quinta-feira, 12 de março de 2015

A enxaqueca nacional (via @opovoonline)

A edição do jornal O Povo desta quinta-feira, dia 12/03, traz artigo muito oportuno assinado pelo jornalista Henrique Araújo com o nome "A enxaqueca nacional" que trata do clima "pré 15 de março" inicialmente alimentado pelas redes sociais e hoje distribuído em cadeia nacional pelos grandes meios de comunicação. Nele Henrique indaga, afinal de contas quem é o sujeito social do tal 15M, muito à luz do próprio perfil dos participantes que vem confirmando e promovendo a manifestação.

Segue o artigo. Boa leitura.

A enxaqueca nacional


Um espectro ronda o Brasil – é o espectro do dia 15 de março. Começou como uma marola, mas agora, depois do álbum de figurinhas da Copa do Janot, ameaça ganhar força. O que vai acontecer no próximo domingo? Muita gente se pergunta. Povão nas ruas? Gatos pingados? Caras pálidas ou coloridas? Onde o ponto de encontro, no pátio Dom Luís ou na Praça Portugal? Vão de pulôver ou de abadá? Distribuirão pulseiras quânticas ou bandanas de uma marca de cosméticos? Haverá estandes de apoio com acompanhamento médico a cada quarteirão e reaplicação de bloqueador solar? Venda de camisetas do Luciano Huck? Wifi? Manobrista?


O esforço de adivinhação é mais que curiosidade. Quero tentar enxergar o rosto desse Brasil que bate panelas (Tramontina?) na varanda do apartamento (160m² e pé direito alto?) num domingo de noite (sob ar-condicionado?), mas ignora quando um pedreiro é morto pela Polícia num morro carioca, um adolescente é espancado amarrado a um poste, o filho de um casal gay é assassinado. Quero conhecer a verdade que cala fundo na alma desse cidadão e dessa cidadã que chamam de vagabunda uma mulher já avançada na idade, mas tratam com deferência um governador que mentiu sobre a segurança hídrica do estado que administra.

Quem é esse povo que expulsou Guido Mantega de um hospital enquanto o ex-ministro acompanhava a esposa que se tratava de câncer? Quem é essa gente que vaiou os médicos cubanos? Os mesmos do #viadutosim? Os que afixaram no vidro da SUV “Fora Dilma e leve junto o PT”? Quem é essa gente para quem o feminicídio desrespeita a universalidade dos direitos, mas não se preocupa em investigar o morticínio de mulheres a cada ano? Quem é essa gente que pretende instituir o Dia do Orgulho Hetero? É a mesma que acredita na mão invisível do mercado, mas não consegue explicar a débâcle mundial em 2008?

É ocioso comparar o 15/3 às manifestações de junho de 2013. Primeiro, porque já houve manifestações – a de domingo, mesmo que uma parte da imprensa esteja empenhada em divulgar local, data e hora, rotas de ônibus e sugestões de frases para cartazes, ainda é uma possibilidade. Além disso, as motivações políticas se distanciam no tempo e no espaço. Um, a Copa do Mundo e os gastos com as obras; o outro, uma genérica revolta contra a corrupção, um moralismo que faz tabula rasa do Congresso e esse sentimento cada vez mais difuso de anti-petismo.

Quando soube que a “classe média alta, caucasiana e heteronormativa” (li essa bobagem no Facebook) havia protestado, tentei enxergar tudo como se fosse minha avó. Diante de qualquer cena, ela suspirava e dizia algo que, traduzido para o português de hoje, equivale a ”vida que segue”. Minha avó não era conformista, tampouco alarmista, muito menos “dilmista” ou “lulista”. Diria que uma leitora de Terêncio: nada do que fosse humano lhe era estranho. Guerra civil, terceiro turno, tentativa de golpe: patacoada. Minha avó só se espantava com o que já não causava espanto. Hoje, o que causa espanto não é que as pessoas batam panelas nas varandas de suas casas, mas que só façam isso pelas razões erradas.