terça-feira, 15 de março de 2016

A palavra de ordem é PREPAREMOS NOSSAS FORÇAS! (texto de Bruno Rodrigues)

Compartilhamos análise de conjuntura de nosso camarada Bruno Rodrigues que aponta a importante necessidade de PREPARAR NOSSAS FORÇAS diante da situação em que nos encontramos com esgotamento do PT, assanhamento da direita, aumento das lutas e surgimento de uma nova vanguarda.

Boa leitura.

“O mais contagiante entusiasmo rapidamente esfria-se ou evapora se não encontra uma clara compreensão das leis do desenvolvimento histórico. Frequentemente, observamos como os jovens entusiastas, ao dar uma cabeçada na parede convertem-se em sábios oportunistas; como ultra-esquerdistas desenganados passam em curto tempo a ser burocratas conservadores, assim como pessoas fora da lei se corrigem e se convertem em excelentes policiais. Adquirir conhecimento e experiência e ao mesmo tempo não dissipar o espírito lutador, o auto- sacrifício revolucionário e a disposição de ir até o final, esta é a tarefa da educação e da auto-educação da juventude revolucionária”

Leon Trotsky

"E o que a algum tempo era jovem e novo
Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer"

Belchior 

Num país cujo cenário político está atravessado por uma crise agudíssima ao mesmo tempo que a economia vem cambaleando sucessivamente, tudo pode acontecer. O ano mal começou, e para a surpresa dos mais distraídos, uma onda de ocupação de escolas em SP e GO, “de repente” tomou o centro das atenções políticas do país, no que ficou conhecido como “Primavera Secundarista”. Em SP, o plano de “Reorganização” escolar, anunciado pelo governador Geraldo Alckmin foi o que acendeu o pavio dos estudantes, enquanto que em GO, foi o plano do governador Marconi Perilo que consistia em entregar a gestão das escolas para as malfadadas OS's, o detonador das ocupações. Por sinal, ambos os governadores são do PSDB.

Nesses dois estados, praticamente uma geração inteira de novos ativistas, à escala de alguns milhares, distribuídos em mais de 200 escolas em SP e 23 em GO, puderam fazer sua própria experiência com a ação direta: aprenderam a manejar a linguagem da luta política, da agitação e da propaganda; aprenderam a politizar e canalizar sua rebeldia contra os partidos do capital; descobriram com os seus próprios sentidos, os mecanismos de dominação do estado burguês; tonaram-se porta-vozes ou oradores, à frente de dezenas de outros ativistas; forjaram-se como lideranças locais; e ao fim, fizeram o seu próprio balanço em torno do que se passou. Em poucas semanas, puderam aprender coletivamente mais do que pode ser aprendido em anos de estudo individual. Algumas das principais lições políticas, dessa magnífica experiência, foram assimiladas e permanecerão em cada estudante que esteve naquelas ocupações. Encheram a muitos de nós com entusiamo, orgulho e esperança.

Dali em diante estaria lançado um exemplo. As flores dessa primavera, também brotaram em escolas de outros estados, como nas do RJ, onde hoje mesmo, não são poucos os que estão tomando as ruas, cerrando fileiras e se unindo aos professores em greve. Sobretudo, não imaginaram que estavam abrindo o caminho para os mais de 2000 metalúrgicos da empresa MABE, instalada em Campinas e Hortolândia no interior de SP. Incendiados, os operários se espelharam no que acontecia nas escolas e repetiram a experiência nas duas plantas da empresa, depois de ficarem três meses sem receber seus salários e benefícios: ocuparam a fábrica.

Professores em várias outras cidades também fizeram greves, como em Teresina e Fortaleza. Na capital cearense, como raramente se vê, os jovens trabalhadores precarizados do call center da Oi, arrastando o sindicato atrás de si, assumiam a linha de frente da luta em belíssimas paralisações na porta da empresa, em uma grande avenida da cidade. Na verdade, o último balanço do SAG-DIEESE a respeito do número de greves em 2013, atesta uma curva acendente no quesito quantidade de greves, como não se tem visto desde finais da década de 80, ainda que não consiga levar em conta as chamadas “greves selvagens” [1].

Em cada uma dessas experiências mencionadas, a luta organizada da juventude estudantil, dos professores e dos operários, pôde contar com a simpatia popular, quando famílias locais se solidarizavam e iam atém às ocupações prestar apoio material e político. Ao mesmo tempo, cada uma dessas mobilizações foi protagonizada por gerações inteiramente novas, e à revelia das entidades oficiais vinculadas aos interesses políticos do governo federal, tal como também foi na greve dos garis no RJ e na greve dos servidores estaduais do PR, em 2014, nas greves da peãozada do PAC, entre 2010 e 2013, e entre os petroleiros no ano passado, em sua maior greve nas últimas duas décadas.

A dinâmica da vida política brasileira definitivamente não é mais a mesma, principalmente depois de junho de 2013. O termômetro político, desde então, oscila entre temperaturas muito baixas para muito elevadas, praticamente num pestanejar. Aquele velho senso comum, já tão talhado ao limite da exaustão que afirma que o brasileiro possui uma essência passiva irremediável, vai sendo paulatinamente desmistificado e tudo indica que, pelo menos os próximos anos já mais não serão um “tranquilo passeio” para a burguesia. O relógio da história vê seus ponteiros operando em ritmo um pouco mais rápido, na medida em que as tensões sociais se agudizam. É preciso dedicar redobrada atenção aos acontecimentos, pois só estamos em Março de 2016 e o ano já promete sobressaltos muito maiores do que o que testemunhamos até então.

A combinação de queda no PIB, anunciada em 3,45% só para esse ano, mais taxa de juros batendo na casa dos 14,25% ao ano e um índice de desemprego estimado em 15,5% só entre a juventude, e mais uma exuberante coleção de epidemias somado com a explosão de violência nas cidades, sinaliza a magnitude da crise que está sendo descarregada sobre os ombros do proletariado brasileiro.

Particularmente, desde o início de seu segundo mandato presidencial, o governo de Dilma Rousseff se empenha de forma muito solícita em aplicar um receituário econômico dos mais amargos para a classe trabalhadora, onde as distintas áreas do serviço público, mas também o que sobra dos direitos trabalhistas, vêm sofrendo bombardeio permanente. A bola da vez é a previdência social, com a tentativa de impor a idade mínima, através de uma nova reforma. O preço desse regime de austeridade social à la FHC-PSDB, em síntese, é a ampliação e o aprofundamento da precarização das condições de vida da classe trabalhadora, em proveito dos lucros estratosféricos do sistema financeiro. Estão cegamente determinados a ir até as últimas consequências na aplicação dos planos de ajuste, como quem não percebe que pode estar “cutucando a onça com vara curta”.

Há muita frustração nas ruas, muito mau humor e muita insatisfação. As massas seguem suas vidas diárias, incomodadas, sem saber onde vão chegar. Se queixam nas filas dos bancos, dos ônibus e dos supermercados, pois estão sentido o seu nível de vida sendo deteriorado, o preço de itens básicos, indispensáveis na refeição, cada vez mais lhes pesando no bolso e o flagelo do desemprego, que já atinge 8,4 milhões de brasileiros, como uma ameaça sempre iminente. Descobriram que as benesses que gozavam, provenientes do crédito facilitado, quando o governismo vendia aos quatro ventos o mito da “nova classe média”, tornaram-se um grilhão de endividamento em seus tornozelos, da mesma forma que se desvanece no ar, o mito da ascensão econômica e social, possibilitada por programas federais de acesso ao ensino superior.

Essa cortina de ilusões foi um dos fatores que rendeu prestígio político ao PT, possibilitando eleger por duas vezes, a candidata Dilma Rousseff como sucessora de Lula. Mas aqueles tempos de relativa bonança e estabilidade econômico-social de uma década atrás, foram pelos ares de uma vez por todas.

Em razão do profundo desgaste provocado pela crise econômica que se arrasta pelos últimos anos, já se percebe que há um amplo e contínuo, ainda que lento, deslocamento de massas para a oposição ao governo.

Uma parte desse clima de insatisfação, vem sendo capitalizado pelos setores que fazem oposição ao governo pela direita, como aqueles alinhados com o PSDB/DEM, ou figuras ainda mais conservadoras e no mínimo deploráveis, como J. Bolsonaro ou S. Malafaia. Se apoiando nas extrações de classe média da sociedade e articulando conchavos com figuras da burocracia do estado burguês brasileiro, estes setores vêm se animando com a possibilidade de impor um golpe à la Paraguai [2], interromper o mandato de Dilma Rousseff antes das eleições de 2018 e assumirem por sua própria conta, as rédeas dos planos de ajustes. Se a primeira tentativa de golpe mediada por Eduardo Cunha (PMDB), via impeachment, perdeu fôlego e recuou, esse segundo round entre a oposição burguesa vs governo, tende a ser bem mais agudo, como pareceu claro nos lances midiáticos em torno da “condução coercitiva” de Lula pela PF e episódio de pedido de prisão preventiva, também de Lula, expedido pelo MP-SP. Que não restem dúvidas do lado cá: a classe trabalhadora, por mais insatisfeita que possa estar, jamais pode confundir sua justa e legítima indignação, com os interesses da oposição burguesa; menos ainda pode recuar em sua experiência com o governo, e abraçar a chantagem da CUT-UNE-MST-LPJ, que objetivamente impedem a ruptura Dilma-Lula. Ao fim e ao cabo, qualquer vacilação ou estreiteza sectária nesse campo, pode redundar nos colocando, na melhor das hipóteses, na condição de mero coro laudatório de uma dessas duas forças em disputa.

Contudo, nada está perdido, por mais difícil que possa parecer a situação. Parcelas da classe trabalhadora já começaram a se movimentar, protagonizando a maior quantidade de greves das duas últimas décadas. Longe de nós enganarmos a nós mesmos, acreditando que o caminho está ladeado de flores vermelhas para os militantes classistas. No entanto, a intervenção consciente e perseverante dos revolucionários nos próximos meses, apoiada nas mobilizações, pode ser capaz de reverter a correlação de forças em proveito da nossa classe. O ponto de partida está na defesa persistente da construção da UNIDADE CONTRA OS AJUSTES FISCAIS DO GOVERNO DILMA, como chave política capaz de alavancar a necessária unificação das lutas e criar as condições para derrotar tanto o PT-PMDB, como o PSDB-DEM.

A geração de jovens secundaristas que está despertando, não carrega as ilusões no lulismo nem as derrotas do passado, que tanto pesam sobre as cabeças das gerações anteriores. Essa é característica que, aliás, também se reflete nas fábricas, canteiros de obras, bancos, serviços públicos, e outras tantas categorias, onde há uma nova geração de trabalhadores.

Em geral, muitas vezes a história provou que a juventude é um termômetro social, de onde pode-se aferir o grau de febre pela qual passa o conjunto da sociedade. Por ser mais sensível e desembaraçada de quaisquer amarras, ela pode antecipar, cronologicamente, os movimentos que a posteriori se desatarão no próprio seio da classe trabalhadora. As lutas da juventude desse ano, são indícios poderosos que apontam nessa perspectiva. Não há razão nenhuma, portanto, para se justificar qualquer atitude pessimista, mas também não há tempo para tergiversações.

O tempo histórico tem se acelerado em vários países e o Brasil está, aos poucos, despertando e acompanhando esse ritmo. Com o olhar voltado para o futuro, os socialistas revolucionários precisam adequar sua atividade militante cotidiana ao espírito do momento, que é centralmente ordenado por uma consigna elementar: PREPAREMOS NOSSAS FORÇAS, o que em outras palavras, significa dizer que a tarefa posta na ordem do dia é: ajudar a vanguarda a educar-se com as ideias do marxismo revolucionário; instruir novos ativistas no espírito da camaradagem, do classismo e do internacionalismo; impulsionar e defender a democracia operária de forma intransigente; cobrar das organizações vacilantes ou sectárias, a necessária unidade de ação para a luta; empenhar-se com afinco no trabalho de base; se incorporar nas campanhas de solidariedade; fazer de cada experiência da luta de classes, uma “escola de guerra” contra o capital, ajudando os trabalhadores a recuperar a confiança em suas próprias forças; combater as ilusões semeadas pelos reformistas e o freio burocrático das organizações pelegas; agitar bem alto a bandeira vermelha do socialismo; ajudar a construir novas ferramentas para a luta.

A militância nos próximos anos deve estar obrigatoriamente voltada para a necessidade de forjar e organizar, no calor das lutas que virão, novos quadros, capazes de servir à classe trabalhadora como instrumento de luta, sob pena de desperdiçar novas oportunidades históricas. Essa foi a mais severa lição que ficou daquele junho de 2013.

[1] http://www.dieese.org.br/estudosepesquisas/2013/estPesq79balancogreves2013.pdf

[2] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/06/senado-condena-lugo-em-processo-politico-no-paraguai.html