sábado, 2 de junho de 2012

A violência da greve contra a violência do trabalho na construção civil de Fortaleza.

Quem vive em Fortaleza e acompanha minimamente o que acontece na cidade pelos jornais sabe que durante quase todo o mês de maio, as obras da construção civil foram paralisadas pela greve dos operários. Sabe também que a greve não foi feita só de piquetes e passeatas mas também de muitos episódios de quebradeiras de canteiros de obra e até mesmo de agressões de jornalistas pelos grevistas. Naturalmente o leitor ou espectador é levado a uma posição de horror e reprovação, afinal como se costuma dizer "greve é um direito mas quando descamba pra violência, aí tá errado".

Quando perguntados sobre o assunto, os dirigentes do movimento via de regra falam que, se houve violência, ela foi estimulada por "agentes provocadores" infiltrados no movimento a serviço da patronal. A violência no fim das contas não seria obra dos grevistas e sim dos próprios empresários dispostos a praticamente tudo para desqualificar o movimento que os dirigentes apresentam como ordeiro. Uma tese difícil de ser defendida por mais que seja amplamente possível.

Bem... prefiro apresentar uma versão diferente. A greve dos trabalhadores da construção civil é sim um momento de violência dos operários contra tábuas, vidros, tijolos, ferros, cimento e todos que se apressem a proteger tais coisas. E honestamente é praticamente impossível não ser assim. Por que? Porque a greve do peão é exatamente o momento da subversão do cotidiano. É quando se vira o jogo e a violência da qual os operários são vítimas é devolvida na moeda da insurgência operária.

Durante todo o ano, operários são menosprezados e maltratados pelos capatazes do patrão, encaram vez por outra comida estragada, fazem hora extra para completar o salário, são trapaceados em direitos mínimos, vêem companheiros se acidentando e até morrendo, até que um dia a greve começa e tudo o que foi acumulado só espera a primeira oportunidade para explodir em fúria e festa.

Sim, a greve é violenta e não há dirigente que consiga simplesmente dizer a esses homens e mulheres que não quebrem as vidraças dos escritórios e stands onde se escondem os engenheiros e administradores que personificam o mal do qual são vítimas dia após dia.

Mas no fim das contas é preciso concordar com a tal tese dos agentes provocadores. Sim, eles existem. Mas não será possível encontrá-los infiltrados no movimento grevista vestindo as roupas dos operários. Eles estão de terno e gravata contabilizando os lucros do quanto a super-exploração dos trabalhadores tem lhes rendido e procurando novas fórmulas para aumentar ainda mais essa super-exploração. Provocador é quem oferece uma "cesta-básica" de R$ 40,00 a um pai ou mãe de família. Provocador é quem se recusa a pagar um salário minimamente digno ou condições decentes de trabalho. Provocador é quem compra a imprensa escrita e falada para mostrar a violência da greve, sem nunca falar uma única palavra da violência cotidiana do trabalho na construção civil de Fortaleza.

Os empresários querem o fim da violência durante as greves? Pois que paguem dignamente e respeitem os homens e mulheres que constroem essa cidade. Quando isso ocorrer não só não se verá violência, como até difícil será convencer a esses trabalhadores da necessidade de ir a uma greve. Simples assim.