio do partido. Ela deveria ser a primeira em garantir a mais plena liberdade de discussão, incentivando todos os militantes a se pronunciar, sobretudo a própria companheira que fez a denúncia, sem qualquer tipo de constrangimento.

Mas não foi isso que aconteceu. A companheira que fez a denúncia não foi convidada a participar da Conferência, mas o dirigente acusado sim, fazendo com que o conjunto dos delegados ouvisse apenas um dos lados. Isso é extremamente grave, porque se houvesse por parte da direção do SWP um interesse sincero em esclarecer a denúncia e encontrar a verdade, teria sido fundamental a participação dessa militante. Por outro lado, o informe da Conferência mostra que, ao invés de garantir a mais ampla liberdade na discussão do relatório, os membros dessa Comissão procuraram a todo custo evitar que todos se manifestassem, prejudicando o esclarecimento dos fatos e criando um clima de desconfiança entre os delegados.

Um questionamento importante feito pelos delegados foi o fato de a Comissão de Disputas não ter levado em consideração a segunda acusação contra o mesmo dirigente, feita por outra companheira, para rever sua decisão de absolver o dirigente ou, como mínimo, de levantar dúvidas sobre sua decisão inicial.

A partir daí, a própria Comissão de Disputas ficou questionada e sob a suspeita de haver agido de forma a proteger o dirigente. Isso porque tem dois de seus integrantes indicados pelo CC, sendo que outros três são ex-membros do CC. O mais democrático é que todos os seus integrantes sejam indicados pelos delegados do Congresso, justamente para não incorrer no erro de favorecer os dirigentes do partido.

A questão da moral revolucionária

No Programa de Transição, Trotsky diz que “em uma sociedade baseada na exploração, a moral suprema é a moral da revolução socialista. Bons são os métodos que elevam a consciência de classe dos operários, a confiança em suas forças e seu espírito de sacrifício na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram o medo e a docilidade dos oprimidos diante dos opressores”. O que ocorreu no SWP foi justamente o contrário: aplicaram-se métodos que minaram a confiança das militantes e inspiraram o medo diante dos opressores.

Esse texto de Trotsky mostra como a luta contra a opressão das mulheres está implicada na defesa da moral revolucionária em nossas organizações e como essas questões não podem ser tomadas de maneira formal.

Nenhuma organização política está isenta de incorrer em desvios da moral revolucionaria. A questão que se coloca é como esses desvios são tratados no interior da organização. Na LIT (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional) também já sofremos problemas desse tipo. Inclusive alguns deles foram tão graves que chegaram a ameaçar a existência da própria LIT. Qual foi a atitude tomada? Em primeiro lugar, não esconder os fatos, apurá-los até o fim e punir os envolvidos com a expulsão de nossas fileiras. Inclusive chegamos ao ponto de perder uma seção inteira de nossa Internacional. A companheira do principal dirigente da seção boliviana da LIT acusou-o de agredi-la de forma violenta e reiteradamente. O caso foi amplamente investigado por nossa Comissão de Moral, que acabou por comprovar as acusações. Mesmo sendo um dirigente de longa trajetória e responsável por uma seção inteira da Internacional, esse dirigente foi expulso de nossas fileiras, o que levou o restante dos militantes dessa seção a abandonarem as fileiras da LIT em solidariedade a ele. Assim, a LIT preferiu perder toda uma seção a manter em suas fileiras um militante que incorreu em graves problemas morais. A questão da moral revolucionária foi um ponto amplamente discutido entre todos os militantes e no IX Congresso Mundial (2008) da LIT foi votado o documento Em Defesa da Moral Revolucionária, que nos serve de parâmetro para nossa atividade diária como parte essencial de nossa construção. Esses fatos nos mostraram que a questão da moral revolucionária não é uma questão a mais, mas sim, a questão chave para uma organização de esquerda que se constrói para destruir o capitalismo e a sociedade burguesa.

Foi uma batalha dura, mas temos certeza de que a LIT saiu fortalecida. No entanto, somos conscientes de que a ameaça permanece, porque a burguesia sempre trata de impor a sua moral para nos destruir. Nós estamos sob a pressão constante da sociedade burguesa e sua moral degenerada, à qual temos de resistir com firmeza para essa moral não penetrar em nossas fileiras e destruir as nossas organizações.

Na LIT, também nesse terreno reivindicamos os ensinamentos de Trotsky. Abrimos com clareza essa discussão em nossas fileiras e enfrentamos os problemas, batalhando por uma moral comunista em nossas seções, no sentido de evitar que as pressões cresçam e acabem por nos destruir. Por isso nos preocupamos com o que está ocorrendo no SWP, e queremos que nossa experiência ajude a todos os militantes revolucionários nos diversos países a compreender a sua importância, a se conscientizar de que essa é uma batalha constante, se queremos construir uma verdadeira organização que sirva para a luta revolucionária do proletariado. A cada dia que passa nos convencemos mais e mais de que não haverá uma construção sólida de um partido revolucionário nacional e nem da Internacional à qual tanto aspiramos se não defendermos com toda a coragem e doa a quem doer a moral revolucionária em nossas fileiras.

A moral partidária

Assim como a classe operária necessita de uma moral própria para lutar contra a burguesia, que envolve questões específicas do movimento operário, como a proteção mútua entre os trabalhadores perseguidos, nunca entregar um companheiro de luta à patronal ou à polícia, não utilizar meios violentos para dirimir divergências e manter relações de lealdade e honestidade entre as organizações operárias, o partido revolucionário também tem uma moral específica.

O partido é um instrumento mais avançado- que luta para derrubar a burguesia e pela ditadura do proletariado. Para isso, precisa ter uma disciplina de ferro e uma moral superior inclusive à moral proletária, ainda que parta dela.

A confiança entre todos é seu cimento essencial, é a chamada “confraria dos perseguidos”, dos que querem destruir o capitalismo e por isso são perseguidos e podem pagar o preço com a própria vida. Portanto, é necessária uma moral superior para manter a força dessa organização, para resistir às pressões que a burguesia nos impõe. No partido, o coletivo é tudo, em oposição à idéia típica do capitalismo, onde prevalece o individualismo e o egoísmo. É preciso fortalecer a confiança de cada um em suas próprias forças, e ao mesmo tempo desenvolver a confiança entre todos os militantes, fazendo com que um confie no outro, porque nos momentos mais graves de nossa luta, vamos ter de confiar em nossos companheiros. Para isso, queremos e fazemos com que cada um cresça e se desenvolva politicamente. Porque nosso partido tem de ser conspirativo contra o Estado, e isso exige uma total confiança entre os camaradas, sejam homens ou mulheres.

A confiança nas mulheres

Como na sociedade existe uma defasagem entre os homens e as mulheres – estas têm menos condições de militar, são vistas como seres inferiores, tardaram mais na história a entrar para a vida política, continuam carregando o peso da dupla jornada –, o esforço para que as mulheres cresçam deve ser redobrado.

Em casa, no trabalho, na escola, em todos os âmbitos da sociedade, a mulher é colocada em situação de inferioridade e sofre todo tipo de opressão, preconceito e abuso sexual. O partido tem de ser o oposto. Nele ela deve encontrar um ambiente de respeito e interesse por seu desenvolvimento político. O respeito revolucionário em relação a uma mulher que entra no partido e se dispõe a dar sua vida pela revolução é tudo, porque ao entrar no partido ela estará superando obstáculos muito maiores que um homem.

Dentro do partido, quando um dirigente partidário oprime sexualmente uma camarada, comete uma falta gravíssima, sobretudo porque não é isso o que se espera de um militante que se disponha a dedicar sua vida à revolução socialista. O socialismo é incompatível com esse tipo de atitude. Dentro do partido, as mulheres conscientes, as militantes revolucionárias, não esperam encontrar o mesmo que encontram todos os dias na sociedade em geral. Dentro do partido, elas confiam nos camaradas, baixam sua guarda em relação a eles, e só esperam em troca confiança e uma relação de respeito e camaradagem.

Nós, que lutamos contra a opressão das mulheres, sabemos como é importante para uma mulher tornar-se consciente politicamente e, sobretudo, entrar no partido. Por isso se os casos de machismo são graves na sociedade como um todo, eles são duplamente perniciosos dentro de nossas fileiras, porque estarão destruindo uma militante e também o nosso objetivo final, ou seja, a própria construção do partido, o instrumento que vamos construindo dia a dia para conquistar uma sociedade socialista e, com ela, a emancipação total das mulheres. Um partido revolucionário que não incorpora a luta contra a opressão em sua atividade cotidiana não pode ser vitorioso na luta pela liberação da classe. É necessário combater todos os desvios morais e, ao mesmo tempo, ser coerente com o programa de liberação para toda a classe trabalhadora; homens e mulheres.

Um combate constante

Inseridos na sociedade burguesa, onde prevalece uma moral degenerada, existe para o partido uma necessidade impostergável, que é educar teórica e programaticamente a sua militância na moral revolucionária. E essa tarefa tem de ser diária. Quando os desvios morais ocorrem, fica evidente que essa tarefa não está sendo levada a sério ou é levada apenas de maneira formal. E com isso o partido fica mais exposto ainda aos ataques da imprensa burguesa e das forças conservadoras, que se aproveitam desses desvios para fazer todo tipo de ataque às organizações de esquerda.

Por isso é tão importante ir até o fim na apuração dos fatos. Para mostrar à classe trabalhadora e ao conjunto da sociedade que nossos partidos são distintos dos partidos burgueses, onde reina a corrupção, a calúnia, o engodo. Para mostrar que os políticos revolucionários são diferentes dos políticos burgueses, que usam a política para se promover e para roubar os cofres públicos. Para mostrar que nós temos uma moral distinta e que nossa luta contra a opressão das mulheres é uma luta sincera, que não figura apenas em nossos documentos, mas faz parte de nossa vida cotidiana. Só dessa forma poderemos ganhar os trabalhadores - homens e mulheres - para as nossas fileiras.

Os camaradas do SWP têm um exemplo na própria Grã Bretanha de como esse tipo de desvio moral pode destruir nossas organizações, por mais fortes que elas sejam. O WRP, de Healy, uma organização com uma longa trajetória na esquerda inglesa, mas que nos anos 80 veio abaixo por desvios morais. Como dirigente máximo do partido, Healy traiu a confiança dos militantes, sobretudo das mulheres. Várias delas foram abusadas sexualmente por ele, e quando encontraram coragem para denunciá-lo, a maior parte da direção tratou de abafar os fatos e desqualificar as acusações para proteger o dirigente. O resultado dessa atitude veio logo em seguida: a destruição total da organização.

Precisamos aprender com esses erros para evitar que se repitam e cheguem ao ponto de nos destruir. A opressão das mulheres e os desvios machistas dentro de nossas organizações devem ser combatidos de forma implacável. A moral revolucionária exige de nós uma vigilância constante, que implica não apenas em uma discussão frequente junto à militância por meio de debates, palestras e cursos, mas, sobretudo, uma apuração exaustiva de seus desvios. Nossa experiência mostra que se não exercemos uma vigilância constante e uma posição firme e principista em relação a esses desvios, não seremos capazes de evitar resultados desastrosos e irreversíveis.

Extraída de nossa experiência diária e muitas vezes dolorosa, essa é a maior lição que devemos deixar para todos os militantes, homens e mulheres que hoje estão aderindo às organizações revolucionárias no mundo inteiro e se dispondo a combater a moral burguesa, assentada no egoísmo, no privilégio de uns sobre outros e na odiosa opressão das mulheres.