sábado, 6 de fevereiro de 2016
Gregos fazem sua terceira greve geral de 2016. E a nossa quando sai mesmo?
Nesta quinta-feira, dia 04/02, em torno de 50 mil trabalhadores se reuniram no centro de Atenas que mais uma vez virou palco de guerra com manifestantes enfrentando a repressão policial a base de paus, pedras e coquetéis molotov. As imagens da batalha campal impressionam mas são só uma pequena demonstração de força e capacidade de luta a que chegaram os gregos. Escolas por todo o país foram paradas, o transporte entre as ilhas gregas e o continente foi suspenso, o transporte público parou e até mesmo hospitais ficaram somente com o pessoal de emergência. É a terceira greve geral de 24 horas nos últimos 30 dias contra a situação de crise que se abateu na Grécia e obviamente também contra Tsipras, por mais que alguns ainda tentem dizer que não.
Diante de tal demonstração de força é normal que venha uma pergunta a mente: "afinal quando teremos a nossa greve geral? e como diabos os gregos conseguiram chegar a esse nível de mobilização?"
Comparações são sempre um terreno bem delicado e se vamos fazê-las é de bom tom ter uma visão um pouco mais ampla.
É importante que se saiba que os gregos passaram pelo pão que o capeta amassou até chegar ao nível de radicalização em que se encontram. A taxa de crescimento de suicídios entre os gregos atingiu níveis dos mais assustadores de toda a Europa desde que a crise econômica começou a dar as cartas antes que as soluções coletivas começassem a ganhar as ruas. Enquanto a taxa de desemprego no Brasil segue abaixo de 10%, na Grécia esse índice é de 25%. Entre os mais jovens (15-24 anos) é superior aos 50%. O endividamento grego é de 180% do PIB, já no Brasil esse índice está na casa dos 60%. É esse cenário de caos e falta de perspectiva que empurrou os gregos a acumular tantos quilômetros rodados em greves gerais nos últimos anos. Só entre 2009 e 2014 a Grécia viveu quase 30 greves gerais, 25 delas concentradas no período que vai desde o começo da crise até o ano de 2012.
No Brasil, ao que me vem a cabeça, a última grande greve geral foi em março de 1989. A queda do Collor em 1992 por exemplo não foi acompanhada de nenhuma greve geral. O PT e a CUT poderiam ter convocado, não o fizeram. Preferiram entoar o slogan "Feliz 1994" permitindo que a burguesia prepara-se sua saída da crise política tirando da manga FHC e o plano real.
Em 1995, se poderia ter chamado também uma grande greve seguindo o exemplo da greve petroleira. Quem tinha a maior autoridade para fazê-lo era a CUT que vergonhosamente optou por pedir aos petroleiros que voltassem ao trabalho. A greve foi derrotada com tanques de guerra invadindo as refinarias e os petroleiros amargando uma derrota histórica que permitiu ao governo FHC impor sua agenda de privatizações.
Já não temos uma grande central sindical nem muito menos um grande partido de classe capaz de empalmar o descontentamento crescente de nossa gente. A reorganização política e sindical aberta com a chegada do lulismo à presidência não pariu nenhuma grande alternativa à esquerda que fosse capaz de superar as organizações anteriores. Muito pelo contrário, fomos tomados por um mar de confusão, desmoralização e desmobilização sem fim. Uma grande greve que pare os principais centros de uma país continental como o Brasil exigirá grandes instrumentos e ferramentas de lutas nacionais. E isso quando vivemos uma grande tendência a lutas isoladas em todo território nacional.
Se não temos grandes instrumentos ao menos deveríamos ter a capacidade de construir a unidade na luta. Mas o movimento organizado de uma forma geral vive um estado de desconfiança permanente e uma tremenda incapacidade de agir em frente. Somos incapazes de fazer o debate político das diferenças que nos separam e de inclusive combater as posições do outro sem romper a unidade na ação diante do menor suspiro. Da mesma forma temos sido incapazes de perceber o que de uma forma ou de outra pode nos unir, ainda que momentaneamente.
Os tempos do petismo fizeram muito mal ao movimento organizado brasileiro. Passou da hora de superá-lo.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Você precisa assistir o documentário "Anjos Rebeldes" da @TVBrasil
A TV Brasil produziu o documentário "Anjos Rebeldes" sobre o movimento de ocupações das escolas secundaristas em São Paulo que enfrentou a truculência policial e do governo Alckmin e impôs a derrota do projeto de "reorganização" que pretendia fechar 94 escolas.
Com 51 minutos de duração, "Anjos Rebeldes" ouviu ocupantes, pais de alunos, professores, especialistas sobre educação, jornalistas, entre tantos outros sobre o episódio que sem dúvida alguma entrou para a história do movimento de massas brasileiro e com certeza mudou também seu futuro.
O resultado do documentário é emocionante. Recomendadíssimo.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Pornografia e violência contra a mulher (texto de Melissa de Miranda) #antiporn
Pesquisa da Universidade da Califórna indica que homens que costumam pagar por sexo têm maior tendência a cometer agressões sexuais do que homens que não têm esse hábito. O tema foi tratado ano passado em artigo pelo médico Jairo Bouer em seu blog no UOL e é a base para o artigo da ativista Melissa de Miranda em seu primeiro artigo do ano publicado em sua página do Facebook. Mas o texto de Melissa não se detém especificamente na prostituição. O alvo é outro: a pornografia.
Vale a leitura.
Um estudo indicou que homens que pagam por sexo são mais propensos a cometer estupros. O motivo? Seu relacionamento com sexo é impessoal: só interessa o prazer dele, não o da outra pessoa. É dissociado, as minas são vistas como um utensílio descartável.
"Outros estudos já tinham associado essa falta de empatia com atos de violência contra a mulher. Muitos especialistas, hoje, encaram a prostituição como uma forma de abuso sexual. E esperam que os resultados desse estudo ajudem a derrubar o mito de que consumidores de prostituição são ‘caras legais, apenas sexualmente frustrados’”.
O problema vai além disso.
E sim, eu vou encher o saco sobre o seu pornôzinho. Desculpa aí! Como diriam as publicações gordofóbicas insuportáveis de dieta pós-Ano Novo, “você é o que você consome” e eu não sei se quero viver numa sociedade assim.
A pornografia foi colocada num pedestal pós-moderno. Toda crítica é moralismo. Mas a forma como esse conteúdo vem sendo produzido (machista, irreal e cada vez mais hardcore, graças à livre concorrência) e consumido em massa (na internet) também contribui para essa cultura de insensibilização para sexo..
A humanidade do outro é secundária ao seu tesão. Não importa o que aparece na tela ou seus bastidores grotescos, o importante é gozar. Não importa como aquela garota ou aquele “vídeo caseiro” chegou lá, o importante é gozar. Não importa como o filme foi feito e definitivamente não importa se a mulher está gostando.
A probabilidade, hoje em dia, é que você vai fazer mais sexo com seu computador do que com uma garota. Então... Quem se importa com a garota?
E não vem me dizer que a maior parte da pornografia é de boas. Porque não é. Fico imaginando meninos de 12 anos vendo mulheres humilhadas na cara, com a garganta engasgada, usadas por mais de um, agindo como crianças inocentes e sendo seduzidas, corrigidas ou coagidas e submetidas a todo tipo de estripulia, de posição não-prazerosa que culmine no orgasmo do ator homem. Ou lendo títulos como “comendo duas vadias” e “banho com adolescente”, a la XVideos.
Somos coniventes com a pedofilia, com esse falocentrismo. Com uma sexualidade agressiva, com vídeos em que o orgasmo feminino é irrelevante e ridicularizado. “Todo mundo sabe que a mulher não está gostando”, “ela finge muito mal”... Tá. Então por que estamos assistindo?
Se você abrir qualquer site de pornô gratuito e observar todas as fotos, todos anúncios, todos os termos usados nos títulos, eu duvido que te faça sentir bem sobre ser mulher.
E se você é homem, talvez não se importe.
Boicotamos um macarrão Barilla porque o CEO fez um comentário homofóbico, mas não boicotamos sites com anúncios misóginos, humilhantes e agressivos. Com conteúdo P E D Ó F I L O. Sabe?
E aí vêm me dizer: “Ah, não tem outra opção” ou “Me masturbar é muito importante”. E eu me pergunto se é realmente uma escolha tão vergonhosa ou "último recurso" assim, se falamos abertamente sobre a pornografia que consumimos e fazemos piada com os sites que frequentamos, sem problematizar.
Então penso na minha adolescência, em mim mesma e em amigas em relacionamentos heterossexuais, fazendo sexo sem sentir prazer durante anos. Algumas mulheres pela vida inteira. Se submetendo desde jovens a todo tipo de posição sem realmente estar confortável ou entender aquilo, só para agradar... Para ver o cara feliz. Contentando-se com o contato físico, com o carinho e não com o sexo em si. Colocando seu orgasmo em segundo plano, porque (assim como nos filmes) uma mulher não sentir prazer é culturalmente aceito.
Quem liga? Certamente não os caras que cresceram achando que minas têm que ser putas na cama. Ou que viram nos vídeos que é só colocar o I no O que o trabalho tá feito. Certamente não o cara que tem tesão em ménage a trois e assedia garotas em relacionamentos lésbicos. Nem o namorado bacana que fica chateado porque não ganhou sexo e “poxa, né, amor...”. E menos ainda o mano que convence a namorada a fazer sexo anal mesmo que ela sinta um pouco de dor.
Por que as mulheres estão nessa posição? Se desdobrando e se submetendo? Por que essa falta de empatia com elas? Como o mundo pode usufruir tanto da sexualização feminina e não dar a mínima para as garotas?
Os donos do Xvideos também não se importam. Nem os seus usuários. E sequer vou entrar no mérito dos vídeos amadores e do revenge porn, porque aí é provocar a ira dos defensores da pornografia online. Ou concordamos com o conteúdo desses sites (e muitos concordam), ou somos coniventes.
E você provavelmente se autodenominaria como da segunda categoria. Dos que ignoram a pedofilia em sites pornôs. Ou o sucesso da categoria “teen” (atualmente, é o termo pornô mais buscado no Google), porque mentalmente não compactua com esta cultura e confia que a sociedade tem discernimento. Muito discernimento. Ou ainda dos que não se incomodam que a agressividade em vídeos pornôs seja direcionada 6% a homens... e estimados 94% a mulheres.
São diferentes tipos de violência de gênero, todos alimentados pela mesma cultura. Uma cultura que não tem empatia com as mulheres. Que faz tanta menina transar sem tesão e tanta mulher depender da indústria pornô e da prostituição para viver.
“Você tira o poder da mulher. O seu trabalho, a sua família, o seu dinheiro. Você a deixa com uma única moeda... a moeda com que ela nasceu. Pode ser de mau gosto e degradante, mas se ela precisar, ela vai gastá-la” – Red (Orange Is The New Black)
E acreditem: isso tem menos a ver com “emancipação feminina” e mais com 70% do tráfico humano mundial ser de mulheres, escravizadas ou forçadas à prostituição. Dados da ONU, não meus.
A exceção não faz a regra neste caso. A maioria daquelas mulheres não está por cima, mas isso não parece gerar empatia. O distanciamento cresce. E eu entendo que todos temos hipocrisias ideológicas em nossas vidas, mas poucas delas estão filmadas e colocadas bem na nossa cara.
Que em 2016, o tesão seja problematizado.
Sobre o estudo:
http://bit.ly/1JZnV7n
O estudo em si (inglês):
http://bit.ly/1PLPypc
Relatório da ONU sobre tráfico humano:
http://bit.ly/1MVDGMM
TEDx - "Por que parei de ver pornô":
http://bit.ly/1S630HC
Dados sobre a indústria pornô e depoimentos de diferentes atrizes sobre os abusos e a "iniciação" (recomendo ler!):
http://bit.ly/1O6O3Bk
Dados da organização Stop Porn Culture:
http://bit.ly/1PgSirG
Dados sobre buscas pornôs ("teens"):
http://bit.ly/1JZt8w9
Vale a leitura.
Pornografia e violência contra a mulher
Um estudo indicou que homens que pagam por sexo são mais propensos a cometer estupros. O motivo? Seu relacionamento com sexo é impessoal: só interessa o prazer dele, não o da outra pessoa. É dissociado, as minas são vistas como um utensílio descartável.
"Outros estudos já tinham associado essa falta de empatia com atos de violência contra a mulher. Muitos especialistas, hoje, encaram a prostituição como uma forma de abuso sexual. E esperam que os resultados desse estudo ajudem a derrubar o mito de que consumidores de prostituição são ‘caras legais, apenas sexualmente frustrados’”.
O problema vai além disso.
E sim, eu vou encher o saco sobre o seu pornôzinho. Desculpa aí! Como diriam as publicações gordofóbicas insuportáveis de dieta pós-Ano Novo, “você é o que você consome” e eu não sei se quero viver numa sociedade assim.
A pornografia foi colocada num pedestal pós-moderno. Toda crítica é moralismo. Mas a forma como esse conteúdo vem sendo produzido (machista, irreal e cada vez mais hardcore, graças à livre concorrência) e consumido em massa (na internet) também contribui para essa cultura de insensibilização para sexo..
A humanidade do outro é secundária ao seu tesão. Não importa o que aparece na tela ou seus bastidores grotescos, o importante é gozar. Não importa como aquela garota ou aquele “vídeo caseiro” chegou lá, o importante é gozar. Não importa como o filme foi feito e definitivamente não importa se a mulher está gostando.
A probabilidade, hoje em dia, é que você vai fazer mais sexo com seu computador do que com uma garota. Então... Quem se importa com a garota?
E não vem me dizer que a maior parte da pornografia é de boas. Porque não é. Fico imaginando meninos de 12 anos vendo mulheres humilhadas na cara, com a garganta engasgada, usadas por mais de um, agindo como crianças inocentes e sendo seduzidas, corrigidas ou coagidas e submetidas a todo tipo de estripulia, de posição não-prazerosa que culmine no orgasmo do ator homem. Ou lendo títulos como “comendo duas vadias” e “banho com adolescente”, a la XVideos.
Somos coniventes com a pedofilia, com esse falocentrismo. Com uma sexualidade agressiva, com vídeos em que o orgasmo feminino é irrelevante e ridicularizado. “Todo mundo sabe que a mulher não está gostando”, “ela finge muito mal”... Tá. Então por que estamos assistindo?
Se você abrir qualquer site de pornô gratuito e observar todas as fotos, todos anúncios, todos os termos usados nos títulos, eu duvido que te faça sentir bem sobre ser mulher.
E se você é homem, talvez não se importe.
Boicotamos um macarrão Barilla porque o CEO fez um comentário homofóbico, mas não boicotamos sites com anúncios misóginos, humilhantes e agressivos. Com conteúdo P E D Ó F I L O. Sabe?
E aí vêm me dizer: “Ah, não tem outra opção” ou “Me masturbar é muito importante”. E eu me pergunto se é realmente uma escolha tão vergonhosa ou "último recurso" assim, se falamos abertamente sobre a pornografia que consumimos e fazemos piada com os sites que frequentamos, sem problematizar.
Então penso na minha adolescência, em mim mesma e em amigas em relacionamentos heterossexuais, fazendo sexo sem sentir prazer durante anos. Algumas mulheres pela vida inteira. Se submetendo desde jovens a todo tipo de posição sem realmente estar confortável ou entender aquilo, só para agradar... Para ver o cara feliz. Contentando-se com o contato físico, com o carinho e não com o sexo em si. Colocando seu orgasmo em segundo plano, porque (assim como nos filmes) uma mulher não sentir prazer é culturalmente aceito.
Quem liga? Certamente não os caras que cresceram achando que minas têm que ser putas na cama. Ou que viram nos vídeos que é só colocar o I no O que o trabalho tá feito. Certamente não o cara que tem tesão em ménage a trois e assedia garotas em relacionamentos lésbicos. Nem o namorado bacana que fica chateado porque não ganhou sexo e “poxa, né, amor...”. E menos ainda o mano que convence a namorada a fazer sexo anal mesmo que ela sinta um pouco de dor.
Por que as mulheres estão nessa posição? Se desdobrando e se submetendo? Por que essa falta de empatia com elas? Como o mundo pode usufruir tanto da sexualização feminina e não dar a mínima para as garotas?
Os donos do Xvideos também não se importam. Nem os seus usuários. E sequer vou entrar no mérito dos vídeos amadores e do revenge porn, porque aí é provocar a ira dos defensores da pornografia online. Ou concordamos com o conteúdo desses sites (e muitos concordam), ou somos coniventes.
E você provavelmente se autodenominaria como da segunda categoria. Dos que ignoram a pedofilia em sites pornôs. Ou o sucesso da categoria “teen” (atualmente, é o termo pornô mais buscado no Google), porque mentalmente não compactua com esta cultura e confia que a sociedade tem discernimento. Muito discernimento. Ou ainda dos que não se incomodam que a agressividade em vídeos pornôs seja direcionada 6% a homens... e estimados 94% a mulheres.
São diferentes tipos de violência de gênero, todos alimentados pela mesma cultura. Uma cultura que não tem empatia com as mulheres. Que faz tanta menina transar sem tesão e tanta mulher depender da indústria pornô e da prostituição para viver.
“Você tira o poder da mulher. O seu trabalho, a sua família, o seu dinheiro. Você a deixa com uma única moeda... a moeda com que ela nasceu. Pode ser de mau gosto e degradante, mas se ela precisar, ela vai gastá-la” – Red (Orange Is The New Black)
E acreditem: isso tem menos a ver com “emancipação feminina” e mais com 70% do tráfico humano mundial ser de mulheres, escravizadas ou forçadas à prostituição. Dados da ONU, não meus.
A exceção não faz a regra neste caso. A maioria daquelas mulheres não está por cima, mas isso não parece gerar empatia. O distanciamento cresce. E eu entendo que todos temos hipocrisias ideológicas em nossas vidas, mas poucas delas estão filmadas e colocadas bem na nossa cara.
Que em 2016, o tesão seja problematizado.
Sobre o estudo:
http://bit.ly/1JZnV7n
O estudo em si (inglês):
http://bit.ly/1PLPypc
Relatório da ONU sobre tráfico humano:
http://bit.ly/1MVDGMM
TEDx - "Por que parei de ver pornô":
http://bit.ly/1S630HC
Dados sobre a indústria pornô e depoimentos de diferentes atrizes sobre os abusos e a "iniciação" (recomendo ler!):
http://bit.ly/1O6O3Bk
Dados da organização Stop Porn Culture:
http://bit.ly/1PgSirG
Dados sobre buscas pornôs ("teens"):
http://bit.ly/1JZt8w9
domingo, 3 de janeiro de 2016
"Da Paz", conto #fabuloso de @marcelinofreire
Nos idos dos anos 2000, em especial no Rio de Janeiro, disseminou-se um movimento de marchas pela paz, com caminhadas com pessoas de branco carregando flores, fotos e cartazes pedindo paz e justiça. As caminhadas ganhavam especial comoção quando alguma criança do lado nobre da cidade era de alguma forma vítima de violência. Em São Paulo, tais marchas ganharam força em função das ações no PCC em 2006. Foi nesse contexto que o escritor pernambucano Marcelino Freire foi inquerido a escrever um conto com a temática das tais marchas. Inspirou-se ao ver uma das atrizes de malhação com seu "kit paz" convocando o evento.
Segue o texto brilhante e ao final as interpretações emocionantes de Naruna Costa, Renan Inqérito e do próprio Marcelino.
Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.
Segue o texto brilhante e ao final as interpretações emocionantes de Naruna Costa, Renan Inqérito e do próprio Marcelino.
Da Paz
Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe?
A paz é que não deixa.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Apesar de tudo, obrigado 2015. Dois mil e dezesseis, vamos à luta!
Dois mil e quinze já era. E não vai deixar saudades, não é mesmo? Afinal, foi crise pra lá, crise pra cá, cortes de direitos, demissões e mais demissões. Um roteiro que ninguém quer ver se repetir no novo ano que começa. Por outro lado 2015 ao menos merece ser abordado de um ângulo um pouquinho diferente.
Quem se lembra do final de 2014, com os resultados eleitorais que levaram ao Congresso Nacional sua composição mais reacionária de toda a história e da preparação do gabinete da recém reeleita presidenta, Dilma Roussef, com figuras como Levy e Kátia Abreu sabe que estávamos diante de um round, digo, ano que tínhamos tudo pra levar uma gigantesca surra.
Ainda em dezembro 2014, a reeleita já afirmava que o ano novo seria duríssimo para os brasileiros dos andares de baixo. O termo ajuste fiscal já entrava na agenda de governo com uma proposta para "economizar" 100 bilhões de reais. É sempre bom deixar claro que o tal ajuste fiscal que tanto se falou nada mais é do que cortes, arrocho e precarização do serviço público. E também foi em dezembro de 2014 que Dilma 2.0 não só começou a falar como colocou em vigor medidas para dificultar o acesso ao seguro desemprego, PIS/PASEP, seguro defeso, etc.. Ou seja, a depender do governo, 2014 já tinha deixado claro que íamos sentir saudades.
Mas não foi só do governo federal que a pancadaria já estava anunciada. Com uma bancada BBB supervitaminada e fortalecida no Congresso Nacional, 2015 nos preparava um verdadeiro show de horrores. E não foi pra menos. Ainda em fevereiro, o famigerado Eduardo Cunha foi eleito para presidente da Casa. Em sua agenda estavam a redução da maioridade penal, ilegalizar o pouco de aborto legal, o "bolsa estupro", o dia do orgulho heterossexual, o estatuto da família, estatuto do desarmamento, apoio ao sistema de saúde privado e a terceirização.
Pra completar a confirmação de que estávamos diante de um ano perdido, ainda em março, a direitada tomou as ruas e inaugurou um movimento até então inédito na democracia brasileira: o carnacoxinha. Só na Paulista foram 160 mil pessoas pedindo "Fora Dilma", "Fora PT" e também "Intervenção militar". A termo de comparação, em junho de 2013 a maior manifestação na Paulista colocou 110 mil pessoas na rua. Não tinha como não olhar pra frente e não ver com muito medo o desenrolar do ano.
E esse é o ponto. Mesmo com toda a ofensiva do lado de lá, e tanta desmoralização e desmobilização do lado de cá, eles não nos levaram à lona. E não é que não tentaram. Simplesmente não conseguiram.
Ainda no primeiro semestre não conseguiram impor o maldito PL 4330 nem a redução da maioridade. A Câmara até aprovou mas diante da reação popular o Senado simplesmente não topou levar adiante. E no segundo semestre então nem se fala, além da malfadada ameaça permanente de impeachment que deixaria a vida dos trabalhadores ainda pior mas que não conseguiu se efetivar, Cunha colocou em discussão o PL 5069 que levou às ruas milhares de mulheres no país e pôs em pauta o movimento feminista como há muito não vimos.
E pra deixar o peito cheio de orgulho, 2015 nos presenteou com um movimento em defesa da escola pública na capital paulista de encher os olhos e o coração. Mais de duzentas escolas ocupadas por uma nova geração de lutadores que impôs brilhantemente a derrota do governo tucano. Se fizermos contas superficiais em termos quantitativos, duzentas escolas vezes uma média de cinquenta ocupantes, chegamos a um número de 10.000 novos ativistas só em São Paulo que experimentaram a necessidade de auto-organização e resistência, enfrentando-se com uma das PMs mais truculentas do país e ainda por cima, não se deixando arrastar pelos aparatos derrotistas que se tornaram as entidades estudantis como UNE, UBES e companhia.
Aos que lutam e resistem, o anos de 2015, por mais que tenha sido sofrido, honestamente até que terminou com um gostinho de quero mais. Em especial as primaveras feminista e secundarista do ano que chegou ao fim nos deixaram sementes de esperança para o ano que começa. Que aliás será de luta pois o governo já anunciou que quer reforma da previdência e ajuste (leia-se cortes e arrocho). E se depender do que aprendemos nos enfrentamentos do ano que se foi, 2016 tem tudo pra ser de grandes vitórias.
Então... apesar de tudo, obrigado 2015. Dois mil e dezesseis, vamos à luta!
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
O Trono do Estudar
E quem disse que 2015 foi puro espetáculo de horrores? Nada disso. Teve espetáculo também de mulheres contra Cunha, de estudantes na rua e pra fechar ainda teve até de artistas em defesa do "estudar". Esta semana caiu na rede o clipe da música de Dani Black em apoio ao movimento de ocupações de escolas secundaristas que tomou São Paulo durante o mês de novembro e fez recuar o governo tucano e ganhou simpatia de todo o país.
O clipe juntou Chico Buarque, Zélia Duncan, Paulo Miklos, Arnaldo Antunes, Dado Villa Lobos, Pedro Luis, Lucas Silveira e até Tetê Espíndola, que aliás é a mãe de Dani Black. Em um tom tipicamente nordestino, "Trono do Estudar", atira "Nem a lei, nem estado, nem turista, nem palácio, nem artista, nem polícia militar. Vocês vão ter que me engolir". Fabuloso, né não?
Vale muito conferir.
Trono do Estudar
Ninguém tira o trono do estudar
Ninguém é o dono do que a vida dá
E nem me colocando numa jaula Porque sala de aula
Essa jaula vai virar
A vida deu os muitos anos de estrutura do humano à procura do que Deus não respondeu
Deu a história, a ciência, a arquitetura, deu a arte e deu a cura e a cultura pra quem leu
Depois de tudo até chegar neste momento me negar conhecimento é me negar o que é meu
Não venha agora fazer furo em meu futuro, me trancar num quarto escuro e fingir que me esqueceu
Vocês vão ter que acostumar porque
Ninguém tira o trono do estudar Ninguém é o dono do que a vida dá
E nem me colocando numa jaula Porque sala de aula
Essa jaula vai virar
E tem que honrar e se orgulhar do trono mesmo e perder o sono mesmo para lutar pelo que é seu
Que neste trono todo ser humano é rei seja preto, branco, gay, rico, pobre, santo, ateu
Pra ter escolha tem que ter escola ninguém quer escola, isto ninguém pode negar
Nem a lei, nem estado, nem turista, nem palácio, nem artista, nem polícia militar
Vocês vão ter que me engolir, se entregar
Porque ninguém tira o trono do estudar
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
O chamado a "Eleições Gerais" neste instante é ou não um erro?
E quando se pensava que o ano estava acabando e nada de novo poderia ganhar grande notoriedade para além da emocionante luta dos estudantes secundaristas de São Paulo, eis que todos os holofotes se voltam para Brasília. O presidente da Câmara dos Deputados e achacador-mor da República, Eduardo Cunha (PMDB) acatou a admissibilidade do pedido de impeachment da presidenta Dilma Roussef. Fez isso, no mesmo dia em que deputados do PT finalmente e após grande relutância assumiram a posição de que não o defenderiam no Conselho de Ética na votação sobre a admissibilidade do processo contra Cunha. No fim, seu ato foi pura retaliação em um movimento que tem o sentido primeiro de protelar quaisquer decisões do Conselho de Ética que poderiam levar à cassação de seu mandato e uma possível prisão.
Essa politica pequena, cheia de artimanhas e imundices que dá nojo a qualquer um, apesar de não trazer nenhum ar de entusiasmo aos que lutam por um mundo melhor, merece e muita nossa atenção porque dela temos muito desdobramentos que afetarão diretamente a vida em especial dos trabalhadores brasileiros.
Antes de mais nada é preciso entender que o que está em curso no Planalto Central é sim, um golpe. Não um golpe com os tanques nas ruas a la 1964 mas um golpe parlamentar. É bem verdade que não existe interesse da grande burguesia nacional ou internacional, muito menos da Casa Branca, em um processo de interrupção do governo Dilma em meio a uma grande crise econômica mundial. Mas Eduardo Cunha à frente do Congresso Nacional é um elemento absolutamente imponderável no cenário político brasileiro e sequer escrúpulos tem para jogar às favas. Sendo assim, o golpe ou ao menos sua tentativa, está sim em curso.
Mas se está previsto na Constituição por que seria um golpe?
Simplesmente porque não existe motivo plausível para um impedimento por dentro das regras normais do jogo democrático burguês. As tais pedaladas fiscais nem de longe são razão para tanto. Se fossem FHC não poderia ter completado seu mandato e Temer também precisaria ser impedido. No fim das contas a questão não é técnica ou legal, é política. O governo não governa, não tem apoio do parlamento, nem muito menos popularidade, mas nada disso é motivo para impeachment. Poderia ser motivo para os trabalhadores tomarem as ruas, fazer greve geral e assim fazer cair o governo através de um renúncia. Mas para impeachment de fato não há base.
Então, estamos diante de um golpe e ponto. Não que ele vá ser vitorioso, até porque não existem votos suficientes na oposição de direita para impô-lo (são necessários 2/3 dos deputados e o governo tem um pouco mais de 1/3 a seu lado), mas devemos ter ao menos o cuidado de chamar as coisas por seus nomes.
Mas será que no fim das contas o resultado do golpe seria ruim para a classe trabalhadora brasileira? Não seria melhor logo dar um fim nesse governo inerte e colocar um outro no lugar? Será que até mesmo para destravar as lutas não seria interessante deixar de ter o PT e a figura do Lula, com a UNE, UBES, MST, CUT e um monte de sindicatos funcionando como camisa de força das lutas sociais? Será que não estamos diante de um daqueles males que vem pra bem?
A resposta é sinceramente um grande NÃO.
O fato de sabermos que Dilma governa para os ricos não quer dizer que seu governo é simplesmente igual a qualquer outro governo burguês. Nenhum governo burguês é igual ao outro, simples assim. Existem, por exemplo, governos com mais ataques às liberdades democráticas e governos com menos ataques. Isso não quer dizer que eles deixam de ser burgueses porque por exemplo, apoiam a legalização da maconha, a legalização do aborto ou o casamento homossexual. Nada disso. Não é isso que determina seu caráter de classe. O governo Dilma é terrível e precisa ser derrotado, mas não é possível que tenhamos dúvida que um governo Temer será pior e um governo Cunha, ainda mais. Tirar Dilma e deixar assumir Temer ou Cunha é defender que os trabalhadores sejam ainda mais atacados. É preparar um imenso infeliz 2016 com uma nova reforma da previdência, privatização da Petrobras, privatização do SUS, privatização da rede pública de ensino, aprovação do PL 5069 e por aí vai. Ou seja será levar à hipervelocidade a precarização da vida do povo pobre e trabalhador do país.
Nada mais justo pensar então que neste cenário o correto é chamar o FORA TODOS e novas eleições gerais, não é mesmo? Não, não é. Palavras de ordem precisam levar em consideração a correlação de forças e não levantamos palavras de ordem deste tipo, palavras de ordem para a ação, se não houver como colocá-las em ação. Levantar a hipótese de eleições gerais neste momento, onde não está em curso nenhuma grande mobilização popular para derrotar o governo, é simplesmente abrir a possibilidade que o atual Congresso reacionário seja substituído por outro ainda mais a direita.
Quanto ao PT, CUT e companhia é preciso que se diga que NÃO há como resgatá-los para as lutas sociais. Em outras palavras isso significa dizer que eles seguirão sendo camisas de força, ainda que por fora do governo. O melhor local para enfrentá-los e varrer sua influência sobre o movimento de massas é exatamente onde eles estão: no governo central. Mas é preciso a política certa para enfrentar um governo desse tipo e simplesmente torcer para que eles saiam do governo, seja derrotados em eleições, seja golpeados pela direita parlamentar, é de fato se negar a fazer política, se abster da tarefa de derrotá-lo, é seguir dando-lhes sobrevida. A classe trabalhadora merece muito mais do que isso.
A esquerda socialista não pode apressar-se em apontar quaisquer consignas mirabolantes. Pés firmes no chão e olhos para frente. É preciso entender os perigos e hierarquizar as tarefas que nos impõe a realidade. Partir da negação ao golpe parlamentar, chamar o povo a seguir engrossando o sentimento de Fora Cunha, construir nas ruas as derrotas ao ajuste de Dilma/Temer/Levy somando-se às lutas reais como a dos secundaristas de São Paulo e chamar a não se depositar nenhuma confiança nesse governo de arrocho, retirada de direitos e desemprego. Esse sim, é um bom caminho.
Essa politica pequena, cheia de artimanhas e imundices que dá nojo a qualquer um, apesar de não trazer nenhum ar de entusiasmo aos que lutam por um mundo melhor, merece e muita nossa atenção porque dela temos muito desdobramentos que afetarão diretamente a vida em especial dos trabalhadores brasileiros.
Antes de mais nada é preciso entender que o que está em curso no Planalto Central é sim, um golpe. Não um golpe com os tanques nas ruas a la 1964 mas um golpe parlamentar. É bem verdade que não existe interesse da grande burguesia nacional ou internacional, muito menos da Casa Branca, em um processo de interrupção do governo Dilma em meio a uma grande crise econômica mundial. Mas Eduardo Cunha à frente do Congresso Nacional é um elemento absolutamente imponderável no cenário político brasileiro e sequer escrúpulos tem para jogar às favas. Sendo assim, o golpe ou ao menos sua tentativa, está sim em curso.
Mas se está previsto na Constituição por que seria um golpe?
Simplesmente porque não existe motivo plausível para um impedimento por dentro das regras normais do jogo democrático burguês. As tais pedaladas fiscais nem de longe são razão para tanto. Se fossem FHC não poderia ter completado seu mandato e Temer também precisaria ser impedido. No fim das contas a questão não é técnica ou legal, é política. O governo não governa, não tem apoio do parlamento, nem muito menos popularidade, mas nada disso é motivo para impeachment. Poderia ser motivo para os trabalhadores tomarem as ruas, fazer greve geral e assim fazer cair o governo através de um renúncia. Mas para impeachment de fato não há base.
Então, estamos diante de um golpe e ponto. Não que ele vá ser vitorioso, até porque não existem votos suficientes na oposição de direita para impô-lo (são necessários 2/3 dos deputados e o governo tem um pouco mais de 1/3 a seu lado), mas devemos ter ao menos o cuidado de chamar as coisas por seus nomes.
Mas será que no fim das contas o resultado do golpe seria ruim para a classe trabalhadora brasileira? Não seria melhor logo dar um fim nesse governo inerte e colocar um outro no lugar? Será que até mesmo para destravar as lutas não seria interessante deixar de ter o PT e a figura do Lula, com a UNE, UBES, MST, CUT e um monte de sindicatos funcionando como camisa de força das lutas sociais? Será que não estamos diante de um daqueles males que vem pra bem?
A resposta é sinceramente um grande NÃO.
O fato de sabermos que Dilma governa para os ricos não quer dizer que seu governo é simplesmente igual a qualquer outro governo burguês. Nenhum governo burguês é igual ao outro, simples assim. Existem, por exemplo, governos com mais ataques às liberdades democráticas e governos com menos ataques. Isso não quer dizer que eles deixam de ser burgueses porque por exemplo, apoiam a legalização da maconha, a legalização do aborto ou o casamento homossexual. Nada disso. Não é isso que determina seu caráter de classe. O governo Dilma é terrível e precisa ser derrotado, mas não é possível que tenhamos dúvida que um governo Temer será pior e um governo Cunha, ainda mais. Tirar Dilma e deixar assumir Temer ou Cunha é defender que os trabalhadores sejam ainda mais atacados. É preparar um imenso infeliz 2016 com uma nova reforma da previdência, privatização da Petrobras, privatização do SUS, privatização da rede pública de ensino, aprovação do PL 5069 e por aí vai. Ou seja será levar à hipervelocidade a precarização da vida do povo pobre e trabalhador do país.
Nada mais justo pensar então que neste cenário o correto é chamar o FORA TODOS e novas eleições gerais, não é mesmo? Não, não é. Palavras de ordem precisam levar em consideração a correlação de forças e não levantamos palavras de ordem deste tipo, palavras de ordem para a ação, se não houver como colocá-las em ação. Levantar a hipótese de eleições gerais neste momento, onde não está em curso nenhuma grande mobilização popular para derrotar o governo, é simplesmente abrir a possibilidade que o atual Congresso reacionário seja substituído por outro ainda mais a direita.
A esquerda socialista não pode apressar-se em apontar quaisquer consignas mirabolantes. Pés firmes no chão e olhos para frente. É preciso entender os perigos e hierarquizar as tarefas que nos impõe a realidade. Partir da negação ao golpe parlamentar, chamar o povo a seguir engrossando o sentimento de Fora Cunha, construir nas ruas as derrotas ao ajuste de Dilma/Temer/Levy somando-se às lutas reais como a dos secundaristas de São Paulo e chamar a não se depositar nenhuma confiança nesse governo de arrocho, retirada de direitos e desemprego. Esse sim, é um bom caminho.
domingo, 6 de dezembro de 2015
"Quem disse que algum dia foi fácil?" nos pergunta Badaró via @BlogJunho
O achacador-mor da República e representante dos interesses mais atrasados e reacionários do país, senhor Eduardo Cunha, acatou no dia 02/12 ser admissível o pedido de impeachment de Dilma Roussef. Fez isso às vésperas de ver seu mandato cassado e em represália ao fim da proteção que o PT vinha lhe dando. O ato praticamente é a cereja no bolo do mandato do deputado na presidência da Câmara dos Deputados e é, ou ao menos deveria ser, a virada para o clímax da ofensiva direitosa de 2015.
Rapidamente setores da esquerda socialista sacaram de seus arsenais as saídas para a crise institucional. O PSTU demonstrou-se o mais ágil e deu um salto do seu até então "Chega de Dilma, etc, etc, etc", um Fora Dilma disfarçado, para uma nova versão do "Fora Todos" de 2005 aliada ao "Eleições Gerais" de 1992. O MRT, antiga LER-QI, também não demorou muito a pronunciar-se e abraçou também a causa do "Fora Todos" com a diferença de estar aliada à bandeira da Assembleia Constituinte, leia-se reforma política. Aos poucos vozes menos apressadas da esquerda socialista deixam suas contribuições ao momento como nosso indispensável professor Ênio Bucchioni relembrando Trotsky e o terceiro período na Alemanha.
Outra voz na esquerda socialista que deixou sua contribuição ainda no dia 03/12, foi o professor Marcelo Badaró Mattos, com texto publicado no Blog Junho que faz um apanhado geral do ponto onde estamos e que vale muito a leitura.
Bom proveito.
A situação atual confirma as muitas avaliações de que junho de 2013 abriu um novo momento na luta de classes no Brasil.[1] As mobilizações multitudinárias, àquela altura, colocaram em cheque o “sucesso” do modo lulopetista de governar. Se a polarização eleitoral de 2014 rendeu ao governo capitaneado pelo PT a possibilidade de recompor bases sociais de apoio, tendo por mote o voto no “menos pior” (face ao medo do retorno do tucanato) e uma certa radicalização discursiva da candidatura de Dilma, o acirramento da crise capitalista, ao obrigar o governo a uma reorientação da política econômica, desvelou as máscaras: às favas com as fachadas neodesenvolvimentistas e volta à carga pesada do arsenal neoliberal clássico – juros elevados, mais retirada de direitos, cortes orçamentários nas áreas sociais e privatizações em cascata.
Aproveitando o clima da ressaca pós-eleitoral com o governo petista, a direita política mais radical lançou-se às ruas, no primeiro semestre deste ano, buscando capitalizar os descontentamentos, especialmente dos setores médios, com as políticas anti-populares do início do segundo mandato de Dilma.[2] Um descontentamento, diga-se de passagem, já manifesto em São Paulo (que se tornaria o epicentro da efervescência reacionária) desde as eleições, conforme indicou a queda da votação petista mesmo nos seus “bastiões” tradicionais.
A onda coxinha tinha respaldo parlamentar. De aliança em aliança para ampliar a “base de apoio” no Congresso, o governo petista conseguiu a proeza de se eleger com o Congresso de perfil mais retrógrado da história recente do país, elevando o status de figuras nefastas como Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara e de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro que capitalizou a situação como figura pública da reação (ou “mito” da coxinhada). Ambos eleitos por partidos da “base aliada” diga-se de passagem. Na combinação das mobilizações reacionárias com as articulações da bancada BBB (bala, boi e bíblia) criou-se o espaço para o avanço da “pauta conservadora” no Congresso – redução da maioridade penal, limitações ainda maiores ao aborto, estatuto da família, etc. – que despertou e tem despertado resistências importantes. Sintomaticamente, porém, percebe-se que se a “pauta conservadora” avança, mas encontra resistências internas no congresso – permanece congelada no Senado -, as medidas de austeridade do “ajuste fiscal”, com toda a transferência da carga da crise para o ombro da classe trabalhadora, são aprovadas com agilidade impressionante.
De qualquer forma, as mobilizações coxo-reacionárias do primeiro semestre refluíram, na medida mesmo que os porta-vozes das organizações de classe dos dominantes negaram publicamente o apoio ao “Fora Dilma!”. No entanto, um elevado grau de imponderabilidade no jogo das manobras políticas entre o governo e seus opositores/aliados (oposição política, mas apoio de classe à principal política do governo – o “ajuste fiscal”) se manteve, em decorrência da dinâmica jurídico criminal da “operação lava a jato”, na qual, em troca de algum tempo a menos na cadeia, próceres da burguesia e da gestão do aparelho de Estado acabam por entregar cada vez mais envolvidos em tenebrosas transações com dinheiro público.
Do lado de lá
O consenso até aqui evidente da classe dominante em torno das medidas de austeridade como caminho para o enfrentamento da crise é o elemento fundamental para a avaliação da sustentabilidade ou não do governo Dilma. Tal consenso, porém, não é absoluto ou imutável. As torneiras da combinação dívida pública/juros altos continuam a irrigar os lucros dos bancos e as frações do capital aglutinadas nos fundos de investimento (e todo o capital se garante por essa via, independentemente de sua origem na produção do valor ou na intermediação comercial, de serviços e bancária) continuam a saquear o fundo público à vontade – vide o aumento dos recursos para o FIES (alimentando as grandes corporações finaceirizadas do ensino superior privado) em meio aos cortes no orçamento da educação e a ofensiva para capitalizar o Funpresp (fundo previdenciário complementar para o funcionalismo público). Entretanto, as pressões para uma “flexibilização” do ajuste, para o capital, se ampliam. Com a União e os demais entes federativos sem recursos para continuar sobre-remunerando as empreiteiras (e seus gestores hoje em grande parte encarcerados) nas obras do PAC e mega-eventos; com a desaceleração da economia chinesa abalando as previsões de expansão do agronegócio (que tem se apoiado na desvalorização do real para manter “competitividade”); ou com a brutal queda do consumo de bens de consumo duráveis (20% de retração na produção automobilística) há descontentamentos. É essa pressão que explica os discursos de maior contemporização e ênfase na retomada do crescimento feitos por Joaquim Levy, não a marola dos “neodesenvolvimentistas” do PT. E o previsível agravamento da crise tende a acirrar essas contradições.
Nada indica, entretanto, que a classe dominante ou alguma de suas frações aposte na saída da derrubada de Dilma para substituí-la por um vice peemedebista ou para buscar novas eleições antecipadas em que a imprevisibilidade será a marca. As oscilações recentes no jogo político, portanto, tem origem em outra dimensão de conflitos. É nesse marco que talvez possamos compreender melhor o efeito que poderá ter a admissibilidade do processo de impeachment por Eduardo Cunha, em ato de retaliação explícita pela mudança de posição dos deputados petistas que anunciaram voto pela admissibilidade de processo contra ele na Comissão de Ética (sic.) da Câmara.
Oposição e situação se sentiram realmente ameaçadas foi com as prisões de Delcídio Amaral – líder do governo no Senado atualmente, mas diretor da Petrobrás no segundo mandato de FHC, vale lembrar – e do banqueiro André Esteves – que financiou as campanhas de Dilma, Aécio, Cunha e meio Planalto Central, além de presentear de Lula a Aécio com viagens de luxo e ouros mimos. Diante da disjuntiva entre as grades da cela e a tornozeleira eletrônica nos palácios urbanos em que residem, a opção por delatar alguns comparsas de todas as cores partidárias e devolver uma parcela pequena do botim aos cofres públicos não é assim tão difícil.
Como a reação imediata da volta dos avatares dilmistas nas redes sociais e as comemorações de alguns petistas (que antes diziam que “qualquer impeachment é golpe”[3]) deixaram evidente, o gesto de Cunha tende a ser positivo para o governo, por propiciar uma possibilidade à desgastada Dilma de ampliar sua base de apoio, polarizando contra a figura do presidente da Câmara, cuja reputação é a pior possível. De quebra, ao retirar as prisões da semana passada do centro do noticiário, aliviam-se todos, de Lula a Aécio.
Do lado de cá
O avanço da direita reacionária, inclusive para as ruas, decorre das “jornadas de junho”, mas essencialmente como reação ao caráter de classe – da classe trabalhadora – daquelas manifestações. E o “espírito de junho” não se dissipou completamente, nem pela reação de direita, nem pelos esforços petistas – nas eleições e depois – de reaglutinar as bases de apoio do lulismo. A onda de greves do segundo semestre de 2013 e primeiro de 2014, embalada por mobilizações dos trabalhadores da área de educação e pelas paralisações à revelia, ou contra, das direções sindicais burocratizadas (garis, rodoviários, operários da construção civil, entre outras) foi impulsionada por junho. Como o foram as ocupações urbanas na luta por moradia, muitas delas dirigidas pelo MTST.
Greves na contracorrente das direções sindicais e ocupações urbanas continuaram a acontecer. A elas se somam agora dois movimentos em que o “espírito de junho” parece reviver, com o adendo de que neles não há espaço para a disputa da direção pela direita, visto que sua pauta e perfil são essencialmente de enfrentamento contra a mesma direita: a “primavera das mulheres” e as ocupações de escolas em São Paulo.
O sucesso das campanhas feministas nas redes sociais e as expressivas mobilizações de rua do movimento de mulheres pelo “Fora Cunha!” desnudam o verdadeiro sentido da “pauta conservadora”: preservar a lógica do patriarcado que reveste a dominação social no Brasil face a verdadeira elevação da consciência feminina e social na luta contra o machismo cotidiano em sua brutalidade, hoje cada vez mais difícil de invisibilizar. Por outro lado, dão o sinal para toda a esquerda socialista: unidade de ação em uma pauta progressiva – “Fora Cunha!” e “Pela vida das mulheres” – sem maiores espaços para as pautas governistas mal-disfarçadas em “Defesa da Democracia”.[4]
Já as ocupações de escolas revelam o melhor legado das jornadas de 2013. Jovens, de origem trabalhadora, estudantes da escola pública, que se levantam contra o governo tucano e sua política de desmanche da educação, em uma experiência de ocupação e auto-gestão de escolas que representa objetivamente a possibilidade de formação de uma nova geração de ativistas político-sociais comprometidos com as bandeiras socialistas e experimentados desde cedo na luta. Luta que nos últimos dias vem se acirrando, com os enfrentamentos entre a PM assassina – com seu arsenal “não letal” tão popularizado em junho: spray de pimenta, cacetete, bombas de gás e balas de borracha – e a estudantada armada da mais letal das ferramentas de luta de que dispõe: as carteiras escolares, hoje usadas para simbolizar o que a escola não é, mas poderia ser.[5]
Aos militantes da esquerda socialista não há alternativa a não ser apostar na multiplicação dessas lutas. Mas, com que perspectivas e programa de intervenção?
Nosso lugar
Estar inseridos nas lutas em curso, nesta conjuntura, é a obrigação. Essa predisposição, por certo, nem de longe resolve nossos problemas. Como atuar e com que propostas?
De uma lado, reatualiza-se a necessidade da construção de uma frente da esquerda socialista, reunindo suas organizações políticas e os movimentos sociais mais combativos e de perspectiva classista, para intervir de forma articulada nos movimentos (e não apenas nos cenários e momentos eleitorais, embora nem isso tenha sido possível nos últimos tempos). A elevação do patamar de lutas, com a unificação dos movimentos regionalizados e fragmentados em pautas setoriais, exige a formação de um polo combativo mais amplo.
Além disso, para levar adiante bandeiras essenciais nessa conjuntura – como a greve geral contra o ajuste fiscal e a retirada de direitos dos trabalhadores – precisaremos construir unidade na luta até mesmo com os setores da burocracia governista nos movimentos sindical e “popular”, o que dependerá mais que tudo da pressão de “suas” bases. No entanto, só teremos força de pressão e capacidade convocatória sobre essas bases para levar adiante tais bandeiras, com autonomia e representatividade, se construirmos uma atuação conjunta da esquerda socialista, costurada por um acordo em torno de um programa comum de intervenção.
Essa perspectiva não pode ser confundida com a proposta de uma frente de movimentos e forças políticas que inclua as organizações que dão sustentação ao governo que executa as medidas do ajuste fiscal. Esse parece ser o caso da “Frente Povo sem Medo” que, embora respaldada na respeitabilidade adquirida na luta pelo MTST, possui o efeito de sustentar a ilusão de que é possível combater o ajuste em uma aliança estável com a burocracia dirigente, que no dia a dia representa um dique de contenção da classe trabalhadora. Se do ponto de vista tático-imediato, a participação nas atividades convocadas por tal “Frente” pode representar um instrumento de resistência em situações regionais como a do “Tucanistão” paulista, no plano da conjuntura de média duração e em outras realidades regionais em que a capacidade de vertebração do MTST inexiste (sendo a “Frente” é um mero slogan do aparato governista), o apoio a esse instrumento cumpre o papel objetivo de confundir as lutas da classe trabalhadora.
Por outro lado, será necessário construir um programa de intervenção imediata que se ancore da luta realmente existente – como o movimento de mulheres e as ocupações de escolas, aos quais certamente se somarão movimentos de servidores estaduais em situação de parcelamento salarial e atraso do 13o. em diversas unidades da federação, entre outros – para propor alternativas dos trabalhadores para a crise. Não nos cabe receitar o programa completo, substituindo o papel dos protagonistas reais das lutas, nem tampouco lançar do alto palavras de ordem – como o “Fora todos!” – na suposição de que terão aderência automática em lutas que estamos distantes de dirigir, sob o risco de sermos tomados por oportunistas na esquerda, ou confundidos com a direita pelo senso comum.
Mas, quem disse que algum dia foi fácil?
[1] Ver http://blogjunho.com.br/junho-e-nos-das-jornadas-de-2013-ao-quadro-atual/ & http://blogjunho.com.br/os-sentidos-de-junho/
[2] Ver https://capitalismoemdesencanto.wordpress.com/2015/06/01/tropa-de-elite-do-neoliberalismo-1-a-nova-direita-brasileira-e-suas-conexoes-transnacionais/ & artigos subsequentes no mesmo blog.
[3] http://www.correiodobrasil.com.br/altman-pedido-de-impeachment-e-boa-noticia/
[4] Ver http://blogjunho.com.br/pl-50692013-um-retrocesso-historico-para-as-mulheres-brasileiras/
[5] http://blogjunho.com.br/a-geracao-que-educou-seus-educadores/
Rapidamente setores da esquerda socialista sacaram de seus arsenais as saídas para a crise institucional. O PSTU demonstrou-se o mais ágil e deu um salto do seu até então "Chega de Dilma, etc, etc, etc", um Fora Dilma disfarçado, para uma nova versão do "Fora Todos" de 2005 aliada ao "Eleições Gerais" de 1992. O MRT, antiga LER-QI, também não demorou muito a pronunciar-se e abraçou também a causa do "Fora Todos" com a diferença de estar aliada à bandeira da Assembleia Constituinte, leia-se reforma política. Aos poucos vozes menos apressadas da esquerda socialista deixam suas contribuições ao momento como nosso indispensável professor Ênio Bucchioni relembrando Trotsky e o terceiro período na Alemanha.
Outra voz na esquerda socialista que deixou sua contribuição ainda no dia 03/12, foi o professor Marcelo Badaró Mattos, com texto publicado no Blog Junho que faz um apanhado geral do ponto onde estamos e que vale muito a leitura.
Bom proveito.
Do ponto onde estamos: uma leitura sobre o momento atual da luta de classes no Brasil
A situação atual confirma as muitas avaliações de que junho de 2013 abriu um novo momento na luta de classes no Brasil.[1] As mobilizações multitudinárias, àquela altura, colocaram em cheque o “sucesso” do modo lulopetista de governar. Se a polarização eleitoral de 2014 rendeu ao governo capitaneado pelo PT a possibilidade de recompor bases sociais de apoio, tendo por mote o voto no “menos pior” (face ao medo do retorno do tucanato) e uma certa radicalização discursiva da candidatura de Dilma, o acirramento da crise capitalista, ao obrigar o governo a uma reorientação da política econômica, desvelou as máscaras: às favas com as fachadas neodesenvolvimentistas e volta à carga pesada do arsenal neoliberal clássico – juros elevados, mais retirada de direitos, cortes orçamentários nas áreas sociais e privatizações em cascata.
Aproveitando o clima da ressaca pós-eleitoral com o governo petista, a direita política mais radical lançou-se às ruas, no primeiro semestre deste ano, buscando capitalizar os descontentamentos, especialmente dos setores médios, com as políticas anti-populares do início do segundo mandato de Dilma.[2] Um descontentamento, diga-se de passagem, já manifesto em São Paulo (que se tornaria o epicentro da efervescência reacionária) desde as eleições, conforme indicou a queda da votação petista mesmo nos seus “bastiões” tradicionais.
A onda coxinha tinha respaldo parlamentar. De aliança em aliança para ampliar a “base de apoio” no Congresso, o governo petista conseguiu a proeza de se eleger com o Congresso de perfil mais retrógrado da história recente do país, elevando o status de figuras nefastas como Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara e de fascistas assumidos como Jair Bolsonaro que capitalizou a situação como figura pública da reação (ou “mito” da coxinhada). Ambos eleitos por partidos da “base aliada” diga-se de passagem. Na combinação das mobilizações reacionárias com as articulações da bancada BBB (bala, boi e bíblia) criou-se o espaço para o avanço da “pauta conservadora” no Congresso – redução da maioridade penal, limitações ainda maiores ao aborto, estatuto da família, etc. – que despertou e tem despertado resistências importantes. Sintomaticamente, porém, percebe-se que se a “pauta conservadora” avança, mas encontra resistências internas no congresso – permanece congelada no Senado -, as medidas de austeridade do “ajuste fiscal”, com toda a transferência da carga da crise para o ombro da classe trabalhadora, são aprovadas com agilidade impressionante.
De qualquer forma, as mobilizações coxo-reacionárias do primeiro semestre refluíram, na medida mesmo que os porta-vozes das organizações de classe dos dominantes negaram publicamente o apoio ao “Fora Dilma!”. No entanto, um elevado grau de imponderabilidade no jogo das manobras políticas entre o governo e seus opositores/aliados (oposição política, mas apoio de classe à principal política do governo – o “ajuste fiscal”) se manteve, em decorrência da dinâmica jurídico criminal da “operação lava a jato”, na qual, em troca de algum tempo a menos na cadeia, próceres da burguesia e da gestão do aparelho de Estado acabam por entregar cada vez mais envolvidos em tenebrosas transações com dinheiro público.
Do lado de lá
O consenso até aqui evidente da classe dominante em torno das medidas de austeridade como caminho para o enfrentamento da crise é o elemento fundamental para a avaliação da sustentabilidade ou não do governo Dilma. Tal consenso, porém, não é absoluto ou imutável. As torneiras da combinação dívida pública/juros altos continuam a irrigar os lucros dos bancos e as frações do capital aglutinadas nos fundos de investimento (e todo o capital se garante por essa via, independentemente de sua origem na produção do valor ou na intermediação comercial, de serviços e bancária) continuam a saquear o fundo público à vontade – vide o aumento dos recursos para o FIES (alimentando as grandes corporações finaceirizadas do ensino superior privado) em meio aos cortes no orçamento da educação e a ofensiva para capitalizar o Funpresp (fundo previdenciário complementar para o funcionalismo público). Entretanto, as pressões para uma “flexibilização” do ajuste, para o capital, se ampliam. Com a União e os demais entes federativos sem recursos para continuar sobre-remunerando as empreiteiras (e seus gestores hoje em grande parte encarcerados) nas obras do PAC e mega-eventos; com a desaceleração da economia chinesa abalando as previsões de expansão do agronegócio (que tem se apoiado na desvalorização do real para manter “competitividade”); ou com a brutal queda do consumo de bens de consumo duráveis (20% de retração na produção automobilística) há descontentamentos. É essa pressão que explica os discursos de maior contemporização e ênfase na retomada do crescimento feitos por Joaquim Levy, não a marola dos “neodesenvolvimentistas” do PT. E o previsível agravamento da crise tende a acirrar essas contradições.
Nada indica, entretanto, que a classe dominante ou alguma de suas frações aposte na saída da derrubada de Dilma para substituí-la por um vice peemedebista ou para buscar novas eleições antecipadas em que a imprevisibilidade será a marca. As oscilações recentes no jogo político, portanto, tem origem em outra dimensão de conflitos. É nesse marco que talvez possamos compreender melhor o efeito que poderá ter a admissibilidade do processo de impeachment por Eduardo Cunha, em ato de retaliação explícita pela mudança de posição dos deputados petistas que anunciaram voto pela admissibilidade de processo contra ele na Comissão de Ética (sic.) da Câmara.
Oposição e situação se sentiram realmente ameaçadas foi com as prisões de Delcídio Amaral – líder do governo no Senado atualmente, mas diretor da Petrobrás no segundo mandato de FHC, vale lembrar – e do banqueiro André Esteves – que financiou as campanhas de Dilma, Aécio, Cunha e meio Planalto Central, além de presentear de Lula a Aécio com viagens de luxo e ouros mimos. Diante da disjuntiva entre as grades da cela e a tornozeleira eletrônica nos palácios urbanos em que residem, a opção por delatar alguns comparsas de todas as cores partidárias e devolver uma parcela pequena do botim aos cofres públicos não é assim tão difícil.
Como a reação imediata da volta dos avatares dilmistas nas redes sociais e as comemorações de alguns petistas (que antes diziam que “qualquer impeachment é golpe”[3]) deixaram evidente, o gesto de Cunha tende a ser positivo para o governo, por propiciar uma possibilidade à desgastada Dilma de ampliar sua base de apoio, polarizando contra a figura do presidente da Câmara, cuja reputação é a pior possível. De quebra, ao retirar as prisões da semana passada do centro do noticiário, aliviam-se todos, de Lula a Aécio.
Do lado de cá
O avanço da direita reacionária, inclusive para as ruas, decorre das “jornadas de junho”, mas essencialmente como reação ao caráter de classe – da classe trabalhadora – daquelas manifestações. E o “espírito de junho” não se dissipou completamente, nem pela reação de direita, nem pelos esforços petistas – nas eleições e depois – de reaglutinar as bases de apoio do lulismo. A onda de greves do segundo semestre de 2013 e primeiro de 2014, embalada por mobilizações dos trabalhadores da área de educação e pelas paralisações à revelia, ou contra, das direções sindicais burocratizadas (garis, rodoviários, operários da construção civil, entre outras) foi impulsionada por junho. Como o foram as ocupações urbanas na luta por moradia, muitas delas dirigidas pelo MTST.
Greves na contracorrente das direções sindicais e ocupações urbanas continuaram a acontecer. A elas se somam agora dois movimentos em que o “espírito de junho” parece reviver, com o adendo de que neles não há espaço para a disputa da direção pela direita, visto que sua pauta e perfil são essencialmente de enfrentamento contra a mesma direita: a “primavera das mulheres” e as ocupações de escolas em São Paulo.
O sucesso das campanhas feministas nas redes sociais e as expressivas mobilizações de rua do movimento de mulheres pelo “Fora Cunha!” desnudam o verdadeiro sentido da “pauta conservadora”: preservar a lógica do patriarcado que reveste a dominação social no Brasil face a verdadeira elevação da consciência feminina e social na luta contra o machismo cotidiano em sua brutalidade, hoje cada vez mais difícil de invisibilizar. Por outro lado, dão o sinal para toda a esquerda socialista: unidade de ação em uma pauta progressiva – “Fora Cunha!” e “Pela vida das mulheres” – sem maiores espaços para as pautas governistas mal-disfarçadas em “Defesa da Democracia”.[4]
Já as ocupações de escolas revelam o melhor legado das jornadas de 2013. Jovens, de origem trabalhadora, estudantes da escola pública, que se levantam contra o governo tucano e sua política de desmanche da educação, em uma experiência de ocupação e auto-gestão de escolas que representa objetivamente a possibilidade de formação de uma nova geração de ativistas político-sociais comprometidos com as bandeiras socialistas e experimentados desde cedo na luta. Luta que nos últimos dias vem se acirrando, com os enfrentamentos entre a PM assassina – com seu arsenal “não letal” tão popularizado em junho: spray de pimenta, cacetete, bombas de gás e balas de borracha – e a estudantada armada da mais letal das ferramentas de luta de que dispõe: as carteiras escolares, hoje usadas para simbolizar o que a escola não é, mas poderia ser.[5]
Aos militantes da esquerda socialista não há alternativa a não ser apostar na multiplicação dessas lutas. Mas, com que perspectivas e programa de intervenção?
Nosso lugar
Estar inseridos nas lutas em curso, nesta conjuntura, é a obrigação. Essa predisposição, por certo, nem de longe resolve nossos problemas. Como atuar e com que propostas?
De uma lado, reatualiza-se a necessidade da construção de uma frente da esquerda socialista, reunindo suas organizações políticas e os movimentos sociais mais combativos e de perspectiva classista, para intervir de forma articulada nos movimentos (e não apenas nos cenários e momentos eleitorais, embora nem isso tenha sido possível nos últimos tempos). A elevação do patamar de lutas, com a unificação dos movimentos regionalizados e fragmentados em pautas setoriais, exige a formação de um polo combativo mais amplo.
Além disso, para levar adiante bandeiras essenciais nessa conjuntura – como a greve geral contra o ajuste fiscal e a retirada de direitos dos trabalhadores – precisaremos construir unidade na luta até mesmo com os setores da burocracia governista nos movimentos sindical e “popular”, o que dependerá mais que tudo da pressão de “suas” bases. No entanto, só teremos força de pressão e capacidade convocatória sobre essas bases para levar adiante tais bandeiras, com autonomia e representatividade, se construirmos uma atuação conjunta da esquerda socialista, costurada por um acordo em torno de um programa comum de intervenção.
Essa perspectiva não pode ser confundida com a proposta de uma frente de movimentos e forças políticas que inclua as organizações que dão sustentação ao governo que executa as medidas do ajuste fiscal. Esse parece ser o caso da “Frente Povo sem Medo” que, embora respaldada na respeitabilidade adquirida na luta pelo MTST, possui o efeito de sustentar a ilusão de que é possível combater o ajuste em uma aliança estável com a burocracia dirigente, que no dia a dia representa um dique de contenção da classe trabalhadora. Se do ponto de vista tático-imediato, a participação nas atividades convocadas por tal “Frente” pode representar um instrumento de resistência em situações regionais como a do “Tucanistão” paulista, no plano da conjuntura de média duração e em outras realidades regionais em que a capacidade de vertebração do MTST inexiste (sendo a “Frente” é um mero slogan do aparato governista), o apoio a esse instrumento cumpre o papel objetivo de confundir as lutas da classe trabalhadora.
Por outro lado, será necessário construir um programa de intervenção imediata que se ancore da luta realmente existente – como o movimento de mulheres e as ocupações de escolas, aos quais certamente se somarão movimentos de servidores estaduais em situação de parcelamento salarial e atraso do 13o. em diversas unidades da federação, entre outros – para propor alternativas dos trabalhadores para a crise. Não nos cabe receitar o programa completo, substituindo o papel dos protagonistas reais das lutas, nem tampouco lançar do alto palavras de ordem – como o “Fora todos!” – na suposição de que terão aderência automática em lutas que estamos distantes de dirigir, sob o risco de sermos tomados por oportunistas na esquerda, ou confundidos com a direita pelo senso comum.
Mas, quem disse que algum dia foi fácil?
[1] Ver http://blogjunho.com.br/junho-e-nos-das-jornadas-de-2013-ao-quadro-atual/ & http://blogjunho.com.br/os-sentidos-de-junho/
[2] Ver https://capitalismoemdesencanto.wordpress.com/2015/06/01/tropa-de-elite-do-neoliberalismo-1-a-nova-direita-brasileira-e-suas-conexoes-transnacionais/ & artigos subsequentes no mesmo blog.
[3] http://www.correiodobrasil.com.br/altman-pedido-de-impeachment-e-boa-noticia/
[4] Ver http://blogjunho.com.br/pl-50692013-um-retrocesso-historico-para-as-mulheres-brasileiras/
[5] http://blogjunho.com.br/a-geracao-que-educou-seus-educadores/
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Ênio, Trotsky, Alemanha e Brasil em tempos de impeachment
Nosso indispensável professor "Ênio Bucchioni" realizou hoje uma postagem em sua página do Facebook trazendo a tona a posição de Trotsky para Alemanha no terceiro período, momento trágico em que os comunistas sob mando de Stalin não só não combateram Hitler como tiveram a capacidade de praticamente aliar-se a eles na luta contra o "social-fascismo" na linha de por para fora o governo social-democrata de Baun.
A comparação é mais do que pertinente no momento em que setores da esquerda socialista adotam a mesma linha, com alguns retoques de cores diferentes mas a mesma linha, acerca da continuidade ou não do governo de Dilma Roussef.
Vale a leitura e a reflexão.
Trotsky e o 3° período na Alemanha
1- Desde 1928 até meados da década de 30, o stalinismo se orientou pela linha política do chamado terceiro período, onde sinteticamente, previam o fim imediato do capitalismo e por surtos revolucionários em todos os países do mundo.
2- Aqui no Brasil o PCB gerou a chamada Intentona Comunista de 1935, um putch militar sem a participação do proletariado e das massas exploradas e oprimidas e que culminou com uma tremenda repressão em todo o movimento de massas e na vanguarda por parte do governo de Getúlio Vargas.
3- O stalinismo inventou o termo social-fascismo para intitular a social-democracia. Diziam que ela era socialista nas palavras e fascista nos atos. Diziam que fascismo e social-democracia eram irmãos gêmeos.
3 - Em março de 1931, nazistas e comunistas se aliam em um plebiscito sobre a dissolução antecipada do governo da Prússia, uma posição chave controlada pelos reformistas da social-democracia comandados por Baun. Os nazistas batizam o plebiscito de plebiscito marrom, e os comunistas stalinistas , de plebiscito vermelho. Ambos colocavam o 'Fora Braun'. Os 25 milhões de votos necessários para a dissolução do governo regional da Prússia não são atingidos, mas a campanha fortalece enormemente o Partido Nazista, que sai do processo com grande autoridade.
4- Sobre esse plebiscito Trotsky escreveu no livro Revolução e Contra- Revolução na Alemanha; “ Sair às ruas com a palavra de ordem “Abaixo o governo Bruening-Braun!” quando segundo a relação de forças esse governo só pode ser substituído por um governo Hitler – Hugenberg, é puro aventureirismo. A mesma palavra de ordem adquire, entretanto, sentido inteiramente diverso se se torna uma introdução à luta imediata do próprio proletariado pelo poder. No primeiro caso, os comunistas teriam aparecido aos olhos das massas como auxiliares da reação.
5- Na página seguinte desse mesmo livro, Trotsky escreveu: “ Durante a demonstração de abril de 1917 de 1917, uma parte dos bolcheviques lançou a palavra de ordem ;”Abaixo o governo Provisório”, O Comitê Central logo chamou à ordem os ultra-esquerdistas. Devemos, bem entendido, propagar a necessidade de derrubar o governo provisório; mas, não podemos ainda chamar as massas à rua por essa palavra de ordem, pois ainda estamos em minoria na classe operária. Se, nessas condições, conseguirmos derrubar o governo provisório, não o poderemos substituir e, por conseguinte, auxiliaremos a contrarrevolução...Tal foi a posição do Partido.
6- Talvez haja alguma semelhança entre essa história acima e a situação do Brasil em 2015. Talvez!
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
"Como a ‘liberdade sexual’ me levou ao abuso" via @revistaazmina

O texto a seguir é uma reflexão anônima postada no portal "revista AzMina" extremamente pertinente em tempos de primavera feminista.
Virou lugar comum e quase que exclusivo a bandeira de liberdade do corpo e liberdade sexual entre o movimento feminista. Em todos os atos é possível ler "meu corpo, minhas regras" estampados em faixas, cartazes e na própria pele. É um debate importante já que estamos lidando com tanta opressão e repressão, mas na medida em que é elevado ao topo do pódio das causas feministas, assume um papel reducionista e no fim rouba o protagonismo das lutas concretas do dia a dia. Quem corre risco de morte abortando clandestinamente precisa de conquista na forma da lei e não somente de poesia. Da mesma forma quem não tem onde deixar os filhos para trabalhar, quem ganha menos e trabalha mais, quem é assediada pelo patrão, quem é abusada no transporte coletivo precisa de mecanismos reais muito além de solidariedade e de memes no facebook.
O texto anônimo faz um contraponto a essa busca incessante por liberdade sexual não como fruto do feminismo mas como própria afirmação e até mesmo vitória do machismo, onde a liberdade sexual não liberta e sim, aprisiona mulheres fundamentalmente na busca do prazer do homem e para o homem.
Vale demais a leitura.
Como a ‘liberdade sexual’ me levou ao abuso
Eu sou uma mulher livre, sexualmente liberada, toda bem resolvida, sem vergonhas, sempre disposta a criar e inovar no sexo, uma transona. Ou melhor, isso é o que eu achava que eu era.
Afinal, eu adorava transar, ser sexy, fazer mil coisas na cama, sair com vários caras, vê-los pirando por mim, ficando loucos, ser a gostosona que leva os homens à loucura. Pobre de mim, que gastei anos da minha vida achando que isso é liberdade. Na verdade, é o contrário de ser livre. Basta ler com atenção para entender o porquê.
Ser sexy, fazer os caras pirar, ser a gostosona que leva homens à loucura… Tudo isso é para eles. E eu não percebia que, no fundo, eu nunca prestava atenção em mim. Tanto que mal consigo lembrar da maior parte das minhas transas.
E em algum momento aí no meio do caminho, eu comecei a sentir dor no sexo. Na minha fase solteira mais libertária. Mas eu continuei transando, dando prazer pros homens, fazendo de tudo para deixá-los malucos. Se eu sentia prazer? Não sei, às vezes sim, às vezes não.
Mas isso era normal, não? Não é que mulher não goza sempre? Eu sempre acreditei nisso. Se eu não gozava, ah, normal! Gozar sempre é coisa de homem. E quando eles não gozavam, eu me sentia culpada. Alguma coisa eu tinha feito de errado.
Engraçado é que eu me senti por muito tempo absurdamente livre por ser assim. Por ter vibrador, por me masturbar, por transar muito, por topar anal, por fazer estripulias na cama. E a dor, bem, ela era a companheira. Compensava, na minha cabeça.
Até que eu comecei a namorar, o namoro evoluiu e caminhava para ser uma relação duradoura. Eu queria muito que fosse duradoura e incrível. Mas, com a rotina, era cada vez mais difícil eu me sentir incrível, a rainha do sexo, e a dor foi ganhando espaço na minha cabeça.
Então, eu decidi tratar a dor, para poder ter uma vida sexual incrível com o homem que amo e manter nossa relação funcionando. Passei por médicos, fiz exames e muitas coisas. Descobrimos que nada de errado havia ali na minha linda vagina. O problema estava na minha cabeça.
Era preciso fazer terapia. Foi só ali, no divã, que eu entendi que de livre eu não tinha nada, nunca tive. Ela nunca me falou isso assim, mas ao longo do processo terapêutico, eu percebi que sexo para mim era totalmente sobre dar prazer ao homem. Sobre ser desejada, sobre sentir que eu tinha algum valor para aquele homem. Nada era sobre mim, meu corpo, meu prazer. Até mesmo deixar de sentir dor tinha sido algo para o outro, pra garantir que eu não deixaria de transar e assim manteria meu relacionamento.
De repente, me dei conta de que nem conhecia minha vagina. Na teoria, sabia tudo, mas eu nunca havia parado para me masturbar de formas diferentes das que sempre fazia. Aos 27 anos de idade, eu não sabia dizer o que me estimulava, o que me excitava, quais partes do meu corpo e da minha vagina me deixavam com tesão. Em compensação, sabia completamente como dar prazer a um homem, chupar do jeito certo, dar de quatro pra ele gozar rápido, gemer de um jeito excitante, escolher as lingeries que mais seduzem.
A origem disso tudo? Um mix de coisas. Eu sou insegura, tenho a autoestima baixa, não me sinto boa em nada. E de repente, transando, comecei a me sentir boa fazendo uma coisa: dando prazer. Eu nunca consegui me autorreconhecer. Eu preciso do reconhecimento do outro, e, pra mim, isso tem vindo dos homens. E quando não vem, eu me sinto um lixo.
Eu poderia dizer que isso é um fruto da minha criação, de como eu me formei, construí minha autoestima. Mas a verdade é que, por trás disso, está o machismo. Como toda menina, eu fui criada querendo ser linda. Da minha mãe, das minhas amigas, de todo mundo, eu ouvia que precisava ser bonita para arrumar namorado, pra não ficar sozinha pra sempre. Os filmes, as revistas, as novelas, tudo sempre me dizia que eu precisava conquistar os homens.
Como eu sempre quis ser livre, fugir das amarras, achei que me liberar sexualmente era um jeito de fugir dessa coisa de que eu precisava de UM homem para ser feliz. Mas continuou dentro de mim a lógica de que eu precisava agradar OS homens, pra me sentir valorizada.
Some a isso o fato de que, por mais que se fale sobre sexo, pouco se fala sobre o prazer. Quantas amigas não comentavam suas estripulias: quantas vezes na mesma noite conseguiu fazer o cara transar ou gozar, como fulano disse que ela chupava incrivelmente bem, como transou no lugar xis ou ípsilon. Pouquíssimas eram as vezes em que alguma mulher dizia “eu gosto disso ou daquilo”. E quando rolava, era uma coisa tão superficial, cheia de tabus e medos.
Claro que, nisso tudo, meu prazer ficou de lado, completamente esquecido. Eu não me tocava de verdade, eu não me olhava, eu não sentia.
Por que eu sinto dor? Essa é a pergunta que mais me tenho feito ultimamente.
Sinceramente, não sei responder com 100% de certeza. Já cogitei que tenha sido abusada sexualmente em algum momento, bêbada demais para me lembrar. Hoje estou mais propensa a pensar que sim, fui abusada, mas não no sentido mais literal da coisa. Fui abusada por mim mesma e pelo machismo, porque me deixei convencer de que era o certo e o normal. Porque fingi orgasmos, porque transei sem vontade, porque enchi a cara pra conseguir abrir as pernas, porque seduzi caras e fiz sexo simplesmente pra me sentir desejada, sem sentir prazer algum, porque abri mão dos meus desejos pra satisfazer os dos outros.
Nenhum homem nunca me estuprou, nunca abusou de mim, mas eu me deixei ser abusada por todos. E, neste momento, eu não culpo esses homens, até porque vários deles queriam mesmo me agradar. Como eles iam saber o que eu sentia e pensava, se eu não falava nem demonstrava? É claro que todos estavam preocupados com o próprio prazer. Eu é que devia ter me preocupado mais com o meu prazer e é isso que estou tentando fazer.
Como disse a minha (santa) psicóloga: o prazer não vem do outro, ele está dentro de nós. Claro que o sexo é algo a dois (ou mais) e que todos ali querem ver todos felizes, ou deveria ser assim. Mas antes de querer dar prazer, eu precisava ter aprendido a sentir prazer. Isso sim é ser livre: saber gozar, do meu jeito, independente de alguém estar ficando louco ou me achando sexy.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
"Centralismo democrático: entre a pedra e o caminho" (texto de Sérgio Domingues)
Sérgio Domingues é sociólogo e funcionário da UFRJ, colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação fundado pelo saudoso Vito Giannotti e militante do PSOL. É de sua autoria o texto "Centralismo democrático: entre a pedra e o caminho" que divulgamos aqui neste post que versa sobre uma das polêmicas mais recorrentes e pulsantes no que se refere a organização dos revolucionários. Como fruto dos anos do tacão stalinista, o centralismo democrático, foi via de regra demonizado por várias correntes, agrupamentos e ativistas. E não é pra menos. Ainda hoje, é possível ver organizações que se afirmam trotskistas, o que deveria ser sinônimo de anti-stalinistas, aplicando um tipo de centralismo que apesar da alcunha de democrático, silencia e sufoca diferenças em seu seio. Algo absolutamente diferente da experiências do centralismo-democrático aplicado por Lênin, Trotsky e seus companheiros, tanto durante a ditadura czarista, como os governos pós-fevereiro de 17 e até mesmo o período de guerra civil pós-outubro.
O texto de Sérgio de Domingues é uma importante contribuição que começa com um exemplo muito didático sobre a necessidade de remover uma grande pedra do caminho, o que em nosso caso como o próprio autor relata, é o capitalismo.
Boa leitura.
Centralismo democrático: entre a pedra e o caminho
Adelmo Genro Filho costumava explicar a necessidade de adotar o centralismo democrático com uma imagem didática. Trata-se de imaginar um grupo de pessoas que encontra uma grande pedra impedindo que sigam seu caminho. Se cada pessoa empurrar a pedra para um lado diferente, não vão conseguir movê-la. Será preciso que entrem num acordo, primeiro. Discutam e decidam com que força, ferramentas e em que direção o obstáculo deve ser afastado. Só depois disso devem, todas, iniciar a ação. Se ela se provar errada, voltam a discutir e fazem nova tentativa.
No caso de um partido socialista a pedra é a exploração da sociedade capitalista, que temos que superar, destruindo seus pontos de apoio. O movimento unitário é necessário porque os pontos de apoio da sociedade capitalista também são centralizados. Os capitalistas concorrem entre si ferozmente. Disputam postos no poder político e financeiro de modo selvagem. Mas, diante da menor ameaça a seus interesses. Diante de qualquer risco para seus lucros, suas propriedades, seu poder político, eles se unem. Esquecem suas diferenças e as ofensas que trocaram. Voltam-se unidos contra a ameaça. Geralmente, representada pela luta dos trabalhadores. E estes não podem se dar ao luxo de permanecer dispersos, enquanto seu inimigo está unido e forte.
Mas as coisas não são tão simples. Quem acompanhou a história do movimento socialista do século passado sabe que o centralismo democrático está longe de ser consenso entre as forças anticapitalistas.
Voltando a usar a imagem da pedra, o problema surge quando a maioria faz força empurrando a rocha, enquanto alguns ficam só olhando. Ou pior, sobem na pedra e ficam dando ordens lá de cima: “Mais pra direita, mais pra esquerda”. “Tem que usar mais força. Desse jeito, não vai dar”. Falam muito e não fazem nada. É o que a tradição socialista costuma chamar de centralismo burocrático. Ou seja, alguns conseguem se instalar em posições de comando. Em posições administrativas. Em confortáveis gabinetes e escritórios. Dão ordens, escrevem tratados, fazem teorias. Enviam tudo, lá de cima, para que a maioria, cá embaixo, execute. Está errado, claro. Nenhum socialista honesto pode aceitar isso.
No entanto, como evitar que o centralismo democrático se transforme em centralismo burocrático? Afinal, aparentemente, na grande maioria dos casos em que o centralismo democrático foi utilizado como forma de organização, ele se transformou em sua versão burocrática. Daí, a justa desconfiança de muitos camaradas combativos e de luta em relação ao centralismo.
O que fazer com Lênin?
Comecemos pelo começo. O primeiro a usar o conceito de centralismo foi Lênin. Mas, antes dele, o conceito já funcionava de alguma forma. É o caso das regras da Liga Comunista e do estatuto da Associação Internacional dos Trabalhadores, da época de Marx. Em ambos, estava prevista a necessidade de que seus membros agissem de forma unitária. Uma vez que uma tarefa fosse votada e decidida, todos deveriam agir juntos para cumpri-la.
Mas há experiências ainda mais antigas. Desde as primeiras ações sindicais, o centralismo também estava presente de alguma forma. Numa assembléia, podem se apresentar posições contrárias ou favoráveis a uma greve. Porém, uma vez decidido o início de uma paralisação, todos devem fazer a greve. Quem não fizer, é traidor. É fura-greve.
Isso acontece porque a classe operária é dividida. Dividida em ramos de trabalho diferentes. Dividida pela competição por um salário melhor. Dividida por preconceitos de cor, sexo, religião. A isso, as forças socialistas precisam responder com unidade. Com centralismo. Se não, não dá pra fazer nem uma greve.
A diferença é que Lênin teorizou o centralismo democrático para um partido revolucionário. Uma organização que pretende enfrentar radicalmente os exploradores. Algo que quer dar a batalha final. Não ficar no meio do caminho e ver a classe dominante retomar terreno.
Em 1904, Lênin escreveu algo que faz arrepiar os cabelos até de seus mais entusiasmados seguidores. Criticando os mencheviques disse: "a idéia básica do camarada Martov... é [produto] justamente de seu ‘democratismo’. A idéia da construção do partido de baixo para cima. Minha idéia, ao contrário, é o ‘burocratismo’, no sentido de que o partido deve ser construído de cima para baixo. Do congresso para a organização individual do partido." (Lênin, Obras [em russo], VII, pp 365-366 – citado por Toni Cliff, em sua biografia sobre Rosa Luxemburgo).
Assustador, sem dúvida. Tais posições ficaram ainda mais famosas em “O que fazer?” e “Duas táticas da social-democracia na revolução proletária”, também de Lênin. Mas, o revolucionário russo não era homem de posições congeladas. Em 1905, nos debates de preparação para o 3o congresso do partido, disse que seus pontos de vistas organizativos não eram universais: "Em condições políticas de liberdade, nosso partido pode e deve refazer inteiramente a regras...". É que Lênin pensou aquelas regras para um momento em que as condições políticas da Rússia eram as de uma ditadura terrível. Já não era mais o caso, após a revolução de 1905.
E quando Rosa Luxemburgo criticou sua concepção de centralismo aparecida em “O que fazer?”, Lênin respondeu que tratava-se de uma posição superada. Tanto assim que, em 1920, não gostou da notícia de que “O que fazer?” seria traduzido para outros idiomas. Pediu para que a edição fosse acompanhada por comentários claros sobre as condições em que o livro foi escrito.
Outro exemplo aconteceu quando a 3a Internacional Comunista discutia seus estatutos, em 1919. Lênin se opôs a propostas que considerava “muito russas” e exageravam a centralização. Ele dizia que o excesso de centralização não se adaptava às condições da Europa ocidental.
De qualquer maneira, a concepção de centralismo democrático permaneceu. Não como algo feito de cima para baixo. Ao contrário, com o máximo de democracia. Em outro de seus livros, isso ficou mais claro. Trata-se de “O Estado e a Revolução”. Lançado às vésperas da revolução de 1917, o livro foi escrito por quem pressentia a tomada do poder. A necessidade de pensar como funcionaria um Estado governado pelos trabalhadores. Por isso, é inspirado na única experiência parecida com isso, até então. A Comuna de Paris, de 1871. No livro, Lênin diz que a democracia dos trabalhadores tem que funcionar na base da mais ampla e intensa discussão antes de qualquer decisão. Como na Comuna, as funções de legislar, governar, julgar, executar, não podem ser separadas. Teoria e prática têm que fazer parte das tarefas cumpridas por todos. E o Estado precisa ir se enfraquecendo e não se fortalecendo. Pois já não tem serventia à medida que as classes vão desaparecendo. Como vimos, as posições de Lênin mudaram. Mas na verdade, o centralismo democrático nunca foi uma fórmula rígida. Sempre foi uma maneira de combinar ampla discussão com ação unitária. Sempre levando em conta as condições concretas da realidade. Quando isso se transformou em uma fórmula é que tornou-se centralismo burocrático. A insistência na variedade de formas com que o centralismo democrático se manifesta sempre esteve presente nas obras dos marxistas.
Trotsky, Gramsci e a tentação de subir na rocha
Em sua obra “Sobre o centralismo e o Regime”, Trotsky chama a atenção para o fato de que centralismo e democracia nunca estão em uma proporção exata: “Quando o problema é a ação política, o centralismo domina a democracia. A democracia retoma seu lugar novamente quando o partido precisa examinar criticamente suas próprias ações. O equilíbrio entre democracia e centralismo se estabelece na luta real. Às vezes, este equilíbrio é violado e de novo restabelecido”.
Gramsci tratou do tema da mesma forma. Em “O moderno príncipe”, ele deu o nome de “centralismo orgânico” ao centralismo democrático. Vejam o que ele disse: “Esta ‘organicidade’ somente pode ser encontrada no centralismo democrático. Algo que seria, por assim dizer, um “centralismo” em movimento. Ou seja, uma contínua adaptação da organização ao movimento real. Um encontro dos impulsos vindos de baixo com as ordens a partir de cima. Um contínuo bombeamento de elementos vindos da base partidária para dentro da moldura sólida em que ficam as lideranças e que assegura a permanente e regular acumulação de experiências. O centralismo democrático é ‘orgânico’ porque dá conta do movimento. E este não passa do modo orgânico como a realidade histórica se revela e não se solidifica mecanicamente na forma de burocracia. Ao mesmo tempo, dá conta daquilo que é relativamente estável e permanente, ou que, pelo menos, se move em uma direção mais facilmente previsível...”. Sem dúvida, são visões dinâmicas e dialéticas da organização partidária.
Ainda assim, são legítimas as preocupações de quem vê com desconfiança o centralismo democrático. Este texto não tem a intenção de acabar com isso. Ao contrário. Tudo o que foi dito não deve servir para desculpar Lênin, Trotsky e outros por erros ou tragédias que vieram a ser cometidos em nome do centralismo. Mas, também não podemos trancar o debate com a recusa de algo que não pode ser recusado: a busca de formas de criar e manter a unidade dos trabalhadores em luta.
A verdade é que não há como garantir isso de forma pura. Vivemos numa sociedade hierárquica, em que alguns mandam e muitos obedecem. Alguns pensam, a maioria executa. Com o tempo, essas diferenças somente se aprofundam. Exercem uma pressão constante e esmagadora sobre uma organização que pretende ser o contrário disso. Obrigam a que esta organização reaja de forma quase espelhada. Respondendo ao autoritarismo burguês com o centralismo dos trabalhadores. À repressão deles com nossa autodefesa. A idéias conservadoras e autoritárias com valores revolucionários e libertários. Este espelho está sempre tentando distorcer a luz autoritária que vem de fora. Transformá-la em imagens do que devem ser as relações humanas. Nem sempre isso acontece. É uma luta dura, mas que precisa ser feita.
Por mais que tenhamos divergências, a rocha continua no meio do caminho. A pressão para que alguns parem de empurrar a pedra e passem a dar ordens é grande. Se cederem à tentação, aí, eles passam a fazer parte do problema e não da solução. Temos que ficar atentos a isso. Nesse caso, quem está sobre a pedra tem que ser removido junto com ela.
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
O forte e marcante "Gritaram-me Negra" de Victoria Santa Cruz
"Gritaram-me Negra" é uma perfomance poética da afro-peruana Victoria Santa Cruz que narra a dupla descoberta da negritude de uma mulher, primeiro aos sete, aliás quase cinco anos de idade pela força da vergonha e seguida negação, e tempos mais tarde após não sobrar mais nada para a mulher negra a não ser afirmando-se.
Victoria Santa Cruz foi poetisa, coreógrafa, estilista e folclorista, que a partir de sua própria experiência (a criança de menos de 5 anos do poema é ela mesma) passa a dedicar sua vida adulta a difundir as diversas vertentes culturais afro-peruanas. Falecida aos 91 anos em 2014, tem seu poema "Gritaram-me Negra" reivindicado e interpretado por diversos setores do movimento de negros e negras.
Abaixo separamos não só o poema em português como alguns videos de interpretações deste poema-manifesto que não basta ser lido ou ouvido, ele precisa ser também visto.
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
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