quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Algumas poucas palavras sobre aquilo que não é o #Rolezinho

Só muito, muito, muito preconceito para insinuar que o rolezinho tem qualquer traço de arrastão e isso já está mais do que claro para quem tem uma gotinha de bom senso. Nem precisava dizer isso, mas ainda assim é bom dizer. Mas assim como não é arrastão é preciso dizer que rolezinho também não é protesto. Pelo menos até esse momento. É manifestação popular da juventude proletarizada e subproletarizada paulista mas não é protesto. Parece desproposital ter que anunciar isso, mas de repente é tanta gente teorizando e inclusive apontando o rolezinho como uma forma justa e necessária de protesto que colocar os pingos nos i's acaba sendo importante.

O que vimos assistindo nos shoppings do sudeste e que vem horrorizando a classe média e a burguesada tem muito mais a ver com uma versão "flashmob" popular com uma bela pitada de pegadinha do que com uma ocupação da Avenida Paulista, por exemplo. De coincidências com os atos de protesto do último ano temos fundamentalmente o fato de ser marcado pelo Facebook. Fora isso, é preciso cautela ao analisar.

Algumas análises tentam de forma superficial fazer a relação da manifestação dos atuais rolezinhos com as jornadas de junho. Muito cuidado nessa hora. Existe uma relação do ponto de vista econômico, sim. E é muito importante estudá-la. Mas quando aprofundamos um pouquinho que seja a análise claramente vemos que o sujeito social de junho é bem diferente dos atuais passeios da juventude pobre aos templos do consumo da pequena-burguesia. O sujeito daquelas mobilizações foi fundamentalmente o novo precariado, já o das atuais "visitinhas" é a juventude subproletarizada mesmo. O teor é outro, o caráter é outro e diga-se de passagem o medo da burguesia, talvez seja muito, muito maior. Associar uma coisa a outra sem a devida cautela, é puro impressionismo.

É claro que, em especial em virtude da repressão, o lance todo pode até se tornar algo muito maior e o que até então foi brincadeira pode saltar sim para a área do protesto. Mas veja bem: "poder se tornar" e "já ser" são coisas bem diferentes. Para tornar protesto essa grande brincadeira da juventude prole é preciso muito mais. É preciso arregaçar as mangas e organizar mais que a juventude pobre, o que já é um imenso desafio não assumido por absolutamente nenhuma organização de peso nesse país. É preciso se dispor a organizar a própria periferia.

Mas como fazê-lo? E pior ainda, com que se poderá contar para fazê-lo?

Com o MST rendido e governista? Com a CUFA muito mais que oportunista? Com o movimento hip-hop via de regra já cooptado, enlatado e etiquetado para venda? Com o movimento popular esfacelado em mil pedaços graças a obra e empenho dos governos petistas? Com o eleitoralismo do PSOL ou com o movimentismo-sindicalista desenfreado do PSTU? Não. Nada disso.

O MTST até já cumpriu esse papel  no passado inclusive organizando visita da favela aos shoppings cariocas. Mas isso foi lá pelos idos de 2000, antes do governo de Frente Popular, do bolsa família, do "minha Casa, minha vida" e de um sem número de ofensivas para desmoralizar e desmobilizar a classe trabalhadora.

Diferente do que se passou em junho, não temos nenhum MPL para o povo pobre e preto do nosso Brasil varonil, que tenha autoridade para empalmar o momento. Não existe e me atrevo a afirmar que aqueles que ousarem se oferecer a sê-lo a essa altura do campeonato se candidatam a cumprir o papel de grandiosos tontos (pra dizer o mínimo).

Isso quer dizer que ninguém deve ousar fazê-lo? Depende. É pra valer ou mera coisa de momento? Se for por pura onda, honestamente que fique na sua, e deixe a juventude encontrar seu próprio caminho. Mas se não for, o desafio está posto e será preciso muito mais do que se tem feito até o momento.

A onda dos rolezinhos está aí mas honestamente ela vai passar. Já o nosso racismo, esse não, esse continuará com todas sua venerável hipocrisia. E quem ao menos sonhar em organizar nosso povo pobre precisa verdadeiramente se dispor a entender e combater o racismo. Será preciso muito mais do que palavras ditas ao vento ou impressas no papel. Será preciso atitude.