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sábado, 9 de agosto de 2014

A libertação de Hideki e Lusvargui – ou o nescau terrorista & a justiça playba (artigo fantástico de @lex_lilith)


Após 45 dias de encarceramento absolutamente absurdo, Fábio Hideki e Rafael Lusvarghi foram finalmente libertados na última quinta-feira, dia 07 de agosto. Por ocasião de sua libertação, o jornalista e escritor Alex Antunes publicou em seu blog no Yahoo!Notícias um excelente artigo com o título "A libertação de Hideki e Lusvargui – ou o nescau terrorista & a justiça playba". Antunes não se contenta em somente questionar o aprisionamento absurdo dos ativistas, enxergado mais do que corretamente por muitos como a manifestação de estado de exceção, para nosso deleite ele examina o papel da justiça, ou melhor dizendo, do juiz por trás da sentença e seus argumentos estapafúrdios como o de qualificar os rapazes de esquerda caviar comprovando a completa ignorância do magistrado.

Leitura recomendadíssima.

A libertação de Hideki e Lusvargui – ou o nescau terrorista & a justiça playba


A manutenção da prisão dos ativistas Fábio Hideki e Rafael Lusvarghi foi um escândalo que durou 45 dias. Foram presos em 23 de julho, após uma manifestação contra a copa em São Paulo, e indiciados como black blocs, pela suposta posse de materiais explosivos, entre outras acusações.

Acontece que havia inúmeras testemunhas em contrário. Desde o padre Júlio Lancelotti e outros presentes, que viram e filmaram a polícia vasculhando a mochila de Hideki, já dentro do Metrô, até o fato incontestável de que os dois não se conheciam (o que punha por terra a acusação de que fariam parte da “mesma organização criminosa”).

Hideki é estudante e funcionário da USP. Pacifista e vegetariano (não na prisão, onde sua dieta foi desrespeitada), não é adepto de práticas violentas. Já o professor de inglês Lusvarghi foi preso sem camisa, de kilt. Gosta de games, de vikings e de estratégia militar; já foi PM por curtos períodos, em São Paulo e no Pará, e tentou se alistar na Legião Estrangeira da França e no exército russo, tendo viajado bastante pelo exterior.

Ao contrário de Hideki, que é um ativista de trajetória mais ou menos padrão, Lusvarghi é um aventureiro. De certa forma exemplificam a variedade de tipos que foram para as ruas protestar desde as manifestações de junho de 2013 – mas certamente não têm nada em comum, e não configuram nenhum “modus operandi”.

Ou melhor, têm algo em comum sim. Nesta segunda-feira soube-se que a perícia da polícia (do Gate – Grupo de Ações Táticas Especiais e do IC – Instituto de Criminalística) determinou que os objetos que supostamente portavam não eram explosivos, e não tinham qualquer potencial agressivo ou destrutivo.

Uma garrafinha de nescau estaria com Lusvarghi, com tampa de papel presa por um elástico, e uma estranha lata estaria com Hideki – um frasco do fixador de corantes para tecidos Fix com um barbante passando por dentro. Fazem um belo aparato de guerrilha urbana, junto com a cândida e o pinho sol do morador de rua Rafael Vieira, que foi condenado a cinco anos de prisão no Rio de Janeiro, por carregá-los durante as manifestações do ano passado. Lembra as trapalhadas da ditadura militar. E seria ridículo, se não se tratasse da destruição da vida de cidadãos. As recentes investigações da polícia do Rio flagraram citações a um certo suspeito, Bakunin, que passou a ser investigado, como se estivesse vivo e no Brasil. O episódio se parece com as apreensões por engano, durante a ditadura, do romance A Capital, de Eça de Queiroz.

O advogado de Hideki, Luiz Eduardo Greenhalg, entrou já na terça-feira com um novo pedido de libertação. Duas questões se colocam, para além da grande questão da ilegalidade dessa prisão política, baseada em (ex) provas fraudadas (aqui neste site estão todas as informações sobre Hideki).

A primeira: porque um laudo da própria polícia se prestaria a invalidar as provas materiais – principalmente se elas foram plantadas? Uma teoria conspiratória mas atraente é a de que o governador Alckmin sabe que se a perícia “encontrasse” materiais explosivos, a percepção popular seria de que as provas e o laudo foram uma grande armação. Melhor dar um freio de arrumação no caso.

A outra é a estranha manifestação do juiz Marcelo Matias Pereira, da 10ª. Vara Criminal de SãoPaulo, do dia 01 de agosto, sexta-feira (antes do laudo, portanto), que naquela ocasião negou o pedido de revogação da prisão preventiva, mantendo Hideki e Lusvarghi presos. Escreveu o juiz em um trecho: “Além de descaradamente atacarem o patrimônio particular de pessoas que tanto trabalharam para conquistá-lo, sob o argumento de que são contra o capitalismo, mas usam tênis da Nike, telefone celular, conforme se verifica nas imagens, postam fotos no Facebook e até utilizam uma denominação grafada em língua inglesa, bem ao gosto da denominada esquerda caviar”.

Denominada... por quem, excelentíssimo senhor doutor juiz Pereira? A expressão “esquerda caviar” (que o blogueiro da Veja Rodrigo Constantino costuma usar), além de trazer um indevido conteúdo ideológico e fora dos autos para um despacho oficial, ainda é empregada, no caso, de maneira errada.

“Esquerda caviar” (“gauche caviar” na França, e seus similares “champagne socialist”, na Inglaterra, “limousine liberal” e “radical chic” nos EUA, “salonkommunist” ou comunista de salão na Alemanha, e outros que a Wikipedia lista) diz respeito à época contracultural em que o socialismo e as lutas civis ficaram chiques em alguns ambientes (de 1968 em diante).

O termo “radical chic” foi cunhado por Tom Wolfe em um artigo de 1970, "Radical Chic: That Party at Lenny's", que falava de uma festa do maestro Leonard Bernstein com seus amigos da elite culta para obter fundos para os Panteras Negras. Na França, o similar “caviar gauche” serviu para designar socialistas de hábitos poucos sóbrios, a começar por François Miterrand, presidente entre 1981 e 1995.

Ou seja, o uso constantino da expressão é uma distorção local (ainda mais) moralista. Que o blogueiro vende e que o ilustre juiz aparentemente comprou, de maneira quase inocente. A noção de que ativistas não deveriam calçar tênis de marca, postar no Facebook e usar termos em inglês (como quase todos os jovens fazem) parece esperar que os manifestantes atuais se comportem como proletários comunas caricatos do século passado. Sendo que os próprios proletários DESTE século já estão todos no Facebook. Constantino e a direita blogueira têm que decidir se a esquerda ortodoxa é arcaica e ultrapassada, como gostam de dizer, ou não.

Acontece que o juiz Pereira é o mesmo que inocentou Danilo Gentili de uma acusação de racismo, quando o “humorista” ofereceu bananas a um negro (o empresário Thiago Ribeiro), em 2012. E o desvio de significado começa a fazer sentido. Gentili é amigo de Constantino. Não espantam juízes conservadores – é um calo da profissão. Mas não se espera da justiça que ela se expresse como um playboy fanfarrão.

Na tarde de hoje, quinta-feira, diante do novo pedido de libertação com base no laudo, e da repercussão de sua sentença anterior, o próprio juiz Pereira finalmente mandou soltar Hideki e Lusvarghi. Um mês e meio de estado de exceção, baseado em coisa nenhuma, a não ser na determinação de reprimir a livre manifestação política.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Identifique quem é "pessoa de bem" (#charge de Quinho para os SHEHERAZADES da vida)

Via página do Quinho no Facebook.

'Eu não, meu senhor' (artigo de José de Sousa Martins no @estadao)

O Estadão publicou neste sábado texto do sociólogo e professor da USP, José de Sousa Martins, sobre o caso do garoto negro de 15 anos encontrado nu e acorrentado pelo pescoço em um poste. O caso ficou nacionalmente conhecido por ter sido veiculado no jornal do SBT com um depoimento de defesa dos "justiceiros" feito pela âncora ultra-reacionária Raquel Cheiragrade Sheherazade. Por consideramos extremamente relevante publicamos na íntegra o texto que pode ser lido no próprio site aqui.

'Eu não, meu senhor'

Era de noite. Foi no Flamengo. Trinta marmanjos chegaram em 15 motos. Os quatro adolescentes caminhavam para Copacabana, "para tomar um banho de mar". "Era (um) fortão e tinha um magrinho. O magrinho já chegou jogando a moto em cima. Vou matar! Vou matar os quatro!" A moto e a enturmação fizeram o magrinho ficar fortão e valente. O magrinho foi acusando: "Bando de ladrão, fica roubando bicicleta dos outros". Três dos garotos conseguiram fugir. O menino de 15 anos, não. Nenhum deles estava de bicicleta.

Desde quando seus antepassados foram trazidos da África, empilhados em navios negreiros, para serem vendidos no Valongo depois de estirados na praia para destravar o corpo, o menino negro sabe quem manda e quem obedece. O tronco e a chibata no lombo de seus antepassados surraram também sua memória e lhe ensinaram as lições que sobrevivem 125 anos depois da liberdade sem conteúdo da Lei Áurea. A lei que libertou os brancos do fardo da escravidão antieconômica. Mais de um século depois, o menino ainda sabe como é que se fala até mesmo com moleque que herdou os mimos da casa-grande: "Eu não, meu senhor, todo mundo aqui é trabalhador", defendeu-se.

Esse menino descende de homens livres há mais de um século. Mas a chibata ficou lá dentro da alma, ferindo, dobrando, humilhando, criando desconfiança, ensinando artimanhas de quilombo para sobreviver. Esse "meu senhor" diz tudo, fala alto, grita na consciência dos que a tem. Esse "meu senhor" desdiz a liberdade, desmente a Lei Áurea, nos leva de volta aos tempos da senzala, do tronco e do pelourinho. Esse "meu senhor" expressa uma liberdade não emancipadora, que não integrou o negro senão nas funções subalternas de uma escravidão dissimulada, mas não na ressocialização para a liberdade e para a cidadania. Quem acusa o menino não sabe que a sociedade não pode colher o fruto que não semeou.

No dia 13 de maio de 1888 não libertamos ninguém. Continuamos todos escravos da escravidão que não acaba, da moral retorcida que nos legou, da consciência cindida que nos faz crer que somos uma coisa sendo outra. No mundo novo da liberdade abstrata de um contrato fictício não podemos nos encontrar porque não encontramos o outro, não podemos ser livres porque não nos libertamos no outro, não podemos ter direitos de que os outros carecem.

O menino levou uma surra de capacetes. "Bateu, bateu", disse ele a uma repórter. Desmaiou. Foi ferido a faca na orelha. Com uma trava de bicicleta, foi amarrado pelo pescoço num poste. Coisa de gente muito valente, coisa de macho: 30 homens contra um menino franzino. E na Câmara dos Deputados houve quem se orgulhasse disso. Confessou um deputado mais inclinado ao justiçamento do que à Justiça: "Praticou um ato corajoso quem deu uma surra nesse vagabundo, porque os moradores estão cansados de serem roubados e assaltados por essa gentalha". Isto é, gentinha, populacho, ralé. O mesmo tratamento que tinha vigência antes da lei do 13 de Maio, quando o escravo era considerado coisa, semovente, mercadoria, um ser abaixo da condição humana. Mero animal de trabalho, com a diferença de que das azêmolas diferia porque falava, gemia, chorava, sabia.

A Lei Áurea trouxe implícita a igualdade jurídica do negro liberto, coisa que não ficou muito clara na Constituição de 1891, que condicionou a cidadania ao ter propriedade e ao ser alfabetizado, não ser mendigo, não ser mulher, não ser praça de pré. A igualdade do 13 de Maio era, portanto, uma igualdade relativa. Porém, quem não é igual não pode ser livre. O deputado que agora, no próprio Parlamento, se congratula com os agressores do menino negro, revoga a Lei Áurea, restaura a inferioridade social do cativo e dos filhos e herdeiros do cativeiro. Traz de volta o feitor.

O Estado brasileiro, de que o deputado é membro e privilegiado beneficiário, é um Estado omisso, descumpridor das próprias leis que inventa e promulga. A delinquência juvenil é fruto dessa omissão e do desamparo que engendra e alimenta. Mas fruto, também, da pseudocidadania dos atiradores de pedra e dos linchadores, dos que reclamam direitos, omitindo-se quanto aos deveres correspondentes. No próprio caso ocorrido no Flamengo, alguns boyzinhos de 14 que foram presos e já estão soltos declararam que patrulham "o Aterro em busca de potenciais autores de delitos". O caso do menino deixa claro que os "potenciais autores de delitos" têm cor e raça. O vigilantismo reacionário ergue uma muralha de terror para criar um território fechado e excludente, só deles. Uma pátria particular, impatriótica.

O menino foi libertado pelos bombeiros que o socorreram. Tiveram que usar maçarico para cortar o cabo de aço que lhe atava o pescoço ao poste. Foi levado para o hospital. De lá fugiu e foi espontaneamente se apresentar na casa abrigo da prefeitura do Rio. Os agressores louvados pelo deputado não se apresentaram em lugar nenhum. Fugiram. Por aí se vê que ao menos o menino tem recuperação.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

GCM contra skatistas na Roosevelt: uma guarda muito além de seu próprio lema


Aconteceu na primeira sexta-feira do ano (04/01), foi parar no YouTube dois dias depois (06/01) e passou a ser notícia no G1 nesta terça (08/01). Um integrante a paisano da GCM de São Paulo, cujo lema é "AMIGA, PROTETORA e ALIADA" deu um chave de braço em um skatista na praça Roosevelt. Vários jovens cercaram o agressor pedindo que liberasse o rapaz ao que foram correspondidos com um show de spray de pimenta enquanto reforço era chamado. O skatista que estava filmando toda a cena também ganhou uma dose super-extra de spray de pimenta no rosto o que o fez afastar-se. Logo que pôde voltou à cena do crime e seguiu gravando a cena ao que foi recebido por um tratamento no mínimo inusitado pelo agente da GCM. O "diálogo" se deu mais ou menos assim:
- Agita meu! Agita meu! Vai agita! Vai, vai, agita!
- Que é você que quer mano?
- Seu pau no cu!
- Você é policial. Você tem que proteger a gente!
- Agita!
- Proteger. Você tá errado!
- Cala essa porra dessa boca, quem tá errado aqui é você seu bosta, tu não é porra nenhuma!
- Por que é que eu tô errado?
- Seu merda do caralho! Seu bosta!
- Eu não sirvo pra nada? Eu trabalho pra caramba.
- Taca pedra seu pau no cu! Trabalha porra nenhuma! Você é vagabundo! Fica aqui andando de skate!
- Ah... meu Deus!
- Tá? Seu arrombado!
- Beleza!
- Seu vagabundo "paga-bico" porra nenhuma!
Que maravilha hein? Depois de uma chave de braço "amiga" e de uma "protetora" dose de spray de pimenta, nada melhor que um belo bate-papo de "aliado".

Naturalmente o episódio descamba para o debate do tema do uso das praças e da convivência entre os diversos públicos e culturas, um assunto pra lá de saudável e necessário, coisa que é feita de forma tendenciosa pelo próprio G1 mas também de um ponto de vista que busca o diálogo como faz o Tsavkko em seu blog. Mas o que não pode em hipótese alguma deixar de ser debatido é a necessidade e até mesmo a própria existência da guarda municipal, seja ela em São Paulo ou em qualquer lugar do país. Isso mesmo! Sou daqueles que acredito que as guardas municipais sequer deveriam existir e suas existência e desenvolvimento, inclusive passando do armamento não-letal para armas de fogo como em Salvador, demonstram o fracasso da sociedade moderna de conceder o próprio acesso à cidade a seus moradores.

Qual o sentido da guarda? Seria porque os jovens estragam as praças com seus skates e tudo o mais? Ou seria porque os ambulantes atrapalham o caminho das "pessoas de bem" com suas tralhas espalhadas nas calçadas? Seria por causa dos moradores de rua que enfeiam a cidade? Seriam esses os problemas que justificariam a solução "Guarda neles"? Pois bem... se é isso então não poderia ser mais contrário do que sou à existência da guarda. O que nossa juventude precisa é de espaço para praticar skate ou o que quer que seja. Já os ambulantes existem porque não há emprego digno para todos nas cidades. E os moradores de rua por sua vez precisam é de lugar para morar. Ou seja, direito à cidade é o que todos precisamos. E como os administradores não estão dispostos nem são capazes de garantir isso o caminho, como sempre, é o da boa e velha repressão.

Aproveitando a deixa do autor do video do YouTube que colocou o problema da Roosevelt no centro das atenções nos últimos dias, deixo meu recado não menos irônico aos prefeitos e gestores municipais: "Parabéns pelo serviço de vocês, vocês estão de parabéns" (sic).

Segue o video:

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Salve Dilma! Aqueles que vão morrer te saúdam!


"Hoje são 263 índigenas Guarano Kaiowá assassinados no Mato Grosso do Sul a mando do fazendeiro" denuncia o cacique Ladio Veron no video realizado pela "Tekoa Virtual Guarani" e apresentado na abertura do Fórum Social Mundial 2012 com a presença da presidenta Dilma Roussef. O dado é assustador mas até o momento não se tem notícia de nenhuma atitude concreta por parte do governo federal, estadual ou municipal que pare imediatamente com essa chacina.

O video de 3 minutos com depoimento de 4 liderenças dos Kaiowá marcadas para morrer está disponível na conta do Vimeo da Tekoa Virtual Guarani há cinco meses e agora também na conta do YouTube do autor deste blog.

Assista. Divulgue.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Não existe respeito ao pobre em SP. Moradores da Favela do Moinho agredidos pela Guarda Civil Metropolitana.


Está acontecendo agora a noite mais uma demonstração de como prefeitura e governo de São Paulo tratam do povo pobre. A Guarda Civil Municipal cercou a Favela do Moinho para impedir que os moradores, vítimas de vários incêndios, reconstruam suas casas. Ao invés de casa para morar, os moradores recebem desalento e repressão. Aliás muita repressão e com direito a pelo menos uma pessoa baleada até o momento.

A imprensa fala em confronto. Mas balas, bombas, cacetetes e gás lacrimogêneo contra paus e pedras não é confronto. É violência estatal nua e crua.

Nosso apoio e solidariedade ao povo pobre e trabalhador que constrói e faz São Paulo acontecer mas não pode ter direito a um teto pra morar e pra viver.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Dois anos da morte de Zé Maria do Tomé no cordel de Jorge Macêdo #impunidade

No dia 21 de abril de 2010 morreu José Maria Filho, o Zé Maria do Tomé, liderança popular da região do Limoeiro do Norte, assassinado com 25 tiros pelos bandidos do agronegócio do Vale do Jaguaribe, no Ceará. Passados dois anos os assassinos e seus mandantes seguem livres e impunes.

Aqui prestamos nossa homenagem com o cordel de Jorge Macêdo, poeta e cantador popular dessa região sofrida onde a justiça dos ricos é feita a bala e a luta dos pobres é feita com bravura, suor e sangue.

ZÉ MARIA DO TOMÉ
Um exemplo de luta por seu povo

Terras manchadas de sangue
Injustiças confirmadas
Indignação e luto
Levantes e barricadas
São capítulos do histórico
De vidas prejudicadas

Com tantas desigualdades
Atos torpes e tiranos
O poderio econômico
Contra os valores humanos
Dá pra ver que pouca coisa
Mudou ao longo dos anos

Os defensores do povo
São sempre desprotegidos
Ignorados por muitos
Facilmente perseguidos
Mesmo com todos impasses
Nunca se dão por vencidos

A fúria da violência
Oprime a dignidade
Muitas investigações
Não esclarecem a verdade
Daí os crimes se ocultam
Nas trevas da impunidade

Já são inúmeros casos
Impunes, Infelizmente
Não se conta quantos líderes
Foram mortos cruelmente
Por que defendiam o povo
A terra e o meio ambiente

Na chapada do Apodi
Numa ação premeditada
Zé Maria do Tomé
Foi morto numa emboscada
Crime horrendo que deixou
A região abalada

Complementando o relato
Do assunto em que prossigo
Tenho uma lista de exemplos
Confira agora comigo
Por que quem defende o povo
Vive em constante perigo

Lembra Antônio Conselheiro?
Religioso que quis
Ver os pobres sertanejos
Numa vida mais feliz
Deu-se o maior genocídio
Da história do país

Chico Mendes outro mártir
O maior dos seringueiros
Defendendo a Amazônia
Vida digna aos companheiros
Tornou-se inimigo e morto
Por ordem dos fazendeiros

Alagoa Grande sente
A falta de Margarida
Que tombou assassinada
Em frente a sua guarida
A gana dos usineiros
Veio ceifar sua vida

Padre Jósimo Tavares
Foi mais um dos brasileiros
Que já tombaram na mira
Das armas dos pistoleiros
Porque não era a favor
Da ganância dos grileiros

Irmã Dorothy no Pará
A Santa missionária
Parou a sua missão
Em uma ação sanguinária
Dos que não querem nem deixam
Fazer a reforma agrária

Ainda têm muitos outros
Que eu poderia falar
Mas deixo pra outra vez
Porque eu vou retornar
Ao caso de Zé Maria
Nosso líder popular

Foi José Maria Filho
Um exímio ser humano
Nascido a quatro de outubro
De sessenta e cinco o ano
Na pequena Quixeré
No Vale Jaguaribano

O povoado serrano
Berço natural de Zé
Pertence a dois municípios
O distrito de Tomé
Uma parte é Limoeiro
E a outra é Quixeré

Casou com dona Lucinda
Mulher de um espírito forte
Mas na tragédia sentiu
A dor de um profundo corte
Ainda hoje lamenta
Sua sina e sua morte

Zé era pai de família
Duas moças e um menino
Márcia que é a mais velha
Soluçou em desatino
Juliane, adolescente
E Gabriel bem pequenino

Com apenas cinco anos
Na orfandade se cria
O pequeno Gabriel
O xodó de Zé Maria
Ainda chora e pergunta
Pelo seu pai todo dia

Veio de família humilde
Neto e filho de operário
Ainda jovem tomou
O mais nobre itinerário
Pois além de agricultor
Foi líder comunitário

Zé passou a ser a voz
Dos conterrâneos sofridos
Nos movimentos de base
Nos protestos reunidos
Combatendo as injustiças
No grito dos excluídos

Enfrentando sacrifício
Rompendo dificuldade
Zé queria o bem comum
Para coletividade
Das setecentas famílias
Da sua comunidade

Era também presidente
De uma associação
Naquela comunidade
Estava sempre em ação
Reivindicando melhoras
Para toda a região

Lutava sempre a favor
Dos sem-terra desgarrados
Trabalhadores rurais
Pobres desapropriados
São pessoas que não têm
Seus direitos respeitados

Pedia escola, saúde
Assistência e moradia
E das casinhas de taipa
O nosso líder queria
A substituição
Por casas de alvenaria

Era o guardião do povo
Do Tomé e região
Os problemas se agravaram
Depois da irrigação
Mas Zé Maria lutava
Em busca de solução

Passou a denunciar
O uso indiscriminado
De diversos agrotóxicos
Num projeto mal falado
Que estava deixando em muito
O povo prejudicado

Pois as substâncias químicas
Sendo assim não fazem bem
Porque envenena o solo
E o sub-solo também
Se continuar assim
Não vai escapar ninguém

Pulverização aérea
Este é o grande mal
Pois o alvo não é só
Os insetos do local
Por que se espalha no vento
E atinge o povo em geral

Zé Maria combatia
O uso de inseticida
A vida a cima do lucro
É a norma preferida
Mas as empresas preferem
O lucro acima da vida

Houve um projeto de lei
Contra a pulverização
Mas quem detém o poder
Domina até sem razão
Da lei que estava aprovada
Fizeram a revogação

A lei era de autoria
Do edil Eraldo Holanda
Mas num confronto de força
A maioria comanda
Atendendo aos interesses
Da outra parte que manda

Assim a população
Continua condenada
A se banhar com veneno
Que despejam na chapada
Em vez de água potável
Beber água envenenada

Em estudos levantados
Pela Universidade
Federal do Ceará
Dizem ter em quantidade
Substância venenosa
Nociva à comunidade

Depois de várias pesquisas
No campo e nas residências
A médica Raquel Rigotto
Constatou as evidências
Da água contaminada
E as graves consequências

Então está comprovado
Zé Maria estava certo
Protestava porque era
Mais audaz e mais esperto
E sentia as ameaças
Desse perigo de perto

Foi mais uma das bandeiras
Que Zé Maria empunhou
Austero, mas coerente
O tempo todo lutou
Lhe custou a própria vida
Mas seu exemplo ficou

Era vinte e um de abril
Do ano dois mil e dez
Aparece o seu carrasco
Com o pior dos papéis
Eliminar sua vida
Com as formas mais cruéis

Duas e meia da tarde
Horário em que Zé Maria
Voltava de Limoeiro
Na moto que possuía
Agonizou baleado
Na margem da rodovia

Sofreu vinte e cinco tiros
O defensor da chapada
Foi erguido um monumento
Na beira daquela estrada
Um marco memorativo
No local da emboscada

O luto cobre a família
Seus amigos e parentes
A morte de Zé Maria
Provocou lágrimas pungentes
Coincidiu com a data
Da morte de Tiradentes

Foi mais um assassinato
Extremamente brutal
Que repercutiu até
Na mídia internacional
Além do amplo destaque
Em toda imprensa local

Até hoje ninguém disse
De onde foi que partiu
Esse desfecho macabro
Que o nosso herói sucumbiu
Impera a lei do silêncio
Ninguém sabe, ninguém viu

Aos quarenta e quatro anos
Quase que precocemente
Zé Maria deu a vida
Pela vida de uma gente
Que só exige o direito
De viver condignamente

Vamos usar o bom senso
Pra ver se o mal se afasta
Vamos dar fim esta guerra
Que há tanto tempo se arrasta
De perseguição já chega
De violência já basta

Ambientalista nato
Amigo da ecologia
Seus ideais estão vivos
Descanse em paz Zé Maria
Não vamos arrefecer
Os seus sonhos hão de ser
Realizados um dia

domingo, 25 de março de 2012

#TrayvonMartin, 17 anos. Morto por ser negro e estar encapuzado. #RacismoNão

O caso do assassinato do jovem Trayvon no estado da Flórida, Estados Unidos, ganhou nova repercussão nesta sexta-feira, dia 23 de março, quando Barack Obama veio a público dizer que "se tivesse um filho ele se pareceria com Trayvon". O caso aconteceu há quase um mês antes da declaração do presidente estadunidense.

Foi na noite do dia 26 de fevereiro. Chovia. Trayvon Martin, 17 anos, caminhava para a casa de seu pai, vestia capuz e moleton (muito comum na juventude negra dos EUA). Levava consigo um pacote de balas e uma lata de refrigerante. O vigilante voluntário de 28 anos, George Zimmerman, estava em seu carro tendo a seu lado uma pistola de 9 milímetros legalmente registrada. Zimmerman avistou Trayvon e ligou para o 911 informando sobre "um cara muito suspeito" e que "parece mal intencionado ou drogado". Ainda com o telefone ligado Zimmerman, ofegante, avisa à polícia que está perseguindo o suspeito. Uma briga começa e ouve-se um tiro. Trayvon estava morto com um bala dispara contra o peito.

Zimmerman foi detido, interrogado e em seguida solto, sem que nenhuma acusação formal fosse registrada. Todas as provas estão gravadas e em posse da polícia. Mas Zimmerman está solto. Por que? Porque na Flórida existe uma lei que permite a qualquer pessoa que tenha posse de arma a atirar primeiro e perguntar depois. Qualquer pessoa que se sinta ameaçada tem o direito de "defender seu espaço". E foi isso que Zimmerman fez. Era um negro, encapuzado, andando a noite com um volume na mão ou no casaco. Quer algo mais suspeito que isso?

Imagino que seja uma lei desse tipo que a classe média racista de São Paulo tanto almeje. Houvesse uma lei como essa os delinqüentes de Embu das Artes poderiam muito estar soltos agora. Afinal quer atitude mais suspeita do que a do ajudante de caminhoneiro que estava passeando de madrugada com a namorada no centro histórico da cidade? E a polícia brasileira então? Que maravilha seria poder matar qualquer suposto suspeito sem o medo de ter sua ação revelada pela mídia ou questionada pelos tais "direitos humanos". O censo comum celebraria afinal "bandido bom é bandido morto", não é mesmo?

Mas então por que essa confusão toda? A lei não ampara a atitude do vigilante voluntário? Do que estão se queixando? Lei não é pra ser cumprida e ponto final?

Nada disso! As leis são feitas sob circunstâncias históricas e se elas permitem atrocidades como essa que se abateu sobre o jovem Trayvon é um dever lutar pelo seu descumprimento e revogação. E é exatamente isso que vem fazendo milhares de estadunidenses ao se manifestarem pedindo justiça ao caso Trayvon. E a justiça nesse caso só pode ser feita passando por cima da lei do "atire primeiro". E é exatamente por causa da comoção nacional que só cresce que Obama se viu obrigado a fazer uma declaração pública.

Trayvon está morto. E a luta contra o racismo nas terras ianques está mais do que viva. Que sua morte não seja em vão.

Manifestante levata o cartaz: "Levante-se por Trayvon"
Milhares saíram às ruas pedindo justiça ao jovem Trayvon
Entre os manifestantes é comum o uso de capuz e moleton
"Justiça para Trayvon" e "Eu sou o próximo?"
"Por favor não mate meus filhos"

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

#Pinheirinho, 22/02: Um mês do massacre. Nós não esquecemos! #PinheirinhoVive


Foi na manhã de um domingo. No dia 22 de janeiro deste mesmo 2012. Hoje, quarta de cinzas, faz um mês que a cobiça atropelou a esperança, a vida, a saúde de idosos, a alegria das crianças... O #Pinheirinho foi destroçado por tratores em defesa da santa, divina e imaculada propriedade privada dos ricos.

Muito já se passou desde então. A PM da Bahia já fez greve. A do Rio também. Prenderam bombeiro grevista no Rio. Demitiram agente de trânsito grevista em Fortaleza. Privatizaram aeroportos (chamaram de concessão). Censuraram propaganda que mostrava gays namorando. Uma ministra pró-aborto foi nomeada pra em seguida dizer que não pode fazer nada em defesa do aborto. Um operário foi morto pela PM em Rondônia. Doze estudantes foram presos injustamente na USP. O carnaval chegou ao fim... Muito já se passou. Mas e as 1200 famílias do Pinheirinho há um mês sem teto e sem nada? O que se passou com elas? O que será delas daqui pra frente?

Apesar dos tratores, balas, bombas e cacetetes, o Pinheirinho ainda vive. Ele é muito mais do que casas, ruas e comércios. Ele é a história de 9000 pessoas que os que mandam em São Paulo querem tanto apagar. Mas o Pinheirinho resiste. Pois que viva o Pinheirinho. Nós não esquecemos. Nem deixaremos esquecer.