segunda-feira, 1 de abril de 2013

Desarquivando músicas que desafiavam canhões: Pra não dizer que não falei das flores #desarquivandoBr

Pra não dizer que não falei de flores é um clássico da música popular brasileira. Composta em 1968, participou do Festival da canção daquele mesmo ano e ficou em segundo lugar, perdendo para Sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque. Perdeu, mas não sem protesto do público presente que vaiou com toda sua força aquele resultado. Seus versos fortes pertubaram o regime militar e fizeram seu autor, o paraibano Geraldo Pedroso de Araújo, o Geraldo Vandré, ser jurado de morte tal como relatam Caetano e Gil no documentário "Canções do Exílio". Os generais não poderiam admitir que uma canção questionasse a autoridade militar e era exatamente isso que a música fazia ao afirmar "Há soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos de armas na mão. Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição de morrer pela pátria e viver sem razão". A ira despertada foi tanta que as fitas com a participação de Vandré naquele festival, simplesmente sumiram. Não existem mais.

Quando Caetano e Gil foram sequestrados pelos militares em dezembro de 1968, os golpistas também saíram à caça de Vandré mas não o encontraram. Avisado, partiu para o exílio. No dia 11 de setembro de 1973, Geraldo teria voltado do Chile, no exato dia do golpe de Pinochet. Apareceu no aeroporto e lá estava a TV Globo para entrevistá-lo. Falou que daquele dia em diante só cantaria músicas de amor. Gravou em seguida Fabiana em homenagem à FAB. No fim das contas voltou o Geraldo mas não voltou o Vandré. Relatos falam que fora preso ainda no Chile, meses antes da tal chegada. Teria sido torturado, emasculado, despedaçado e transformado em um morto-vivo, sem mais nenhum vestígio do autor de Disparada, Che, Aroeira, Cantiga Brava e muito menos de Pra não dizer que não falei das flores.

Os militares cumpriram sua promessa. Mataram o Vandré. Sua obra, porém, segue desafiando canhões.




Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer


Nota: Este post é uma contribuição à VII blogagem coletiva #desaquivandoBR.