terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Você faz ideia do que é ser mulher e militante? (texto de Thais Justen via @BiscateSC)

O texto a seguir é da anarcofeminista Thais Justen e foi publicado no blog Biscate Social Club com o título Militância há quase 10 dias. Trata de um tema que está intimamente relacionado com o post  "A opressão e o machismo devem ser combatidos de forma implacável" de Cecília Toledo. A abordagem é absolutamente diferente mas é uma variação do tema "machismo e opressão nas organizações dos movimentos sociais".

Neste texto a militante aborda faces distintas do machismo no movimento de massas como a falta de preocupação com a segurança para mulheres nas reuniões, a intimidação, o desrespeito, o assédio, a falta de um simples espaço adequado para os filhos, além da violência e de estupro pelos próprios "companheiros". Pela forma como trata o assunto aparentemente Thais parte das suas próprias experiências ou mesmo de outras militantes do movimento de ocupações urbanas do centro do Rio, mas tal como o texto da Cecília, pelo menos em grande medida suas preocupações poderiam ser transportadas para quaisquer outros movimentos ou partidos de esquerda. E isso é muito preocupante. Percebam que não me preocupo com a direita que por definição já é machista em si. A preocupação é que qualquer movimento de esquerda, em especial os da esquerda socialista, possuem a necessidade de combater de forma implacável o machismo e a opressão. E isso se faz em primeiro lugar dentro de casa, na própria organização.

Em determinado ponto o tom parece contrapor a luta de classe com a luta contra a opressão. E uma coisa não deve contradizer a outra. Não há porque ser assim. Mas é compreensível que escorregue para esse terreno, na medida em que o próprio machismo nas organizações operárias também faça isso.

Anarcofeminista, Thais conclui reproduzindo Bakunin. Sendo trosko obviamente prefiro citações de Lênin, que não são poucas sobre o combate ao machismo, mas de forma alguma isso poderia ser impeditivo para divulgar o texto aqui.

Militante


O que alguns militantes esquecem é seu lugar de privilégio na militância e no mundo, pelo simples fato de serem homens. Você sabe, militante, o que é ter medo de ir numa reunião porque o lugar é escuro? e porque, se for estuprada, vão dizer que a culpa é sua? sabe o que é estar numa reunião num lugar muito quente e com pouca água e não poder usar roupas curtas ou tirar a camisa, porque os companheiros de luta dizem que, neste caso, isso estaria desrespeitando eles? sabe o que é estar numa reunião e um homem dizer aos outros que não falará com você porque certamente você não entende tanto quanto eles(homens) sobre algum assunto qualquer independente da sua formação ou vivência, só por ser de outro gênero? sabe o que é após ter ocupado um imóvel ter um companheiro que se recusa a levar o prato pro local que foi escolhido pra ser a cozinha o que dirá então lavá-lo, e ainda por cima te chama pra fazer isso, porque afinal, você é mulher?

Eu poderia dar mais exemplos que você certamente não vive na pele, como, por exemplo, a possibilidade de ser excluída de um meio de militância porquê já transou com vários de lá. Ou o horror de ser estuprada numa ocupação e os companheiros de luta ainda dizerem que a culpa é sua porque já dormiu com vários. Ou o abandono de ser estuprada por seu companheiro que é militante e os companheiros de luta falarem que ele é um bom homem, por isso não farão nada. Ou ainda o medo de ir aos espaços de militância porque já apanhou de algum companheiro de luta que, em algum momento, foi seu namorado, e os outros companheiros de luta não considerarem isso um assunto importante.

Um lugar de privilégio, o seu, que ignora quem não pode ir às reuniões porque tem filhos e os espaços de militância não são adequados a presença de crianças e afinal, como a responsabilidade pela criação dos filhos é da mãe – diz a sociedade – ela não vai pra reunião pra cuidar de seu filho mas o companheiro vai. Um lugar de privilégio indiferente ao fato de que existe quem tem que se preocupar mais com preservativos, porque se engravidar e não puder abortar (e mesmo podendo, arcar com o julgamento e condenação social) é sobre ela que o peso da criação vai cair. E tem a questão, que você não pensa, do problema de que se não consegue gozar, não há ajuda pra isso, enquanto pros homens existem vários medicamentos pra impotência, e contraditoriamente, se goza com facilidade também é problema, porque aí os companheiros de luta que se deitarem com você podem achar que “não é boa pra casar” porque gosta muito de sexo.

Mas não, certamente você não sabe o que são essas preocupações, e aí, sendo homem, é muito fácil falar que o movimento que quer acabar com a sua hegemonia – ou seja, seu poder de bater, estuprar, não cuidar dos filhos, não pegar tarefas de cozinha, e ainda ser considerado bom militante – enfim, falar que esse movimento está errado, e deve se preocupar com a classe trabalhadora apenas, sem gênero, porque, afinal isso te interessa. Que mundo bom seria pros homens se vivêssemos no socialismo, não houvesse mais patrões, mas as mulheres continuassem a ter dupla jornada, o sexo continuasse a ser focado no homem e o prazer da mulher permanecesse não sendo importante, num mundo onde “ser muito homem” continuasse a ser um elogio e ser “mulherzinha”, um xingamento. E que mundo merda seria esse pras mulheres…

Como disse Bakunin, não poderei ser um homem verdadeiramente livre até que esteja cercado de homens verdadeiramente livres também, pois a existência de um único escravo basta para diminuir minha liberdade. Assim, só poderei ser uma mulher livre no dia que ninguém puder ser estuprada por ser mulher. Pois enquanto puderem estuprar uma burguesa por ser mulher, as proletárias também poderão ser estupradas pelo mesmo motivo (coisa que não ocorre com os homens, frise-se, pois nenhum homem é estuprado apenas por ser homem e/ou por usar pouca roupa). Assim também, nenhum homem, mulher, intersex etc, poderá ser livre enquanto alguma categoria não for, só seremos realmente livres quando nem mulheres, nem negrxs, nem indigenas, nem homossexuais forem vitimas de opressão!