sexta-feira, 27 de julho de 2012

O jornalista, o operário e o tal "fim das greves"


Plínio Bortolotti é jornalista e diretor do Grupo de Comunicação O POVO. No passado Plínio já foi de esquerda, se não me engano, trotskista. E como um bom ex-trotskista agora diretor de um grande grupo de comunicação, Plínio é um verdadeiro soldado armado até os dentes contra quaisquer matizes da esquerda revolucionária, em especial a que reivindica a classe trabalhadora e a revolução russa de 1917. Sendo assim, o candidato a prefeito de Fortaleza pelo PSTU que se prepare, porque se depender do jornalista deslize algum do operário prefeiturável será perdoado. Aliás, será explorado com um vigor que nenhum outro candidato oponente, mesmo os de direita, se interessaria em fazer.

No último dia 24, o pedreiro e prefeiturável Gonzaga concedeu entrevista à Rádio CBN/O POVO que foi divulgada pelo jornal do mesmo grupo no dia seguinte com a seguinte chamada: "Candidato do PSTU promete fim das greves em Fortaleza". Um título escolhido a dedo onde obviamente o verbo prometer não foi colocado à toa. O interessante é quem por acaso parar para ler a própria matéria perceberá que tal promessa simplesmente não foi feita. Em seu lugar uma explicação sobre a relação entre direitos e greves foi dada partindo do pressuposto correto de que se direitos são respeitados as greves, ao menos via de regra, perdem seu sentido. O operário explicou isso a seu modo dizendo: "Não haverá mais greve em um governo socialista como o nosso, porque os trabalhadores vão ter direitos iguais". Por sua vez o jornal divulgou como "PSTU promete fim das greves". Leviandade pouca é bobagem. Mas nada que um jornalista ex-trosko não possa piorar.

Em sua página no jornal, Bortolotti retomou o tema nesta quinta, dia 26, afirmando que Gonzaga se iguala aos demais candidatos convencionais vendendo promessas vazias que nunca irá cumprir. E trata de deixar claro que a tal "promessa" não poderia ser nenhum ato falho e sim um ato premeditado. O candidato "prometeu como sem falta" sabendo que "faltaria como sem dúvida" afinal "Gonzaga sabe disso, pois é uma pessoa que conhece a história das revoluções no mundo".  Para desenvolver seu ponto de vista o jornalista aborda o tema das greves contra o próprio governo bolchevique russo usando argumento similares ao que fizemos no post "Não será uma prefeitura, mesmo socialista, que dará fim às greves dos trabalhadores". Similares mas opostos pelo vértice. Plínio tira da manga mais uma vez a carta preferida de anarquistas, reformistas e ex-troskos ressentidos: a revolta de Konstadt. Segue a passagem do texto:
O Partido Bolchevique, depois transformado em Partido Comunista da União Soviética, enfrentou – e reprimiu com mão de ferro – várias manifestações de trabalhadores, a maior delas a revolta dos marinheiros Kronstadt, revolucionários de primeira hora, que se voltaram contra os novos donos do poder – e por isso foram esmagados.
Não é a primeira vez que o jornalista traz o argumento à tona. Ele fez isso por exemplo quase que para explicar os motivos da repressão da prefeita Luizianne contra os professores em seu artigo de junho de 2011 "Prefeitura X professores: “A Kronstadt de Luizianne”". Nada de se estranhar que Plínio volte ao tema, afinal o episódio é praticamente um mantra sagrado para aqueles que pretendem demostrar que não existe diferença entre um governo dos trabalhadores e qualquer outro governo. Aliás, o dos trabalhadores é ainda pior. Afinal, como nos conta o jornalista, o tal governo revolucionário "reprimiu com mão de ferro" os próprios "revolucionários de primeira hora".

Sem dúvida alguma o governo soviético cometeu muitos erros na construção da URSS. Em especial os cometeu sem cessar após a chegada de Stalin ao poder, estes últimos verdadeiros crimes. Mas Kronstadt não está entre eles. Para quem não sabe em 1922 havia uma guerra civil em curso contra exércitos invasores e os marinheiros amotinados levantaram armas contra o governo. E isso não se poderia permitir. Não é que fosse uma greve. Aliás muitas foram feitas e diferente do que afirma Bortolotti, elas não foram reprimidas. O que houve na cidade russa na ilha de Kotlin no Golfo da Finlândia foi um levante armado, feito não pelos "revolucionários de primeira hora" mas por uma nova geração de marinheiros, sua grande maioria vinda do campo, e que não participou das jornadas revolucionárias que tomaram o poder. Os marinheiros de 1917 ou estavam mortos em função da guerra contra os exércitos invasores ou estavam assumindo novas responsabilidades no governo soviético. Vale dizer que por vários dias, soldados bolcheviques foram mortos pelos amotinados de Kronstadt até que finalmente a fortaleza caísse. Não se podia esperar outra coisa do que agir com firmeza, ou com "mão de ferro" se assim prefere o jornalista.

Mas tudo isso é detalhe para quem não pode admitir em hipótese alguma que um governo socialista dos trabalhadores pode tornar realidade medidas que resolvam de fato os problemas da grande maioria do povo, coisa que nenhum governo democrático a serviço da burguesia fez até hoje ou sequer pode sonhar em fazer.