quinta-feira, 19 de março de 2015

Olhar um pouco melhor o 15 de março é também enxergar o que pode vir depois


Não é possível ter dúvida alguma que o dia 15 de março de 2015 entrou para a história. Milhares tomaram as ruas de várias cidades do país contra o governo Dilma. Na Avenida Paulista imagens aéreas mostraram uma das maiores marchas populares já realizadas na cidade de São Paulo, mais de 200 mil pessoas. A manifestação realizada na capital paulista em março de 2015 foi maior que qualquer outra realizada em junho de 2013, quando a repressão policial ao movimento passe livre desatou o evento que hoje é conhecido por todos nós como as jornadas de junho. Naquele ano, a Avenida Paulista viu manifestações de 110 mil pessoas. Este ano o pico chegou a quase 160 mil pessoas e considerando os que se somaram ou saíram durante as 4 horas de duração do ato, foram 100 mil pessoas a mais que em 2013. Seria lindo se não fosse trágico.

Infelizmente, e como já era esperado, as manifestações foram claramente reacionárias. A defesa da democracia tal como a Globo tentou fazer colar em sua cobertura extraordinária com dedicação maior do que em dia de eleição, foi atropelada pelos gritos de Fora Dilma acompanhados de cartazes reivindicando intervenção militar para salvar o Brasil. Assustador? Pois bem... vamos com calma. É verdade que as coisas são feias mas não adianta de absolutamente nada começar a roer as unhas com medo do golpe nem se desfazer do seu exemplar do "A Capital" de Eça de Queiroz. De muito mais serventia nos seria uma espiadela mais cuidadosa da manifestação a partir da perspectiva do público participante. Façamos isso.

São Paulo é a cidade mais populosa do país, contando com praticamente 12 milhões dos 200 milhões de brasileiros. Olhando por aí, ficamos sabendo que a Paulista foi ocupada por 1,75% da população da capital paulista. Ainda é muita gente, mas a perspectiva já não é a mesma e já se começa, a partir daí, a se ter uma noção de que tipo de gente de fato participou da marcha reacionária do dia 15. Nem se precisaria de pesquisa do Datafolha para se afirmar que a classe trabalhadora paulista faltou à festa. Mas, para nossa alegria a pesquisa existe. Pois vamos a ela.

Segundo o Datafolha:
- 63% foram homens;
- 69% de cor branca, 20% pardos, 5% pretos, 3% amarelos e 1% indío.
- A idade média foi de 40 anos;
- 76% possuiam ensino superior, 21% somente o ensino médio e 2%, o fundamental;
- 85% participam da PEA (população economicamente ativa) com 37% de assalariados, 11% de autônomos, 7% de liberais e 14% de empresários;
- 14% ganham até 3 salários mínimos, 15% de 3 a 5, 27% de 5 a 10, 22% de 10 a 20 e 19% acima de 20 salários;
- 84% nunca haviam participado de uma manifestação antes;
- 82% eram eleitores de Aécio, 14% anularam ou não votaram e somente 3% votaram em Dilma.
- 47% disseram espontaneamente estar nas ruas contra a corrupção, 27% contra a Dilma, 20% contra o PT, 15% contra os políticos e 6% por mais segurança.
- 85% acreditam na democracia, 10% consideram a ditadura como alternativa e outros 3% consideram isso indiferente.

Postos os números o que concluímos? O dia 15, gostem ou não seus defensores e participantes, foi um ato majoritariamente masculino, branco, velho, elitista, aecista e anti-petista. Mas os rótulos não nos são suficientes. Alguns desse números merecem um pouco mais de atenção, entre eles o da renda mensal dos participantes. Somente 14% ganham até 3 salários mínimos, ou seja, R$ 2364,00, enquanto 19% ganham acima de R$ 15.000,00. Por aí já entende-se que o peso pesado da classe trabalhadora que objetivamente ganha abaixo de 3 salários, não se envolveu com a marcha anti-petista. Não estavam lá os garis (R$ 970,00), pedreiros (R$ 1.393,50) e serventes (R$ 1.145,10), vigilantes (R$ 1.583,59), gráficos (R$ 1.280,40), comerciários (R$ 1.253,69), e um largo etcétera de categorias.

Também não compareceram os sem teto, favelados e desempregados afinal de contas é difícil acreditar que pessoas nessas condições nunca tenham participado de um protesto na sua vida (lembrar que 84% foram às ruas pela primeira vez). Sem falar que somente 5% se enxerga como negro. Definitivamente a classe trabalhadora não se comoveu pelo apelos globais.

Mas ao mesmo tempo isso não quer dizer que a classe está disposta a defender o governo frente populista de Dilma. Tanto é assim que ela também não deu peso ao ato da sexta-feira. dia 13 de março. Não rompeu com o governo ao ponto de se deixar arrastar pela direção da classe média paulista, mas também não está disposta a ser fiadora do PT e de Dilma. É muito importante ter isso em mente. Até mesmo porque o fato de não haver nenhum golpe a vista no horizonte não quer dizer que isso não possa mudar. É tudo uma questão de correlação de forças. Se a direitada começa a ganhar gosto pelas ruas e a arrancar pequenas vitórias na forma de capitulações do governo e do parlamento é possível que comece a arrastar atrás de si de forma mais significativa, tanto setores da direita convencional organizada em partidos burgueses e até mesmo destacamentos armados da própria polícia militar. Mas, insisto, ainda não é isso que está posto.

Por hora, a realidade nos aponta uma perspectiva que ruma pela direita mas o resultado pode ser totalmente diferente na medida em que o peso da classe trabalhadora entre nessa equação.

E eis o desafio: entender a situação em que se encontra a classe trabalhadora e ser capaz de canalizar seus desejos e necessidades correntes em um programa para ação. Nada de desesperos, nem de se deixar impressionar ou mesmo se precipitar. Nada de chamar a tomar de assalto as ruas ou parar as fábricas sem antes captar os sentimentos da classe. Nada de tarefas nem para os trabalhadores, nem para nós mesmos que não haja capacidade de se fazer materializar. O momento é de explicar pacientemente os grandes ataques que estão por vir e assim ir preparando-se para entrar na luta quando chegar a hora. Um passo atrás do outro e sempre em frente. Mantenhamo-nos firmes!

segunda-feira, 16 de março de 2015

"A mais maldita das heranças do PT" (artigo de @brumelianebrum no @elpais_brasil)

A escritora e repórter Eliane Brum publicou nesta segunda, 16 de março, no portal El País, artigo com o nome "A mais malditas das heranças do PT" que à luz das manifestações dos dias 13 e em especial, do dia 15, faz a análise do que signifcou a maldição dos 12 anos de governo petista, não pela corrupção, mas pelo afastamento das ruas e cooptação de vários setores do movimento popular, além do estanhamento de parte considerável do ativismo com o governo petista. Algumas passagens do texto não tem nossa concordância, em especial a que dá como caduca, a luta entre pobres e ricos , leia-se "luta de classes", mas ainda assim consideramos que vale a leitura e por isso colamos o artigo na íntegra dando destaque para algumas passagens que consideramos extremamente relevantes e oportunas.

Boa leitura.

A mais maldita das heranças do PT


O maior risco para o PT, para além do governo e do atual mandato, talvez não seja a multidão que ocupou as ruas do Brasil, mas a que não estava lá. São os que não estavam nem no dia 13 de março, quando movimentos como CUT, UNE e MST organizaram uma manifestação que, apesar de críticas a medidas de ajuste fiscal tomadas pelo governo, defendia a presidente Dilma Rousseff. Nem estavam no já histórico domingo, 15 de março, quando centenas de milhares de pessoas aderiram aos protestos, em várias capitais e cidades do país, em manifestações contra Dilma Rousseff articuladas nas redes sociais da internet, com bandeiras que defendiam o fim da corrupção, o impeachment da presidente e até uma aterradora, ainda que minoritária, defesa da volta da ditadura. São os que já não sairiam de casa em dia nenhum empunhando uma bandeira do PT, mas que também não atenderiam ao chamado das forças de 15 de março, os que apontam que o partido perdeu a capacidade de representar um projeto de esquerda – e gente de esquerda. É essa herança do PT que o Brasil, muito mais do que o partido, precisará compreender. E é com ela que teremos de lidar durante muito mais tempo do que o desse mandato.

Tenho dúvidas sobre a tecla tão batida por esses dias do Brasil polarizado. Como se o país estivesse dividido em dois polos opostos e claros. Ou, como querem alguns, uma disputa de ricos contra pobres. Ou, como querem outros, entre os cidadãos contra a corrupção e os beneficiados pela corrupção. Ou entre os a favor e os contra o governo. Acho que a narrativa da polarização serve muito bem a alguns interesses, mas pode ser falha para a interpretação da atual realidade do país. Se fosse simples assim, mesmo com a tese do impeachment nas ruas, ainda assim seria mais fácil para o PT.

Algumas considerações prévias. Se no segundo turno das eleições de 2014, Dilma Rousseff ganhou por uma pequena margem – 54.501.118 votos contra 51.041.155 de Aécio Neves –, não há dúvida de que ela ganhou. Foi democraticamente eleita, fato que deve ser respeitado acima de tudo. Não existe até esse momento nenhuma base para impeachment, instrumento traumático e seríssimo que não pode ser manipulado com leviandade, nem mesmo no discurso. Quem não gostou do resultado ou se arrependeu do voto, paciência, vai ter de esperar a próxima eleição. Os resultados valem também quando a gente não gosta deles. E tentar o contrário, sem base legal, é para irresponsáveis ou ignorantes ou golpistas.

No resultado das eleições ampliou-se a ressonância da tese de um país partido e polarizado. Mas não me parece ser possível esquecer que outros 37.279.085 brasileiros não escolheram nem Dilma nem Aécio, votando nulo ou branco e, a maior parte, se abstendo de votar. É muita gente – e é muita gente que não se sentia representada por nenhum dos dois candidatos, pelas mais variadas razões, à esquerda e também à direita, o que complica um pouco a tese da polarização. Além das divisões entre os que se polarizariam em um lado ou outro, há mais atores no jogo que não estão nem em um lado nem em outro. E não é tão fácil compreender o papel que desempenham. No mesmo sentido, pode ser muito arriscado acreditar que quem estava nos protestos neste domingo eram todos eleitores de Aécio Neves. A rua é, historicamente, o território das incertezas – e do incontrolável.

Há lastro na realidade para afirmar também que uma parte dos que só aderiram à Dilma Rousseff no segundo turno era composta por gente que acreditava em duas teses amplamente esgrimidas na internet às vésperas da votação: 1) a de que Dilma, assustada por quase ter perdido a eleição, em caso de vitória faria “uma guinada à esquerda”, retomando antigas bandeiras que fizeram do PT o PT; 2) a de votar em Dilma “para manter as conquistas sociais” e “evitar o mal maior”, então representado por Aécio e pelo PSDB. Para estes, Dilma Rousseff não era a melhor opção, apenas a menos ruim para o Brasil. E quem pretendia votar branco, anular o voto ou se abster seria uma espécie de traidor da esquerda e também do país e do povo brasileiro, ou ainda um covarde, acusações que ampliaram, às vésperas das eleições, a cisão entre pessoas que costumavam lutar lado a lado pelas mesmas causas. Neste caso, escolhia-se ignorar, acredito que mais por desespero eleitoral do que por convicção, que votar nulo, branco ou se abster também é um ato político.

Faz sentido suspeitar que uma fatia significativa destes que aderiram à Dilma apenas no segundo turno, que ou esperavam “uma guinada à esquerda” ou “evitar o mal maior”, ou ambos, decepcionaram-se com o seu voto depois da escolha de ministros como Kátia Abreu e Joaquim Levy, à direita no espectro político, assim como com medidas que afetaram os direitos dos trabalhadores. Assim, se a eleição fosse hoje, é provável que não votassem nela de novo. Esses arrependidos à esquerda aumentariam o número de eleitores que, pelas mais variadas razões, votaram em branco, anularam ou não compareceram às urnas, tornando maior o número de brasileiros que não se sentem representados por Dilma Rousseff e pelo PT, nem se sentiriam representados por Aécio Neves e pelo PSDB.

Esses arrependidos à esquerda, assim como todos aqueles que nem sequer cogitaram votar em Dilma Rousseff nem em Aécio Neves porque se situam à esquerda de ambos, tampouco se sentem identificados com qualquer um dos grupos que foi para as ruas no domingo contra a presidente. Para estes, não existe a menor possibilidade de ficar ao lado de figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP) ou de defensores da ditadura militar ou mesmo de Paulinho da Força. Mas também não havia nenhuma possibilidade de andar junto com movimentos como CUT, UNE e MST, que para eles “pelegaram” quando o PT chegou ao poder: deixaram-se cooptar e esvaziaram-se de sentido, perdendo credibilidade e adesão em setores da sociedade que costumavam apoiá-los.

Essa parcela da esquerda – que envolve desde pessoas mais velhas, que historicamente apoiaram o PT, e muitos até que ajudaram a construí-lo, mas que se decepcionaram, assim como jovens filhos desse tempo, em que a ação política precisa ganhar horizontalidade e se construir de outra maneira e com múltiplos canais de participação efetiva – não encontrou nenhum candidato que a representasse. No primeiro turno, dividiram seus votos entre os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL, ou votaram em Marina Silva, em especial por sua compreensão da questão ambiental como estratégica, num mundo confrontado com a mudança climática, mas votaram com dúvidas. No segundo turno, não se sentiram representados por nenhum dos candidatos.

Marina Silva foi quem chegou mais perto de ser uma figura com estatura nacional de representação desse grupo à esquerda, mais em 2010 do que em 2014. Mas fracassou na construção de uma alternativa realmente nova dentro da política partidária. Em parte por não ter conseguido registrar seu partido a tempo de concorrer às eleições, o que a fez compor com o PSB, sigla bastante complicada para quem a apoiava, e assumir a cabeça de chapa por conta de uma tragédia que nem o mais fatalista poderia prever; em parte por conta da campanha mentirosa e de baixíssimo nível que o PT fez contra ela; em parte por equívocos de sua própria campanha, como a mudança do capítulo do programa em que falava de sua política para os LGBTs, recuo que, além de indigno, só ampliou e acentuou a desconfiança que muitos já tinham com relação à interferência de sua fé evangélica em questões caras como casamento homoafetivo e aborto; em parte porque escolheu ser menos ela mesma e mais uma candidata que supostamente seria palatável para estratos da população que precisava convencer. São muitas e complexas as razões.

O que aconteceu com Marina Silva em 2014 merece uma análise mais profunda. O fato é que, embora ela tenha ganhado, no primeiro turno de 2014, cerca de 2,5 milhões de votos a mais do que em 2010, seu capital político parece ter encolhido, e o partido que está construindo, a Rede Sustentabilidade, já sofreu deserções de peso. Talvez ela ainda tenha chance de recuperar o lugar que quase foi seu, mas não será fácil. Esse é um lugar vago nesse momento.

Há uma parcela politizada, à esquerda, que hoje não se sente representada nem pelo PT nem pelo PSDB, não participou de nenhum dos panelaços nem de nenhuma das duas grandes manifestações dos últimos dias, a de 15 de março várias vezes maior do que a do dia 13. É, porém, muito atuante politicamente em várias áreas e tem grande poder de articulação nas redes sociais. Não tenho como precisar seu tamanho, mas não é desprezível. É com essa parcela de brasileiros, que votou em Lula e no PT por décadas, mas que deixou de votar, ou de jovens que estão em movimentos horizontais apartidários, por causas específicas, que apontam o que de fato deveria preocupar o PT, porque esta era ou poderia ser a sua base, e foi perdida.

A parcela de esquerda que não bateria panelas contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderia, aponta a falência do PT em seguir representando o que representou no passado. Aponta que, em algum momento, para muito além do Mensalão e da Lava Jato, o PT escolheu se perder da sua base histórica, numa mistura de pragmatismo com arrogância. É possível que o PT tenha deixado de entender o Brasil. Envelhecido, não da forma desejável, representada por aqueles que continuam curiosos em compreender e acompanhar as mudanças do mundo, mas envelhecido da pior forma, cimentando-se numa conjuntura histórica que já não existe. E que não voltará a existir. Essa aposta arriscada precisa que a economia vá sempre bem; quando vai mal, o chão desaparece.

Fico perplexa quando lideranças petistas, e mesmo Lula, perguntam-se, ainda que retoricamente, por que perderam as ruas. Ora, perderam porque o PT gira em falso. O partido das ruas perdeu as ruas – menos porque foi expulso, mais porque se esqueceu de caminhar por elas. Ou, pior, acreditou que não precisava mais. Nesse contexto, Dilma Rousseff é só a personagem trágica da história, porque em algum momento Lula, com o aval ativo ou omisso de todos os outros, achou que poderia eleger uma presidente que não gosta de fazer política. Estava certo a curto prazo, podia. Mas sempre há o dia seguinte.

Não adianta ficar repetindo que só bateu panela quem é da elite. Pode ter sido maior o barulho nos bairros nobres de São Paulo, por exemplo, mas basta um pequeno esforço de reportagem para constatar que houve batuque de panelas também em bairros das periferias. Ainda que as panelas batessem só nos bairros dos ricos e da classe média, não é um bom caminho desqualificar quem protesta, mesmo que você ou eu não concordemos com a mensagem, com termos como “sacada gourmet” ou “panelas Le Creuset”. Todos têm direito de protestar numa democracia e muitos dos que ridicularizam quem protestou pertencem à mesma classe média e talvez tenham uma ou outra panelinha Le Creuset ou até pagou algumas prestações a mais no apartamento para ter uma sacada gourmet, o que não deveria torná-los menos aptos nem a protestar nem a criticar o protesto.

Nos panelaços, só o que me pareceu inaceitável foi chamar a presidente de “vagabunda” ou de “vaca”, não apenas porque é fundamental respeitar o seu cargo e aqueles que a elegeram, mas também porque não se pode chamar nenhuma mulher dessa maneira. E, principalmente, porque o “vaca” e o “vagabunda” apontam a quebra do pacto civilizatório. É nesses xingamentos, janela a janela, que está colocado o rompimento dos limites, o esgarçamento do laço social. Assim como, no domingo de 15 de março, essa ruptura esteve colocada naqueles que defendiam a volta da ditadura. Não há desculpa para desconhecer que o regime civil militar que dominou o Brasil pela força por 21 anos torturou gente, inclusive crianças, e matou gente. Muita gente. Assim, essa defesa é inconstitucional e criminosa. Com isso, sim, precisamos nos preocupar, em vez de misturar tudo numa desqualificação rasteira. É urgente que a esquerda faça uma crítica (e uma autocrítica) consistente, se quiser ter alguma importância nesse momento agudo do país.

Também não adianta continuar afirmando que quem foi para as ruas é aquela fatia da população que é contra as conquistas sociais promovidas pelo governo Lula, que tirou da miséria milhões de brasileiros e fez com que outros milhões ascendessem ao que se chamou de classe C. Pessoas as quais é preciso respeitar mais pelo seu passado do que pelo seu presente ficaram repetindo na última semana que quem era contra o PT não gostava de pobres nos aeroportos ou estudando nas universidades, entre outras máximas. É fato que existem pessoas incomodadas com a mudança histórica que o PT reconhecidamente fez, mas dizer que toda oposição ao PT e ao governo é composta por esse tipo de gente, ou é cegueira ou é má fé.

Num momento tão acirrado, todos que têm expressão pública precisam ter muito mais responsabilidade e cuidado para não aumentar ainda mais o clima de ódio – e disseminar preconceitos já se provou um caminho perigoso. Até a negação deve ter limites. E a negação é pior não para esses ricos caricatos, mas para o PT, que já passou da hora de se olhar no espelho com a intenção de se enxergar. De novo, esse discurso sem rastro na realidade apenas gira em falso e piora tudo. Mesmo para a propaganda e para o marketing, há limites para a falsificação da realidade. Se é para fazer publicidade, a boa é aquela capaz de captar os anseios do seu tempo.

É também por isso que me parece que o grande problema para o PT não é quem foi para as ruas no domingo, nem quem bateu panela, mas quem não fez nem uma coisa nem outra, mas também não tem a menor intenção de apoiá-lo, embora já o tenha feito no passado ou teria feito hoje se o PT tivesse respeitado as bandeiras do passado. Estes apontam o que o PT perdeu, o que já não é, o que possivelmente não possa voltar a ser.

O PT traiu algumas de suas bandeiras de identidade, aquelas que fazem com que em seu lugar seja preciso colocar máscaras que não se sustentam por muito tempo. Traiu não apenas por ter aderido à corrupção, que obviamente não foi inventada por ele na política brasileira, fato que não diminui em nada a sua responsabilidade. A sociedade brasileira, como qualquer um que anda por aí sabe, é corrupta da padaria da esquina ao Congresso. Mas ser um partido “ético” era um traço forte da construção concreta e simbólica do PT, era parte do seu rosto, e desmanchou-se. Embora ainda existam pessoas que merecem o máximo respeito no PT, assim como núcleos de resistência em determinadas áreas, secretarias e ministérios, e que precisam ser reconhecidos como tal, o partido traiu causas de base, aquelas que fazem com que se desconheça. Muitos dos que hoje deixaram de militar ou de apoiar o PT o fizeram para serem capazes de continuar defendendo o que o PT acreditava. Assim como compreenderam que o mundo atual exige interpretações mais complexas. Chamar a estes de traidores ou de fazer o jogo da direita é de uma boçalidade assombrosa. Até porque, para estes, o PT é a direita.

A parcela à esquerda que preferiu ficar fora de manifestações a favor ou contra lembra que tão importante quando discutir a corrupção na Petrobras é debater a opção por combustíveis fósseis que a Petrobras representa, num momento em que o mundo precisa reduzir radicalmente suas emissões de gases do efeito estufa. Lembra que estimular a compra de carros como o governo federal fez é contribuir com o transporte privado individual motorizado, em vez de investir na ampliação do transporte público coletivo, assim como no uso das bicicletas. É também ir na contramão ao piorar as condições ambientais e de mobilidade, que costumam mastigar a vida de milhares de brasileiros confinados por horas em trens e ônibus lotados num trânsito que não anda nas grandes cidades. Lembra ainda que estimular o consumo de energia elétrica, como o governo fez, é uma irresponsabilidade não só econômica, mas socioambiental, já que os recursos são caros e finitos. Assim como olhar para o colapso da água visando apenas obras emergenciais, mas sem se preocupar com a mudança permanente de paradigma do consumo e sem se preocupar com o desmatamento tanto da floresta amazônica quanto do Cerrado quanto das nascentes do Sudeste e dos últimos redutos sobreviventes de Mata Atlântica fora e dentro das cidades é um erro monumental a médio e a longo prazos.

Os que não bateram panelas contra o PT e que não bateriam a favor lembram que a forma de ver o país (e o mundo) do lulismo pode ser excessivamente limitada para dar conta dos vários Brasis. Povos tradicionais e povos indígenas, por exemplo, não cabem nem na categoria “pobres” nem na categoria “trabalhadores”. Mas, ao fazer grandes hidrelétricas na Amazônia, ao ser o governo de Dilma Rousseff o que menos demarcou terras indígenas, assim como teve desempenho pífio na criação de reservas extrativistas e unidades de conservação, ao condenar os povos tradicionais ao etnocídio ou à expulsão para a periferia das cidades, é em pobres que são convertidos aqueles que nunca se viram nesses termos. Em parte, a construção objetiva e simbólica de Lula – e sua forma de ver o Brasil e o mundo – encarna essa contradição (escrevi sobre isso aqui), que o PT não foi capaz nem quis ser capaz de superar no poder. Em vez de enfrentá-la, livrou-se dos que a apontavam, caso de Marina Silva.

O PT no governo priorizou um projeto de desenvolvimento predatório, baseado em grandes obras, que deixou toda a complexidade socioambiental de fora. Escolha inadmissível num momento em que a ação do homem como causa do aquecimento global só é descartada por uma minoria de céticos do clima, na qual se inclui o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, mais uma das inacreditáveis escolhas de Dilma Rousseff. A síntese das contradições – e também das traições – do PT no poder não é a Petrobras, mas Belo Monte. Sobre a usina hidrelétrica já pesa a denúncia de que só a construtora Camargo Corrêa teria pagado mais de R$ 100 milhões em propinas para o PT e para o PMDB. É para Belo Monte que o país precisaria olhar com muito mais atenção. É na Amazônia, onde o PT reproduziu a visão da ditadura ao olhar para a floresta como um corpo para a exploração, que as fraturas do partido ao chegar ao poder se mostram em toda a sua inteireza. E é também lá que a falácia de que quem critica o PT é porque não gosta de pobre vira uma piada perversa.

A sorte do PT é que a Amazônia é longe para a maioria da população e menos contada pela imprensa do que deveria, ou contada a partir de uma visão de mundo urbana que não reconhece no outro nem a diferença nem o direito de ser diferente. Do contrário, as barbaridades cometidas pelo PT contra os trabalhadores pobres, os povos indígenas e as populações tradicionais, e contra uma floresta estratégica para o clima, para o presente e para o futuro, seriam reconhecidas como o escândalo que de fato são. É também disso que se lembram aqueles que não gritaram contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderiam.

Lembram também que o PT não fez a reforma agrária; ficou aquém na saúde e na educação, transformando “Brasil, Pátria Educadora” num slogan natimorto; avançou muito pouco numa política para as drogas que vá além da proibição e da repressão, modelo que encarcera milhares de pequenos traficantes num sistema prisional sobre o qual o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já disse que “prefere morrer a cumprir pena”; cooptou grande parte dos movimentos sociais (que se deixaram cooptar por conveniência, é importante lembrar); priorizou a inclusão social pelo consumo, não pela cidadania; recuou em questões como o kit anti-homofobia e o aborto; se aliou ao que havia de mais viciado na política brasileira e aos velhos clãs do coronelismo, como os Sarney.

Isso é tão ou mais importante do que a corrupção, sobre a qual sempre se pode dizer que começou bem antes e atravessa a maioria dos partidos, o que também é verdade. Olhar com honestidade para esse cenário depois de mais de 12 anos de governo petista não significa deixar de reconhecer os enormes avanços que o PT no poder também representou. Mas os avanços não podem anular nem as traições, nem os retrocessos, nem as omissões, nem os erros. É preciso enfrentar a complexidade, por toda as razões e porque ela diz também sobre a falência do sistema político no qual o país está atolado, para muito além de um partido e de um mandato.

Há algo que o PT sequestrou de pelo menos duas gerações de esquerda e é essa a sua herança mais maldita. E a que vai marcar décadas, não um mandato. Tenho entrevistado pessoas que ajudaram a construir o PT, que fizeram dessa construção um projeto de vida, concentradas em lutas específicas. Essas pessoas se sentem traídas porque o partido rasgou suas causas e se colocou ao lado de seus algozes. Mas não traídas como alguém de 30 anos pode se sentir traído em seus últimos votos. Este tem tempo para construir um projeto a partir das novas experiências de participação política que se abrem nesse momento histórico muito particular. Os mais velhos, os que estiveram lá na fundação, não. Estes sentem-se traídos como alguém que não tem outra vida para construir e acreditar num novo projeto. É algo profundo e também brutal, é a própria vida que passa a girar em falso, e justamente no momento mais crucial dela, que é perto do fim ou pelo menos nas suas últimas décadas. É um fracasso também pessoal, o que suas palavras expressam é um testemunho de aniquilação. Algumas dessas pessoas choraram neste domingo, dentro de casa, ao assistir pela TV o PT perder as ruas, como se diante de um tipo de morte.

O PT, ao trair alguns de seus ideias mais caros, escavou um buraco no Brasil. Um bem grande, que ainda levará tempo para virar marca. Não adianta dizer que outros partidos se corromperam, que outros partidos recuaram, que outros partidos se aliaram a velhas e viciadas raposas políticas. É verdade. Mas o PT tinha um lugar único no espectro partidário da redemocratização, ocupava um imaginário muito particular num momento em que se precisava construir novos sentidos para o Brasil. Era o partido “diferente”. Quem acreditou no PT esperou muito mais dele, o que explica o tamanho da dor daqueles que se desfiliaram ou deixaram de militar no partido. A decepção é sempre proporcional à esperança que se tinha depositado naquele que nos decepciona.

É essa herança que precisamos entender melhor, para compreender qual é a profundidade do seu impacto no país. E também para pensar em como esse vácuo pode ser ocupado, possivelmente não mais por um partido, pelo menos não um nos moldes tradicionais. Como se sabe, o vácuo não se mantém. Quem acredita em bandeiras que o PT já teve precisa parar de brigar entre si – assim como de desqualificar todos os outros como “coxinhas” – e encontrar caminhos para ocupar esse espaço, porque o momento é limite. O PT deve à sociedade brasileira um ajuste de contas consigo mesmo, porque o discurso dos pobres contra ricos já virou fumaça. Não dá para continuar desconectado com a realidade, que é só uma forma estúpida de negação.

sábado, 14 de março de 2015

Alguns comentários sobre o 15 de março ou "desliguem o alarme, não há nenhum golpe a vista no horizonte!"


Vivemos um clima de acirramento político no país, como há muito não se vê. O corriqueiro é vermos a disputa que estamos vendo agora no período eleitoral onde praticamente se manifesta o clima de final de campeonato, aquele "FlaFlu" político e estupidamente despolitizado do tipo, bem "o meu é melhor que o teu e pronto". À direita é à esquerda, é aquele mais do mesmo intragável. A direitada estérica e infecunda grita "Nunca se roubou tanto nesse país!", "A corrupção é culpa do PT,  a luta de classe é culpa do PT!", "Querem transformar o Brasil em uma Venezuela, em uma Cuba!", "Forças armadas façam alguma coisa, salvem o país!", blá, blá, blá... Já o governismo lulo-petista avisa em tom pesado e funesto "Golpe à vista! Golpe á vista! Soem os alarmes! Golpe à vista!". Ao seus avisos anexam recomendações "aguentemos o amargor dos remédios governistas, não é hora de colocar o governo na parede, é preciso cerrar fileiras ao lado do polo democrático contra os golpistas".

Como o caso dos argumentos da direita raivosa é de tratamento psicológico e não de argumentação política, o melhor é que deixemos os profissionais de saúde tratar do assunto. Já a argumentação do petismo é possível e preciso, um pouco de reflexão. Até mesmo porque mal fazem 3 décadas que as botas dos governos militares foram recolhidas de nossos pescoços, e essa é sempre uma hipótese que os ativistas dos movimentos populares, em especial, os socialistas revolucionários precisam ter em mente.

Então nos dediquemos um pouco a analisar o tema do "golpe" partindo em primeiro lugar de a quem interessaria o fim da experiência de 12 anos dos governos de frente popular no Brasil.

1. O grosso do empresariado brasileiro não rompeu com o governo e não tem interesse em instabilidade política que por sua vez significa menos negócios, menos lucros em especial em um cenário de crise econômica mundial não resolvido. Banqueiros, latifundiários, grandes industriais, varejistas se não estão em um momento de plena satisfação em função da situação econômica não tão tranquila, não estão em campanha aberta contra Dilma, até mesmo porque estão muito bem representados em seu governo. O setor do empresariado que poderia estar em pé de guerra poderia ser por exemplo o da construção civil, meio que afetado pelas obras paralisadas em função das denúncias de grandes empreiteiras na operação Lava-Jato, mas não é o que estamos vendo pelo menos até agora. Nem mesmo o grosso da oposição de direita organizada em partidos políticos não quer a queda do governo (vide FHC e Tasso).

2. O setor do empresariado com mais interesse em derrotar o governo e que agradeceria enormemente uma renúncia ou algo do gênero é o ligado aos grandes grupos de comunicação meio que movidos pela grave crise que vivem. Ainda assim não possuem coragem para defender uma suposta necessidade de uma ruptura democrática, via golpe.

3. Por fim, o imperialismo não tem motivo algum para investir na queda do governo. As relações comerciais com Brasil não passam por nenhuma contenda nem os interesses das grandes corporações multinacionais em solo nacional passam por qualquer ameaça. Para o governo estadunidense mais interessa investir na instabilidade venezuelana do que forçar uma no Brasil.

Em resumo não existe interesse da burguesia nacional e internacional, e sem seu apoio não existe nenhuma possibilidade de golpe no horizonte. Mas e quanto ao "povo brasileiro"? Do nosso ponto de vista de nada interessa enxergar a sociedade escondida por trás dessa categoria de indeterminação social, chamada "o povo". Nos debrucemos sobre o espírito e o comportamento das classes sociais, em especial a chamada classe média, o grande proletariado e o subproletariado urbano.

1. A classe média segue em violenta ruptura com o governo. A gasolina acima dos R$ 3,00 é um imensa restrição ao seu status quo. Seguro desemprego, licença maternidade, FGTS, corte no orçamento da saúde e da educação? Para a classe média isso não gera a menor comoção. Mas quanto à gasolina isso é algo que não dá pra encarar. Não é a toa que vez por outra voltam à tona aqueles protestos imbecis de fazer fila em postos e abastecer 50 centavos de gasolina e pagar no cartão ou em cédulas grande e ainda por cima pedir o troco. Ainda assim a classe média e seus interesses não é capaz de mover nem a burguesia para um golpe, nem muito menos a classe trabalhadora para uma revolução.

2. O grande proletariado urbano segue paciente. Existe sim um desconforto crescente com os caminhos trilhados pelo governo em especial por conta do arrocho e alta dos preços mas ainda não vemos nenhuma disposição para grandes lutas. Corrupção, Petrobrás, lava-jato, mensalão povoam seus olhos e ouvidos mas são tão significativos para a classe quanto um episódio da novela das oito. Ainda contam como um enorme contrapeso o maior poder de compra do salário mínimo nos últimos 50 anos, a facilidade de crédito e os vários sonhos de consumo realizados. Somados à deseducação, desmoralização e desmobilização dos últimos 12 anos que não permitiram uma ação independente e cotidiana da classe, a situação ainda que com a tendência de aumento de greves em 2015, segue de semi-paralisia.

3. Já o subproletiariado urbano em suas várias camadas e tons age de forma muito desigual. Trabalhadores precarizados não encontram eco em seus pares cltistas ou com estabilidade, ainda assim é possível enxergar o crescimento de suas lutas (vide UFF, Brasilia, Vale, etc). Dos movimentos sociais organizados, o que provavelmente ganhou mais notoriedade na última década foi o MTST em função da luta por moradia digna. A própria luta em junho de 2013 teve um eco enorme no subproletariado urbano altamente escolarizado em função da alta das tarifas do transporte público. Pesa contra este setor da classe, o nível de desorganização e a ausência de tradição de luta.

Tudo isso pode mudar se os ataques aos direitos trabalhistas tomarem outra proporção. Praticamente o governo tem feito seus movimentos pelas beiradas. Se na esteira do "tenham  paciência" coloca-se em marcha o fator 85/95 para aposentadoria, se a inflação fugir do controle para níveis insuportáveis, ou outra coisa do gênero, talvez aí sim teremos uma possibilidade do peso pesado da classe trabalhadora levantar-se e arrastar consigo tanto os setores do subproletariado como da própria classe média. Mas por hora, não é isso que está posto.

Resumindo: não estamos diante nem de um golpe fascista, nem muito menos do prenúncio de uma grande vaga de lutas da classe trabalhadora. Erram tanto aqueles que chamam a subir barricadas contra a ofensiva da direita como aqueles que chamam a avançar pela esquerda e derrotar o governo e suas medidas via paralisação nacional. E ambos os erros são nefastos.

"Querem a nossa volta comandante" (#charge do @AAlpino)


quinta-feira, 12 de março de 2015

A enxaqueca nacional (via @opovoonline)

A edição do jornal O Povo desta quinta-feira, dia 12/03, traz artigo muito oportuno assinado pelo jornalista Henrique Araújo com o nome "A enxaqueca nacional" que trata do clima "pré 15 de março" inicialmente alimentado pelas redes sociais e hoje distribuído em cadeia nacional pelos grandes meios de comunicação. Nele Henrique indaga, afinal de contas quem é o sujeito social do tal 15M, muito à luz do próprio perfil dos participantes que vem confirmando e promovendo a manifestação.

Segue o artigo. Boa leitura.

A enxaqueca nacional


Um espectro ronda o Brasil – é o espectro do dia 15 de março. Começou como uma marola, mas agora, depois do álbum de figurinhas da Copa do Janot, ameaça ganhar força. O que vai acontecer no próximo domingo? Muita gente se pergunta. Povão nas ruas? Gatos pingados? Caras pálidas ou coloridas? Onde o ponto de encontro, no pátio Dom Luís ou na Praça Portugal? Vão de pulôver ou de abadá? Distribuirão pulseiras quânticas ou bandanas de uma marca de cosméticos? Haverá estandes de apoio com acompanhamento médico a cada quarteirão e reaplicação de bloqueador solar? Venda de camisetas do Luciano Huck? Wifi? Manobrista?


O esforço de adivinhação é mais que curiosidade. Quero tentar enxergar o rosto desse Brasil que bate panelas (Tramontina?) na varanda do apartamento (160m² e pé direito alto?) num domingo de noite (sob ar-condicionado?), mas ignora quando um pedreiro é morto pela Polícia num morro carioca, um adolescente é espancado amarrado a um poste, o filho de um casal gay é assassinado. Quero conhecer a verdade que cala fundo na alma desse cidadão e dessa cidadã que chamam de vagabunda uma mulher já avançada na idade, mas tratam com deferência um governador que mentiu sobre a segurança hídrica do estado que administra.

Quem é esse povo que expulsou Guido Mantega de um hospital enquanto o ex-ministro acompanhava a esposa que se tratava de câncer? Quem é essa gente que vaiou os médicos cubanos? Os mesmos do #viadutosim? Os que afixaram no vidro da SUV “Fora Dilma e leve junto o PT”? Quem é essa gente para quem o feminicídio desrespeita a universalidade dos direitos, mas não se preocupa em investigar o morticínio de mulheres a cada ano? Quem é essa gente que pretende instituir o Dia do Orgulho Hetero? É a mesma que acredita na mão invisível do mercado, mas não consegue explicar a débâcle mundial em 2008?

É ocioso comparar o 15/3 às manifestações de junho de 2013. Primeiro, porque já houve manifestações – a de domingo, mesmo que uma parte da imprensa esteja empenhada em divulgar local, data e hora, rotas de ônibus e sugestões de frases para cartazes, ainda é uma possibilidade. Além disso, as motivações políticas se distanciam no tempo e no espaço. Um, a Copa do Mundo e os gastos com as obras; o outro, uma genérica revolta contra a corrupção, um moralismo que faz tabula rasa do Congresso e esse sentimento cada vez mais difuso de anti-petismo.

Quando soube que a “classe média alta, caucasiana e heteronormativa” (li essa bobagem no Facebook) havia protestado, tentei enxergar tudo como se fosse minha avó. Diante de qualquer cena, ela suspirava e dizia algo que, traduzido para o português de hoje, equivale a ”vida que segue”. Minha avó não era conformista, tampouco alarmista, muito menos “dilmista” ou “lulista”. Diria que uma leitora de Terêncio: nada do que fosse humano lhe era estranho. Guerra civil, terceiro turno, tentativa de golpe: patacoada. Minha avó só se espantava com o que já não causava espanto. Hoje, o que causa espanto não é que as pessoas batam panelas nas varandas de suas casas, mas que só façam isso pelas razões erradas.

terça-feira, 3 de março de 2015

Não é por ser tático que é sem importância

Tática e estratégia são conceitos muito importantes utilizados pelo marxismo que são sacados diretamente da ciência militar e que via de regra são muito incompreendidos. Do ponto de vista do português usual, não existe menor problema em usar por exemplo a expressão "precisamos pensar uma estratégia para atingir nosso objetivo". Já do ponto de vista militar a estratégia é o próprio objetivo e não os meios para atingi-los, que por sua vez recebem a alcunha de táticas.

Neste ponto, muitos podem ser induzidos a outra confusão, que é a de menosprezar as táticas na medida do que aquilo que realmente importa é a estratégia. Uma meia verdade, já que de fato a estratégia é sim o que importa. Mas meias verdades, como dizem os chineses, não passam de mentiras inteiras. Como nem toda tática leva a estratégia, táticas erradas podem exatamente conduzir ao caminho oposto ao da estratégia. Toda vez que algum ativista do movimento, diante de um questionamento sobre sua política, saca a máxima do "ahhh... isso é tático", logo o que me vem a cabeça é que ou falta honestidade para admitir um erro, ou falta humildade para enxergar que não se tem a menor ideia do que se está fazendo.

O trotskista argentino Nahuel Moreno, em seus Conceitos Políticos Básicos de 1986, esclarece a interrelação entre ambos elementos localizando que eles são termos relativos.
"Ou seja, sempre temos que definir em relação a quê uma questão é estratégica e em relação a quê uma questão é tática.Esse caráter relativo dos dois conceitos faz com que o que é estratégico numa determinada etapa ou tarefa parcial, seja ao mesmo tempo tático em relação a um objetivo superior ou mais geral."
E para deixar mais claro, ele exemplifica a forma como estratégia e tática estão intimamente ligados:
"...numa etapa de retrocesso das lutas operárias, podemos dizer que temos a estratégia de desenvolver lutas sindicais defensivas, e que em relação a essa estratégia, a tática pode ser, por exemplo, uma greve longa e não outras táticas, como a ocupação de fábrica, por exemplo. Mas a greve longa é uma estratégia em relação à táticas, ao meio que usamos para garanti-la, como por exemplo, a organização de piquetes. E os piquetes passam a ser uma estratégia em relação à táticas que usamos para construí-lo (se são públicos, eleitos em assembléia, ou clandestinos, eleitos secretamente pelo comitê de greve). E a própria estratégia pela qual começamos, o desenvolvimento de lutas sindicais defensivas, torna-se uma tática em relação a nosso objetivo estratégico, que é obter vitórias importantes que ajudem a transformar a etapa de retrocesso em uma etapa de ascenso do movimento operário."
Em nenhum momento Moreno desdenha das táticas como sendo algo menor. Muito pelo contrário. Até mesmo porque táticas erradas no fim das contas conspiram contra a estratégia.

Entregar rainha, bispos, cavalos e torres em um jogo de xadrez pode até ser uma boa tática para salvar um rei, mas não necessariamente é a melhor para derrubar o rei do adversário.

Bem.... se por um acaso da vida for você o sorteado a ouvir o velho "isso é tático" vale devolver ao sabichão um bom "é verdade meu amigo, mas de qual estratégia estamos falando mesmo?".

terça-feira, 18 de novembro de 2014

"Seu comunista! – ou a arte de argumentar com quem fala por clichês" (via @blogdosakamoto) #tragicomicamentefantastico


Tragicomicamente fantástico o texto "Seu  comunista! – ou a arte de argumentar com quem fala por clichês" do jornalista Leonardo Sakamoto.

 Inspirado no recente espírito exaltado da classe média brasileira que ganhou corpo no período eleitoral e que segue lutando para não esvaziar-se, a postagem de Sakamoto cata um conjunto de clichês vomitados pelos arautos da "democracia via ditadura militar" e os transforma em um "diálogo" entre um eleitor de Aécio que veste camisa vermelha e um dos "clicheteiro anti-petralha".

Vale demais a leitura e a reflexão.

"Seu comunista! – ou a arte de argumentar com quem fala por clichês"


- Petralha! Petralha!
- Desculpe, é comigo?
- Petralha imundo! Desgraçado! Corrupto! Boçal! Seu idiota intolerante!
- Acho que você está me confundindo. Votei no Eduardo Jorge no primeiro turno e no Aécio, no segundo.
- Vermelho é a cor dos comunistas do PT!
- Mas eu votei no Aécio!
- Comunista assassino! Defensor de ideologia genocida!
- Meu amigo, nem eu sou do PT, nem vermelho é monopólio de comunista, nem sou comunista, nem o PT é comunista. Aliás, nem o PT é de esquerda mais.
- Vermelho é comunista!
- Claro, Papai Noel veste vermelho por conta de uma marca de refrigerantes que está tramando a revolução.
- Você tá num país livre! Cala a boca e volta pra Cuba, seu cretino!
- Voltar como se eu não vim de lá?
- Vai morar na Venezuela, na Coreia do Norte.
- Não consigo nem tirar um final de semana para descer para Mongaguá, que dirá Venezuela…
- Tenho ódio de vocês! Se você gosta de pobre, por que não viver com eles? Mas o circo está fechando! Seus amigos vão todos parar na Papuda!
- Não, meus amigos vão todos lá para a Vila Madalena, hoje à noite, porque tem roda de samba no Ó do Borogodó.
- Então, você aprova o mensalão!
- Não, aprovo o samba.
- Tô cansado de tudo isso! Tô cansado de vocês afundarem o Brasil com o dinheiro dos meus impostos!
- Meu amigo, acho que você não está bem. Você tá ficando vermelho…
- Cala a boca! Vermelho é cor de comunista!
- Meu Deus…
- Se eu não fosse alguém de paz, já teria te enchido de porrada para parar de falar mentira. O PT é que criou a pobreza, a divisão entre ricos e pobres e a luta de classes.
- Não sou petista, mas desconfio que isso seja um pouco mais antigo. Quando eu falo com meus alunos…
- Seu bandido! Os comunistas colocaram representantes nas escolas para doutrinar nossas crianças! Você deveria ser preso! Morra! Moooorraaaaaa!
- Como na época da ditadura?
- Saudades da época em que comunistas não podiam nos fazer mal. Deve estar ganhando um por fora para defender a Petrobras, mensaleiro dos infernos, ladrão, corrupto!
- Se tivesse, acha que estaria a pé para economizar o dinheiro do bumba?
- No dia em que os militares restituírem a ordem você vai ver. Vai ser o primeiro a ser preso para parar de roubar os cofres públicos! Vamos acabar com todas essas bolsas-esmolas e botar o povo no eixo, fazê-los trabalhar, que é trabalhando que se conquista a dignidade.
- Arbeit macht frei?
- O governo controla minha liberdade de expressão, não posso falar o que penso mais! Sou censurado!
- Imagina se pudesse.
- O Brasil está acabando.
- Nisso concordamos.
(Todos os clichês utilizados nesse diálogo são reais. Qualquer semelhança com o seu dia a dia não é mera coincidência.)

domingo, 21 de setembro de 2014

As regras da IV Internacional


Em 1938 o texto “A agonia do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional” tornava-se a carta de fundação da Quarta Internacional, um agrupamento de revolucionários de todo mundo disposto a colocar sua militância a serviço da revolução socialista mundial.
 
Uma entre tantas outras passagens marcantes do texto escrito por Leon Trotsky e que ficou conhecido como "Programa de Transição" é o capítulo que versa "Contra o oportunismo e o revisionismo sem princípios".

A conjuntura era de crise econômica mundial aberta a partir de 1929 com a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, vitória do fascismo na Itália e nazismo na Alemanha, guerra civil na Espanha e de preparação para uma segunda guerra imperialista. Do lado dos trabalhadores a III Internacional levava adiante a política derrotista de aliança com a dita "burguesia progressista" na forma da Frente Popular em especial na França e Espanha que desarmou o movimento de massas europeu em um período extremamente crítico. Enquanto isso, boa parte da esquerda não stalinista procurava "atalhos" e"novos caminhos que respondessem aos 'novos desafios'".

Diante desse quadro o programa da IV Internacional dizia: 
"Como sempre, em épocas de reação e de declínio, aparecem em todas as partes mágicos charlatães. Querem revisar toda a marcha do pensamento revolucionário. Em lugar de aprender com o passado, eles o 'corrigem'. Uns descobrem a inconsistência do marxismo, outros proclamam a falência do bolchevismo. Uns fazem recair sobre a doutrina revolucionária a responsabilidade dos erros e dos crimes daqueles que a traíram; outros maldizem a medicina porque não assegura uma cura imediata e miraculosa. Os mais audazes prometem descobrir uma panaceia e, na espera, recomendam parar a luta de classes. Numerosos profetas da nova moral dispõem-se a regenerar o movimento operário com a ajuda de uma homeopática ética. A maioria desses apóstolos conseguiu tornar a si próprios inválidos morais antes mesmo de descer ao campo de batalha. Assim, sob a aparência de novos caminhos só se propõe ao proletariado velhas receitas enterradas há muito tempo nos arquivos do socialismo anterior a Marx."
Já se vão 76 anos desde que essas linhas foram traçadas e sua regra sobre a recorrente aparição de "mágicos charlatães" segue atual. E diante deste mal, Trotsky afirmava a necessidade de declarar guerra implacável a todos os burocratas assim como "ao reformismo sem reformas, ao democratismo aliado à GPU, ao pacifismo sem paz, ao anarquismo a serviço da burguesia, aos 'revolucionários' que temem mortalmente a revolução'. Sem vencer tal praga, seu método e sua moral, que corrói por dentro o movimento operário não haveria como vencer a burguesia, dizia ele:
"Bons são os métodos e os meios que elevam a consciência de classe dos operários, sua confiança em suas próprias forcas, sua disposição à abnegação na luta. Inadmissíveis são os métodos que inspiram nos oprimidos o medo e a docilidade diante dos opressores; sufocam o espirito de protesto e revolta e substituem a vontade das massas pela vontade dos chefes, a persuasão pela pressão, a análise da realidade pela demagogia e a falsificação. Eis por que a socialdemocracia, que prostituiu o marxismo, e o stalinismo, antítese do bolchevismo, são os inimigos mortais da revolução proletária e de sua moral."
Por fim o enunciado das regras da recém nascida IV Internacional:
"Encarar a realidade de frente; não buscar a linha de menor resistência; chamar as coisas pelos seus nomes; falar a verdade às massas, não importa o quão amarga ela seja; não temer os obstáculos; ser verdadeiro nas pequenas coisas como nas grandes; basear seu programa na lógica da luta de classes; ser ousado quando a hora da ação chegar – essas são as regras da Quarta Internacional."
Em épocas como a que vivemos em nosso país, onde a Frente Popular consegue governar 12 anos sem nenhuma grande resistência do movimento de massas, onde uma nova crise econômica mundial mantém-se insolúvel tendo completado seu oitavo ano, onde o fascismo volta a fascinar setores, ainda que minoritários da classe trabalhadora, e onde o marxismo é renegado na prática ainda que reivindicado nas palavras é mais que fundamental retomar, compreender e aplicar o método do programa de transição.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Marina presidente pode ser o grande saldo dos 12 anos de conciliação da Frente Popular petista


Faltam poucos dias para o pleito eleitoral de outubro e, ao passo que vamos, o mais provável é que tenhamos Marina Silva como a próxima presidenta da república. Aécio Neves a cada dia mingua mais e mais e sua tendência é de seguir assim até tornar-se praticamente irrelevante. Já Dilma, carrega consigo o peso de ter administrado seus 4 anos no compasso da crise econômica mundial, acumulando desprestígio tanto no grande empresariado que busca alternativas para seguir com suas taxas exorbitantes de lucro, como com o setor médio da classe trabalhadora à espera de uma ascensão social que simplesmente não veio. A morte de Eduardo Campos e sua martirização pela grande imprensa durante duas semanas seguidas meio que blindou Marina Silva, que com um passe de mágica, tornou-se símbolo de uma "nova política". Muita água ainda há de passar por essa ponte e a candidata peesebista deve ainda apanhar um bocado até o dia 5 de outubro mas a hipótese mais provável até agora segue sendo sua vitória. A se confirmar tal tendência, encerra-se o ciclo de governos frente-populistas brasileiro e retoma-se um novo ciclo de governos burgueses típicos.

Desde o primeiro ano do mandato de Dilma os sinais do esgotamento da etapa de governos petistas já se apresentavam. As revoltas operárias de Suape, Jirau e Pecém em 2011 movimentando mais 50 mil trabalhadores eram a prova de que a camisa de força lulo-petista já não tinha o mesmo efeito que nos dois mandatos anteriores. Já as jornadas de junho de 2013 com mais de um milhão e meio de pessoas nas ruas em todo o país foram a demonstração final de que PT, PCdoB, CUT, UNE e MST não cumprem mais de modo eficiente seu papel de instrumentos de paralisia da luta popular. Por outro lado, a política de terra arrasada no campo das organizações do movimento de massas promovida pelos frente-populistas coloca a burguesia em uma situação privilegiada para retomar as rédeas do governo. Faltava nome de impacto e apelo popular que permitisse isso. Não falta mais.

Marina apesar de ser filha da classe trabalhadora, nem de longe é um "Lula de saia", nem muito menos o PSB e o Rede são similares ao PT. A história do PSB, ainda que se possa tentar resgatar passagens honrosas, não pode ser confundida com a história de um partido que rebentou no calor das greves operárias do final da década de 70 e em plena luta contra o regime militar. O PSB, ainda que leve a palavra "Socialista" em seu nome, é um partido da burguesia. Da sombra da burguesia, diga-se de passagem, mas ainda assim, da burguesia.

Um futuro mandato de Marina não representará um governo em que o movimento operário e popular empresta o peso pesado de seus quadros para salvar o grande empresariado de um momento de crise aberta ou que se avizinha. Este momento, o momento da Frente Popular, vai agora se fechando, após seus 12 anos de conciliação de classes, desorganização e desmoralização do movimento de massas. O grande preço que toda a classe pagará ao final desse período não será qualquer soma relacionada à corrupção ou assistencialismo e sim, a desconstrução de suas principais organizações forjadas no calor de décadas de lutas e greves, além do imenso salto para trás em sua própria consciência enquanto classe. E tudo isso feito em plena luz do dia sem que nenhuma organização se colocasse à altura de dar a efetiva e necessária batalha contra.

A marca do próximo governo burguês, ainda que possa pautar uma ou outra migalha social, será o de ataques aos direitos dos trabalhadores e à já solapada soberania brasileira.

Além disso é preciso considerar que o cenário mundial de crise econômica ainda não está superado. Avizinham-se mais guerras, mais crises e também mais revoluções. Infelizmente o grande vazio posto para o movimento operário segue sendo que a crise de direção revolucionária mundial não só segue como se aprofunda. Desde o Brasil perdemos uma excelente oportunidade para dar passos significativos rumo a sua superação, talvez a melhor das melhores oportunidades, como o argentino Nahuel Moreno localizou ao tratar de governos de Frente Popular. Nossas responsabilidades agora, são ainda maiores.