sexta-feira, 24 de julho de 2015

Nem golpe, nem greve geral no horizonte. Sigamos em frente.


Passados 130 dias (mais de 4 meses) do primeiro grande ato de rua pró-impeachment de Dilma Roussef, o governo petista segue seu rumo ainda que aos trancos e barrancos. Impressiona sim, o modo como a presidenta foi capaz de queimar tão ferozmente seu capital político conquistado com grande dificuldades nas últimas eleições presidenciais, ao ponto de ter sua popularidade jogada ao "volume morto".

Apesar disso, enganam-se aqueles que pensam que o governo acabou, está paralisado ou mesmo prestes a cair. Isso não é verdade. Existe uma crise política, é inegável. O modo petista de governar baseado na eterna e inquestionável coalizão de classes, vaza por todos os lados. Isso sim, é verdade. Não é a toa que sua autoridade foi repetidamente colocada no canto da parede pelo até agora presidente da Câmara dos Deputados, o medonho senhor Eduardo Cunha. Mas não é verdade que o governo esteja semi-morto.

O que tem sido, afinal de contas, o maldito ajuste fiscal levado adiante por Joaquim Levy com as bençãos de Dilma? E para coroar, o que é o PPE, o Programa de Proteção às Empresas, digo, ao Emprego? Quer algo melhor que isso? A crise econômica impõe sua agenda e o governo ao invés de tomar medidas para diminuir os lucros dos grandes bancos, latifúndios e empresas coibindo quaisquer demissões seja impondo multas, fim de benefícios e até mesmo estatizando, oferece como saída a redução da folha de pagamento dos trabalhadores. Absurdo dos absurdos.

Mas o que impressiona não é que o governo faça isso. Sequer impressiona que as centrais sindicais governistas e pelegas sejam as grandes defensoras do tal programa. O que impressiona é a passividade e a paciência da imensa maioria da classe. Os famigerados doze anos de governo de Frente Popular impregnaram com muita força a desmobilização, a desmoralização e a confusão no seio dos trabalhadores. Isso não pode, em hipótese alguma, ser menosprezado.

A burguesia sabe que não pode abrir mão da dedicação do lulo-petismo em manter a paz social. Ela não pode abrir mão de Dilma. Ao menos agora não. Não é a toa que em plena crise econômica com o mercado demitindo como há muito não demitia, com a previsão do crescimento do PIB encolhendo, e com seus sucessivos recordes de lucros ameaçados, não temos o presidente da FIESP elevando o tom contra o governo. Não é a toa que ruralistas não declararam guerra contra o governo que segue permitindo que siga matando impunemente lideranças camponesas, populares e indígenas. Os grandes bancos então? Esses seguem sorridentes anunciando seus novos recordes de lucratividade. E o imperialismo? É preciso falar algo a mais depois de Obama dar um grande cala-boca na repórter da Globo News ao sair em defesa de Dilma e do papel de "Global Player" do Brasil na economia mundial?

Então, acalmem-se todos. Não existe nenhum golpe a vista no horizonte. Sendo assim não está colocada como tarefa construir marchas, comitês anti-golpe ou qualquer coisa do tipo. Fazer isso é meramente sair na defesa do governo impulsionando a desmoralização e a desmobilização.

Ainda que os pró-impeachment vociferem e que as organizações Globo dêem amplitude aos seus gritos de ódio e horror, a queda de Dilma pelas mãos da direita organizada está mais para conto da carochinha do qualquer outra coisa.

Por outro lado, é preciso também dizer seriamente que não está colocada a possibilidade de uma greve geral no país para um curto ou médio prazo com os elementos que estão colocadas na realidade. E quanto mais a oposição de esquerda gritar "Greve Geral" mais ela, a greve, se distanciará de nós. Assim como gritar "Olha o golpe" quando não há risco de golpe desmoraliza e desmobiliza, também é um imenso desserviço à classe trabalhadora gritar "Vamos juntos construir a greve geral" quando não há condições objetivas muito menos subjetivas para tanto, Se é que não é ainda pior.

A palavra de ordem "Greve Geral" não é para simples propaganda. Ela traz em si o sentido de ação. Agitá-la tem o sentido de colocar em marcha sua construção. E não se faz isso quando não é possível de fato construí-la. Usá-la sem uma base na realidade é simplesmente banalizá-la. Não se faz isso sem graves consequências. É como a fábula de Esopo do pastorzinho que cansado de cuidar das ovelhas saía gritando "Lobo! Lobo!" para se divertir fazendo com que aldeões saiam em sua defesa sem encontrar lobo algum. Até que um belo dia quando o lobo realmente apareceu e o menino gritou, "Lobo! Lobo!", ninguém o atendeu, pois de tão banalizado o grito ninguém conseguiu acreditar que fosse verdade.

Então, em especial aos ativistas que levantam neste momento a tarefa da greve geral fica o chamado a não desperdiçar munição a toa. Não temos balas para ficar atirando para cima. Não temos direito a isso. Deixem disso e passemos de fato a enfrentar o governo e suas medidas, luta após luta, greve após greve, reconquistando a confiança da classe em suas próprias forças, até que de fato a Greve Geral se torne simplesmente inevitável.