domingo, 27 de novembro de 2011

Mais uma vez: 10% para educação? E resolve?


Dois bons amigos me questionaram sobre meu post sobre minha posição sobre os 10% da educação o que acabou por me motivar a escrever novamente sobre o tema. Bem, insisto, acho uma campanha deslocada e descolada da realidade.  Em primeiro lugar, a forma plebiscitária me parece errada. Em segundo, o próprio tema não me parece o mais sentido pela grande maioria do povo: a classe trabalhadora. Vou tentar desenvolver um pouco mais o assunto partindo dos questionamentos que me fizeram.

Um deles me disse que o plebiscito é bom para fazer a propaganda além de proporcionar a agitação sobre o assunto. Não tenho como concordar. Propaganda se faz com palestras, debates, cartilhas, seminários e um monte de outros instrumentos em que se possa explicar pacientemente os motivos da campanha. Como diria o marxista argentino Nahuel Moreno, é difundir "muitas idéias a poucas pessoas". Já a agitação se faz com a massificação, ou pelo menos a tentativa de massificação, de um pequeno conjunto de idéias. "Poucas idéias a muitas pessoas", diria Moreno. Ambas as atividades, agitação e propaganda, estão relacionadas. Agito minhas idéias para em seguida tentar fazer uma propaganda delas cada vez maior. Faço cada vez mais propaganda para em seguida realizar agitações ainda maiores.

Um plebiscito não me parece o instrumento ideal nem pra uma coisa, nem pra outra. Isso porque fundamentalmente ele coloca uma tarefa clara para seus organizadores que é a de colher voto. Não se faz um plebiscito pra não se colher voto ou do tipo, "já sabemos que não vai ter muito voto mas vamos fazer mesmo assim". Não faz sentido! É puro movimentismo. Ainda que tivesse um caráter um pouquinho mais amplo como dissemos anteriormente, vá lá. Mas com tão poucos organizadores envolvidos...

Se sou um estudante de uma escola e quero fazer um plebiscito sobre um tema que interessa a toda a escola e só tenho força para colher os votos de uma pequena parte de meu colegas de sala, do que me adiantará fazê-lo? Posso até dizer pros meus 3 ou 4 "seguidores" que se juntarem a mim na empreitada que "fizemos a nossa parte" tal como a fábula do beija-flor. Mas honestamente não será isso que teremos feito. Teremos desperdiçado tempo e energia, não atingiremos o objetivo e no fim das contas só alimentaremos o sentimento de que é impossível mudar as coisas ou de que a culpa é da ignorância dos estudantes que não votaram no meu plebiscito.

Já meu segundo amigo me questionou sobre o teor de meu post em que eu teria afirmado que a campanha seria "algo dentro do sistema, limitado, na prática, que não teria importância..."

Bem, não foi isso que eu disse. Se dei a entender isso imagino que tenha sido porque não desenvolvi o suficiente. Em minha cabeça, blog não é lugar para textos longos. E este aqui já está quebrando a minha regra. Mas prossigamos...

Que é "dentro do sistema" e "limitado", é. Mas isso nunca foi motivo pra não se lutar por aumento salarial por exemplo. Agora não é porque aumento salarial é justo que vou simplesmente propor uma greve.  A pergunta que eu deveria fazer é  "qual o sentimento da categoria?", "os trabalhadores me seguirão se eu propuser uma greve por aumento salarial?". Então não é só o instrumento (greve ou plebiscito) que conta. A "palavra de ordem" certa é ainda mais importante.  Posso passar o ano dizendo que é preciso fazer greve por conta de salário e a greve não sair do lugar e de repente porque um colega de trabalho acidentou-se, foi agredido por um superior ou foi demitido injustamente, a greve pode estourar como uma verdadeira bomba H.

O que não entendo é o que faz com que se escolha o tema dos 10% para educação como sendo algo capaz de tocar corações e mentes da grande maioria dos trabalhadores. Por que isso e não "mais verbas para a saúde pública" ou "redução da jornada já"? Não entendo. De repente posso ser eu o deslocado. Mas para mim parece puro impressionismo com a onda de greves pelo piso dos professores que correu o país, temperado com um leve desejo de estar no Chile, onde estudantes, professores e pais de alunos realizam greves e mais greves contra os ataques do governo à educação.

Por fim poderiam me dizer que está pra ser votado o PNE e por isso a campanha tinha que ser essa e tinha que ser agora e pronto. Bom... acabou de ser votada a prorrogação da DRU que permite ao governo tirar 20% do orçamento, inclusive da educação, para usar como bem entender e nada foi feito.

Então termino este post voltando à pergunta que deu nome ao anterior: Dez por cento para a educação? E resolve?