terça-feira, 2 de julho de 2013

Primavera partindo e as flores mais vermelhas ainda não vieram. E agora?


No último domingo encerrou-se o mês de junho e com ele possivelmente também demos adeus à primeira grande onda de protestos e manifestações nacionais dos últimos vinte anos. É só uma hipótese e como tal precisa ser comprovada a partir da prática na vida real, mas não temo em dizer que é das hipóteses a mais provável. Não digo que não veremos mais lutas no país, não, de jeito nenhum, até porque nunca se deixou de existir lutas no país. Diferente do que se costuma falar e noticiar, o povo brasileiro sempre lutou e muito, só que normalmente suas lutas sempre foram tratadas como caso de policia. Mas apesar de nossa história de lutas e da explosão de protestos dos últimos dias é preciso ter olhos pra ver e ouvidos pra escutar e assim perceber que toda aquela enorme energia de massas que presenciamos recentemente vem se dissipando. Já não se sente o perfume das flores em todo o país, se é que você me entende? Sim, ainda existem protestos ocorrendo inclusive no dia de hoje, como por exemplo, o de Belém e o de Vitória, mas possivelmente estamos entrando em uma nova fase de lutas localizadas, cada vez menores e menos radicalizadas.

Já se vão vinte dias desde o despertar de nossa primeira onda, o dia 13/06, uma quinta-feira para entrar na história quando uma manifestação contra 20 centavos com cerca 5 mil pessoas foi duramente reprimida pela policia militar de São Paulo. Antes do dia 13 houve sim muitos protestos em São Paulo e, diga-se de passagem, com milhares de pessoas nas ruas, mas as cenas do vandalismo policial, inclusive contra jornalistas, bombardeadas tanto pela grande grande mídia como pelas redes sociais na sexta, no sábado e no domingo fizeram um sentimento nacional de descontentamento com o país estourar em protestos verdadeiramente continentais. Mais de 270 mil pessoas foram às ruas na segunda-feira, dia 17/06, em cerca de 30 cidades do país. No dia seguinte, 18/06, quatro cidades anunciaram redução na tarifa de transporte público e a presidente Dilma Roussef fez seu primeiro pronunciamento sobre as manifestações se dizendo atenta ao clamor das ruas. Na quarta, dia 19/06, foi a vez de São Paulo e Rio de Janeiro recuarem do aumento da tarifa. No dia, 20/06, uma semana após o grande ato de vandalismo policial paulista, cerca de um milhão e quatrocentas mil pessoas ocuparam as ruas em mais de 130 cidades em todo o país. Ali atingimos o ponto alto das manifestações e a partir daí governo federal, câmaras dos deputados, governos municipais, câmaras dos vereadores iniciaram um movimento para acalmar as ruas: a PEC 37 foi amplamente rejeitada no parlamento, Dilma passou a reunir com vários setores da sociedade, corrupção passou a ser crime hediondo, os royalties do petróleo foram encaminhados para as pastas da saúde e educação e até o projeto da "Cura gay" foi arquivado.

Apesar dos avanços e até mesmo por causa deles nunca mais vimos nada parecido com as manifestações do dia 20/06 ou mesmo do dia 17/06. Na quarta, dia 26, foram 83 mil pessoas em 57 cidades, sendo que 50 mil foram somente em BH que recebia a partida Brasil e Uruguai da Copa das Confederações. Na quinta, dia 27, foram 33 mil em 38 cidades. Na sexta, foram 27 mil, em 50 cidades. Isoladamente a maioria das manifestações vem voltando ao patamar anterior ao do dia 13/06, variando em torno de 5 mil pessoas.

Tudo indica que nossa primavera está partindo e o pior de tudo é que nossas mais belas flores, aquelas vermelhas que nascem das fábricas, canteiros e ocupações, simplesmente não desabrocharam. E agora o que fazer? Bem... uma coisa é certa não será simplesmente marcando um dia para que elas desabrochem que se iniciará uma segunda onda, ainda mais gigantesca e violenta que a primeira. Nada disso. Flores precisam ser cultivadas.