sexta-feira, 29 de março de 2013

Desarquivando músicas da sexta-feira da paixão: Cálice #desarquivandoBr

Cálice é uma daquelas músicas que não pode faltar na trilha sonora de quem quer entender o que viveu o país entre os anos 1964 e 1985. Em especial para aqueles que entendem que apesar do discurso padrão dos últimos vinte e oito anos, aquelas páginas não estão viradas. Não enquanto toda a tortura não for devidamente desarquivada, os desaparecidos sejam "aparecidos", os mortos de então possam ser enterrados e esse "silêncio todo que atordoa" a todos nós a tanto tempo possa afinal ser afastado num imenso "grito desumano".

Foi na sexta-feira santa de 1973 (20 de abril) que Gilberto Gil propôs a Chico Buarque o nome "Cálice" como tema da canção que cantariam juntos em maio daquele mesmo ano no show Phono 73 organizado pela gravadora Phonogram. No sábado a música foi composta. A ideia foi mesclar o sofrimento do calvário de Cristo (era uma semana santa) com o sofrimento do povo brasileiro (era um governo militar). Duas estrofes foram de Gil, duas de Chico.

Para ser cantada no show a música precisaria ser apresentada à censura que proibiu sua exibição. Ainda assim Chico e Gil apresentaram uma versão somente com a melodia intercalada com a palavra "cálice". Ainda assim os microfones foram cortados. Ao final, da apresentação, ao cantar Baioque com o MPB4, no meio de vários gritos do grupo é possível ouvir a revolta de Chico num "censura filha da puta". A canção permaneceu censurada até 1978 quando foi gravada por Chico e Milton Nascimento.

No documentário "Canções do Exílio" Gil confessa para Geneton Moraes Neto seu mal-estar nunca resolvido com Cálice: a figura divina do "Pai" capaz de salvar a todos do calvário nunca lhe caiu muito bem, apesar de ter partido dele tanto a ideia como o próprio refrão. Apesar do incômodo a canção virou um hino que acompanhou a todos nós no calvário que calou a nossos pais, avós e a nós mesmos, e que ainda hoje nos silencia. Mas Gil tem razão em incomodar-se. Não será nenhum "Pai" divino que nos salvará dessa ou de qualquer outra tormenta. Ou seremos nós mesmos, ou não será ninguém.

Queremos a verdade ampla, geral e irrestrita. Precisamos dela desarquivada mais que urgentemente. Chega de tanta mentira. Chega de tanto silêncio.



Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!)


Nota: Este post é uma contribuição à VII blogagem coletiva #desaquivandoBR.