terça-feira, 25 de junho de 2013

Alguns comentários sobre alguns argumentos meio deslocados: "o golpe" e "quem você pensa que é"



Vivemos uma efervescência política nacional como nunca se viu pelo menos nos últimos vinte e um anos. Mesmo que muitas vezes de forma atravesada, as pessoas estão debatendo, aprendendo e também ensinando muitas lições. E é assim com as pessoas que nunca foram às ruas e, não se engane, também é assim com os veteranos da militância política no país apesar de toda sua quilometragem rodada em manifestações. E é natural que no processo de aprendizado existam muitos exageros. Os exageros dos novatos já são bem conhecidos de todos e só o que se vê é debate sobre seus discursos. Mas e quanto aos exageros da militância organizada? Vamos debate-los? Separei dois desses argumentos meio deslocados e com eles deixo alguns comentários. Embora aos poucos ambos venham a sumir pela própria evolução dos acontecimentos prefiro não pecar pela omissão por mais que corra o risco de desagradar alguns bons companheiros e conhecidos. Vamos lá:

O golpe vem aí - Este é o discurso preferido da militância governista e algumas vezes até é repetido por gente boa e inocente que acaba caindo no papo dos primeiros. Como governistas não aceitam questionamento  ao seu sacro-santo governo ver tanta gente na rua questionando os rumos da nação é motivo pra acionar o alerta de "golpe da direita a vista". Vem a Globo e elogia as manifestações: "pronto é golpe". Sai a propaganda eleitoral do PPS, PSDB e DEM na TV logo no mesmo período que o povo tá na rua: "taí, eu não disse? Golpe!". Esquizofrênico? Em alguns casos sim, em outros é política pensada para impor um clima de chantagem política polarizada em "ou você está com a Dilma ou é golpista". Entende?

Bem... pra quem acha que pode ser plausível o sinal alerta é bom que se diga que não há risco de golpe iminente. E aqui vão seis bons motivos: 1) O imperialismo não quer o golpe. Obama, a União Européia, o FMI ninguém quer o golpe. Até semana passada, Dilma era celebrada por todos eles como uma das mulheres mais influentes do mundo. É completamente diferente, por exemplo, da relação que foi construída entre os EUA e Chavez. 2) O mercado financeiro nacional e mundial não quer o golpe. Como o Lula tanto falou, nunca na história desse país eles ganharam tanto dinheiro. Golpe pra que? 3) O latifúndio não quer o golpe. É melhor que o PT governe e continue servindo de dique para as ocupações de terra no país. 4) O setor industrial também não quer saber de golpe. Qualquer espirro que os empresários dão o governo corre pra dar isenção e de brinde ainda ganham o silêncio dos trabalhadores seja via sindicatos, seja via as políticas compensatórias. 5) Os fundamentalistas religiosos nunca tiveram tanto controle sobre um governo. Lembram da "Carta aberta ao povo de Deus"?  Pois é. 6) Até mesmo a Globo, passados mais de 10 dias dos protestos não colocou em sua grade uma única vez a questão da necessidade de um impeachment ou coisa parecida.

Então, já que não existe golpe a vista é de extremo bom tom deixar esse argumento bem longe da vista de todos.

Quem você pensa que é? - Em função da agressividade dos novos manifestantes com os partidos políticos de esquerda, seja por ignorância, seja por esperteza até de mais, veio a baila essa segunda forma de discurso deslocado que se manifesta em frases como "Enquanto você estava dormindo, nós estavamos lutando", "Onde você estava?", "Lutas dos últimos 165 anos, PRESENTE! E você?" e outros do mesmo naipe. É claro que o discurso é compreensível mas acaba por responder ao desrespeito dos novos com ainda mais desrespeito e com um tom que facilmente pode ser absorvido como arrogante. Ao invés de ajudar, via de regra, joga mais lenha na fogueira que afasta os novos manifestantes daqueles que naturalmente seriam os mais fiéis representantes de suas lutas: a esquerda socialista.

Você lutou por toda sua vida? Que excelente! Então você sem dúvida é um daqueles que Brecht chamou de imprescindíveis. E é exatamente por ser quem são, que os imprescindíveis não podem de maneira alguma abrir mão dos bons, dos muito bons e dos melhores ainda. Ao invés de reivindicar a autoridade do currículo ou da patente, meu bom amigo, argumente. Você tem todos instrumentos pra fazer isso. Então faça. Sim, é verdade que tem horas que o sangue ferve, mas respire fundo e argumente. Aqui vale abrir um parêntese: a hipótese da argumentação não vale para o caso de embate com fascistas de carteirinha. Aí não. Como dizia o velho Trotsky, "fascismo não se discute, se combate". Fecha parêntese.

E por falar em Trotsky existe uma passagem emblemática na obra mais conhecida do reporter John Reed que conta o ambiente dos dias da revolução russa que um pouco que se encaixa com o que digo aqui. Segue a história:
Um dia, quando chegava à porta de entrada, vi Trótski e sua mulher detidos por um soldado. Trótski remexeu em todos os bolsos, mas não encontrou o cartão de ingresso.
— Não tem importância — disse, afinal, dirigindo-se ao soldado. — Você naturalmente me conhece. Sou Trótski.
— Sem o cartão você não entra — respondeu-lhe o soldado. — Seu nome não me interessa.
— Mas sou o presidente do Soviete de Petrogrado.
— Se você de fato é pessoa tão importante — replicou o soldado —, deve trazer consigo um papel qualquer, provando sua qualidade.
Trótski não teve outro remédio senão ficar calmo.
Trotsky, com anos dedicados à construção da revolução, barrado por um jovem soldado recém ingresso na luta revolucionária. Mas que absurdo não? Não. Nenhum absurdo. E por acaso o argumento dos anos de serviço resolveu? Nenhum pouquinho. Então segue, o conselho de Trotsky: muita calma nessa hora, meu caro. Muita calma nessa hora.