sábado, 24 de dezembro de 2011

A conclusão de Pedro


Pedro é vigilante no Hospital de Messejana já faz dois anos. De tanto entra e sai de pessoas com problemas cardíacos e pulmonares virou quase um especialista em males do coração e do pulmão. No mínimo, um especialista em contar histórias e em tranquilizar os que com ele conversam: "A gente vê tanta coisa que acaba se acostumando até mesmo com a morte. Tem gente que quando chega aqui fica abalado quando vê uma pessoa sair morta. Quem trabalha aqui não se abala mais não". Entre tantas histórias, a que conta com mais propriedade é obviamente a sua própria.

Muito antes de ser vigilante, Pedro foi operário da Fábrica Fortaleza. Aos vinte e cinco anos era acostumado a carregar sacos de açúcar de 50, 60 quilos nos ombros. Um belo dia ao pegar mais um desses sacos sentiu uma dor terrível logo abaixo das costelas. Somada a essa dor repentina veio logo em seguida o sangue ao tentar urinar. Encaminhado ao hospital, o clínico geral passou a vista em seu exame de sangue, deu uma pancada na região da dor e logo em seguida acusou: "vamos ter que operar". Pra felicidade de Pedro, sua irmã não permitiu. Foram a um médico particular que após uma bateria de exames diagnosticou pedras nos rins. Por pouco, Pedro não entrou na faca e quem sabe até não teve a bexiga substituída por um saco coletor de urina. Apesar do respeito pelos médicos do Hospital onde trabalha, Pedro não pensa duas vezes ao explicar o que aconteceu: "ele só queria comer o dinheiro da cirurgia".

Não necessariamente a conclusão de Pedro está correta mas no fundo, errada, errada, não está. As pessoas se movem por dinheiro e não há juramento de hipócrates que resista ao cotidiano violento dos trabalhadores da saúde em uma sociedade regida pelo capital. Não há saída "humanizadora" que dê jeito enquanto a saúde seguir sendo tratada como mercadoria. E no capitalismo tudo, absolutamente tudo, é mercadoria.