domingo, 18 de setembro de 2011

Strauss-Khan e a "falha moral"


Saiu há pouco no portal da BBC Brasil:
O ex-diretor-gerente do FMI Dominique Strauss-Kahn disse que a relação que teve com uma camareira de hotel em Nova York, que levou a um escândalo sexual e à sua consequente renúncia, foi "inapropriada" e uma "falha moral".
Se me permitem a pergunta: o que afinal de contas foi "imoral" para Strauss-Khann? Se tal como ele diz, não houve estupro, a falha moral só podem ter sido as "investidas" sobre a camareira. Certo? Se é disso que se trata então vamos a uma nova pergunta: No fim das contas, o episódio seria somente uma "falha" ou seria um traço comportamental definido do diretor do FMI, já que como ele mesmo admite, não é a primeira vez que ele "assedia mas não estupra"?

E até onde o "consentimento" fruto de assédio é "moralmente" tolerável? O tema não é fácil mas não custa refletir um pouco sobre esse fantasma que ronda fábricas, corporações e muitas outras organizações mundo afora. Até mesmo porque o conceito de moral é completamente relativo e varia histórica e geograficamente. E isso sem falar que ainda existem aquelas organizações que possuem sua própria moral, tal como algumas seitas religiosas em que as mulheres, inclusive menores, devem transar com seu líder ou mentor espiritual. Para os integrantes da seita nada mais moralmente correto, afinal se a seita foi fundada em torno disso, qual o problema? Bom, o problema é que o que parece natural no fim das contas não é bem assim. A seita com todo seu repertório de idéias e valores absolutamente malucos normalmente induz as mulheres e em especial as meninas a pensar que não há nada demais nisso. E quando elas se derem conta do que ocorreu, já era, "foi consentido" e via de regra somente basta aceitar ou conviver com a vergonha.

Isso também vale para um sem número de empresas e fábricas por aí. Quantas e quantas operárias não são cercadas e assediadas até que "consentem" a tão perseguida transa seja pra garantir a manutenção do emprego, seja pra conseguir aquela vaga tão disputada, ou seja por simplesmente ceder à insistência e aos encantos do "conquistador". E aí fica a pergunta: assim pode?

Strauss-Khan na verdade não expressou uma falha moral. Expressou sua própria moral de todo-poderoso em que as pessoas não passam de objetos que existem simplesmente para satisfazer suas vontades e prazeres. Tudo "moralmente correto" até que alguém dê com a lingua nos dentes e o episódio se transmute em falha moral.