terça-feira, 19 de agosto de 2014

Algumas considerações sobre a doação da Zaffari ao PSOL (texto de Bruno Rodrigues)

Inaugurando seus textos no blog, meu camarada Bruno Rodrigues nos presenteia com algumas considerações sobre o episódio da doação da Zaffari ao PSOL no Rio Grande do Sul. Vale muitíssimo a leitura.

No começo deste mês, o PSTU explicitou em nota on-line, uma doação que a direção gaúcha do PSOL recebeu. Algo em torno de R$ 50.000,00 vindos do grupo Zaffari que seria rateado em R$ 35.000,00 para a campanha de Roberto Robaína, candidato ao governo do estado, e R$ 15.000,00 para a campanha da Luciana Genro à presidência da republica. A título de ilustração é bom saber que o grupo Zaffari é a quinta maior rede de supermercados do Brasil e a primeira do Rio Grane do Sul, sendo proprietário de 9 shoppings centers, com 9 mil empregados em suas 30 unidades no país e um faturamento bruto de R$ 3,7 bilhões em 2013. 

Tal fato em si não é novidade e pros mais atentos e experimentados, sequer chega a ser surpreendente, posto que Luciana Genro no passado recente, recebeu doação de R$100.000,00 do grupo Gerdau para sua campanha à prefeitura de Porto Alegre. Não só isso, também recentemente um dos dirigentes nacionais do PSOL, Martiniano Cavalcante, foi descoberto recebendo o valor de R$ 200.000,00 em empréstimo de uma das empresas-laranja de ninguém menos que...o bicheiro Carlinhos Cachoeira (Martiniano ao menos foi afastado).


Mas o pior não é isso.

O pior de tudo é o partido receber a tal doação, “selar, registrar, carimbar, avaliar e rotular“ tudo perante a justiça eleitoral e uma parte da sua militância aceitar tal fato, com um leque de argumentos dos mais exuberantes, indo do oportunismo ao sectarismo num rápido pestanejar. Alguns dizem que por não bater a cifra dos milhões (como nas doações às candidaturas de Dilma e Aécio) e tudo ser devidamente registrado, não ha o que contestar, se esquecendo que o critério não é o montante em dinheiro. O critério é NUNCA receber NADA de NENHUM setor da burguesia. Outros fazem bico perante a denúncia e assumem despudoradamente que é legitimo usar tal doação. Por fim, só uma pequena minoria se indigna, sem no entanto, romper. É uma tragédia, que militantes identificados com o socialismo saiam em defesa de doações da burguesia a uma corrente de esquerda, mesmo que tal burguesia seja pequena (o que não é o mesmo que pequena-burguesia). Mostram assim não só um desapreço pelo marxismo que ensina que acima de tudo, até de deus, esta a luta de classes com seus interesses inconciliávies em disputa, bem como relegam pra debaixo do tapete da história a trajetória do próprio PT de cuja costela saíram. O petismo não é só uma corrente reformista do movimento operário brasileiro gestado  nas greves de 70-80 e que tornou-se diretamente neoliberal. Ele representa todo um legado politico-metodológico-moral-intelectual, um "ethos" por excelência, que arrastou pro buraco da conciliação de classes nove-décimos da geração do ativismo brasileiro pós ditadura. Menosprezar esse fato é no mínimo um erro imperdoável.

Ao ignorar a experiência histórica do petismo, o PSOL segue o mesmo repertório já trilhado pelo PT com uma atuação marcadamente legalista-jurídica-eleitoral-parlamentar e sendo capaz de coligar-se com legendas burguesas e de aluguel apesar da fraseologia radical e das cores socialistas. O PT começou fazendo coligações com pequenos partidos da burguesia como o PDT do falecido latifundiário Leonel Brizola e hoje co-governa o país com o PMDB, sigla conhecida por ser a mais fisiológica e oportunista da burguesia brasileira. Das doações que recebia de seus militantes, o PT passou a ser das legendas que mais o empresariado brasileiro investe. Assim segue o PSOL. Recebem um tanto aqui, um tanto ali, se coligam com o PTB aqui, com o PV ali, com o PSB acolá...     


Há um velho ditado positivista que afirma que "os mortos governam os vivos". Com mais esse episódio, o PSOL prova que é ainda governado pelo ethos petista mesmo tendo rompido formalmente com ele lá pelos idos de 2003. Buscam nessas eleições se postular como o porta-voz dos descontentes de Junho/13 e como alternativa ao (falso) binário Dilma x Aécio, mas ao aceitarem de bom grado mais essa doação mostram somente que não passam de mais do mesmo. Em nada coadunam com a voz dos milhões de Junho. Em nada reverberam a voz das greves dos garis, petroleiros, metroviários... 


Não estamos diante de um episódio circunstancial. É um novo enterro do PT, que surgiu e se tornou tragédia, e que agora ressurge como farsa na forma PSOL.

PS: Resta só uma pergunta aos nossos camaradas do PSTU: Seguirão participando da Frente de Esquerda gaúcha e fazendo campanha para Robaína/Zaffari ou deixarão a justa denúncia no vazio?