terça-feira, 1 de abril de 2014

Os cinquenta anos do golpe dos quais passamos quase trinta sem denunciar #desarquivandoBR #50anosdogolpe


Há cinquenta anos o Brasil iniciou um período sombrio de 21 anos arrastando conosco para o mesmo porão fétido de perseguição, tortura e assassinatos nossos irmãos chilenos (1973 a 1989), uruguaios (1973 a 1985) e argentinos (1976 a 1980). Com isso a América Latina foi forçada a ir ao fundo do poço. E assim foi feito para que não encontrássemos nosso próprio caminho.

Os anos 1960 foram um período de imensa efervescência cultural, social e principalmente política. Era como se os ventos daqueles anos anunciassem que grandes transformações estivessem por vir. O maior dos exemplos havia sido dado há pouco tempo, em janeiro de 1959, quando uma ilha ousou tornar-se revolucionária em pleno mar do Caribe expulsando o ditador Fulgêncio Batista bem nas barbas do Tio Sam. Não satisfeita com seu exemplo, dois anos depois, esta mesma ilha derrotaria a invasão da Baía dos Porcos patrocinada pelo governo estadunidense em abril de 1961. Na África do Sul a luta anti-apartheid ganhava força e apresentava mártires a todos aqueles que sonhavam com um mundo melhor. Nos Estados Unidos a luta anti-racista tomava corpo com nomes como Malcom X (assassinado em 1965), Luther King (assassinado em 1969) e com o Partido dos Panteras Negras (fundado em 1966 e somente desbaratado nos anos 1980 com uma grande dedicação do FBI). Esta mesma luta anti-racista embalava a luta contra a Guerra do Vietnã que foi derrotada não somente pela bravura vietnamita mas também pela insubordinação em pleno solo ianque. Na França, barricadas foram erguidas em pleno de maio de 1968 pelos estudantes de Paris para logo impulsionar greves com ocupações de fábricas em todo o país.

Eram esses os ventos dos anos 1960. E assim também eles sopravam em nosso Brasil.

O governo do trabalhista João Goulart, eleito como vice em 1960 e tornado presidente em 1961 com a renúncia de Jânio Quadros, aos poucos foi sendo forçado pelo movimento de massas a colocar em pauta reformas de base que tocavam ainda que superficialmente na estrutura arcaica e retrógrada do país. Estavam lá, em seu plano de governo, temas como reforma agrária, estudantil, fiscal e política. Veio do grande "irmão do norte" a percepção de que naquele cenário turbulento de que para onde fosse o Brasil iriam seus vizinho latino-americanos. E Lyndon Johnson estimulou e patrocinou o golpe que nos jogou em um atraso de bem mais do que cinquenta anos e junto conosco de fato vieram nossos vizinhos.

Essa não é uma história nada nova. Ela é muitíssimo mal contada, é verdade. Mas de nova não tem nada.

Mas é preciso dizer que há um clima novo e crescente no país. Hoje, quando completamos 50 anos do golpe militar, não faltam artigos e comentários nas redes sociais sobre o tema. Alguns até conclamando a volta dos militares mesmo porque retardado mental e fascista tem de monte por aí. Mas felizmente a imensa maioria é de condenação e de repúdio para que nunca mais volte a acontecer. E o que há de novo nisso? Bem... já se vão 29 anos desde que o último governo militar caiu. São quase 3 décadas e por incrível que possa parecer a imensa maioria delas foi de um imenso e profundo silêncio quebrado pouquíssimas, mas pouquíssimas vezes mesmo. Nesse interím, nenhuma grande organização política ou social se propôs a levantar por exemplo uma única campanha pela prisão dos torturadores. Completamos 50 anos do golpe com direito a hashtag e tudo mais, mas o mesmo não podemos dizer do momento em que chegamos aos seus 30 anos (1994), 40 (2004) ou mesmo 45 (2009).

Esse silêncio vergonhoso só vem sendo possível quebrar, por incrível que possa parecer, pós eleição do governo Dilma Roussef iniciado em janeiro de 2011 e pós implantação da Comissão Nacional da Verdade em maio de 2012. Digo incrível porque nem Dilma, nem sua CNV, fazem lá grande esforço para que a verdade venha de fato a tona, nem muito menos moverá uma palha que seja para que os crimes cometidos durante os 21 anos do regime militar sejam punidos.

De toda forma, o fato é que o silêncio vem sendo quebrado e nossa história vai sendo desarquivada. Ainda que seja em dolorosos e lentos passos de quem desaprendeu a andar sozinho. E a cada passo dado nossa vontade de correr só cresce e cresce. É... nossa memória pode até ser curta mas nossa vontade de alargá-la, pode crer que é imensa.

Nota: Este post é uma contribuição à IX blogagem coletiva #desaquivandoBR.