sexta-feira, 25 de maio de 2012

Porque sou contra a #marchadasvadias

A marcha das vadias que acontece nacionalmente neste dia 26 de maio praticamente é reivindicada por todos os setores da esquerda brasileira e rechaçado obviamente por todas as matizes e espécies de direitosos de plantão. Aos poucos a manifestação vem se tornando um divisor de águas. É contra a marcha? É de direita. É a favor dela? É de esquerda. A coisa é tão de um jeito que é cada vez mais comum ver perfis de militantes e ativistas de organizações socialistas como o PSOL e até mesmo do PSTU reivindicando o evento. Bem, não sou a favor da marcha e sou daqueles que pode se dizer que são de esquerda sem nenhuma concessão. E me permitam, ou não, não me somarei ao coro dos que chamam a fortalecer essa iniciativa como se ela tivesse o mesmo caráter da marcha da maconha ou das marchas do dia do orgulho gay. Não enxergo assim. E vejo na verdade com tristeza, o 8 de março ser esvaziado em especial de conteúdo, enquanto a marcha ganha força.

A primeira sluts walk ocorreu ano passado, 2011, no Canadá e teve como motivação a justa e necessária resposta à forma como a polícia vinha tratando os inúmeros casos de abuso sexual na Universidade de Toronto. O policial Michael Sanguinetti indicou como forma de combater a violência, que "as mulheres evitassem se vestir como vadias para não serem vítimas". Como resposta a essa declaração nojenta e absurda, 3000 pessoas ocuparam as ruas de Toronto com cartazes reivindicando, digamos assim, "o direito de ser vadia". Rapidamente várias outras marchas foram ocorrendo mundo afora e em 2012 chegam agora à sua segunda edição.

Antes de mais nada é fundamental condenar e combater qualquer argumento que responsabilize a vítima pela violência sofrida por seu agressor. Estupidez da estupidez do estilo "se você se veste como vadia deve ser tratada como uma vadia". Nunca uma roupa, maquiagem, postura, ou modo de agir, pode ser considerada como um convite do tipo "sou toda tua, me pegue e me come agora". Combater essas ideologia imunda é sim uma tarefa de todos aqueles que se dizem de esquerda.

Agora uma coisa é combater duramente as ideias e argumentos machistas e até mesmo achar justa a marcha canadense de 2011. Outra coisa é passar a defender o "orgulho de ser vadia" porque a sociedade machista chama de vadia mulheres que defendem o direito à liberdade sexual. Ora essa, a sociedade racista chama negros de "neguinhos de merda" e gays de "aberrações sexuais" e nem por isso, negros e gays precisam ou muito menos devem agitar o "orgulho de ser um 'neguinho de merda' ou de ser uma 'aberração sexual'". É absolutamente sem sentido exportar a marcha canadense de 2011 para fora de seu contexto no espaço e no tempo.

Mais estranho ainda é afirmar a busca irrefreável pela liberdade sexual como uma das bandeiras fundamentais da esquerda. Isso não é assim. Pelo contrário, ela é via de regra uma reivindicação de classe-média, ou para os mais marxistas, uma reivindicação pequeno-burguesa. Nada melhor do que ler o que escreveu Clara Zetkin sobre Lênin e o Movimento Feminista para perceber isso. Nas notas de seu diário a comunista alemã relata sua conversa com o revolucionário russo onde entre outros assuntos ele versa sobre a obsessão do movimento feminista alemão sobre a questão da sexualidade.
Desconfio daqueles que estão absorvidos constante e obstinadamente com as questões do sexo, como o faquir hindu com a contemplação do próprio umbigo.

Parece-me que essa abundância de teorias sexuais, que não são em grande parte senão hipóteses arbitrárias, provém de necessidades inteiramente pessoais, isto é, da necessidade de justificar aos olhos da moral burguesa a própria vida anormal ou os próprios instintos sexuais excessivos e de fazê-la tolerá-los.

Esse respeito velado pela moral burguesa repugna-me tanto quanto essa paixão pelas questões sexuais. Tem um belo revestimento de formas subversivas e revolucionárias, mas essa ocupação não passa, no fim das contas, de puramente burguesa.
É preciso dizer algo mais?

Diante da divisão que já citei que ou se é de esquerda ou se é contra a marcha das vadias, prefiro ficar com Lenin, Clara Zetkin e as mulheres trabalhadoras, sendo de esquerda e contra a marcha.