quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Alguns comentários sobre a entrevista de Marília Coutinho e a resposta do PSTU

Marília Coutinho, irmã do cartunista Laerte Coutinho, é atleta de powerlifting. Lutou durante anos contra um disturbio mental que a fez tentar inclusive o suicidio. Antes disso foi militante política do Partidão (1978) e da Convergência Socialsta (1979 a 1981), também conhecida como CS e que em 1994 dissolveu-se para dar origem ao PSTU, seçao brasileira da Liga Internacional dos Trabalhadores.

Recentemente o nome de Marília voltou às rodas da militância, inclusive à página do PSTU, em função de declarações dadas por ela à revista Trip em 2011 e à folha de São Paulo no último dia 25 de fevereiro. Nessas declarações a atleta afirma e reafirma: "Fui estuprada na CS".

Entendendo o caso

1. Marília ingressou na CS com 15/16 anos e mal entrou teve suas primeiras experiências sexuais com membros da direção, tal como ela relata na entrevista à Folha:

Suas primeiras experiências sexuais aconteceram com líderes partidários das duas organizações. "Sexo fazia parte da política", diz. "Eu estava despertando para a sexualidade e, de repente, tinha que transar para fazer parte do grupo", conta.

2. No mesmo ano que ingressou na CS e ainda com 15/16 anos foi estuprada em uma festa por um militante. Não sabemos se o militante é o mesmo lider partidário falado anteriormente, mas é um militante tal como confirma o texto de resposta dos militantes da época e que ainda estão no PSTU:

"quando desacordada numa festa foi estuprada por outro jovem militante da época".

3. O caso foi investigado, o militante foi punido e este acabou por se afastar por conta própria. Textualmente:

"o militante em questão foi punido e retirou-se da militância".

4. Em 1981, com 18/19 anos, Marília se afasta da organização psicologicamente destruída ao ponto de ter tentado o suicídio como reitera a entrevista.

"Marilia saiu da militância em 1981 e, no mesmo ano, recebeu o diagnóstico de psicose maníaco-depressiva".

5. Em 2011 em uma entrevista à Trip, Marília contou sobre sua superação e falou sobre a agressão que sofreu. O PSTU não repondeu mas 9 militantes da época postaram o seguinte comentário no artigo da Trip:

Lendo a entrevista de Marília Coutinho achamos necessário vir a público pois, como ela, fomos jovens e adolescentes que ao final da década de 1970 e início dos oitenta participamos do movimento estudantil contra a ditadura e militamos na mesma organização, na época a Convergência Socialista e sua seção de juventude, o Alicerce.

Antes de tudo, ficamos entristecidos com a difícil crise psicológica que Marília superou recentemente, mas vemos sua dedicação ao esporte como um sinal de que ela se encontra bem melhor.

Também nos solidarizamos com a lembrança de um triste e revoltante episódio ocorrido com ela, quando desacordada numa festa foi abusada sexualmente por outro jovem militante da época. Ela denunciou o fato na época, o caso foi para julgamento numa comissão interna da organização e o militante em questão foi punido e retirou-se da militância. Essa reação do partido em defesa de Marília ocorreu porque, ao contrário do que ela escreveu, não existia uma cumplicidade com este tipo de atitude, mas mecanismos de defesa moral dela e do partido.

A cultura machista reinava então como até hoje e sempre nos dedicamos a lutar contra ela, defendendo os movimentos e as causas feministas, dos direitos homossexuais e de todos os setores oprimidos e por isso participamos, desde a década de 70, na luta por essas questões que são parte do programa emancipatório do socialismo.

Por isso, ficamos chocados com a afirmação de Marília na entrevista, quando diz que "as militantes de base eram obrigadas a fazer sexo com os líderes". Nem ela nem ninguém que conheçamos foram obrigadas a isso. O caso específico por ela denunciado ocorreu entre jovens militantes e foi amplamente repudiado. A frase generalizante é obviamente uma calúnia, um absurdo completo, como também é dizer que mulheres da geração anterior foram mais mal tratadas por seus companheiros do que pelos torturadores.

A agressão que sofreu há 30 anos ou o seu rancor pela esquerda não podem justificar acusações graves e genéricas que se constituem como calúnias difamatórias contra os movimentos estudantis e de esquerda dos quais ela hoje parece se arrepender de ter participado.

Independente das opiniões políticas que possuímos hoje somos testemunhas de que as generalizações afirmadas nessa entrevista não expressam em nada a realidade do que foi o ambiente juvenil e estudantil da esquerda nos anos da derrubada da ditadura.

Carlos Alberto Baptistella
Fábio Bosco
Henrique Soares Carneiro
Karin Andreia Botini
Maria Mercedes César
Moacir Sousa
Rose Colombo
Ulysses Silva
Vera Guasso

6. Agora em 2013, Marília reiterou em entrevista à folha que foi estuprada no "PSTU, Convergência" e fez afirmações novas sobre a prática machista dentro da organização à época:

“Você é revolucionária, então vai limpar o chão! Abre a perna e dá pro cara! Faz não sei o quê!”

7. A falta de resposta do PSTU em 2011 não se repetiu desta vez e entre seus argumentos se lê:
7.1. Estranho Marília não citar que o estuprador foi punido e afastou-se por conta própria.
7.2. Mais estranho ainda falar em PSTU quando este foi fundado somente em 1994.
7.3. Como Marília não é desinformada o que ela está fazendo é uma calúnia com o intuito de desmoralizar a esquerda.
7.4. Militantes não são nem nunca foram obrigadas a transar com chefes partidários.

Consideração número 1: Afinal, o que é mais importante nessa história toda?

Em primeiro lugar vamos ao fato primordial de todo o episódio: HOUVE ESTUPRO. Este é o ponto fundamental e a partir daí é que deve partir toda a análise do caso. Não se pode em hipótese alguma menosprezar tal fato. Para termos noção do que isso pode significar na vida de uma mulher vale recorrer ao recente artigo de Cecília Toledo, militante do PSTU e dirigente da LIT:

"O estupro é um tipo de violência contra as mulheres que deixa marcas pelo resto da vida. Uma mulher que já sofreu estupro passa a sentir-se permanentemente ameaçada e com medo de que isso se repita, o que a torna um ser fragilizado para todas as tarefas que tem adiante. É uma agressão física e psicológica que dificilmente se supera."

Se isso é verdade para qualquer mulher tal como afirma Cecília imaginemos então o que não terá sido para a jovem Marília que recém iniciava sua vida sexual em 1979. Não é a toa que dois anos após ingressar nas fileiras foi diagnosticada com psicose maníaco-depressiva.

Diante de uma situação como essa, como uma organização trotskista deve se comportar? Mais uma vez vale recorrer ao artigo da Cecília:

"Em primeiro lugar, não esconder os fatos, apurá-los até o fim e punir os envolvidos com a expulsão de nossas fileiras."

É claro que para não esconder é preciso haver um ambiente propício para que a vítima se sinta a vontade para denunciar. É preciso grande força de vontade para fazê-lo. Marília fez. Talvez estimulada por alguns companheiros mas fez. Não se sabe se o fez logo quando aconteceu ou meses depois, talvez até próximo de sua própria saída da organização, mas fez, e a organização, por sua vez, apurou e puniu. Expulsou? Não, não expulsou. Por conta própria o agressor retirou-se. Parece um pequeno detalhe mas nestes casos pequenos detalhes fazem toda a diferença.

Mas por que não expulsou? Talvez o fato dela estar desacordada e não ter lutado contra seu agressor tenha pesado. Era uma festa. Todos eram jovens. Haviam bebido muito. Ela já havia transado com outros, inclusive com seus "líderes partidários". Quem sabe tenham pensado que foi grave mas não foi tão grave assim. Essas são coisas da juventude, não é mesmo?

Mas de qualquer forma houve uma punição. Não sabemos qual foi mas pelo menos houve. Mas e quanto à vítima? Como ela foi tratada? Como se manifestou o companheirismo de seus colegas militantes? Ela passou pelo momento com o apoio de seus pares ou teve que enfrentar sozinha? Não temos a resposta mas aparentemente Marília enfrentou tudo sozinha afinal seus contemporâneos praticamente ficaram surpresos com toda a paranóia pela qual a ex-militante teve que passar.

E como isso tudo se manifesta na cabeça de uma jovem? Quantos fantasmas alguém que passou pelo que passou Marília não teve que enfrentar depois disso? Pelo visto não foram poucos.

E por que Marília ao falar sobre seus fantasmas do passado não falou que a CS puniu e não expulsou seu agressor? Será porque a punição, que sequer foi a expulsão, acabou sendo algo insignificante diante da agressão? Será pelo fato de ter tido que encarar sozinha os traumas que sua passagem pela organização acabou por ajudar a construir? Será pelo fato de praticamente ter se visto forçada a manter o caso nas fileiras ou melhor consigo mesma ao invés de fazer a denuncia da agressão à polícia? Os motivos podem ser vários mas se não percebermos que isso é extremamente pequeno diante da violência sofrida acabaremos por reforçar a tese de que a vítima é quem é a culpada, que se faz de coitadinha, mas que no fundo quer mesmo é prejudicar o "suposto" culpado tal como no deixa a entender o referido texto de resposta:

"...a calúnia é proposital e pensada para desmoralizar a esquerda da qual um dia fez parte, talvez por um trauma e uma mágoa justificados, mas com declarações desonestas".

Consideração número 2: Marília se arrepende de seu passado e por isso calunia a CS/PSTU?

Tendo passado pelo que passou é difícil não se arrepender. Um exercício um pouco maior de empatia talvez nos ajudasse a todos a entender pelo que passou aquela menina, hoje mulher. Conheço gente que se arrependeu de sua militância por muito, muito menos e que guarda rancores absolutamente sem fim. Talvez tais rancores deturpem a visão da pessoa sobre o que de fato aconteceu com ela mas, via de regra, não consigo responsabilizar o indivíduo nesses casos. Via de regra defendo que o problema está exatamente no coletivo, na organização, que ao invés de estar disposta a "investigar e punir" deveria, em primeiro lugar, esforçar-se ao máximo para criar um ambiente propício a inibir problemas de moral.

Mas como fazer isso? Esse, sem dúvida, é um grande desafio. O que de cara posso dizer é que com certeza não será dando em cima das meninas que entram na organização nem muito menos dando bola às próprias investidas da nova militante, algumas vezes deslumbrada com a desenvoltura dos camaradas. Como nos diz o texto de Cecília:

"O respeito revolucionário em relação a uma mulher que entra no partido e se dispõe a dar sua vida pela revolução é tudo, porque ao entrar no partido ela estará superando obstáculos muito maiores que um homem". (...) "Dentro do partido, as mulheres conscientes, as militantes revolucionárias, não esperam encontrar o mesmo que encontram todos os dias na sociedade em geral. Dentro do partido, elas confiam nos camaradas, baixam sua guarda em relação a eles, e só esperam em troca confiança e uma relação de respeito e camaradagem".

Mas e quanto às calúnias? Não é preciso respondê-las? Bem... pra ser sincero eu nem trataria como calúnia. Trataria de ajudar a esclarecer o ocorrido, admitindo que sim, além do próprio caso de estupro, os militantes com que Marília conviveu podem ter tido atitudes machistas, muito dificilmente com o tom que ela expressou, mas que pode ter sim ocorrido e que a CS, mesmo compreendendo que tais atitudes são inadmissíveis e que devem ser combatidas de forma incansável, pode não ter estado à altura para em determinado momentos inibi-las. Uma resposta mais simpática, mais humilde e desprovida de patriotismo partidário cairia muito melhor neste caso do que uma defesa da honra da organização.

Consideração número 3: Não se obriga militantes a transar com seus chefes.

De fato acho muito difícil que qualquer organização obrigue seus militantes a transar com seus chefes. Mesmo em seitas religiosas onde jovens transam com seu mentor espiritual isso não é feito na base da obrigação. Existe todo um jogo de sedução que é jogado nesse terreno. O fato de que a possível transa com os dirigentes não seja tal como descreve Marília ("é revolucionária então abra as pernas") não diminui a gravidade do fato de que alguns quadros possam se utilizar de seu prestígio para rodear, seduzir e levar para a cama uma nova militante. Não considerar essa hipótese é o mesmo que fechar os olhos e compactuar com ela.

Para falar sobre a gravidade do que uma atitude como essa pode significar me valho novamente e pela última vez ao texto de Cecília Toledo:

"Nós, que lutamos contra a opressão das mulheres, sabemos como é importante para uma mulher tornar-se consciente politicamente e, sobretudo, entrar no partido. Por isso se os casos de machismo são graves na sociedade como um todo, eles são duplamente perniciosos dentro de nossas fileiras, porque estarão destruindo uma militante e também o nosso objetivo final, ou seja, a própria construção do partido, o instrumento que vamos construindo dia a dia para conquistar uma sociedade socialista e, com ela, a emancipação total das mulheres".

Em suma: compactuar com desvios morais machistas, e aí inclui-se o desvio do satisfazer desejos e taras pessoais que via de regra se escondem atrás do véu da "vida pessoal", é compactuar com a destruição de militantes mulheres e do próprio partido revolucionário o que por sua vez é conspirar contra a própria revolução.

Para concluir

De alguém que enfrentou os monstros e fantasmas que Marília enfrentou não vejo porque fazer quaisquer cobranças sobre o tema. Posso lamentar posições políticas e confusões desmedidas e nada críveis como a de afirmar que o abuso dentro da antiga CS poderia ser maior que os cometidos pela ditadura. Mas de uma organização revolucionária como o PSTU com certeza é preciso esperar muito mais do que o tom da resposta que foi dado inclusive com o argumento de que o partido ainda nem existia em 79. Tenho alguns bons amigos e companheiros no partido pelos quais guardo grande apreço e sinceramente torço para que o episódio, ao invés de fortalecer o patriotismo acima de qualquer coisa, sirva para fazer o debate sobre a moral revolucionária e a forma correta de como devem se portar seus militantes, e em especial seus quadros, diante de mulheres e meninas que ingressam em suas fileiras.